sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ESPELHO.

    

    



       Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.        

   Do lado de fora, o silêncio, quieto e contemplativo na própria solidão, observando as quimeras do pensamento.

       Quem é?

       Pergunta para si mesmo quem é o ser degenerado, enquanto do lado de dentro o vento sopra cada vez mais furioso.

     É necessário olhar para dentro, no âmago de si mesmo, talvez assim consiga enxergar o lado externo. Nem sempre o que está descrito no rótulo condiz com o conteúdo, então nos confundimos e ficamos sem saber se a verdade está no oculto lado de dentro ou na aparência externa.

        O reflexo no espelho… 

        A imagem refletida de alguém que se olha por muito tempo, estudando as suas feições sem nada dizer. Alguém tentando entender quem realmente é nesse mundo caótico, buscando a compreensão da sua natureza em meio a complexa natureza humana.

      É preciso olhar para dentro, olhar para o espelho da própria alma, ver o que será refletido de si mesmo, se esse rótulo expresso na curva dos lábios condiz com o que está escondido no interior, ver se a verdade se oculta do lado de dentro ou se está fora.

      A imagem refletida é de alguém que se descobre com regozijo ou de quem se esconde por medo?

        Corpos e formas não moldam alma e corações. Às vezes, a fraqueza se disfarça querendo se parecer com a força e a feiúra se veste com as roupas da beleza. 

     É preciso escutar o silêncio para ouvir a própria voz. Nem sempre a natureza humana vai nos sorrir, às vezes, ela vai nos esbofetear, então sentiremos dor sem saber onde dói, choramos sem saber de onde surgem as lágrimas.

         O reflexo no espelho…

      A janela da alma foi aberta pela fúria do vento, está chovendo do lado de dentro, molhado tudo do lado de fora. Não é sobre quem ele é ou quem ele foi, e sim no que se tornou. O espelho nunca mente, mostra o exato reflexo do que é revelado.


         

      

sábado, 17 de janeiro de 2026

AO TEMPO QUE O AMOR ENLAÇA, TAMBÉM CEGA.



     ( ALERTA DE SPOILER)



     O menino que comeu uma biblioteca...

     Certamente, a melhor história que li nesse ano, emocionante, surpreendente, angustiante.

      O romance é narrado em primeira pessoa pela personagem chamada Eva, que através das cartas de tarô, herança da avó, ela tem visões com certo menino polonês, "Jósik Tatar", a estrela principal desse romance. Nesse magnífico livro a história de Eva é entrelaçada com a de Jósik Tatar, a narrativa se alterna, por vezes dá no Uruguai, em outras na Polônia durante a grande Segunda Guerra Mundial. 

A narradora - "Uruguaia", começa falando sobre a família de Jósik. Os pais do menino vivendo com o avô ( Michael, considerado maluco pela própria mãe do menino) residindo na pequena Terebin, o idoso é um brilhante literato e professor aposentado, apaixonado pelas histórias de Shakespeare.

    O amor pelos livros é passado para o menino, e de forma mágica, para nós leitores também. A guerra será retratada na história, o mundo começava a ver a ascensão de Hitler na Alemanha e a ameaça nazista. A personagem Eva aborda sua vida no Uruguai, morando em uma fazenda com a avó Florencia. Uma vida muito humilde, a jovem casa-se aos quinze anos com Miguelito, com ele tem um filho, jovem e sem nenhuma responsabilidade, Miguelito trabalha no único posto de gasolina do vilarejo, vez e outra, se entrega a bebedeira. A vida é difícil, entre altos e baixos, trabalhando aqui e ali. Ela descobre nesse período caótico da vida o amor pela leitura, ao encontrar na lanchonete onde trabalha um exemplar de trabalhadores do mar de Victor Hugo. 

    A narrativa volta para Jósik, o ano é 1938, o pai do menino Apolinary, que trabalha na ferrovia e com isso viaja muito, ouve rumores da guerra, percebe as movimentações de Hitler nas fronteiras Polonesas. O pai do menino quer tirá-lo da Polônia antes que a guerra chegue. Ouve-se relatos de Judeus presos e perseguidos, embora a família do menino seja Polonesa, o pai teme pelo pior. Ele convence a mãe de que é melhor mandar o menino para América, viver com o tio Wacla até que as coisas se acalmem. O peso do medo da guerra na alma da mãe de Jósik é enorme, as cartas que o pai enviou ao tio na América não foram respondidas, era necessário fazer alguma coisa, porém, eles não sabiam exatamente o quê. O dia fatídico acontece, a Polônia é invadida pelo exército alemão. Morte, medo, terror rastejando como a sombra da noite sobre o dia, nomes, mulheres e homens, tudo desaparecendo, assim foi com o pai do menino. O nome Apolinary tratar ficará apenas nas lembranças do jovem menino, que agora via os tanques e suas suásticas e soldados tomando as ruelas do vilarejo. O monstro da guerra mostrava-se aos poucos sua pior face para as pessoas do seu pobre vilarejo, uma a uma sendo mortas, enforcadas e metralhadas. 

     O espírito do avô do menino ainda residia na velha e rica biblioteca.

     A narrativa dá um salto ao tempo presente.

Jósik e Eva já estão juntos. Porém, ela rememora partes desse período difícil, a sua história é de alguma forma estava ligada com a do jovem Jósik. O menino sente a falta do avô, no entanto, tal falta foi amenizada com a chegada de uma menina chamada Raika, aquela que seria seu primeiro amor. A vida era difícil naquele momento, no entanto, em uma visita do menino na biblioteca que era do avô, repentinamente, o fantasma do velho aparece. 

     Mais uma manhã fria e triste...

     Flora vai até o mercado negro tentar comprar carne e passaportes falsos, o menino não sabia, despede-se da mãe, porém, era a última vez que a veria. Naquele lugar onde os Poloneses se reuniram na tentativa de se comprar algo para comer, uma emboscada das tropas ceifaria a vida de todos. O jovem Jósik salvou-se por pouco, foi o fantasma do velho que insistiu para ele não acompanhar a mãe naquela manhã, tal obediência ao fantasma salvou-lhe a vida. Uma parte dessa narrativa é a própria voz de Jósik.

       Foi o fantasma do avô que lhe sugeriu, após contar-lhe a verdade sobre a mãe, agora já morta, que o menino convidasse a amiga Raika e sua mãe Anna Bieska para morarem na sua casa.

     A narrativa volta ao presente, Eva rememora momentos de seu começo de vida com Miguelito, o trabalho na lanchonete, vida miserável. Durante a noite sempre sonhava com Jósik, o menino polonês, que viveu os horrores da guerra. O sonho também era um fantasma na mente da menina. Parte da narrativa retorna a voz de Jósik, falando de suas desventuras na tentativa de fugir daquele mundo de morte, a lembrança do fantasma do avô, que, só deixaria de fato a existência espectral quando a biblioteca não existisse mais.

     A realidade bate à porta do jovem Jósik.

     A narrativa novamente retorna ao momento em que o menino, já em casa, espera o retorno da mãe, embora sabendo que ela jamais voltará. O menino só não ficou sozinho porque seguiu os conselhos do fantasma do avô. Anna Bieska e Raika agora residem com ele em sua casa. Jósik e Raika estão apaixonados, à medida que ambos crescem, aumenta o amor e a implicância da mãe da menina, que, em um surto de raiva ao vê-los abraçados, resolve mudar-se com a menina.

      A dramática situação de Jósik agrava-se, uma vez expulso da própria casa foi para a casa que era do avô. A distância não era problema para os jovens apaixonados, que achavam um jeito de se encontrar, o amor sempre encontra um jeito. A pequena Terebin convulsionou-se com a movimentação das tropas. No ano de 1940, a guerra em pleno vapor, a Europa caiu diante de Hitler. O jovem Jósik, aos conselhos do fantasma do avô, vive à beira do perigo, vendendo os livros, encontrando-se com Raika, porém, um novo personagem entra na história, seu nome, Abel Becker. Um soldado Alemão levado a Teberin para trabalhos burocráticos, catalogação de obras de arte entre outros. Assim como Jósik, Abel era amante de livros e literatura, e foi justamente em um desses momentos, quando o jovem polonês tentava vender seus dois Conrad e um Bocaccio que sua vida cruzou com a do Alemão. Não houve morte nem brutalidade, nada disso, os livros e a literatura lançaram aquela improvável amizade. O soldado Alemão, amante de literatura, vê em Jósik um amigo improvável, diferente de muitos que tinha no quartel, cuja visão míope, enxergava apenas a guerra em pleno vapor, mortes, campos de concentração. O medo de Jósik era de ser mais uma vítima da máquina nazista, no entanto, a visita inesperada do soldado em seu reduto literário revelava uma nova fase daquele amizade, fase essa que garantia sua vida.

