terça-feira, 16 de junho de 2026

FRAGMENTOS DO LIVRO. RABISCOS POÉTICOS.

    



JANEIRO.


   Entramos no ano de dois mil e vinte e cinco, figuram as primeiras horas deste novo tempo, pessoas comemoram, cantam, bebem, dançam, enquanto eu... Eu sou apenas uma sombra parada na janela. Às horas passam rapidamente, madrugada longa, inútilmente eu tento me compreender, é impossível. O sono não chegou, horas acordado, pensamentos, a milhão, a dor que surge lá dentro do meu "eu" profundo.

   O dia ganha vida diante de meus olhos.

    A vida sorriu para muitos nesse novo ciclo, eu procuro por esse sorriso... Onde estará? 

     Algumas pessoas chegaram em casa, uma visita nada desejada, novamente o afrontamento da parte deles, a sensação de derrota, novamente eu sou apenas um prisioneiro do meu próprio silêncio.

   Justamente hoje que acordei indisposto. 


   Terrível segundo dia.

   A madrugada foi tumultuada, agoniante, pensamentos perambulando pela cabeça, a tristeza cerca o meu flagelado coração. Estou vivendo os dias mais difíceis da minha vida, às vezes, nem mesmo eu me compreendo, então me questiono de onde surgiu essa inconstância tão incomoda? Amargo fel que me conduz ao obscurantismo.

   A quinta segue o seu curso de tristeza, observo o nada de caminho para outra cidade, paisagens vazias, lugares tortuosos, esquecidos, ermos. 

   Cheguei ao destino meia hora depois, abraços, um sorriso falso, no retorno houve uma ligeira mudança nos planos, voltei para casa cheio de expectativa no peito.

   Abraçou-nos o manto da noite.

   O silêncio cobrindo meros mortais.

   Noites e madrugadas traiçoeiras, nada de novo, eu estou dormindo pouquíssimo, pensando muitíssimo, duas extremidades que estão me enlouquecendo, de repente, nada parece dar certo. 

   Tomei o meu café apressadamente, ninguém se importa com o que eu falo ou penso, nada de novo, me sinto como uma sombra sempre à espreita, escondendo-se, mostrando-se, sempre indeciso.

   Na parte da manhã eu fui para uma entrevista de emprego, estava trêmulo, um pouco de espera, boa recepção, diálogos, espera, ficou uma ótima impressão de ambas as partes, quanto ao teste, muito simples. Retornei para casa muitíssimo eufórico, porém, logo o medo surgiu para tomar conta da minha alma, na parte da tarde eu tive outra entrevista não muito agradável, é a vida que segue o seu curso, como um rio caudaloso.


   Fez-se um novo dia com todos os seus desafios e com todas as suas mazelas. 

   O mundo continua sendo o mesmo mundo, não há nada de novo, a existência dos tempos modernos é a exata cópia do que ocorreu outrora. A minha cabeça continua em extremo conflito consigo mesma, os meus sentimentos e pensamentos estão turbulentos, hora está construtiva, em outros momentos, negativo, é uma guerra sem trégua.

   O dia segue o seu curso entristecido e monótono.

   Uma breve caminhada para distrair os pensamentos, observar em silêncio é o que mais tenho feito nestes últimos tempos. 

   O final de tarde avança rapidamente, a expectativa de uma noite diferente se configura diante de meus olhos, é quando então decidimos estar na casa do pai, a sua presença é reconfortante para a alma atormentanda e um coração tão ansioso.

   Tudo correu maravilhosamente no final da noite.


   Um novo dia, nova expectativa.

   Esse foi, sem nenhuma dúvida, um dia diferente, os raios primeiros do sol brilhando com toda sua força e beleza, estendendo-se como uma cortina na janela do quarto, foi dessa maneira que despertei. Embora seja esse o primeiro dia em outras culturas, portanto, dia de trabalho, em nossa cultura ocidental o costume é de descanso, sendo assim, uma vez com a oportunidade, nada melhor que ir na casa do pai novamente.

   O meu coração transbordou de alegria quando cheguei na presença dele em sua casa, juntamente com os meus irmãos, nos regozijamos e sorrimos, cantamos, nos alegramos. Confesso, o dia teve lá os seus contratempos, nada novo debaixo do sol, o sorriso permaneceu nos lábios, retornamos a casa do pai pela noite, ele alegrou-se conosco. 


   Segunda-feira, 

    Para muitos um dia terrível, odioso, lembro-me de tantas segundas indesejáveis, sim, foram muitas ocasiões, entretanto, houve momentos em que o inverso e o impossível também aconteceu. O dia começa como todos os demais, sem muita novidade, preguiçoso, silencioso ao extremo, isso não me agrada. caminho de um lado para o outro dentro de casa, inquietações corroendo o coração, corroendo a alma.

   Aquela entrevista, a tal que fiz, a oportunidade que surgiu... Então, eu esperando uma mensagem, na ânsia de saber uma resposta, enviei a mensagem antecipada. Que bom, deu certo, finalmente o retorno positivo que tanto esperava. Um possível recomeço na quarta-feira, um passo de cada vez, eu penso, no peito, velhas inquietações batendo com muita força na porta do meu coração.

   Eu que pensei em um sétimo dia tranquilo, sem nenhuma tribulação, sou mesmo tolo e ingênuo, embora o dia logo nas primeiras horas parecesse promissor, outra situação tornou-o impactante. Talvez eu tenha exagerado um pouco com o 'impactante', porém, de certo modo não estou mentindo, tivemos visitas das quais não queríamos nesse momento ímpar da nossa vida, nada contra a vista, também, nada favorável.

   Às horas passaram arrastadas, dolorosas, ao final da noite, já sem os convivas, uma mensagem me foi enviada, nela, outra proposta de uma determinada empresa. Embora a proposta seja inferior à da primeira, ela deixou-me pensativo, tais pensamentos trouxeram-me angústia na anatomia do meu eu enlouquecido.

   Eu estou até agora me perguntando, que dia foi esse?   

   São questionamentos intermináveis, às vezes penso estar ficando completamente louco, são tantos pormenores e por maiores, já nem sei. O dia foi de certa maneira, empolgante, radiante, cheio de expectativas, trabalho novo por iniciar, sensações diferentes no meu coração, embora a alma estivesse receosa, para dizer a verdade, medrosa mesmo. No primeiro dia não era para eu agir dessa forma, eu não consigo entender o que aconteceu comigo, o que tem de errado com esse rabisco de gente. O que eu não imaginava ocorreu nesse novo trabalho, acidentei-me, corte no punho esquerdo, corte contuso, dor, incerteza, por fim, as coisas terminaram dentro do esperado.

   O problema é que, às vezes, nos acostumamos ao ritmo de uma rotina, às vezes, esse mesmo ritmo torna-se opressor, porém, somos de fato seres em desequilíbrio no universo, querendo as duas coisas sem nenhuma necessidade. O meu eu enlouquecido vive intensamente essa dualidade da alma. Eu deveria me regozijar com o descanso de um dia de rotina intensa, no entanto, a angústia da ociosidade me fez buscá-la freneticamente até conseguir encontrá-la.

   Quanto ao dia...

   O dia nasceu belíssimo, intenso e cheio de novidades, a minha nova rotina de vida se desenha com traços leves, pelo menos nesse momento. Parece loucura o que estou a dizer, de certo modo é, este rabisco no papel estava sentindo falta do cansaço e de um dia corrido de trabalho duro, vai entender.

   Os dias seguem o curso de uma normalidade já há muito tempo conhecida, com uma tendência às mesmices e as repetições cotidianas. fazemos por fazer, seguimos por seguir o rio das nossas vidas. O que vou dizer do meu trabalho... Não sei exatamente o que lhes confidenciar, uma coisa é muito certa, estou retornando as raízes, voltando a reviver emoções primeiras da época da minha confusa juventude.

   Eu sigo o fluxo do rio, se é que posso usar tal expressão, considerando que o fluxo desse rio é um tanto quanto diferente de todos os meus outros rios. O dia se foi, quanto a noite... A noite segue o próprio curso, atendimento, afazeres que são concluídos um a um. Uma caminhada noturna até o ponto, ônibus, casa rotina. Cansaço muitíssimo necessário. 

   Sensações, emoções, quem estará livre?

