sábado, 29 de agosto de 2026

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

 

    


   Conto...

   Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vassoura na parede e a pá de plástico ficou caída ao lado, a dor de cabeça e o desconforto eram agoniantes.

   Mirela colocou as duas mãos cobrindo a face, os cabelos longos derramava-se por entre os dedos e ombros, ela sentiu os seus batimentos cardíacos aumentarem, o desconforto na nuca apertando gradativamente e causando grande agonia e até ânsia de vômito.

    Não era a primeira crise naquela semana.

    Ela sabia que a pressão arterial estava muito alterada, evitou fazer a medição minutos antes, sabendo que o desconforto não passaria tomou o remédio que seu médico receitou, agora era esperar ele fazer efeito. Perto de completar o quadragésimo primeiro aniversário, angustiou-se por já estar fazendo uso de medicamentos que para ela eram inconcebíveis. Mirela comparava-se com as amigas na mesma idade, saudáveis, desfrutando do conforto de poder treinar em boas academias, mulheres com corpos invejáveis, enquanto ela estava naquela situação em que julgava-se deplorável.

   A rua estava deserta naquela manhã de sexta-feira, o esposo havia saído para trabalhar e retornaria somente no final de tarde, era apenas ela, com sua dor, a solidão de todos os dias e sua insatisfação com a própria vida. 

    Vãs imaginações e pensamentos imperfeitos no espectro da mente.

    Mirela observava as pessoas que passavam vagarosas pela calçada, sorrisos largos, conversas animadas, um universo que parecia funcionar diferente de seu mundo caótico no lado de dentro de seu portão. Tomada por um impulso repentino, levantou-se quase em um pulo, pegou a vassoura e começou a varrer cada canto da garagem, lentamente, repetiu o processo duas vezes, juntou toda sujeira em uma sacolinha e a deixou no canto do portão. Antes de voltar para dentro de casa, olhou para a rua novamente, figuravam apenas um e outro transeunte desavisado, os olhos miravam o nada, porém, olhando na verdade para dentro da própria alma em fogo ardente. Os pensamentos involuntários, indesejáveis, talvez o resultado dos hormônios à flor da pele naquela semana, os desejos não supridos que atormentava-lhe a carne, a ausência íntima pesava cada vez mais.

    Eram os fantasmas do passado voltando, quimeras terríveis e assustadoras vieram atormentá-la, em sonhos durante a noite e em imaginações no decurso de seu dia. Mirela não tinha mais controle de si mesma nem dos próprios pensamentos. Enquanto a confusão de sentimentos a corroía de dentro para fora, queimando-lhe a carne em um fogo que não se pode ver fazendo-a lutar contra as suas vontades mais secretas, ela bem que tentava distrair a sua mente em seus pequenos afazeres universais domésticos. A tentativa era falha, ainda que ela mentisse para si dizendo que não. O seu corpo gritava em silêncio enquanto ela ignorava os uivos intensos da sexualidade reprimida, as vontades, necessidades de mulher não devidamente satisfeitas.

    O esposo, alheio aos próprios cuidados pessoais, estava longe de se atentar aos da esposa, que por sua vez, secretamente, durante os banhos avançava lentamente em descobrir os prazeres que as mãos lhe poderia proporcionar. Entretanto, nas últimas semanas, tal dinâmica não estava sendo suficiente, assim como os vídeos indecentes também não estavam.

     As horas avançavam lentamente, era preciso cuidar do almoço, terminar de lavar as roupas, arrumar a casa, ir ao mercado, enfim, a lista parecia infinita, o trabalho doméstico parecia nunca ter fim. Mirela pegou a vassoura e pá, deu uma última olhada para a rua, retomou para dentro de casa.

   Enquanto cortava os legumes e preparava o feijão para o almoço, novamente os pensamentos, lembranças, as conversas com o amigo.

   Alguns meses atrás, vasculhando de forma aleatória o seu Facebook, encontrou um velho amigo nas sugestões de amizades, mandou-lhe um convite, sem um retorno imediato. Dias depois o convite foi aceito, conversas se iniciaram pelo messenger, aquele não era qualquer amigo, o passado escondia segredos, ela tentou livrar-se deles, mas, os segredos sempre voltam à superfície da vida em algum momento.

      Mirela pegou o celular novamente, enquanto procurava um vídeo aleatório no YouTube para distrair, veio a notificação do messenger... Era mensagem dele, o amigo.

           

" Olá gatona, bom dia"


    Ela não respondeu de imediato, lembranças vieram em seus pensamentos, o passado sombrio sempre volta de alguma forma quando não devidamente resolvido.

    Houve uma época na vida de Mirela, semelhante ao momento presente, onde os desacertos e discussões com o parceiro havia criado uma barreira entre eles. Cada vez mais distantes intimamente um do outro, Mirela via-se em terríveis apuros com sua líbido aflorada e não satisfeita. Foi por causa desses desencontros com o marido que ela reencontrou o amigo, no face, messenger. As trocas de mensagens ficaram contínuas, e o contínuo mais íntimo, conversas e fotos indevidas de ambos, enfim, era o abismo diante dela, até ao ponto do peso de sua consciência lhe esbofetear, fazê-la voltar a razão. Lágrimas, meias confissões, decepção e perdão. Ela o bloqueou naquele tempo, jurou nunca mais procurá-lo. Porém, o tempo é um brilhante e carrasco jogador, nada lhe escapa.