      O menino Jósik, arriscava-se durante a noite para ver sua amada Raika. O amor desafia até mesmo o monstro da guerra. Juras de amor à luz do luar. A narradora adianta que Raika não passaria dos dezesseis em algum momento dessa história, mais um corpo, mais uma trágica morte. Os dias passam, o inverno retorna, um novo elo na estranha corrente da amizade entre o menino e o soldado oficial se forma. Dessa vez, ele mesmo fora convidado para levar o livro pessoalmente ao amigo. Em outro momento inusitado, em uma vista de Adel Becker na biblioteca de Jósik, ele se depara com o fantasma do Michael. O ano é 1941, a guerra avança com ferocidade, ganha a África, esmaga países menores. O jovem Jósik está envolvido no jogo do amor com Raika e na da sobrevivência com o jovem oficial Alemão amante da literatura. O amor enlaça é cega ao mesmo tempo, o avô adverte ao jovem do risco com a mãe da menina, sabendo ela que o namorado oculto da filha era amigo de um oficial Alemão, e que isso colocava tudo em risco, uma armadilha foi planejada.

    Entretanto.

    Após uma advertência do amigo de Jósik, seguindo à risca suas palavras, a vida é garantida naquele difícil jogo da guerra. 

     Corria o ano de 1942, a ferrovia de Teberin era a estrada de almas condenadas, lotando os vagões, a caminho dos Campos de concentração. Enquanto Jósik e Raika se amavam debaixo dos lençois, dois jovens apaixonados e inexperientes, o fantasma do avô, de pronto percebeu que a jovem estava grávida, as tonturas, os enjôos. Porém, o jovem Jósik não sabia dessa novidade, ele seguia o curso de sua vida, vendendo os livros da magnífica biblioteca para sobreviver, enquanto o povoado de Terebin, aos poucos, sucumbia ao toque da morte a serviço da máquina nazista. O inesperado acontece, um atentado a bomba, o jovem oficial Alemão está morto em uma emboscada, a represália veio rápido, dez tiros, dez almas sentadas na pequena praça de Teberin são mortas, entre elas.... A jovem Raika.

    Sem a mãe, o pai e sua amada Raika, somente com o espectro fantasmagórico do avô, o jovem finalmente foge de Teberin, caminhando pela mata durante a noite, escondendo-se durante o dia. A longa jornada do jovem, entre lugares, fazendas, trabalho temporário, termina em uma noite quando é capturado pelos alemães, seria interrogado, caso não fosse da resistência, trabalharia para os alemães. No campo de concentração, o jovem vê os horrores face a face. Sempre diante da morte e da vida, porém, o destino daquela alma não era a morte, ele sobreviveria enquanto se sonha.

      A narradora volta a história para si no tempo presente, a sua gravidez, o menino que nasceu, o descaso do marido. Havia nesse ínterim, os estranhos sonhos com o jovem polonês. Eva aborda a pequena trajetória de seu filho Pablo, morto aos sete meses por meningite. Desconsolada, Eva separa-se de Miguelito e parte para outro destino, lugar esse que seria o palco do encontro dela com Jósik, que a essa altura, perambulava pelo mundo desejando achar a si mesmo.

     A narrativa caminha para o seu desfecho final, no entanto, Eva aborda um pouco da história do Uruguai, o seu lar e o futuro destino do jovem Jósik. Os dias cinzentos em Londres estavam findando, uma inusitada oportunidade para América do Sul apareceu, um desconhecido lugar chamado Uruguai. Naquele momento, muitos despatriados vieram para as Américas em busca de uma nova vida, Jósik era um deles. 

      Chegou o dia finalmente, lá estava ele, Montevidéu, aqui, alí, entre um trabalho e outro, ele tornou-se gerente do hotel onde Eva trabalhava, as duas histórias navegaram por mares diferentes, mas, de alguma forma estavam unidas, destinadas uma à outra. Eles se encontraram, se enamoraram, formaram família, a matéria etérea dos sonhos de Eva tornou-se realidade. 

      Belíssima história, me arrisco a 

dizer, a melhor do ano.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

ANATOMIA DA DOR.




    A dor é intensa e pulsante dentro da alma, nada do que digam ou façam ajudará contê-la, é simplesmente aterrorizante o que estou sentindo, eu queria muito lhes explicar, porém, o meu coração está desfigurado, feito em mil pedaços. Às minhas incessantes lágrimas beijam a terra nua, e tal beijo reflete a vontade de desaparecer para todo o sempre. 
     Eu sei que gritar não adianta, nada do que eu faça me ajudará, aliás, sou o meu próprio fundo do poço, o ápice da minha derrota. Quisera eu ser como as pessoas que me cercam, ter uma vida normal, tal como meus compatriotas, todos perfeitos, contudo, em nada me assemelho com "os normais". Talvez a inexistência me caia bem daqui por diante, estou plenamente convencido e sem dúvidas volto a lhes dizer que minha voz deverá ser silenciada.
     Eu penso na dor existencial, na sua concepção,
na dor que move minhas entranhas dia após dia, noite após noite, entre horas e minutos de um tic a um tac, por muito tempo tentei inutilmente compreender-me, tolo que fui em acreditar que seria capaz de tal prodígio, haja vista ser um pródigo alcançar a compreensão de si mesmo. Há dias, e esses são tão raros quanto o ouro, dias de felicidades e sorrisos quase largos estampados na face, no entanto, assim como nuvens passageiras é o meu pálido sorriso, e novamente a dor se faz presente na tábua do meu coração. Se eu fosse lhes contar todos os pormenores do projeto a poeta que vos escreve... Certamente que ficaríamos horas inteiras falando, são inúmeras as histórias de meus fracassos. Estou me convencendo que realmente o silêncio me define muito bem, afinal, sou eu um nada feito de mentiras e mistérios cercados de insignificâncias.
    O mundo caminha a passos largos, à beira do abismo e ninguém está percebendo o perigo iminente. A maioria anda sem nenhuma atenção pelo abismo, não importa o que aconteça ao redor, nada importa. Talvez eu seja alguém fora do perigo dos outros, porém, caminho a passos largos e vacilantes tão mais próximo do meu próprio precipício, estou ao ponto de cair e não há quem possa me socorrer. Quando essas percepções alcança meu vago intelecto, o coração se desespera gritando e chorando querendo arrebatar-se inteiro dentro do meu peito. Novamente as lágrimas teimando em nascer, os meus olhos choram a derrota mais do que certa, tenho apenas que observar a minha decadência pessoal e o fim.
    O meu sincero desejo de fazer compreensível minha dor, torná-la entendível por meio das minhas palavras escritas, se possível for, fazê-la tal quase a ser palpável, criar uma anatomia desse sentimento tão complexo. Embora eu procure exaustivamente pelas palavras, prospectando no mais profundo da minha alma, os dizeres desse relés rabisco não explicam nada, por mais belas que pareçam as minhas palavras são ventos soltos e sem destino. Às vezes, para não dizer que em todos os momentos da vida, sou completamente introspectivo e melancólico, os meus dias são feitos de noites inteiras sem fim e eternas. Não gosto de escutar o som do meu próprio coração, cada batida é um terrível infindo de dor e lamento, nada faz sentido, sou alguém sem perspectivas.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

TRAIÇÃO, SEPARAÇÃO, SEGREDOS OCULTOS.





       RESENHA. ( ALERTA DE SPOILER)

        O presente romance, em sua primeira parte, narrada em primeira pessoa, tendo por estilo epistolar, onde a narradora rememora momentos de sua vida em suas cartas... O esposo, Aldo, a traiu com uma moça chamada Lídia, deixando a casa, esposa e os filhos, Sandro e Anna.

         O romance é dividido em três partes, na primeira temos essas as cartas da esposa, relatando fatos que desrespeito a separação do casal, bem como, perceptível como o divórcio afeta profundamente a "ex-mulher" de Aldo, tendo que lidar com todas as consequências de um final de relacionamento onde os filhos são os mais afetados, a cada carta, não respondida, fica visível o desabafo de uma mulher que vive "à beira" do próprio abismo sem saber o que fará. A separação acontece, Aldo continua com a amante Lídia, não parece disposto a esforços para ajudar os dois filhos, Sandro e Anna.