   Eu as sinto ao extremo, sempre caminhando à beira do abismo, nunca foi diferente. Desde que eu me entendo por gente, sou esse tipo de aberração. Talvez você... Sim, você mesmo, caríssimo e desavisado leitor que pousou os olhos nesses rabiscos poéticos, talvez você considere certo exagero minha depreciação, pois digo que não é.


   O meu dia foi corrido, horários diferentes,

a vida em si está rumando para outros caminhos, nem sempre acontece como gostaríamos que fosse. As horas percorrem o curso do relógio sem novidades, porém, com muitos afazeres, o trabalho também segue o seu curso, tudo o que é novo assusta no primeiro momento.


   Finalmente o domingo, dia separado ao descaso,

em outros momentos eu o odiei, hoje, o amo, difícil de explicar a minha relação com esse dia tão especial, o primeiro no curso de uma longa jornada. Parece exagero da minha parte, porém, aos que se entregam na labuta dos pequenos afazeres universais sabe bem do que estou dizendo. A folga na semana não é igual aos descanso de um caloroso e abençoado domingo.

   Como de costume, pelo menos para esse que vos escreve, tenho por objetivo dedicar partes do dia ao senhor Jesus, dando-lhe louvor, honras e glórias. O dia termina com aquela sensação de angústia, sim, afinal, horas nos separam da tediosa e indesejada segunda-feira, contudo, sou grato pelos novos desafios da vida.

   Afinal...

   Os dias nos ensinam coisas que os anos nunca souberam, eu escutei essa frase em algum lugar, acho que foi em um filme, não me lembro bem, sei apenas que se trata de uma grande verdade. Às vezes eu sinto como se não aprendesse nada com os dias, parece que a vida deseja me castigar o tempo todo, a todo o momento sou surpreendido com desafios que fogem da compreensão humana.

   Um ciclo novo se inicia no meu novo trabalho, não sei mensurar os meus sentimentos quanto a essa nova etapa da minha vida tão complexa. Não sou o tipo de pessoa que se adapta facilmente, engano bem, que vê não percebe o meu abismo, estou sempre caminhando com o perigo iminente.

   Nada como um dia depois do outro, a vida em seu curso frenético por estradas sinuosas, correndo como se nunca fosse chegar. A vida é mesmo assim, a minha, a sua e de todos os seres humanos na face da terra. Nessa loucura que é viver, às vezes, não prestamos atenção às pequenas coisas, aos detalhes, eles passam diante de nossos olhos despercebidos, quantas vezes eu fui esse ser desatento, desleixado.


      Hoje o dia foi extremamente cansativo, frenético, para muitos, exagerado, ao ponto de me classificar de um homem caminhando sempre ao abismo. Não se assuste, caríssimo leitor dos rabiscos meus, com o tempo agente se acostuma, você, por exemplo, não é diferente, no fim somos todos iguais.


sábado, 16 de maio de 2026

O SEGREDO FINAL.

 


    "Ler é viajar sem sair de casa". 

     Essa é uma verdade que todos deveriam experienciar, devo, portanto, me considerar um viajante por excelência, sempre estou a conhecer novos lugares sem sair de casa . Já conheci muitos lugares sem me levantar do sofá de casa, tudo, graças às páginas de um bom livro. O livro é uma espécie de portal mágico que te conduz a lugares impensáveis. A minha última façanha, por assim dizer, foi conhecer um pouco da cidade de Praga, e quem me possibilitou tal oportunidade foi Dan Brown, em seu novo e espetacular romance, o segredo final.

        De maneira brilhante, e com a mesma mão de mestre dos seus livros anteriores, o autor nos conduz através dessa narrativa nesse livro maravilhoso. Reencontramos, depois de dez anos, o professor de simbologia, Robert Langdon. A princípio, convidado para ouvir uma palestra de Katherine Solomon - par amoroso do professor. Katherine está na iminência de publicar um livro sobre consciência humana, suas verdadeiras origens, no entanto, algo no livro ameaça desestabilizar crenças e conceitos.

         Um assassinato brutal acontece, o manuscrito desaparece junto com Katherine, estamos diante de um trilhe de tirar o fôlego, mistérios que o professor terá que descobrir para encontrar Katherine e recuperar o manuscrito. É a fórmula infalível de Dan Brown.

         Neste livro, assim como nos anteriores, está recheado de obras de arte, informações que nos dão vontade de pegar um caderno e anotar tudo. A neurociência é apresentada aqui, assim como a ciência noética, conceitos e visões estarrecedores. Praga é sem dúvidas o palco perfeito dessa história, cada personagem, os capítulos curtos e pontos de vista narrativos diferentes. Enquanto você vai caminhando na leitura, alguns personagens te levam para um caminho de entendimento, te fazendo crer piamente em determinado desfecho, quando, na verdade, o autor nos surpreende  fazendo-nos ficar boquiabertos, pelo menos foi assim que eu fiquei com algumas das revelações do livro.

             Para quem é fã do autor como eu, tenho toda certeza que você não vai se arrepender. Os anos de espera valeram muito a pena. Eu fiquei muito feliz com a leitura desse pequeno calhamaço de quase seiscentas páginas. O autor tem mais de 250 milhões de livros vendidos, publicado em 56 idiomas, quem não se lembra do famoso "Código Da Vinci", "Anjos e Demônios", "O Símbolo perdido", "Inferno", "Origem", "Fortaleza digital", enfim, títulos maravilhosos, recomendo a leitura de mais essa obra prima do autor.

         

  

       

domingo, 26 de abril de 2026

CULTO DE DOMINGO.

 



    Passos curtos, olhares atenciosos buscando alguém na plateia ainda pequena, parando, olhando para todos os lados, nos lábios o vislumbre de um sorriso, os olhos fixados em um determinado ponto, talvez o alvo, um aceno. 

    Aos poucos o lugar vai sendo tomado, bancos outrora vazios são preenchidos, famílias pequenas se encontram com outras maiores, os primeiros lugares são os preferidos da maioria dos jovens e adolescentes. O som da orquestra ecoa suavemente na preparação e afinação dos instrumentos, trompetes, trombones, violinos, flautas, entre outros, cada um atento à batuta do maestro. As mulheres desfilam pelos corredores com as suas melhores vestimentas e seus perfumes exagerados, já os homens, exibem os seus ternos elegantes e gravatas chamativas.

    O culto está prestes a começar.

    Aos poucos, o templo ficou cheio, sobrando espaço apenas nas galerias, os atrasados buscam os primeiros lugares, olhando, calculando, voltando para trás com faces não muito amigáveis. O grupo de louvor se posiciona na frente do púlpito, cada um com o seu microfone, os testes de som exaustivamente repetidos, tudo tem que estar na mais perfeita sincronia e ajuste, é um grupo numeroso e belo. O lado esquerdo de quem está no púlpito é reservado aos pastores, amplo espaço, que aos poucos é preenchido, a maioria chegando sempre atrasado. O lado direito fica reservado à orquestra, um espaço grande, com várias pessoas e seus variados instrumentos de sopro, cordas, todos atentos ao maestro.

   Quanto à orquestra, vale a pena mencioná-la.

    É formada por um grande número de irmãos, membros da igreja, jovens da mocidade, obreiros, mulheres do círculo de orações, integrantes do corpo de música e do coral. O maestro, com sua batuta em mãos, posiciona-se de frente aos músicos, a maior parte com os violinos, três deles com os violoncelos, uma parte com instrumentos variados de sopro, por sua vez, perfeitamente organizados, todos igualmente atentos ao ensaio. Os arranjos da orquestra acompanham os dois primeiros hinos da harpa, uma introdução é feita, essa por sua vez é qualquer coisa de extraordinário, simplesmente lindo. Algumas das vezes o maestro acompanha os hinos da mocidade, coral e do círculo de oração, também com arranjos e notas de tocar o mais endurecido dos corações.

    Dar-se início ao culto.

    O presidente inicia com uma breve oração, feita por um dos pastores, em seguida, dois hinos da harpa cristã são cantados, acompanhados pela orquestra em conjunto com o grupo de louvor. Após os hinos, segue a vez da mocidade louvar, seguida do círculo de orações. Após o toque dos louvores, um dos pastores traz uma breve saudação a pedido do presidente, enquanto isso, o imenso coral se posiciona para entoar o mais belo canto. O culto segue o seu curso, ofertas, avisos, o grupo de louvor cantando novamente antes do momento mais importante da reunião, a pregação da palavra. Em geral, um dos pastores do campo, previamente notificado, fica com a imensa responsabilidade de trazer a mensagem. Trinta minutos importantíssimos de exposição bíblica, silêncio e atenção. Cada um ouvindo e trazendo ao seu coração o que a palavra lhe falou ao mais profundo da alma.