     Dedos no teclado, a vontade de responder imediatamente, o corpo respondendo sem o seu controle. A razão dizendo não, o coração desejoso em continuar.


"Bom dia" 

Seguido de um emoji de coração.


       Era tarde demais para voltar atrás, ela estava ciente do que estava fazendo, não era uma traição, apenas uma conversa com o amigo, afinal, o que tem de mais em uma conversa qualquer, pensou. Ambos são comprometidos, não havia nada de errado. 

       Enquanto ela se perdia nesses pensamentos involuntários, aguardava com certa ansiedade a resposta do amigo. A demora aumentando sua ansiedade. Mirela relutante deixou o celular na mesa da cozinha enquanto continuava o almoço. As horas eram fugitivas, se não corresse tudo atrasaria. Apressou-se para terminar o almoço o quanto antes, durante a tarefa, novamente o som de notificação do celular, "deve ser ele", ela pensou pegando o celular novamente, uma ponta de decepção em seu rosto ao ver que era apenas um e-mail qualquer. O dia seguiu o seu curso, entre uma tarefa e outra, o celular ficava ao lado, cada notificação, o coração palpitava, ela corria para ver se era mensagem do amigo, novamente a decepção seguidas vezes. 

      O início de tarde ganhou os céus em tons cinzas e nuvens pesadas, não demoraria muito para o esposo retornar do trabalho, Mirela estava atrasada nos seus afazeres, precavida, antes que o marido cruzasse o umbral da porta era necessário silenciar todas as notificações, uma cautela urgente para evitar qualquer desconfiança dele.


" Bom dia. Estou muito ocupada por aqui, depois conversamos"


          A resposta veio imediatamente, como se ele estivesse apenas aguardando.


" Tudo bem, vou ficar esperando, te envio outra mensagem depois".


         O amigo era esperto, sabia os horários certos de mandar mensagem, conhecendo o momento oportuno em que o esposo de Mirela não estaria em casa.

         O coração estava acelerado, uma mistura estranha de sentimentos, medo, angústia, prazer e satisfação. Mirela sentia seu corpo responder de imediato, a vontade de se tocar, de extravasar, porém, era preciso tomar o controle do corpo enquanto ainda era possível. Aproveitando que o remédio de pressão estava fazendo efeito, a dor de cabeça e aperto na nunca havia passado, ela aproveitou para cuidar dos afazeres mais pesados da casa. 

          A tirania do relógio era implacável.

         Enquanto o feijão estava na pressão, deixou o arroz na panela elétrica, a mistura seria feita depois. Aproveitou para varrer a parte de cima da casa, o silêncio do dia era muito estranho, refletindo as suas vozes interiores, revelando segredos que a alma esconde. Enquanto varria cada quarto, lembranças vieram ao pensamento, recordações das mensagens antigas do amigo, naquela época tudo começou inocentemente, sem segundas intenções, no entanto, a situação contribuiu para cuidar do curso das mensagens mais ousadas, perguntas indecentes, que, aos poucos eram respondidas na mesma medida. Lembrar de tudo era doloroso, inadequado, porém, novamente a vida e os problemas a empurravam ladeira abaixo, sabendo disso, Mirela resistia. Decidiu não responder o amigo naquele dia, se afogaria nos trabalhos domésticos até quase não se aguentar de cansaço, ocupando a mente o máximo possível. Terminado de varrer a casa, pegou o balde com produtos e água, lavaria os banheiros de cima, antes, desligou o feijão, o arroz já estava pronto, faltava a mistura. Para não ter que parar novamente, fritou os bifes rapidamente. Tudo pronto e alinhado. Mirela não quis perder tempo, lutava contra os seus pensamentos, contra as vontades do seu corpo, era difícil resistir, para disfarçar a intensidade de seus hormônios, decidiu limpar o quanto antes a parte de cima da casa, subiu com baldes e toda parafernália para terminar a limpeza da casa, era necessário fazer o que tinha a se fazer.

      A rua estava movimentada, já precipitando o final da tarde, o barulho típico de carros, motos, buzinas, as escolas que ficavam próximo da sua casa eram responsáveis pelo alvoroço.

     O serviço de limpeza estava pronto, quanto ao almoço já com ares de jantar, era somente esquentar e comer, a fome começava apertar naquele momento. Os pensamentos continuavam tumultuosos, nebulosos, indecentes de certa maneira. Mirela não se contendo, buscou no celular alívio em vídeos proibidos, imaginando-se naquelas posições, era como se fosse ela sendo acariciada por dedos ágeis e línguas ferozes. Fechou os olhos, começou a tocar-se, quando então um buzinaço a devolveu a realidade do dia. As mensagens do amigo já haviam sido visualizadas, respondidas, era um passo que ela sentia ser errado, indevido, porém, naquele momento da vida ela não estava se importando muito com o que poderia acontecer, ainda sim, o senso de prudência ainda prevalecia.