           A segunda parte do romance também é narrada em primeira pessoa, porém, aqui temos Aldo falando. De pronto notamos que passaram-se longos anos, Aldo está idoso, a esposa ( Vanda - somente na segunda parte sabemos o nome dela ) também é idosa. Dar-nos a entender que em algum momento do passado, eles reataram o casamento. Os filhos são adultos, cada um vivendo sua vida. Porém, um fato inusitado aconteceu, ladrões arrombaram o apartamento do casal enquanto estavam fora, não levaram nada, contudo, destruíram tudo. No momento de reorganizar a bagunça, Aldo reencontra um envelope antigo contendo várias cartas escritas pela esposa daquele período conturbado do relacionamento. A narrativa de Aldo rememora momentos do passado, anos vividos, toda dinâmica da separação, de sua convivência com Lídia, o distanciamento dos filhos e suas consequências psicológicas para toda a família. Aldo nos conta o seu lado da história, de suas dificuldades de assumir os compromissos como paí responsável. O período da separação foi de cinco anos, ele retorna para o seio familiar, porém, as coisas não são as mesmas, tudo mudou, embora unidos no mesmo espaço físico, isso não se dava na afetividade. Aldo revela segredos, a continuidade com amantes por longos anos. Os filhos cresceram, cada um seguindo sua vida, não exatamente como ele talvez imaginasse, Aldo parece ter certo remorso pela falta de solidez na vida dos filhos.

       A terceira e última parte, também em primeira pessoa, é descrita pela filha Anna. Aqui temos um vislumbre da vida dos filhos nas palavras de Anna. É notório que a separação de seus pais, todos os acontecimentos que envolveu o período causou nos filhos danos, talvez irreparáveis. Sandro tem quatro filhos, cada um com uma mulher. É acusado pela irmã de usar muitíssimo bem o seu melodrama para benefício próprio. Cinquentão com cara de trinta. Já a irmã, aos quarenta e cinco anos, instável emocionante, se acha rejeitada e não amada pelos pais e irmão. Anna quer propor a venda da casa dos pais e repartir a herança, Sandro acha um absurdo. A verdade é que ambos herdaram características psicológicas dos progenitores, o perceptível o reflexo da vida deles ( pais ), na vivência dos filhos. A narrativa de Anna se dá no apartamento dos pais enquanto estão de viagem, verdades sobre os dois são reveladas, da Aldo, fotos de uma polaroide de Lídia nua, escondida por anos, mostrando que ele nunca se separou de verdade da amante, da mãe, a possível traição com um tal Nadar - muitíssimo bem oculta de todos. Para forçar os pais a venderem o apartamento, ambos o destroem completamente. O livro termina aqui, magnífico na minha opinião, mostrando todos os ( laços ), lados e consequências de traição, separação e segredos ocultos.

terça-feira, 15 de abril de 2025

SILÊNCIO MÚTUO.

 



   ( CONTO)

 

    Quanto aos meus pecados, bom, os meus pecados... São tão numerosos quanto a areia da praia. 

     Calma... Eu sei que é exagero, porém, não deixam de ser números.

     Permita-me confidenciar pormenores das minhas aventuras ocultas, na verdade, está mais para desventuras. O meu nome é Angela, basta saber apenas isso a meu respeito. Embora o nome também seja indigno das palavras jogas no papel. Às vezes, os sentimentos mais profundos na sua alma e coração podem causar-lhe terríveis problemas. 

     Digamos que foi o ocorrido com essa que vos escreve. 

      Não me tenha por diferente de ninguém, todos nós humanos dotados de alma, coração e desejo estaremos sujeitos a tais acontecimentos. Houve um tempo de silêncio e encolhimento da minha pessoa em face da própria vida, talvez tenha sido esse o meu erro.

       Será?

       Tudo começou em uma primavera, quase ao final dela, na transição com o verão.

     Naquele tempo o meu esposo trabalhava fora, lutando para ganhar um pouco a mais, contudo, esse pouco era sempre para menos, por isso decidi fazer faxinas, ser diarista, aqui e ali para complementar a minha renda. As contas estavam cada vez mais difíceis de equilibrar, eu quase enlouquecia para quitar todas e não deixar nada para trás.

       Perdoe-me por não revelar nomes.

       Em uma dessas limpezas, na Casa de B, percebi certa... Como vou dizer... Aproximação entre nós, amizade mesmo, até aí tudo bem, contudo, os olhares falam mais do que as palavras, e os olhares dele diziam tudo o que o meu desejava no oculto da alma.

       As limpezas na casa de B ficaram mais frequentes, eu passava o dia quase todo lá. De certo modo era desconfortável, uma vez que B era solteiro, um pouco mais velho do que eu. Ele nunca saia da sua casa quando eu estava lá. B conversava o tempo todo, no início incomodou bastante, atrapalhava o rendimento do meu serviço, depois, fui me acostumando, e também passei a não dar atenção ao que ele falava. Ele sempre tinha que entrar em assuntos relacionado ao sexo, como eu disse, no início eu não gostava, com o decurso do tempo não liguei para mais nada do que ele dizia.

         Saibam que o coração é traiçoeiro, sim e muito traiçoeiro por sinal.

         Foi justamente esse meu coração traiçoeiro que aos poucos guardava em si as palavras de B, suas condições a respeito das "supostas" namoradas, das suas "supostas" aventuras sexuais, B não tinha freios nós lábios, falava como se estivesse conversando com um amigo na mesa de um bar. Esse traiçoeiro coração estava gostando de ouvir suas histórias, afinal, a minha vida sexual com o esposo era um caco, não por culpa dele, minha, eu acho.

         Vou lhes poupar de descrições alongadas e desnecessárias, vamos logo ao ponto que interessa.

         A primeira investida de B, por assim dizer, foi a provocação das palavras. Surtiu efeitos, eu fiquei de certo modo, excitada ouvindo os seus relatos. Eu fingi não deixá-lo perceber todo o meu tesão com suas histórias, todavia, os seios avantajados que tenho ficavam muito... Como vou dizer, bicudos quando ele falava de sexo, eu tentava esconder, não deixar com que B visse, mas, o camarada era insistência pura, queria estar próximo, os seus olhos vez e outra ficavam nos meus peitos bicudos, no meu, belo... Como vou dizer, capo de fusca marcado na calça leg.

           Em um desses momentos, quando então eu limpava o armário de sua cozinha, a porta do armário se desprendeu, algumas vasilhas quase caíram, para não cair totalmente, segurei tudo como pude, chamei B para ajudar. Pronto, era a oportunidade que ele queria, desconfio até hoje desse armário meu solto. Pois bem, ele se posicionou atrás de mim, segurou a porta do armário e algumas vasilhas prestes a cair, ele pediu para mim encaixar a porta no lugar antes que tudo viesse para o chão. Na verdade era ele que se encaixou de tal forma atrás de mim que senti o seu pau se esfregando na minha bunda. De início pensei em xingar B, fiquei um pouco irritada, porém, o maldito tesão já havia tomado o coração e trancafiado a razão. Eu simplesmente deixei. Eu senti aquele pau esfregando-se no meu rabo, senti ele endurecer no meio das minhas nádegas. Nem eu e nem ele falamos nada a respeito. Eu fingia que não estava conseguindo recolocar a porta só para sentir um pouco mais daquele pau na minha bunda.

          Em outra ocasião, quando após a faxina senti uma dor muito desconfortável no ombro, devido à minha tendinite, B se ofereceu para fazer uma massagem. Pronto, lá estava eu cedendo a sua safada oportunidade. Novamente ele se posicionou atrás, bem próximo, começou a massagem, em cima, e, o esfrega vez e outra abaixo, seu pau tocando minha bunda, que tesão senti naquele dia, eu já estava todinha molhada. Cheguei a empinar a bunda ligeiramente para ele encaixar melhor. Novamente, atos em curso diante de nosso silêncio mútuo. Digamos que as massagens eram cada vez mais frequentes após as limpezas. Como eu disse, as loucuras do coração estavam soltas enquanto a razão trancafiada.Tudo acontecia sempre da mesma maneira, esfregando o pau em mim, sem o menor pudor, a coisa ficou tão... Como vou dizer... Descontrolada que eu chegava dar uma rebolada de leve, ele pequenas estocadas. Era visível o volume no seu calção, nem ele e tão pouco eu falávamos nada.