     O culto tem o seu término com os avisos da semana e oração final seguida da bênção apostólica. 

     Certo é, caríssimos amigos, disso eu posso testemunhar, que jamais sai de um culto da mesma maneira que adentrei. O culto de domingo é maravilhoso, a igreja é um lugar onde você fala com Deus, e ele, de pronto, lhe responde das mais diversas maneiras.

      

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ESPELHO.

    

    



       Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.        

   Do lado de fora, o silêncio, quieto e contemplativo na própria solidão, observando as quimeras do pensamento.

       Quem é?

       Pergunta para si mesmo quem é o ser degenerado, enquanto do lado de dentro o vento sopra cada vez mais furioso.

     É necessário olhar para dentro, no âmago de si mesmo, talvez assim consiga enxergar o lado externo. Nem sempre o que está descrito no rótulo condiz com o conteúdo, então nos confundimos e ficamos sem saber se a verdade está no oculto lado de dentro ou na aparência externa.

        O reflexo no espelho… 

        A imagem refletida de alguém que se olha por muito tempo, estudando as suas feições sem nada dizer. Alguém tentando entender quem realmente é nesse mundo caótico, buscando a compreensão da sua natureza em meio a complexa natureza humana.

      É preciso olhar para dentro, olhar para o espelho da própria alma, ver o que será refletido de si mesmo, se esse rótulo expresso na curva dos lábios condiz com o que está escondido no interior, ver se a verdade se oculta do lado de dentro ou se está fora.

      A imagem refletida é de alguém que se descobre com regozijo ou de quem se esconde por medo?

        Corpos e formas não moldam alma e corações. Às vezes, a fraqueza se disfarça querendo se parecer com a força e a feiúra se veste com as roupas da beleza. 

     É preciso escutar o silêncio para ouvir a própria voz. Nem sempre a natureza humana vai nos sorrir, às vezes, ela vai nos esbofetear, então sentiremos dor sem saber onde dói, choramos sem saber de onde surgem as lágrimas.

         O reflexo no espelho…

      A janela da alma foi aberta pela fúria do vento, está chovendo do lado de dentro, molhado tudo do lado de fora. Não é sobre quem ele é ou quem ele foi, e sim no que se tornou. O espelho nunca mente, mostra o exato reflexo do que é revelado.


         

      

sábado, 17 de janeiro de 2026

AO TEMPO QUE O AMOR ENLAÇA, TAMBÉM CEGA.



     ( ALERTA DE SPOILER)



     O menino que comeu uma biblioteca...

     Certamente, a melhor história que li nesse ano, emocionante, surpreendente, angustiante.

      O romance é narrado em primeira pessoa pela personagem chamada Eva, que através das cartas de tarô, herança da avó, ela tem visões com certo menino polonês, "Jósik Tatar", a estrela principal desse romance. Nesse magnífico livro a história de Eva é entrelaçada com a de Jósik Tatar, a narrativa se alterna, por vezes dá no Uruguai, em outras na Polônia durante a grande Segunda Guerra Mundial. 

A narradora - "Uruguaia", começa falando sobre a família de Jósik. Os pais do menino vivendo com o avô ( Michael, considerado maluco pela própria mãe do menino) residindo na pequena Terebin, o idoso é um brilhante literato e professor aposentado, apaixonado pelas histórias de Shakespeare.

    O amor pelos livros é passado para o menino, e de forma mágica, para nós leitores também. A guerra será retratada na história, o mundo começava a ver a ascensão de Hitler na Alemanha e a ameaça nazista. A personagem Eva aborda sua vida no Uruguai, morando em uma fazenda com a avó Florencia. Uma vida muito humilde, a jovem casa-se aos quinze anos com Miguelito, com ele tem um filho, jovem e sem nenhuma responsabilidade, Miguelito trabalha no único posto de gasolina do vilarejo, vez e outra, se entrega a bebedeira. A vida é difícil, entre altos e baixos, trabalhando aqui e ali. Ela descobre nesse período caótico da vida o amor pela leitura, ao encontrar na lanchonete onde trabalha um exemplar de trabalhadores do mar de Victor Hugo. 

    A narrativa volta para Jósik, o ano é 1938, o pai do menino Apolinary, que trabalha na ferrovia e com isso viaja muito, ouve rumores da guerra, percebe as movimentações de Hitler nas fronteiras Polonesas. O pai do menino quer tirá-lo da Polônia antes que a guerra chegue. Ouve-se relatos de Judeus presos e perseguidos, embora a família do menino seja Polonesa, o pai teme pelo pior. Ele convence a mãe de que é melhor mandar o menino para América, viver com o tio Wacla até que as coisas se acalmem. O peso do medo da guerra na alma da mãe de Jósik é enorme, as cartas que o pai enviou ao tio na América não foram respondidas, era necessário fazer alguma coisa, porém, eles não sabiam exatamente o quê. O dia fatídico acontece, a Polônia é invadida pelo exército alemão. Morte, medo, terror rastejando como a sombra da noite sobre o dia, nomes, mulheres e homens, tudo desaparecendo, assim foi com o pai do menino. O nome Apolinary tratar ficará apenas nas lembranças do jovem menino, que agora via os tanques e suas suásticas e soldados tomando as ruelas do vilarejo. O monstro da guerra mostrava-se aos poucos sua pior face para as pessoas do seu pobre vilarejo, uma a uma sendo mortas, enforcadas e metralhadas. 

     O espírito do avô do menino ainda residia na velha e rica biblioteca.

     A narrativa dá um salto ao tempo presente.

Jósik e Eva já estão juntos. Porém, ela rememora partes desse período difícil, a sua história é de alguma forma estava ligada com a do jovem Jósik. O menino sente a falta do avô, no entanto, tal falta foi amenizada com a chegada de uma menina chamada Raika, aquela que seria seu primeiro amor. A vida era difícil naquele momento, no entanto, em uma visita do menino na biblioteca que era do avô, repentinamente, o fantasma do velho aparece. 

     Mais uma manhã fria e triste...

     Flora vai até o mercado negro tentar comprar carne e passaportes falsos, o menino não sabia, despede-se da mãe, porém, era a última vez que a veria. Naquele lugar onde os Poloneses se reuniram na tentativa de se comprar algo para comer, uma emboscada das tropas ceifaria a vida de todos. O jovem Jósik salvou-se por pouco, foi o fantasma do velho que insistiu para ele não acompanhar a mãe naquela manhã, tal obediência ao fantasma salvou-lhe a vida. Uma parte dessa narrativa é a própria voz de Jósik.

       Foi o fantasma do avô que lhe sugeriu, após contar-lhe a verdade sobre a mãe, agora já morta, que o menino convidasse a amiga Raika e sua mãe Anna Bieska para morarem na sua casa.

     A narrativa volta ao presente, Eva rememora momentos de seu começo de vida com Miguelito, o trabalho na lanchonete, vida miserável. Durante a noite sempre sonhava com Jósik, o menino polonês, que viveu os horrores da guerra. O sonho também era um fantasma na mente da menina. Parte da narrativa retorna a voz de Jósik, falando de suas desventuras na tentativa de fugir daquele mundo de morte, a lembrança do fantasma do avô, que, só deixaria de fato a existência espectral quando a biblioteca não existisse mais.

     A realidade bate à porta do jovem Jósik.

     A narrativa novamente retorna ao momento em que o menino, já em casa, espera o retorno da mãe, embora sabendo que ela jamais voltará. O menino só não ficou sozinho porque seguiu os conselhos do fantasma do avô. Anna Bieska e Raika agora residem com ele em sua casa. Jósik e Raika estão apaixonados, à medida que ambos crescem, aumenta o amor e a implicância da mãe da menina, que, em um surto de raiva ao vê-los abraçados, resolve mudar-se com a menina.