          Em outra dessas massagens, mencionei que um creme ajudaria, eu, safada que só, tinha até levado o tal creme. Havia um probleminha, para passar o creme eu tinha que erguer a camisa ou retirar para ele massagear as costas. Pois foi nesse dia que ergui a camisa, na frente dele, expondo o sutiã. A parte de baixo não tirei. O tesão estava no ar. A minha boceta piscando, melada. Novamente a massagem que aumentou o meu tesão a níveis insuportáveis. Eu empinava ligeiramente a bunda, sentindo aquele pau roçar minha na minha boceta, a racha da minha pepeca sendo massageada pelo seu pau. Senti quando as mãos dele se aproximavam dos seios, uma tentativa de tocá-los, eu não disse nada. A cada tentativa, seus dedos chegavam mais para dentro do sutiã. Não tinha mais para onde correr, de repente, os seus dedos já estavam massageando o bico do meu peito por dentro do sutiã. O seu pau fora da roupa esfregando gostoso a racha da minha boceta. Não tinha nada a fazer. Abaixei a calça, deixei ele esfregar por cima da calcinha. Novamente atitudes e ações de ambos sem nenhuma palavra, silêncio mútuo. A minha calcinha estava toda molhada, baixei a última barreira, empinei bem a bunda exibindo minha boceta e meu cuzinho, quando senti aquele pau grosso e gostoso entrar na minha bucetinha molhadinha. Ele enfiava gostoso, meteu com vontade, eu já havia gozado em seu pau várias vezes. Até que senti o seu jato quente de porra dentro de mim.

           Depois desse dia, sempre após a faxina rolava massagem e sacanagem.

           Até hoje fazemos isso, em pleno silêncio. Meu marido nem desconfia que B, me come e chupa gostoso cada vez que vou lá fazer faxina em sua casa.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

AGONIA E ÊXTASE.

 


    ( Conto erótico)

   

     Era sempre a mesma rotina, trabalho, casa, trabalho, a tirania da labuta dos pequenos afazeres universais. Quando ela chegava em sua casa após um dia exaustivo já era noite, ia logo para o banho, depois o jantar, assistia um pouco e dormia logo em seguida, sempre nessa ordem religiosamente.

    A rotina de sempre.

    Marisa sentia-se solitária, quase não conversava com o esposo, sim, ela era casada. A cada dia o esposo ficava mais ausente. A relação carnal dos dois era um desastre, vez e outra acontecia alguma intimidade, sexo rápido, sem nenhuma novidade, papai e mamãe sem nenhum prazer para ela. O corpo de Marisa pedia mais desejava algo surpreendente, queria prazer de verdade, ter o seu ápice, orgasmos como nunca teve, gozar, gemer, foder, falar palavras torpes. 

     Eram apenas desejos, sonhos, devaneios, anseios esquecidos na penumbra do pensamento.

     O esposo estava longe de lhe proporcionar o que tanto ansiava.

     Entretanto, a sua realidade estava prestes a mudar.  

     Não que o marido fosse realizar as suas fantasias sexuais, definitivamente não foi isso que ocorreu. Marisa começou a trabalhar, o primeiro passo que fez tudo mudar. Marisa era atendente em uma loja de manipulação de medicamentos entre outros produtos para beleza. Trabalhava no período da tarde para noite, chegava em casa sempre depois das onze devido aos vários ônibus que tinha que pegar. O marido tornou-se ainda mais ausente em sua vida, no começo ele reclamou, porém, acostumou-se rapidamente com a rotina da esposa. 

     Marisa era uma mulher de estatura mediana, o corpo esbelto, seios fartos, pele alva, as pernas torneadas, bunda arredondada, uma mulher muito sorridente, perfeitamente simétrica em suas curvas, olhos verdes, quando colocava a roupa de trabalho, toda branca, a calça do uniforme bem apertado valorizando a beleza de suas curvas e perna tão bem desenhadas, bunda toda redondinha, a calcinha pequeníssima marcando a roupa com delicadeza, o sexo devidamente marcado, deliciosamente dividido, todos olhavam com certo desejo para Marisa, ela gostava de usar roupas íntimas bem pequenas, de renda, na clara intenção de provocar olhares alheios.

     Não demorou para ela despertar a atenção e os gracejos do chefe, Ronaldo. Vez e outra ele surgia com um elogio, pequenos presentes, chocolates, convites para almoçar em um restaurante bem próximo do trabalho, no começo ela recusou as investidas, tinha medo de alguém ver e falar, depois de muitos convites, da insistência, passou a aceitar.

     Ronaldo não poupava munições, elogiava Marisa o tempo todo, que, por sua vez, aos poucos, palavra a palavra, cedia aos galanteios do bonito quarentão. Marisa passou a ter sonhos com o chefe, fazia meses que não tinha relações com o marido, ela estava ardendo em desejos, tentando se segurar, quando estava com o chefe, nos momentos em que ele tocava-lhe discretamente na cintura, principalmente quando estavam no restaurante, Marisa sentia sua intimidade umedecer, latejando de desejo por Ronaldo, que, percebendo a fraqueza da colega, convidou-a para um jantar diferente; o tal jantar seria em um sábado, cedido pela empresa a todos os funcionários. 

       Ela aceitou o convite deixando-se iludir que seria um evento com toda equipe. Jantar esse que seu esposo não fez questão de saber quando Marisa lhe contou a respeito.

 

   Chegou o grande dia, sábado, início de tarde.

   Marisa se preparou para o jantar, separou a melhor roupa, um vestido provocante, calcinha minúscula como sempre, o melhor perfume. Enquanto tomava banho, imaginava Ronaldo, chupando com ferocidade sua boceta, como nos filmes pornográficos, depois colocando-a de quatro, penetrando com força sua bunda, gemendo de prazer. Delírio, imaginações, posições… Marisa terminou o banho, trocou-se e foi para o local indicado por Ronaldo. 

     Alguns minutos depois surgiu ele em seu Civic Preto, vidros escuros, ela não perdeu tempo, entrou rapidamente no carro, morrendo de medo de ser vista. Ronaldo seguiu pela avenida Brasil, subindo pela Marechal Tito, virou a primeira esquerda na Vila dos Ingleses. Caminho totalmente contrário ao da empresa, Marisa logo percebeu que não se tratava de um jantar, ela bem que sabia, teve medo no início, sentiu-se ainda mais excitada com as possibilidades daquele passeio, a intimidade encharcada, vez ou outra as mãos de Ronaldo correndo-lhe pelas pernas até subir a altura da calcinha. Marisa permitia-se ser tocada, queria ser tocada, ela tinha medo, porém, o tesão era maior. Não demorou e o Civic Preto adentrou em um conhecido Driving da cidade, que tinha por nome, Mar Azul. Marisa ficou eufórica, com ainda mais medo e tesão do que antes, seu marido nunca a levou em um motel. Enquanto dirigiam para o quarto, na profundezas de seus pensamentos, perguntava-se como havia chegado tão rápido naquela condição, a de trair seu esposo com outro homem sem o menor remorso. Aquela nuvem de pensamentos logo se dissipou quando repentinamente ela foi surpreendida com um beijo de Ronaldo na altura do pescoço, ali mesmo no corredor, em frente ao quarto. 

    Marisa nunca havia sido beijada daquela maneira, ela retribuiu-lhe com avassaladores lábios, cheios de pecado, o batom vermelho, a danação da carne com a carne profana.

   Ele abriu a porta, entrou na frente, ele logo atrás, agarrou-a beijando-lhe o pescoço, enfiando as mãos por dentro da roupa, mordendo levemente a ponta das orelhas, ela, excitada, gemia baixinho de olhos fechados, sentiu logo o volume pressionando no meio da bunda. Ronaldo jogou-a na cama, de costas para ele, arrancando a roupa dela lentamente. Por cima dela, começou o processo beijando-a, ela permitia-se ser possuída, assim também ele o fazia, a ereção pulsante, gigantesca, fazendo seus olhos carregados de safadeza e desejos brilharem. Arrancou-lhe por último a calcinha com os dentes, sua boceta Lisa, latejante, vermelhinha, bunda perfeita, meteu-lhe logo a língua, chupando-a com maestria, como nunca antes foi, não resistindo a penetração da sua língua em sua boceta gozou a primeira vez, era apenas a primeira de muitas. Lentamente Ronaldo introduziu seu sexo duro e grosso na estreita entrada da sua intimidade, ela, ali de quatro para ele, sua bunda perfeitamente arredondada, engolindo Ronaldo, uma discreta pinta na nádega esquerda movendo-se a medida em que era penetrada. A sensação era de como se fosse arrebenta-lá, mas logo a dor excruciante virou prazer extremado, agonia e êxtase no mesmo instante, ela empinava a bunda rebolando em seu sexo duro, gemendo pedindo mais, ele, metia com força, na boceta, no cuzinho apertado. Assim foi por várias horas, nas mais diversas posições… "Fode gostoso vai, fode esse meu cuzinho, goza nele, mete na minha bucetinha", ela dizia repetidas vezes. 

 

    Horas depois, quando Marisa retornou para casa, estava com a buceta ardendo, desejosa de ter outros encontros como aquele. O esposo não percebeu nada, e a noite seguiu seu curso tranquilo. A coisa repetiu-se por várias vezes, em algumas delas Ronaldo gozava em sua boceta, ela, para garantir que nada acontecesse, tomava pílula do dia seguinte para evitar a gravidez.

   Certo dia, sentindo-se enjoada, com tonturas e repetidos vômitos, pediu para o esposo levá-la ao médico, no hospital, qual não foi a surpresa, depois de alguns exames, o médico olhando para o esposo de Marisa lhe disse.

   — Meus parabéns, seu Arnaldo! Você vai ser papai…

   Acontece que... Além de ser estéril, fazia meses em que Arnaldo não tin

ha relações com a esposa.

sábado, 8 de março de 2025

TODA MULHER É UMA FLOR.

 




Você é flor de açucena,

Advinda de reino distante,

Pétala delicada, tão pequena,

Perfumada, tão elegante,

De olhar poderoso, face serena,

Deixastes o meu coração agoniante,

Quando sou apenas esta sombra esquia,

Lá adiante, esquecida, apagada, nua e fria.


Você é tão linda quanto a pulméria,

Glamourosa, toda ornamentada,

Às vezes quieta, por outras séria,

Às vezes extravagante, por outras recatada,

És o rubro sangue a pulsar nessa artéria,

Dentre tantas no Olimpo, a mais veneranda,

Exalando a tua fragrância, teu doce veneno,

Em ardentes beijos em lábio pequeno.


Você é superior ao crisântemo vermelho,

Em cada pequeno detalhe é majestosa,

Diante de ti eu me ajoelho,

És tão única, incomparável, poderosa,

O reflexo delirante em meu espelho,

Flor de meus sonhos juvenis, tão generosa,

A tua delicada pétala, em nada assemelho,

Enlouquecido está o meu fraco coração, 

Devorado pelo fogo consumidor da paixão.


Você, minha dália rara,

De cor única, sem igual,

Em nada se compara,

Flor magnânima, especial,

De majestade se adornara,

Divino ser de toque angelical, 

Diante de ti, quem eu sou?

De meu seio, o que restou?


Você, orquídea de fragrância adorável,

Derramando sua majestade por onde passa,

De cores ímpares e de beleza inigualável, 

Neste seio moribundo a dor de amar me laça,

Pareço não ter forças, o amor é um mal incurável,

De seus laços não há quem se desfaça,

O meu coração rapidamente enlouqueceu,

Diante de seus olhos se perdeu.


Você, adorável túlipa de pétalas reluzentes,

Habitante soberana do jardim primavera,

De olhares altivos, em nada benevolentes,

Tendo em teus domínios tudo quanto pudera,

Embora ainda que estejamos ausentes,

Restou-lhe o assombro de nossas quimeras,

De dominadores somos agora dominados,

De amores por ti, morreremos todos condenados.


Você, minha alva magnólia oriental,

Símbolo da pureza e da perfeição,

És única em estatura descomunal,

Trazendo alívio para este desesperado coração,

Vê, já não basta este mundo tão desigual,

Vê, elas já não são coroas brilhantes da criação,

Erga-te, ô gigante, entre nuvens e vá sonhar,

Eleva-te, ô gigante, onde ninguém possa te alcançar.


Você, magnânima rosa de meu sonho,

Exibindo tua rubra pétala exuberante,

Ao olhar cobiçoso, às vezes tão medonho,

De um amor desajustado e abundante,

Em versos tortos, em dizer tristonho,

De um poeta solitário, louco e errante,

O que será da minha pena e deste meu verso,

Neste vago e vasto inquieto universo.


Você, calêndula reluzente,

De pétala tão delicada,

Flor única, diferente,

De majestade adornada.

Ao toque alheio indecente,

Pétala por pétala arrancada, 

Diga-me, se bem-me-quer,

Diga-me, se mal-me-quer.


Você, majestosa lótus de puro amor,

De mil desejos e encantos infinitos,

Com este teu olhar abrasador,

Ardente e cheio de delitos,

Atende ao meu incessante clamor,

Resolva todos os meus 

conflitos,

Pois é o teu cálice que tanto desejo,

O teu toque incandescente de teu beijo.

domingo, 24 de novembro de 2024

PROSA POÉTICA.

 




   CHORE UM POUCO MAIS, NOBRE POETA.


   Canta o amor, solitário poeta, o sentimento que te move, que surge, comove e te transforma. Canta em voz alta toda essa dor. Canta os versos da liberdade, o amor que é reescrito, centrado, canta as tuas muitas vivências e os dias de angústia suprema. Ainda que seja a última vez, que sejam derradeiras as suas palavras, do dizer nunca antes dito. Quem lê que entenda o quanto doi, compreenda quem é que se esconde, se oculta fugitivo em cada estrofe.

   Canta a sua dor solitário poeta, a dor de ter amado tanto, de ter devotado tamanho sentimento e perceber que não valeu de nada. Hoje os teus escritos são de agonia, versos riscados à beira do abismo, prontos a cair no esquecimento, quem nessa vida os lerá? Joga-os aos quatro ventos, ao sabor das estações e talvez alguém os encontre. Coloque-os em uma garrafa, atira-os ao sabor de novas marés e talvez algum náufrago os reencontre.

   Já se faz alta a noite, de muitas estrelas brilhantes estendidas no firmamento a luz de desatento luar. O poeta a tudo contempla, do alto da janela solidão ele tudo contempla, ele vê os sentimentos desnudos passeando soltos no peito. Quem é ela, poeta? Revela-nos o seu nome e onde habitas tal amor? Quem é essa que te enlouqueceu? Que faz teu coração parar quando ela surgiu, por favor, revela-nos, quem é ela?

   Amanheceu e nada mudou, o sol está se levantando lentamente enquanto pássaros estão cantando na copa das árvores, homens e mulheres passando desavisados. Faces fechadas, sisudas, indiferentes, outros acenam sem querer respostas, corações pesados, almas cansadas, sentimentos fervilhando por dentro. Somos observadores da vida alheia de papel e caneta nas mãos, derramando versos na folha em branco. Procuras por ela em cada rosto que passa, às vezes, algumas enganam o teu olhar, então, pensas nela, enganoso coração apaixonado é o teu, nobre poeta.

   Canta as tuas quimeras, nobre poeta, os medos ocultos no coração, os teus muitíssimos desejos proibidos e aquartelados no calabouço da alma. Se derrame em cada estrofe, nobre poeta, enlouquecendo em cada verso, delirante em cada palavra, desvario completo em cada poema. Tornastes o que não querias, encontrando o que não procuravas, vivenciando todas as outras vidas. Enquanto isso, a tua vida ficou esquecida, lutastes tanto por tantos amores e sobrou-te apenas o barco da solidão nesse imenso oceano.

   Aquele teu desejo oculto acorrentado no peito, desejo nunca compreendido, flagelando o aedo seio. Quem é ela, nobre poeta? Revela-nos o seu nome, quem é que te atormenta, te faz perder o sono todas as noites. Tantos foram os versos riscados, feitos e refeitos na tábua do coração, versos de um amor inalcançável. Os sentimentos desnudos, cambaleantes diante dos olhos, quem os poderá compreender?

   Canta uma vez mais, nobre poeta, ainda que teu mundo seja ilusão, ainda que tuas quimeras pareçam reais, ainda que teus devaneios o assombre. Canta pela última vez, nobre poeta, sacie a tua alma com os teus pensamentos, transforme-os em doces palavras, sejam os versos teu porto seguro. Entenda, nobre aedo das palavras, ela nunca terá olhos para você, em nenhuma das existência do cosmo, aliás. Ainda persiste nesse louco amor? Escrevendo dia após dia e noite após noite tua infinita dor em amar tanto?

   Certamente você enlouqueceu.