      A dramática situação de Jósik agrava-se, uma vez expulso da própria casa foi para a casa que era do avô. A distância não era problema para os jovens apaixonados, que achavam um jeito de se encontrar, o amor sempre encontra um jeito. A pequena Terebin convulsionou-se com a movimentação das tropas. No ano de 1940, a guerra em pleno vapor, a Europa caiu diante de Hitler. O jovem Jósik, aos conselhos do fantasma do avô, vive à beira do perigo, vendendo os livros, encontrando-se com Raika, porém, um novo personagem entra na história, seu nome, Abel Becker. Um soldado Alemão levado a Teberin para trabalhos burocráticos, catalogação de obras de arte entre outros. Assim como Jósik, Abel era amante de livros e literatura, e foi justamente em um desses momentos, quando o jovem polonês tentava vender seus dois Conrad e um Bocaccio que sua vida cruzou com a do Alemão. Não houve morte nem brutalidade, nada disso, os livros e a literatura lançaram aquela improvável amizade. O soldado Alemão, amante de literatura, vê em Jósik um amigo improvável, diferente de muitos que tinha no quartel, cuja visão míope, enxergava apenas a guerra em pleno vapor, mortes, campos de concentração. O medo de Jósik era de ser mais uma vítima da máquina nazista, no entanto, a visita inesperada do soldado em seu reduto literário revelava uma nova fase daquele amizade, fase essa que garantia sua vida.

      O menino Jósik, arriscava-se durante a noite para ver sua amada Raika. O amor desafia até mesmo o monstro da guerra. Juras de amor à luz do luar. A narradora adianta que Raika não passaria dos dezesseis em algum momento dessa história, mais um corpo, mais uma trágica morte. Os dias passam, o inverno retorna, um novo elo na estranha corrente da amizade entre o menino e o soldado oficial se forma. Dessa vez, ele mesmo fora convidado para levar o livro pessoalmente ao amigo. Em outro momento inusitado, em uma vista de Adel Becker na biblioteca de Jósik, ele se depara com o fantasma do Michael. O ano é 1941, a guerra avança com ferocidade, ganha a África, esmaga países menores. O jovem Jósik está envolvido no jogo do amor com Raika e na da sobrevivência com o jovem oficial Alemão amante da literatura. O amor enlaça é cega ao mesmo tempo, o avô adverte ao jovem do risco com a mãe da menina, sabendo ela que o namorado oculto da filha era amigo de um oficial Alemão, e que isso colocava tudo em risco, uma armadilha foi planejada.

    Entretanto.

    Após uma advertência do amigo de Jósik, seguindo à risca suas palavras, a vida é garantida naquele difícil jogo da guerra. 

     Corria o ano de 1942, a ferrovia de Teberin era a estrada de almas condenadas, lotando os vagões, a caminho dos Campos de concentração. Enquanto Jósik e Raika se amavam debaixo dos lençois, dois jovens apaixonados e inexperientes, o fantasma do avô, de pronto percebeu que a jovem estava grávida, as tonturas, os enjôos. Porém, o jovem Jósik não sabia dessa novidade, ele seguia o curso de sua vida, vendendo os livros da magnífica biblioteca para sobreviver, enquanto o povoado de Terebin, aos poucos, sucumbia ao toque da morte a serviço da máquina nazista. O inesperado acontece, um atentado a bomba, o jovem oficial Alemão está morto em uma emboscada, a represália veio rápido, dez tiros, dez almas sentadas na pequena praça de Teberin são mortas, entre elas.... A jovem Raika.

    Sem a mãe, o pai e sua amada Raika, somente com o espectro fantasmagórico do avô, o jovem finalmente foge de Teberin, caminhando pela mata durante a noite, escondendo-se durante o dia. A longa jornada do jovem, entre lugares, fazendas, trabalho temporário, termina em uma noite quando é capturado pelos alemães, seria interrogado, caso não fosse da resistência, trabalharia para os alemães. No campo de concentração, o jovem vê os horrores face a face. Sempre diante da morte e da vida, porém, o destino daquela alma não era a morte, ele sobreviveria enquanto se sonha.

      A narradora volta a história para si no tempo presente, a sua gravidez, o menino que nasceu, o descaso do marido. Havia nesse ínterim, os estranhos sonhos com o jovem polonês. Eva aborda a pequena trajetória de seu filho Pablo, morto aos sete meses por meningite. Desconsolada, Eva separa-se de Miguelito e parte para outro destino, lugar esse que seria o palco do encontro dela com Jósik, que a essa altura, perambulava pelo mundo desejando achar a si mesmo.

     A narrativa caminha para o seu desfecho final, no entanto, Eva aborda um pouco da história do Uruguai, o seu lar e o futuro destino do jovem Jósik. Os dias cinzentos em Londres estavam findando, uma inusitada oportunidade para América do Sul apareceu, um desconhecido lugar chamado Uruguai. Naquele momento, muitos despatriados vieram para as Américas em busca de uma nova vida, Jósik era um deles. 

      Chegou o dia finalmente, lá estava ele, Montevidéu, aqui, alí, entre um trabalho e outro, ele tornou-se gerente do hotel onde Eva trabalhava, as duas histórias navegaram por mares diferentes, mas, de alguma forma estavam unidas, destinadas uma à outra. Eles se encontraram, se enamoraram, formaram família, a matéria etérea dos sonhos de Eva tornou-se realidade. 

      Belíssima história, me arrisco a 

dizer, a melhor do ano.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

ANATOMIA DA DOR.




    A dor é intensa e pulsante dentro da alma, nada do que digam ou façam ajudará contê-la, é simplesmente aterrorizante o que estou sentindo, eu queria muito lhes explicar, porém, o meu coração está desfigurado, feito em mil pedaços. Às minhas incessantes lágrimas beijam a terra nua, e tal beijo reflete a vontade de desaparecer para todo o sempre. 
     Eu sei que gritar não adianta, nada do que eu faça me ajudará, aliás, sou o meu próprio fundo do poço, o ápice da minha derrota. Quisera eu ser como as pessoas que me cercam, ter uma vida normal, tal como meus compatriotas, todos perfeitos, contudo, em nada me assemelho com "os normais". Talvez a inexistência me caia bem daqui por diante, estou plenamente convencido e sem dúvidas volto a lhes dizer que minha voz deverá ser silenciada.
     Eu penso na dor existencial, na sua concepção,
na dor que move minhas entranhas dia após dia, noite após noite, entre horas e minutos de um tic a um tac, por muito tempo tentei inutilmente compreender-me, tolo que fui em acreditar que seria capaz de tal prodígio, haja vista ser um pródigo alcançar a compreensão de si mesmo. Há dias, e esses são tão raros quanto o ouro, dias de felicidades e sorrisos quase largos estampados na face, no entanto, assim como nuvens passageiras é o meu pálido sorriso, e novamente a dor se faz presente na tábua do meu coração. Se eu fosse lhes contar todos os pormenores do projeto a poeta que vos escreve... Certamente que ficaríamos horas inteiras falando, são inúmeras as histórias de meus fracassos. Estou me convencendo que realmente o silêncio me define muito bem, afinal, sou eu um nada feito de mentiras e mistérios cercados de insignificâncias.
    O mundo caminha a passos largos, à beira do abismo e ninguém está percebendo o perigo iminente. A maioria anda sem nenhuma atenção pelo abismo, não importa o que aconteça ao redor, nada importa. Talvez eu seja alguém fora do perigo dos outros, porém, caminho a passos largos e vacilantes tão mais próximo do meu próprio precipício, estou ao ponto de cair e não há quem possa me socorrer. Quando essas percepções alcança meu vago intelecto, o coração se desespera gritando e chorando querendo arrebatar-se inteiro dentro do meu peito. Novamente as lágrimas teimando em nascer, os meus olhos choram a derrota mais do que certa, tenho apenas que observar a minha decadência pessoal e o fim.
    O meu sincero desejo de fazer compreensível minha dor, torná-la entendível por meio das minhas palavras escritas, se possível for, fazê-la tal quase a ser palpável, criar uma anatomia desse sentimento tão complexo. Embora eu procure exaustivamente pelas palavras, prospectando no mais profundo da minha alma, os dizeres desse relés rabisco não explicam nada, por mais belas que pareçam as minhas palavras são ventos soltos e sem destino. Às vezes, para não dizer que em todos os momentos da vida, sou completamente introspectivo e melancólico, os meus dias são feitos de noites inteiras sem fim e eternas. Não gosto de escutar o som do meu próprio coração, cada batida é um terrível infindo de dor e lamento, nada faz sentido, sou alguém sem perspectivas.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

TRAIÇÃO, SEPARAÇÃO, SEGREDOS OCULTOS.