   Amar tornou-se uma luta, interna, externa e infinita, uma busca pelo inalcançável. É uma quase desistência o tempo todo. Você a vê todos os dias, nobre poeta, ela está diante da janela da tua alma, os olhos brilhantes, a face formosa, o sorriso desconcertante e enlouquecedor. O teu coração arrebenta-se no peito, falta-lhe uma porção do ar, pernas e mãos ficam trêmulas. Basta um olhar, nobre poeta, basta o timbre da voz e um simples aceno, uma ou duas palavras e o seu mundo vira de cabeça para baixo.

   Ela, sempre ela, nobre poeta, desfilando sua bela juventude e suas curvas delirantes. Por onde ela passa é admirada, enfeitiçando outros olhos inocentes e desprotegidos. É sempre ela, nobre poeta, oferecendo graciosos sorrisos, a sonoridade da voz de anjo lêdo, quem, afinal, poderia resistir tal encanto. Sei o quanto você sofre, caríssimo poeta da solidão, todos esses sentimentos aí dentro, corroendo a tua alma e coração. Talvez um dia ela te perceba e note o teu desesperado amor e valorize cada verso do teu sofrer.

   Canta uma última vez, nobre poeta, chore um pouco mais, escreva os versos derradeiros, jogue-os ao sabor do vento. A tua canção não será esquecida, alguém a lerá em algum momento, perceberá o quanto você amou, em cada palavra e em cada poema. Laça os teus versos ao mar, deixe-os ao sabor das marés e que sejam navegantes solitários. Um último pedido que te faço, nobre poeta, revela-me em segredo o nome dela, de quem é a face do teu tormento.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

 






    As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do próprio reino. 

    Nos recônditos do palácio começava um diálogo incomum entre a memória e o coração, no mais profundo do pensamento humano, no âmago quase inimaginável e inabitável da incompreensibilidade do complexo intelecto do eu.

   — Sim! É ela, e isso é inacreditável! É o beija-flor! Sim, aquela mesma de outrora, ela veio ao nosso castelo desfilando toda a sua beleza, com grande esplendor e formosura que lhe cabe, como das vezes anteriores, pousou na janela da alma sem a percebermos, devedoras é espantoso.

   — O que fizeste a respeito, nobre senhor? O que se diz em todo o reino é que ela não aparece já há muitas primaveras, e a propósito, se realmente o que dissestes for verdade, qual o motivo que a trouxe novamente para os nossos domínios, e, principalmente! Como pode tal façanha sem que eu não a tenhamos notado? Uma vez que nada me escapa...

   — Caríssimo amigo, essa história não está muito bem contada, existem algumas variáveis não consideradas nessa complicada equação de sentimentos nus ...

   — O que não está muito bem contado nesse, como você mesmo disse, equação de sentimentos nus? Está mais para um mosaico de sentimentos nus. Escondes algo de mim nobre senhor? Justo eu. E que variáveis são essas dos sentimentos nus no seio das vontades e desejos humanos?

    — Perdoe-me amigo… Perdoe por não ter lhe contado tudo antes.

   — Como podes fazer tal! O que escondes de tão valioso deste que a tanto lhe serve?

   — É o beija-flor... Não o reconhece? Aquela mesma de outrora, lembra-te? Frequentemente ela aparece no domínio da torre, aos olhares dos súditos do castelo, tão desavisados, e do próprio rei que é o meu pai - ela é apenas uma ave voando desavisada nos entornos do castelo, pousando aqui e acolá. Essa ave tão ligeira, é, e sempre será ave, não se engane quanto a isso. Difícil explicar eu sei, um dia você vai entender.

   — Escondestes de mim esse segredo muitíssimo bem, justamente eu, o seu súdito mais leal, como podes?

   — Ainda acreditas em mim?

   — Jamais duvidei de ti meu príncipe, jamais... Tu sabes disso, desde tenra idade sempre acreditei em cada uma das tuas histórias e as guardei a sete chaves, agora que és príncipe, eu continuo a acreditar ainda mais, embora, eu seja o único a crer nestes domínios.

   — Eu sei meu amigo… Eu sei... Mas tudo tem o tempo certo, em breve lhe explico tudo quanto aconteceu.

   — Por favor, meu jovem príncipe! Conte-me o que aconteceu, conte-me agora mesmo?

   — Tudo bem… Tudo bem, eu lhe conto.

   — Obrigado jovem príncipe, muitíssimo obrigado.

   — Era novembro, eu bem me lembro, o jardim banhado em ondas de luz rodopiantes, o luar prateado por sobre a mata densa, os seres da noite fazendo serenata. Eu bem me lembro daquele olhar reluzente e fugitivo, daqueles toques quentes despertando paixão, do som daqueles lábios na pronúncia de cada palavra. Eu bem me lembro daquele nosso último novembro, quando o rei então nos flagrou no primeiro beijo. Proibiu-me de vê-la enquanto vivesse e aprisionou-me na torre deste peito. Foi então, caro amigo memória, que as fadas do reino encantado, a meu pedido, movidas por compaixão ao ver meu sofrimento por esse amor tão impossível, com poderosa magia, em beija-flor a transformou. Vê, essa ave tão alegre, na verdade é ela, sempre foi o meu único e grande amor impossível.

   — Santo Deus! Então esse é o verdadeiro ocorrido… Pensávamos que ela tivesse sido levada pelos ladrões do reino esquecimento ou coisa semelhante. Nunca mais a vimos, o reino do esquecimento é completamente inacessível para nós, pensávamos que ela estivesse por lá.

   — Para todos os efeitos, amigo memória, ela foi levada, contudo, peço-te, fiel companheiro, que guardes este meu segredo enquanto vivermos. Não o reveles a ninguém, principalmente a razão, sempre contraditória ao que eu tanto desejo, sempre fazendo oposição a tudo que entendo por agradável, nunca na história desse reino concordamos em alguma questão.

   — Eu prometo que vou guardar esse segredo com a minha própria vida, ele estará salvo com a memória em seus recônditos mais ocultos, somente tu terás acesso.

   — Obrigado amigo, pode se retirar, desejo ficar à sós.

   — Sim nobre coração, como desejares, este teu amigo memória estará sempre à disposição para lhe ajudar no que for.

   — Os dias são ruins, caríssimo amigo coração, e como todos os outros, nada tenho a fazer do que observar tudo em silêncio. Os pensamentos do coração são como o vento, como a brisa que sopra vindo do norte, ou uma sombra passageira. O beija-flor, o meu beija-flor, o meu único e grande amor, aquele mesmo de outrora, de todas as minhas primaveras, ainda não sabe de todos os motivos que me levou ao cárcere dentro de mim mesmo, pretendo, se possível for, jamais revelar tal segredo. Enquanto isso, a solidão me cabe perfeitamente na companhia deste peito. Podes sair agora amigo...

   — Como quiser.

   O castelo forte fechou as janelas da alma, passou as mãos sobre os cabelos, coçou a cabeça, não compreendo os mistérios que passavam dentro do reino oculto de seu próprio eu. 

    Observou uma vez mais a visão daquela noite, saiu cabisbaixo sem dizer uma única palavra, porém, escondendo todas as impressões que teve da moça que há tanto conhecia e a muito amava, ela, fugitiva noite adentro, ele, fugitivo dos próprios sentimentos noite afora, dentro de si, o mosaico de sentimentos nus.


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

OSEIAS ( CAPÍTULO 1)

 




    NOTA DO NARRADOR.


… Não me considero a pessoa ideal para contar essa história. Sou um sacerdote e não um narrador, porém, dadas as circunstâncias, o momento em que vivemos, crises políticas, pandemia, quarentena, extremismo, violência, enfim, eu não poderia deixar de lhes contar alguns pormenores da vida desse homem, da qual tenho especial afinidade 

   Este meu amigo é sem dúvidas um homem brilhante, político habilidoso, cristão sincero e com um coração enorme, porém, descobriu da pior forma que a fama e o declínio caminham juntas. 

   Nos conhecemos no seminário (Legionários de Cristo em Arujá), estávamos estudando para sermos padres. Ele abandonou o vocacionado antes de completar um ano, descobriu que não tinha vocação para uma vida de solidão, celibato, estudos e renúncias. Mudaria de religião pouco depois enquanto eu continuaria o caminho rumo ao sacerdócio.

   Cada um seguiu o que seu coração determinou.