       RESENHA. ( ALERTA DE SPOILER)

        O presente romance, em sua primeira parte, narrada em primeira pessoa, tendo por estilo epistolar, onde a narradora rememora momentos de sua vida em suas cartas... O esposo, Aldo, a traiu com uma moça chamada Lídia, deixando a casa, esposa e os filhos, Sandro e Anna.

         O romance é dividido em três partes, na primeira temos essas as cartas da esposa, relatando fatos que desrespeito a separação do casal, bem como, perceptível como o divórcio afeta profundamente a "ex-mulher" de Aldo, tendo que lidar com todas as consequências de um final de relacionamento onde os filhos são os mais afetados, a cada carta, não respondida, fica visível o desabafo de uma mulher que vive "à beira" do próprio abismo sem saber o que fará. A separação acontece, Aldo continua com a amante Lídia, não parece disposto a esforços para ajudar os dois filhos, Sandro e Anna.

           A segunda parte do romance também é narrada em primeira pessoa, porém, aqui temos Aldo falando. De pronto notamos que passaram-se longos anos, Aldo está idoso, a esposa ( Vanda - somente na segunda parte sabemos o nome dela ) também é idosa. Dar-nos a entender que em algum momento do passado, eles reataram o casamento. Os filhos são adultos, cada um vivendo sua vida. Porém, um fato inusitado aconteceu, ladrões arrombaram o apartamento do casal enquanto estavam fora, não levaram nada, contudo, destruíram tudo. No momento de reorganizar a bagunça, Aldo reencontra um envelope antigo contendo várias cartas escritas pela esposa daquele período conturbado do relacionamento. A narrativa de Aldo rememora momentos do passado, anos vividos, toda dinâmica da separação, de sua convivência com Lídia, o distanciamento dos filhos e suas consequências psicológicas para toda a família. Aldo nos conta o seu lado da história, de suas dificuldades de assumir os compromissos como paí responsável. O período da separação foi de cinco anos, ele retorna para o seio familiar, porém, as coisas não são as mesmas, tudo mudou, embora unidos no mesmo espaço físico, isso não se dava na afetividade. Aldo revela segredos, a continuidade com amantes por longos anos. Os filhos cresceram, cada um seguindo sua vida, não exatamente como ele talvez imaginasse, Aldo parece ter certo remorso pela falta de solidez na vida dos filhos.

       A terceira e última parte, também em primeira pessoa, é descrita pela filha Anna. Aqui temos um vislumbre da vida dos filhos nas palavras de Anna. É notório que a separação de seus pais, todos os acontecimentos que envolveu o período causou nos filhos danos, talvez irreparáveis. Sandro tem quatro filhos, cada um com uma mulher. É acusado pela irmã de usar muitíssimo bem o seu melodrama para benefício próprio. Cinquentão com cara de trinta. Já a irmã, aos quarenta e cinco anos, instável emocionante, se acha rejeitada e não amada pelos pais e irmão. Anna quer propor a venda da casa dos pais e repartir a herança, Sandro acha um absurdo. A verdade é que ambos herdaram características psicológicas dos progenitores, o perceptível o reflexo da vida deles ( pais ), na vivência dos filhos. A narrativa de Anna se dá no apartamento dos pais enquanto estão de viagem, verdades sobre os dois são reveladas, da Aldo, fotos de uma polaroide de Lídia nua, escondida por anos, mostrando que ele nunca se separou de verdade da amante, da mãe, a possível traição com um tal Nadar - muitíssimo bem oculta de todos. Para forçar os pais a venderem o apartamento, ambos o destroem completamente. O livro termina aqui, magnífico na minha opinião, mostrando todos os ( laços ), lados e consequências de traição, separação e segredos ocultos.

terça-feira, 15 de abril de 2025

SILÊNCIO MÚTUO.

 



   ( CONTO)

 

    Quanto aos meus pecados, bom, os meus pecados... São tão numerosos quanto a areia da praia. 

     Calma... Eu sei que é exagero, porém, não deixam de ser números.

     Permita-me confidenciar pormenores das minhas aventuras ocultas, na verdade, está mais para desventuras. O meu nome é Angela, basta saber apenas isso a meu respeito. Embora o nome também seja indigno das palavras jogas no papel. Às vezes, os sentimentos mais profundos na sua alma e coração podem causar-lhe terríveis problemas. 

     Digamos que foi o ocorrido com essa que vos escreve. 

      Não me tenha por diferente de ninguém, todos nós humanos dotados de alma, coração e desejo estaremos sujeitos a tais acontecimentos. Houve um tempo de silêncio e encolhimento da minha pessoa em face da própria vida, talvez tenha sido esse o meu erro.

       Será?

       Tudo começou em uma primavera, quase ao final dela, na transição com o verão.

     Naquele tempo o meu esposo trabalhava fora, lutando para ganhar um pouco a mais, contudo, esse pouco era sempre para menos, por isso decidi fazer faxinas, ser diarista, aqui e ali para complementar a minha renda. As contas estavam cada vez mais difíceis de equilibrar, eu quase enlouquecia para quitar todas e não deixar nada para trás.

       Perdoe-me por não revelar nomes.

       Em uma dessas limpezas, na Casa de B, percebi certa... Como vou dizer... Aproximação entre nós, amizade mesmo, até aí tudo bem, contudo, os olhares falam mais do que as palavras, e os olhares dele diziam tudo o que o meu desejava no oculto da alma.

       As limpezas na casa de B ficaram mais frequentes, eu passava o dia quase todo lá. De certo modo era desconfortável, uma vez que B era solteiro, um pouco mais velho do que eu. Ele nunca saia da sua casa quando eu estava lá. B conversava o tempo todo, no início incomodou bastante, atrapalhava o rendimento do meu serviço, depois, fui me acostumando, e também passei a não dar atenção ao que ele falava. Ele sempre tinha que entrar em assuntos relacionado ao sexo, como eu disse, no início eu não gostava, com o decurso do tempo não liguei para mais nada do que ele dizia.

         Saibam que o coração é traiçoeiro, sim e muito traiçoeiro por sinal.

         Foi justamente esse meu coração traiçoeiro que aos poucos guardava em si as palavras de B, suas condições a respeito das "supostas" namoradas, das suas "supostas" aventuras sexuais, B não tinha freios nós lábios, falava como se estivesse conversando com um amigo na mesa de um bar. Esse traiçoeiro coração estava gostando de ouvir suas histórias, afinal, a minha vida sexual com o esposo era um caco, não por culpa dele, minha, eu acho.

         Vou lhes poupar de descrições alongadas e desnecessárias, vamos logo ao ponto que interessa.

         A primeira investida de B, por assim dizer, foi a provocação das palavras. Surtiu efeitos, eu fiquei de certo modo, excitada ouvindo os seus relatos. Eu fingi não deixá-lo perceber todo o meu tesão com suas histórias, todavia, os seios avantajados que tenho ficavam muito... Como vou dizer, bicudos quando ele falava de sexo, eu tentava esconder, não deixar com que B visse, mas, o camarada era insistência pura, queria estar próximo, os seus olhos vez e outra ficavam nos meus peitos bicudos, no meu, belo... Como vou dizer, capo de fusca marcado na calça leg.

           Em um desses momentos, quando então eu limpava o armário de sua cozinha, a porta do armário se desprendeu, algumas vasilhas quase caíram, para não cair totalmente, segurei tudo como pude, chamei B para ajudar. Pronto, era a oportunidade que ele queria, desconfio até hoje desse armário meu solto. Pois bem, ele se posicionou atrás de mim, segurou a porta do armário e algumas vasilhas prestes a cair, ele pediu para mim encaixar a porta no lugar antes que tudo viesse para o chão. Na verdade era ele que se encaixou de tal forma atrás de mim que senti o seu pau se esfregando na minha bunda. De início pensei em xingar B, fiquei um pouco irritada, porém, o maldito tesão já havia tomado o coração e trancafiado a razão. Eu simplesmente deixei. Eu senti aquele pau esfregando-se no meu rabo, senti ele endurecer no meio das minhas nádegas. Nem eu e nem ele falamos nada a respeito. Eu fingia que não estava conseguindo recolocar a porta só para sentir um pouco mais daquele pau na minha bunda.