   No entanto, jamais perdemos o contato um com o outro pelas voltas tão diferentes que as nossas vidas deu. O pouco tempo que convivemos no seminário foi o suficiente para se forjar uma amizade sólida, independente das diferenças, dogmas teológicos ou qualquer ideologia. Mesmo hoje ele praticando outra fé a nossa amizade permanece ainda mais forte, respeitamos a individualidade um do outro — coisa rara hoje em dia — em suas aflições ele me procura buscando conselhos, eu a ele nas minhas tribulações, nunca os neguei, ele nunca me negou. Eu sempre estive ao seu lado nos piores e melhores momentos.

   Por isso, essa é uma vida que vale uma história…



                         CAPÍTULO 1.

                       O CASAMENTO.


   Ao alvorecer, no esconder-se do astro que rege a vida de cada simples mortal, o dia foi se esquecendo lentamente, deitando-se por trás das belas montanhas da cidade de Ouro preto, pincelando as nuvens mineiras com vivas cores, salpicando o azul-celeste da cidade colonial da serra do espinhaço com tons rubros mesclados de laranja e amarelo em um aconchegante início de primavera. Bailarinas aves em voos rasantes de um lado para o outro, tal  como crianças brincando e correndo pelas ruas calcetadas íngremes e sinuosas da histórica vila Rica.

   Outras aves mais quietas figuravam na copa de frondosas e frutíferas árvores, outras no telhado da igreja nossa senhora do Carmo, cantavam em uma entonação vibrante, fazendo lembrar da canção do exílio de Gonçalves Dias. 

... Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá ...

   A mesa estava pronta, majestosa, repleta de incontáveis delícias de encher os olhos, enfeites dos mais admiráveis, cores cintilantes, apenas esperando o final da cerimônia. Os músicos todos enfileirados, com os seus suntuosos ternos pretos e gravatas borboletas, uma diversidade de instrumentos em perfeita harmonia. Rostos e sorrisos mascarados, emoções à flor da pele. 

… O que é a vida se não esse emaranhado de sentimentos se sobrepondo ao outro, atropelando-nos, levando-nos ao extremo de nossas forças. Neste jogo da vida somos apenas peças como em um tabuleiro de xadrez. Cada um com o seu valor e em sua respectiva posição, fazendo exatamente aquilo que lhe foi designado a fazer. Viver é uma aventura completa nesse novo tempo, esse novo mundo tão cheio de terror, medo, incerteza, vírus desconhecido. Muitas das vezes somos indefesos e não sabemos o que fazer. É um jogo complexo que só se vence sendo o mais simples possível. É estranho dizer isso, mas, a simplicidade é a maior e mais poderosa das armas, sempre engatilhada, pronta a disparar em corações despercebidos …

   Rostos e sorrisos cobertos por máscaras bonitas e coloridas.   

   A festa de casamento do senhor Oséias Fausto estava glamourosa. Uma aura de alegria era soprada em sonoras notas musicais, vieram todos os seus convivas, com suas resplandecentes vestes para tão importante ocasião. Oséias em seu infindo regozijo não cabia dentro de seu sorriso oculto, cantava risonho, dançava na alegria extravagante do seu coração. A noiva tão bela, com o seu longo vestido branco, desfilava com o buquê pelo jardim, estava tão encantadora quanto às rosas e tulipas que enfeitavam a festa, era invejada por cada curioso olhar dos especuladores.   

   Ao toque dos instrumentos iniciou-se a marcha nupcial, no altar, lágrimas vertiam aos olhos do senhor Fausto, o tão esperado dia que havia finalmente chegado à vida do promissor político, nem mesmo a crescente ameaça invisível e a crise política instaurada no parlamento impediu o planejamento de seu casório em sua terra natal.

   Todos os convidados de pronto se levantaram em aplausos entusiasmados, estavam pasmos com a beleza da noiva. Cantos, palmas, lágrimas, o vinho doce em sorridentes lábios, pétalas de tulipas e rosas eram espalhados adiante de seus passos. 

   Da noiva, havia poucos parentes no casamento. 

   De origem humilde, a maioria dos seus parentes e convidados não quiseram comparecer, disseram temer a contaminação, era o primórdio da pandemia. De Oséias, viva turba urbana, festeira, uns bebendo, já outros cambaleantes pelo salão de festa, sem se preocuparem com nada. Entre os dele, havia os que não queriam que o casamento acontecesse. Da integridade da moça eram esses mesmos tão desconfiados. Gomer não despertava tanta admiração entre os parentes do noivo, havia algo no passado da moça que os incomodava, algo que não poderia ser dito, não naquela ocasião tão importante.  Duvidoso e amargo passado na vida de Gomer que não agradava em nada alguns dos convidados do noivo, ainda sim, tanto mais amor Oséias lhe devotava em face de todo ódio contrário a ela, ele a amou profundamente desde quando a conheceu, resgatou-a de uma vida de prostituição e pecado. O casamento era uma nova oportunidade em sua vida, uma janela aberta a novas oportunidades, alguns não conseguiam acreditar em tal mudança da parte dela. Oséias estava convicto de sua conversão ao evangelho. Foi corajoso quando enfrentou toda a sua família em nome desse amor. Diziam que ele estava louco, fora si, porém, o seu amor parecia ser maior que tudo.   

   Os pensamentos de Oséias estavam nas lembranças do dia em que se conheceram na festa de um amigo.

( … Lá estava Gomer, embriagada, cantando e dançando para todos, ao vê-la, Oséias admirou-se de sua beleza, não acreditou que se tratava de uma prostituta, tão nova para viver uma vida de abusos. Foi amor à primeira vista, mesmo sabendo quem ela era, amou-a desde o primeiro momento, sendo desses sentimentos indescritíveis e inexplicáveis. Os amigos e familiares não acreditavam quando ele dizia que se casaria com aquela moça. Por fim, com muita insistência, a conquistou, para si próprio e para a igreja que frequentava ... )     

   Oséias estava a minutos de realizar o seu maior sonho.

domingo, 13 de outubro de 2024

OS CRIMES DE HÉRCULES ( NOTAS / APONTAMENTOS)

 



... Nomes, datas e alvos… Havia um plano Abderis… E o mesmo foi bem executado ...


 

NOTA.

 

    Dias antes de sair da cidade, alguém desconhecido deixou um embrulho na porta de casa, notei-o apenas pela manhã. Estava ao lado do jardim, a princípio, desconfiei. Mesmo longe da polícia eu ainda conservava o faro para coisas erradas, eu não havia comprado nada que fosse entregue pelos correios, e aquilo não tinha carimbos dos correios, na verdade não havia nada de escrito no pacote. Era qualquer coisa de muito estranha.

    Peguei o misterioso pacote com certo receio, relutei em abri-lo, embora ele estivesse devidamente arrumado, não havia o endereço de origem, nem o meu endereço, bomba não podia ser. Mesmo relutante eu o abri e qual não foi minha surpresa, deparei-me com um calhamaço de papeis datilografados, neles, uma fotografia de um senhor, de idade já bem avançada. O calhamaço estava com o seguinte título: ( Os crimes de Hércules ). O rosto na fotografia não era estranho.

    Analisando cuidadosamente o pacote, algumas daquelas folhas, logo percebi se tratar de algo ocorrido no meu passado, quando eu ainda trabalhava como investigador. ( Isso já faz um tempo). O que estava escrito naquelas inúmeras folhas desrespeita o meu passado, o meu último caso como investigador, caso que se passou na então cidade interiorana de Mor – Isso foi há vinte anos.

    O autor das folhas datilografadas - Apolo Lombardi Lucano, o homem na foto - era o então delegado da cidade naquela ocasião, trabalhamos juntos naquele fatídico ano.

    Depois de alguns dias lendo e relendo os papeis escritos por Apolo, eles me revelaram fatos importantíssimos daquele caso, que, na época, nunca foram devidamente explicados. Eu tentei esquecer tudo aquilo, porém, o passado não quer me deixar esquecer.

    Passemos ao caso, descrito como está pelo próprio Apolo nas inúmeras laudas que se seguem. Manuscrito esse, como se percebe no começo, destinado a minha pessoa.


( Abderis Franzoni. )



     APONTAMENTOS …


     ( - Apolo Lombardi Lucano - )

     Como tudo começou?

    Bem… Vamos por partes, tenha calma, irei lhe contar tudo. Mas, antes, permita-me algumas breves considerações desse que vos escreve.

       Uma vida tranquila?

       Talvez…

       Uma vida pacata e sem problemas?

       Quem sabe...