          Em outra ocasião, quando após a faxina senti uma dor muito desconfortável no ombro, devido à minha tendinite, B se ofereceu para fazer uma massagem. Pronto, lá estava eu cedendo a sua safada oportunidade. Novamente ele se posicionou atrás, bem próximo, começou a massagem, em cima, e, o esfrega vez e outra abaixo, seu pau tocando minha bunda, que tesão senti naquele dia, eu já estava todinha molhada. Cheguei a empinar a bunda ligeiramente para ele encaixar melhor. Novamente, atos em curso diante de nosso silêncio mútuo. Digamos que as massagens eram cada vez mais frequentes após as limpezas. Como eu disse, as loucuras do coração estavam soltas enquanto a razão trancafiada.Tudo acontecia sempre da mesma maneira, esfregando o pau em mim, sem o menor pudor, a coisa ficou tão... Como vou dizer... Descontrolada que eu chegava dar uma rebolada de leve, ele pequenas estocadas. Era visível o volume no seu calção, nem ele e tão pouco eu falávamos nada.

          Em outra dessas massagens, mencionei que um creme ajudaria, eu, safada que só, tinha até levado o tal creme. Havia um probleminha, para passar o creme eu tinha que erguer a camisa ou retirar para ele massagear as costas. Pois foi nesse dia que ergui a camisa, na frente dele, expondo o sutiã. A parte de baixo não tirei. O tesão estava no ar. A minha boceta piscando, melada. Novamente a massagem que aumentou o meu tesão a níveis insuportáveis. Eu empinava ligeiramente a bunda, sentindo aquele pau roçar minha na minha boceta, a racha da minha pepeca sendo massageada pelo seu pau. Senti quando as mãos dele se aproximavam dos seios, uma tentativa de tocá-los, eu não disse nada. A cada tentativa, seus dedos chegavam mais para dentro do sutiã. Não tinha mais para onde correr, de repente, os seus dedos já estavam massageando o bico do meu peito por dentro do sutiã. O seu pau fora da roupa esfregando gostoso a racha da minha boceta. Não tinha nada a fazer. Abaixei a calça, deixei ele esfregar por cima da calcinha. Novamente atitudes e ações de ambos sem nenhuma palavra, silêncio mútuo. A minha calcinha estava toda molhada, baixei a última barreira, empinei bem a bunda exibindo minha boceta e meu cuzinho, quando senti aquele pau grosso e gostoso entrar na minha bucetinha molhadinha. Ele enfiava gostoso, meteu com vontade, eu já havia gozado em seu pau várias vezes. Até que senti o seu jato quente de porra dentro de mim.

           Depois desse dia, sempre após a faxina rolava massagem e sacanagem.

           Até hoje fazemos isso, em pleno silêncio. Meu marido nem desconfia que B, me come e chupa gostoso cada vez que vou lá fazer faxina em sua casa.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

AGONIA E ÊXTASE.

 


    ( Conto erótico)

   

     Era sempre a mesma rotina, trabalho, casa, trabalho, a tirania da labuta dos pequenos afazeres universais. Quando ela chegava em sua casa após um dia exaustivo já era noite, ia logo para o banho, depois o jantar, assistia um pouco e dormia logo em seguida, sempre nessa ordem religiosamente.

    A rotina de sempre.

    Marisa sentia-se solitária, quase não conversava com o esposo, sim, ela era casada. A cada dia o esposo ficava mais ausente. A relação carnal dos dois era um desastre, vez e outra acontecia alguma intimidade, sexo rápido, sem nenhuma novidade, papai e mamãe sem nenhum prazer para ela. O corpo de Marisa pedia mais desejava algo surpreendente, queria prazer de verdade, ter o seu ápice, orgasmos como nunca teve, gozar, gemer, foder, falar palavras torpes. 

     Eram apenas desejos, sonhos, devaneios, anseios esquecidos na penumbra do pensamento.

     O esposo estava longe de lhe proporcionar o que tanto ansiava.

     Entretanto, a sua realidade estava prestes a mudar.  

     Não que o marido fosse realizar as suas fantasias sexuais, definitivamente não foi isso que ocorreu. Marisa começou a trabalhar, o primeiro passo que fez tudo mudar. Marisa era atendente em uma loja de manipulação de medicamentos entre outros produtos para beleza. Trabalhava no período da tarde para noite, chegava em casa sempre depois das onze devido aos vários ônibus que tinha que pegar. O marido tornou-se ainda mais ausente em sua vida, no começo ele reclamou, porém, acostumou-se rapidamente com a rotina da esposa. 

     Marisa era uma mulher de estatura mediana, o corpo esbelto, seios fartos, pele alva, as pernas torneadas, bunda arredondada, uma mulher muito sorridente, perfeitamente simétrica em suas curvas, olhos verdes, quando colocava a roupa de trabalho, toda branca, a calça do uniforme bem apertado valorizando a beleza de suas curvas e perna tão bem desenhadas, bunda toda redondinha, a calcinha pequeníssima marcando a roupa com delicadeza, o sexo devidamente marcado, deliciosamente dividido, todos olhavam com certo desejo para Marisa, ela gostava de usar roupas íntimas bem pequenas, de renda, na clara intenção de provocar olhares alheios.

     Não demorou para ela despertar a atenção e os gracejos do chefe, Ronaldo. Vez e outra ele surgia com um elogio, pequenos presentes, chocolates, convites para almoçar em um restaurante bem próximo do trabalho, no começo ela recusou as investidas, tinha medo de alguém ver e falar, depois de muitos convites, da insistência, passou a aceitar.

     Ronaldo não poupava munições, elogiava Marisa o tempo todo, que, por sua vez, aos poucos, palavra a palavra, cedia aos galanteios do bonito quarentão. Marisa passou a ter sonhos com o chefe, fazia meses que não tinha relações com o marido, ela estava ardendo em desejos, tentando se segurar, quando estava com o chefe, nos momentos em que ele tocava-lhe discretamente na cintura, principalmente quando estavam no restaurante, Marisa sentia sua intimidade umedecer, latejando de desejo por Ronaldo, que, percebendo a fraqueza da colega, convidou-a para um jantar diferente; o tal jantar seria em um sábado, cedido pela empresa a todos os funcionários. 

       Ela aceitou o convite deixando-se iludir que seria um evento com toda equipe. Jantar esse que seu esposo não fez questão de saber quando Marisa lhe contou a respeito.

 

   Chegou o grande dia, sábado, início de tarde.

   Marisa se preparou para o jantar, separou a melhor roupa, um vestido provocante, calcinha minúscula como sempre, o melhor perfume. Enquanto tomava banho, imaginava Ronaldo, chupando com ferocidade sua boceta, como nos filmes pornográficos, depois colocando-a de quatro, penetrando com força sua bunda, gemendo de prazer. Delírio, imaginações, posições… Marisa terminou o banho, trocou-se e foi para o local indicado por Ronaldo. 

     Alguns minutos depois surgiu ele em seu Civic Preto, vidros escuros, ela não perdeu tempo, entrou rapidamente no carro, morrendo de medo de ser vista. Ronaldo seguiu pela avenida Brasil, subindo pela Marechal Tito, virou a primeira esquerda na Vila dos Ingleses. Caminho totalmente contrário ao da empresa, Marisa logo percebeu que não se tratava de um jantar, ela bem que sabia, teve medo no início, sentiu-se ainda mais excitada com as possibilidades daquele passeio, a intimidade encharcada, vez ou outra as mãos de Ronaldo correndo-lhe pelas pernas até subir a altura da calcinha. Marisa permitia-se ser tocada, queria ser tocada, ela tinha medo, porém, o tesão era maior. Não demorou e o Civic Preto adentrou em um conhecido Driving da cidade, que tinha por nome, Mar Azul. Marisa ficou eufórica, com ainda mais medo e tesão do que antes, seu marido nunca a levou em um motel. Enquanto dirigiam para o quarto, na profundezas de seus pensamentos, perguntava-se como havia chegado tão rápido naquela condição, a de trair seu esposo com outro homem sem o menor remorso. Aquela nuvem de pensamentos logo se dissipou quando repentinamente ela foi surpreendida com um beijo de Ronaldo na altura do pescoço, ali mesmo no corredor, em frente ao quarto. 

    Marisa nunca havia sido beijada daquela maneira, ela retribuiu-lhe com avassaladores lábios, cheios de pecado, o batom vermelho, a danação da carne com a carne profana.

   Ele abriu a porta, entrou na frente, ele logo atrás, agarrou-a beijando-lhe o pescoço, enfiando as mãos por dentro da roupa, mordendo levemente a ponta das orelhas, ela, excitada, gemia baixinho de olhos fechados, sentiu logo o volume pressionando no meio da bunda. Ronaldo jogou-a na cama, de costas para ele, arrancando a roupa dela lentamente. Por cima dela, começou o processo beijando-a, ela permitia-se ser possuída, assim também ele o fazia, a ereção pulsante, gigantesca, fazendo seus olhos carregados de safadeza e desejos brilharem. Arrancou-lhe por último a calcinha com os dentes, sua boceta Lisa, latejante, vermelhinha, bunda perfeita, meteu-lhe logo a língua, chupando-a com maestria, como nunca antes foi, não resistindo a penetração da sua língua em sua boceta gozou a primeira vez, era apenas a primeira de muitas. Lentamente Ronaldo introduziu seu sexo duro e grosso na estreita entrada da sua intimidade, ela, ali de quatro para ele, sua bunda perfeitamente arredondada, engolindo Ronaldo, uma discreta pinta na nádega esquerda movendo-se a medida em que era penetrada. A sensação era de como se fosse arrebenta-lá, mas logo a dor excruciante virou prazer extremado, agonia e êxtase no mesmo instante, ela empinava a bunda rebolando em seu sexo duro, gemendo pedindo mais, ele, metia com força, na boceta, no cuzinho apertado. Assim foi por várias horas, nas mais diversas posições… "Fode gostoso vai, fode esse meu cuzinho, goza nele, mete na minha bucetinha", ela dizia repetidas vezes. 

 

    Horas depois, quando Marisa retornou para casa, estava com a buceta ardendo, desejosa de ter outros encontros como aquele. O esposo não percebeu nada, e a noite seguiu seu curso tranquilo. A coisa repetiu-se por várias vezes, em algumas delas Ronaldo gozava em sua boceta, ela, para garantir que nada acontecesse, tomava pílula do dia seguinte para evitar a gravidez.

   Certo dia, sentindo-se enjoada, com tonturas e repetidos vômitos, pediu para o esposo levá-la ao médico, no hospital, qual não foi a surpresa, depois de alguns exames, o médico olhando para o esposo de Marisa lhe disse.

   — Meus parabéns, seu Arnaldo! Você vai ser papai…

   Acontece que... Além de ser estéril, fazia meses em que Arnaldo não tin

ha relações com a esposa.

sábado, 8 de março de 2025

TODA MULHER É UMA FLOR.

 




Você é flor de açucena,

Advinda de reino distante,

Pétala delicada, tão pequena,

Perfumada, tão elegante,

De olhar poderoso, face serena,

Deixastes o meu coração agoniante,

Quando sou apenas esta sombra esquia,

Lá adiante, esquecida, apagada, nua e fria.


Você é tão linda quanto a pulméria,

Glamourosa, toda ornamentada,

Às vezes quieta, por outras séria,

Às vezes extravagante, por outras recatada,

És o rubro sangue a pulsar nessa artéria,

Dentre tantas no Olimpo, a mais veneranda,

Exalando a tua fragrância, teu doce veneno,

Em ardentes beijos em lábio pequeno.


Você é superior ao crisântemo vermelho,

Em cada pequeno detalhe é majestosa,

Diante de ti eu me ajoelho,

És tão única, incomparável, poderosa,

O reflexo delirante em meu espelho,

Flor de meus sonhos juvenis, tão generosa,

A tua delicada pétala, em nada assemelho,

Enlouquecido está o meu fraco coração, 

Devorado pelo fogo consumidor da paixão.


Você, minha dália rara,

De cor única, sem igual,

Em nada se compara,

Flor magnânima, especial,

De majestade se adornara,

Divino ser de toque angelical, 

Diante de ti, quem eu sou?

De meu seio, o que restou?


Você, orquídea de fragrância adorável,

Derramando sua majestade por onde passa,

De cores ímpares e de beleza inigualável, 

Neste seio moribundo a dor de amar me laça,

Pareço não ter forças, o amor é um mal incurável,

De seus laços não há quem se desfaça,

O meu coração rapidamente enlouqueceu,

Diante de seus olhos se perdeu.


Você, adorável túlipa de pétalas reluzentes,

Habitante soberana do jardim primavera,

De olhares altivos, em nada benevolentes,

Tendo em teus domínios tudo quanto pudera,

Embora ainda que estejamos ausentes,

Restou-lhe o assombro de nossas quimeras,

De dominadores somos agora dominados,

De amores por ti, morreremos todos condenados.


Você, minha alva magnólia oriental,

Símbolo da pureza e da perfeição,

És única em estatura descomunal,

Trazendo alívio para este desesperado coração,

Vê, já não basta este mundo tão desigual,

Vê, elas já não são coroas brilhantes da criação,

Erga-te, ô gigante, entre nuvens e vá sonhar,

Eleva-te, ô gigante, onde ninguém possa te alcançar.


Você, magnânima rosa de meu sonho,

Exibindo tua rubra pétala exuberante,

Ao olhar cobiçoso, às vezes tão medonho,

De um amor desajustado e abundante,

Em versos tortos, em dizer tristonho,

De um poeta solitário, louco e errante,

O que será da minha pena e deste meu verso,

Neste vago e vasto inquieto universo.


Você, calêndula reluzente,

De pétala tão delicada,

Flor única, diferente,

De majestade adornada.

Ao toque alheio indecente,

Pétala por pétala arrancada, 

Diga-me, se bem-me-quer,

Diga-me, se mal-me-quer.


Você, majestosa lótus de puro amor,

De mil desejos e encantos infinitos,

Com este teu olhar abrasador,

Ardente e cheio de delitos,

Atende ao meu incessante clamor,

Resolva todos os meus 

conflitos,

Pois é o teu cálice que tanto desejo,

O teu toque incandescente de teu beijo.

domingo, 24 de novembro de 2024

PROSA POÉTICA.

 




   CHORE UM POUCO MAIS, NOBRE POETA.


   Canta o amor, solitário poeta, o sentimento que te move, que surge, comove e te transforma. Canta em voz alta toda essa dor. Canta os versos da liberdade, o amor que é reescrito, centrado, canta as tuas muitas vivências e os dias de angústia suprema. Ainda que seja a última vez, que sejam derradeiras as suas palavras, do dizer nunca antes dito. Quem lê que entenda o quanto doi, compreenda quem é que se esconde, se oculta fugitivo em cada estrofe.

   Canta a sua dor solitário poeta, a dor de ter amado tanto, de ter devotado tamanho sentimento e perceber que não valeu de nada. Hoje os teus escritos são de agonia, versos riscados à beira do abismo, prontos a cair no esquecimento, quem nessa vida os lerá? Joga-os aos quatro ventos, ao sabor das estações e talvez alguém os encontre. Coloque-os em uma garrafa, atira-os ao sabor de novas marés e talvez algum náufrago os reencontre.

   Já se faz alta a noite, de muitas estrelas brilhantes estendidas no firmamento a luz de desatento luar. O poeta a tudo contempla, do alto da janela solidão ele tudo contempla, ele vê os sentimentos desnudos passeando soltos no peito. Quem é ela, poeta? Revela-nos o seu nome e onde habitas tal amor? Quem é essa que te enlouqueceu? Que faz teu coração parar quando ela surgiu, por favor, revela-nos, quem é ela?

   Amanheceu e nada mudou, o sol está se levantando lentamente enquanto pássaros estão cantando na copa das árvores, homens e mulheres passando desavisados. Faces fechadas, sisudas, indiferentes, outros acenam sem querer respostas, corações pesados, almas cansadas, sentimentos fervilhando por dentro. Somos observadores da vida alheia de papel e caneta nas mãos, derramando versos na folha em branco. Procuras por ela em cada rosto que passa, às vezes, algumas enganam o teu olhar, então, pensas nela, enganoso coração apaixonado é o teu, nobre poeta.

   Canta as tuas quimeras, nobre poeta, os medos ocultos no coração, os teus muitíssimos desejos proibidos e aquartelados no calabouço da alma. Se derrame em cada estrofe, nobre poeta, enlouquecendo em cada verso, delirante em cada palavra, desvario completo em cada poema. Tornastes o que não querias, encontrando o que não procuravas, vivenciando todas as outras vidas. Enquanto isso, a tua vida ficou esquecida, lutastes tanto por tantos amores e sobrou-te apenas o barco da solidão nesse imenso oceano.