       Afinal, quem não deseja uma vida tranquila, à beira de um lago, vara de pescar, o silêncio da natureza. Certo que todos desejam, eu também desejei, é isso que todos cobiçam não é mesmo, inclusive você.

         Permita-me uma breve apresentação.

       Desde cedo, ainda na época da escola, menino de tudo, eu sempre evitei os conflitos e as brigas. Defino-me, portanto, como alguém reservado e de poucas palavras, porém, sempre fui muito atento e observador, dom esse que me seria extremamente útil no futuro, como de fato foi.

       Os meus amigos sempre foram poucos, na verdade, era apenas um, o José. Eu o conheci quando tinha dez anos, em uma escola que ficava na pequena fazenda dos Alcântara, nas proximidades de Mor, assim como eu, José também era reservado e não gostava nem um pouco de conversar e de fazer amizades, quando estávamos juntos - era diferente - a nossa maneira de se comunicar era única, do nosso jeito, embora fosse estranho, confesso, era uma comunicação quase unicamente gestual, assim nos dávamos muito bem.

       Bons tempos aqueles, se houvesse possibilidade de voltar em um determinado momento no passado, certamente eu escolheria aqueles instantes da minha infância, aqueles foram os meus melhores dias - eu era feliz e não sabia.

       A vida tem dessas coisas meu caro amigo, não sabemos aproveitar os bons momentos que ela nos oferece, somente depois que eles passam é que lamentamos e choramos o que foi desperdiçado. Assim como é a sombra em um dia de sol, assim é o tempo, foi o tempo, e sempre será o tempo, fugaz. Hoje, tantos anos depois, o que me resta são apenas as boas lembranças que ainda vagam solitárias pela minha falha memória.

       Quando jovem eu queria ser artista plástico, tão logo percebi que não tinha o menor talento. Tentei de tudo um pouco, e também trabalhei em quase tudo também. Quando eu completei vinte anos, consegui entrar para a polícia, rapaz forte, alto, boa aparência, inteligente, tudo parecia contribuir para que eu entrasse para a polícia, mesmo contrariando demais opiniões, segui em frente, havia um objetivo naquela carreira que se iniciava.

       No último dia de novembro de… Não me lembro da data agora. Começava a minha carreira como delegado de polícia, a cidade em que eu trabalharia, a primeira e única até ao dia em que saí, foi à cidade de Mor. Eu nunca imaginei que nesta cidade tão pequena, tão pacata, eu construiria a minha carreira como delegado de polícia, e alcançasse o meu principal objetivo. Foi em Mor que com esforço e muito suor, lágrimas e sangue, principalmente sangue, que construí a minha gloriosa carreira policial.

       Hoje, já velho, faço apenas relembrar minhas memórias nesta última válvula de escape da minha vida, a escrita, vou terminando os meus dias lendo, e, entre uma leitura e outra, resolvi escrever minha própria história. 

        Uma confissão final talvez.

        Hoje, preso ao cárcere deste meu corpo moribundo e canceroso, passo o dia cheio de dores, às vezes gritos e gemidos, quando passa a dor, escrevo minhas memórias.

       Permita-me, caríssimo amigo, que eu lhe conte um pouco do que não lhe foi dito. Vou lhe confidenciar a verdade de como foi o nosso último caso em Mor, ( lembra-se ) o pior e o maior de todos, foi com este caso que encerrei a minha carreira profissional, alcançando o meu objetivo, prendendo o criminoso mais ameaçador de todos os tempos.

      Os crimes que ele cometeu desafiaram a todos nós, os seus métodos incomuns e a sua crueldade eram um desafio para as mentes mais inteligentes - Há de concordar. Tudo levou-nos ao extremo de nosso exercício profissional, em uma caçada angustiante contra alguém extremamente aplicado e perigoso, as baixas surgiram, mas, finalmente, conseguimos prender o assassino, ao olhar de muitos do povo, ele era um heroi justiceiro, de outros, apenas um assassino, dos demais, um executor, para a lei, ele era apenas um criminoso e assassino.

          Tentarei da melhor maneira possível contar-lhe toda a verdade não dita dessa história , e de tudo quanto aconteceu naquele fatídico ano, você, caríssimo amigo, talvez fique surpreso, você, estimado amigo de farda, vai estar diante de um final que não consta nos autos policiais, a verdade por detrás dos fatos… Tal revelação vai te deixar em grande desconforto.

          Então… Vamos adiante…

domingo, 6 de outubro de 2024

CRÔNICA DE DOMINGO.

 

    



     A ÚLTIMA LÁGRIMA.


    Derramei algumas lágrimas no início desta crônica, não muitas, porém, sentidas, dolorosas, sofridas e cheias de angústias, era a dor do meu desatinado coração. 

   A noite se derrama lentamente revelando a face tímida de um luar desconfiado, algumas estrelas percorrem o céu de um lado a outro, andarilhas, solitárias, cintilando na altura do firmamento. A madrugada segue o seu curso triste, em um silêncio profundo, como névoa fina que se espalha sorrateiramente, enquanto eu, derramo as minhas lágrimas, menos sentidas e pouco dolorosas agora, no entanto, essas lágrimas se enchem de conflitos, de incertezas. Oculto neste olhar existe alguém desesperado querendo a todo o custo a liberdade deste cárcere de ossos secos, louco sofredor que me tornei, a chorar por tudo não tendo nada.

     Eu que imaginei conhecer aquele coração, e o meu próprio também, eu que pensei… Talvez soubéssemos que fosse apenas ilusão, talvez seja coisa de momento, mas, a minha alma ainda chora, e em cada lágrima sentida não há nada que eu possa fazer, não há nada mesmo, acreditem…

   Eu que pensei ser poeta, e todos aqueles dizeres de amor, e todos aqueles versos que tanto trabalhei, que me trouxeram esperança, que me fizeram criança, poemas que talvez eu nem poetize. Hoje procuro cegamente pelas palavras, eu as busco em algum canto escuro em mim, em uma madrugada fria onde nada faz sentido, onde os meus sentidos estão completamente confusos. 

   Guardo no silêncio dos meus olhos um amor platônico. Sinto esse amor queimar meu peito com as brasas. Guardo no silêncio da minha alma todas as palavras que um dia eu gostaria de dizer. Como seria bom declarar esse amor, e diante da face do luar dizer o que sinto em versos apaixonados.

   Guardo no silêncio dos meus lábios o desejo de um beijo, bastaria apenas um e o meu coração se derreteria perante ela como a neve em dia quente. Guardo no oculto do próprio silêncio toda a ternura e todo o encanto desse imensurável amor que ainda sinto tão forte. Escondo a tanto tempo que não estou suportando mais o peso na alma, meu desejo é gritar para o mundo todo ouvir, quero que todos saibam, porém, nada posso dizer, contudo, aqueles que conseguirem decifrar meus códigos saberão os segredos.

   Desenho nos meus versos a sua lívida face, a magnânima poesia do meu amor em palavras escondidas entre as cintilantes estrelas. O que são os meus versos diante de uma madrugada tão fria, tão silenciosa, tão cheia de lembranças tristes, pensamentos imperfeitos. Olhe em meus olhos e veja no que eu me tornei. Já nem sei mais quem sou, ou no que eu me tornei, essa não é a primeira vez que digo tais coisas. Lágrimas são pérolas da alma, diamantes que o coração cristalizou pelo muito sofrer; conto as estrelas de forma aleatória, na vil imaginação de que os belos olhos dela também estão a fita-las; talvez você, ledo anjo, esteja assim como eu, mendigando palavras em uma noite escura. Procurando compreender o incompreensível e explicar o que não pode ser explicado.

   A madrugada se declina, e logo mais dará passagem a um novo dia. Desenho com palavras tristes a caricatura da minha alma, rascunho nesta crônica este particular pensamento, a faceta pouco vista deste que vos escreve. As horas são inimigas, o luar declina no horizonte escuro, as estrelas ainda silenciosas me contam os segredos dos homens, de todos eles, de suas almas sofredoras, talvez seja esse o motivo que passo horas admirando o luar, e conversando com as estrelas na escuridão.

   Talvez seja essa a sina de nós escritores, poetas insanos. Desejamos contar os segredos dos homens, de todos eles, no entanto, não conseguimos descobrir os mistérios de nossos próprios corações, não conseguiremos, porventura, desvendar a nós mesmos? 

   Então, no horizonte de estrelas solitárias, derramo a última lágrima, e nela, escondo todos os meus segredos, que nem as palavras de um poeta podem decifrar, que nem mesmo o anjo ledo saberá.


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...