   Aquele teu desejo oculto acorrentado no peito, desejo nunca compreendido, flagelando o aedo seio. Quem é ela, nobre poeta? Revela-nos o seu nome, quem é que te atormenta, te faz perder o sono todas as noites. Tantos foram os versos riscados, feitos e refeitos na tábua do coração, versos de um amor inalcançável. Os sentimentos desnudos, cambaleantes diante dos olhos, quem os poderá compreender?

   Canta uma vez mais, nobre poeta, ainda que teu mundo seja ilusão, ainda que tuas quimeras pareçam reais, ainda que teus devaneios o assombre. Canta pela última vez, nobre poeta, sacie a tua alma com os teus pensamentos, transforme-os em doces palavras, sejam os versos teu porto seguro. Entenda, nobre aedo das palavras, ela nunca terá olhos para você, em nenhuma das existência do cosmo, aliás. Ainda persiste nesse louco amor? Escrevendo dia após dia e noite após noite tua infinita dor em amar tanto?

   Certamente você enlouqueceu.

   Amar tornou-se uma luta, interna, externa e infinita, uma busca pelo inalcançável. É uma quase desistência o tempo todo. Você a vê todos os dias, nobre poeta, ela está diante da janela da tua alma, os olhos brilhantes, a face formosa, o sorriso desconcertante e enlouquecedor. O teu coração arrebenta-se no peito, falta-lhe uma porção do ar, pernas e mãos ficam trêmulas. Basta um olhar, nobre poeta, basta o timbre da voz e um simples aceno, uma ou duas palavras e o seu mundo vira de cabeça para baixo.

   Ela, sempre ela, nobre poeta, desfilando sua bela juventude e suas curvas delirantes. Por onde ela passa é admirada, enfeitiçando outros olhos inocentes e desprotegidos. É sempre ela, nobre poeta, oferecendo graciosos sorrisos, a sonoridade da voz de anjo lêdo, quem, afinal, poderia resistir tal encanto. Sei o quanto você sofre, caríssimo poeta da solidão, todos esses sentimentos aí dentro, corroendo a tua alma e coração. Talvez um dia ela te perceba e note o teu desesperado amor e valorize cada verso do teu sofrer.

   Canta uma última vez, nobre poeta, chore um pouco mais, escreva os versos derradeiros, jogue-os ao sabor do vento. A tua canção não será esquecida, alguém a lerá em algum momento, perceberá o quanto você amou, em cada palavra e em cada poema. Laça os teus versos ao mar, deixe-os ao sabor das marés e que sejam navegantes solitários. Um último pedido que te faço, nobre poeta, revela-me em segredo o nome dela, de quem é a face do teu tormento.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

 






    As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do próprio reino. 

    Nos recônditos do palácio começava um diálogo incomum entre a memória e o coração, no mais profundo do pensamento humano, no âmago quase inimaginável e inabitável da incompreensibilidade do complexo intelecto do eu.

   — Sim! É ela, e isso é inacreditável! É o beija-flor! Sim, aquela mesma de outrora, ela veio ao nosso castelo desfilando toda a sua beleza, com grande esplendor e formosura que lhe cabe, como das vezes anteriores, pousou na janela da alma sem a percebermos, devedoras é espantoso.

   — O que fizeste a respeito, nobre senhor? O que se diz em todo o reino é que ela não aparece já há muitas primaveras, e a propósito, se realmente o que dissestes for verdade, qual o motivo que a trouxe novamente para os nossos domínios, e, principalmente! Como pode tal façanha sem que eu não a tenhamos notado? Uma vez que nada me escapa...

   — Caríssimo amigo, essa história não está muito bem contada, existem algumas variáveis não consideradas nessa complicada equação de sentimentos nus ...

   — O que não está muito bem contado nesse, como você mesmo disse, equação de sentimentos nus? Está mais para um mosaico de sentimentos nus. Escondes algo de mim nobre senhor? Justo eu. E que variáveis são essas dos sentimentos nus no seio das vontades e desejos humanos?

    — Perdoe-me amigo… Perdoe por não ter lhe contado tudo antes.

   — Como podes fazer tal! O que escondes de tão valioso deste que a tanto lhe serve?

   — É o beija-flor... Não o reconhece? Aquela mesma de outrora, lembra-te? Frequentemente ela aparece no domínio da torre, aos olhares dos súditos do castelo, tão desavisados, e do próprio rei que é o meu pai - ela é apenas uma ave voando desavisada nos entornos do castelo, pousando aqui e acolá. Essa ave tão ligeira, é, e sempre será ave, não se engane quanto a isso. Difícil explicar eu sei, um dia você vai entender.

   — Escondestes de mim esse segredo muitíssimo bem, justamente eu, o seu súdito mais leal, como podes?

   — Ainda acreditas em mim?

   — Jamais duvidei de ti meu príncipe, jamais... Tu sabes disso, desde tenra idade sempre acreditei em cada uma das tuas histórias e as guardei a sete chaves, agora que és príncipe, eu continuo a acreditar ainda mais, embora, eu seja o único a crer nestes domínios.

   — Eu sei meu amigo… Eu sei... Mas tudo tem o tempo certo, em breve lhe explico tudo quanto aconteceu.

   — Por favor, meu jovem príncipe! Conte-me o que aconteceu, conte-me agora mesmo?

   — Tudo bem… Tudo bem, eu lhe conto.

   — Obrigado jovem príncipe, muitíssimo obrigado.

   — Era novembro, eu bem me lembro, o jardim banhado em ondas de luz rodopiantes, o luar prateado por sobre a mata densa, os seres da noite fazendo serenata. Eu bem me lembro daquele olhar reluzente e fugitivo, daqueles toques quentes despertando paixão, do som daqueles lábios na pronúncia de cada palavra. Eu bem me lembro daquele nosso último novembro, quando o rei então nos flagrou no primeiro beijo. Proibiu-me de vê-la enquanto vivesse e aprisionou-me na torre deste peito. Foi então, caro amigo memória, que as fadas do reino encantado, a meu pedido, movidas por compaixão ao ver meu sofrimento por esse amor tão impossível, com poderosa magia, em beija-flor a transformou. Vê, essa ave tão alegre, na verdade é ela, sempre foi o meu único e grande amor impossível.

   — Santo Deus! Então esse é o verdadeiro ocorrido… Pensávamos que ela tivesse sido levada pelos ladrões do reino esquecimento ou coisa semelhante. Nunca mais a vimos, o reino do esquecimento é completamente inacessível para nós, pensávamos que ela estivesse por lá.

   — Para todos os efeitos, amigo memória, ela foi levada, contudo, peço-te, fiel companheiro, que guardes este meu segredo enquanto vivermos. Não o reveles a ninguém, principalmente a razão, sempre contraditória ao que eu tanto desejo, sempre fazendo oposição a tudo que entendo por agradável, nunca na história desse reino concordamos em alguma questão.

   — Eu prometo que vou guardar esse segredo com a minha própria vida, ele estará salvo com a memória em seus recônditos mais ocultos, somente tu terás acesso.

   — Obrigado amigo, pode se retirar, desejo ficar à sós.

   — Sim nobre coração, como desejares, este teu amigo memória estará sempre à disposição para lhe ajudar no que for.

   — Os dias são ruins, caríssimo amigo coração, e como todos os outros, nada tenho a fazer do que observar tudo em silêncio. Os pensamentos do coração são como o vento, como a brisa que sopra vindo do norte, ou uma sombra passageira. O beija-flor, o meu beija-flor, o meu único e grande amor, aquele mesmo de outrora, de todas as minhas primaveras, ainda não sabe de todos os motivos que me levou ao cárcere dentro de mim mesmo, pretendo, se possível for, jamais revelar tal segredo. Enquanto isso, a solidão me cabe perfeitamente na companhia deste peito. Podes sair agora amigo...

   — Como quiser.

   O castelo forte fechou as janelas da alma, passou as mãos sobre os cabelos, coçou a cabeça, não compreendo os mistérios que passavam dentro do reino oculto de seu próprio eu. 

    Observou uma vez mais a visão daquela noite, saiu cabisbaixo sem dizer uma única palavra, porém, escondendo todas as impressões que teve da moça que há tanto conhecia e a muito amava, ela, fugitiva noite adentro, ele, fugitivo dos próprios sentimentos noite afora, dentro de si, o mosaico de sentimentos nus.


FRAGMENTOS DO LIVRO. RABISCOS POÉTICOS.

     JANEIRO.    Entramos no ano de dois mil e vinte e cinco, figuram as primeiras horas deste novo tempo, pessoas comemoram, cantam, bebem,...