       Guardado todos os utensílios de limpeza, era o momento de cuidar de outros afazeres, esquentar o arroz e feijão, fazer uma salada simples, fazer um suco natural, aproveitaria para deixá-los adiantados para o jantar do esposo.

    Preparou tudo rapidamente, pegou o sal e outros temperos, cúrcuma, pimenta, limão, juntou uma pitada de cada coisa, era uma mistura estranha que revelava ao final uma gama única de sabores. Fritou outros dois bifes deixando-os um pouco fora do ponto ideal, Mirela gostava de sentir o suco da carne, o esposo também.

     Mirela estava inquieta, buscando ocupar-se dentro de casa sem encontrar exatamente o que deveria fazer, tudo parecia vago, não preenchia o vazio em si. Por um momento ficou com o celular nas mãos, olhando as mensagens do amigo, um fogo interior a queimava, deveria ou não respondê-lo, se o fizesse, seria a confirmação, ainda que oculta, de sua traição.

      Mirela digladiavam consigo mesma.entre um afazer e outro que arrumava para distrair a mente, logo via-se com o celular em mãos, o coração aflito, o medo misturado ao prazer do que é proibido. As horas avançam, ela só se deu conta do tempo fugitivo quando o sol já declinava no horizonte, logo mais o esposo estaria de volta, cansado, com fome, cheio de histórias do trabalho, chateações infinitas.

    Temendo ser flagrada pelo esposo, apagou as mensagens do amigo depois de algumas respostas e considerações sobre o como e o quando. Nem bem terminou o procedimento no aparelho, ouviu o cadeado do portão da garagem ranger, era Nicanor que estava chegando do trabalho.

      Era hora de esquentar a janta enquanto o esposo tomava banho, como de costume, ele primeiro beijava Mirela, um selinho descuidado e sem o mínimo de paixão, depois de desfazer a bolsa, tirar a marmita para lavar, a garrafa de água, sentava-se à mesa da cozinha e despejava uma enxurrada de histórias e reclamações do seu trabalho no supermercado. Reclamava dos clientes, de tudo e todos. Somente depois seguia para o banheiro. Mirela já havia se acostumado a escutar sem ouvir, responder automaticamente sem adentrar nos assuntos. A mente e coração estavam em outro lugar, porém, toda cautela era pouco, embora desatento, o esposo poderia perceber seu distanciamento.

        O final de tarde foi dando lugar a noite, os pensamentos dando espaço para fantasias, enquanto o silêncio do quarto era palco de planos teimosos e inquietantes na órbita de um coração a cada dia mais degenerado em mensagens não devidas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SEGREDOS.

 



   CONTO.



    Manhã calma e silenciosa...

    Figuravam ainda as primeiras horas do primeiro dia da semana, o sol riscava o horizonte com os seus raios primeiros, tons de vermelho e laranja se espalhando no céu à medida que o escuro véu dava lugar ao astro do dia. Fragmentos dispersos de nuvens eram pinceladas com tons quentes, coloridos e alegres, pássaros controlavam harmoniosamente em algum lugar do lado de fora da casa, era possível ouvi-los, porém, difícil de dizer se estavam no telhado ou em alguma árvore. Uma brisa suave banhada de luz atravessava a fresta da janela semi aberta. Karol dormia profundamente, espalhada na cama, cobertores embolados em seu jovem corpo nu, dormir despida era hábito, estranho, e novo, embora desaprovado para a mãe, agradabilíssimo para ela, que experimentava uma sensação de liberdade completa. 

    O som estridente do despertador a fez pular da cama tamanho foi o susto que levou. Seis horas em ponto, a tirania do relógio era aplicada marcando em ponteiros desiguais o momento que denotava o início de uma rotina, terrivelmente odiosa. Olhou-se no espelho pendurado ao lado da porta do quarto, o corpo nu, os seios empinados, a cintura fina, o sexo devidamente depilado, pernas torneadas, ela era uma bela mulher. Por um momento, um instante apenas, a pequena pausa entre o tic e o tac da terrível tirania do relógio, imaginou-se livre como os pássaros cantarolando alegremente na rua. Bastou a estridente buzina de um veículo para ela sair daquele transe incomum, novamente de retorno a sua realidade de vida. Karol sabia que as horas eram contrárias, se não apressasse atrasaria novamente, seria o segundo no mesmo mês, para ela, algo imperdoável.

    Levantou-se lentamente, espreguiçando, esticando os braços, bocejando, o sol iluminando a manhã de domingo, abençoado silêncio embalando o sono de muitos. O seu desejo era de continuar na cama até o horário do almoço, assim como a maioria de seus conhecidos que trabalhavam em fábricas, desfrutando de turnos normais e folgas nos finais de semana. 

    Calçou os pés, foi até sua cômoda, pegou a primeira calcinha que viu, vermelha, pequena, de rendas, vestiu-se, pegou também sutiã combinando, calças, camisa. Foi até o banheiro, água gelada no rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos, perfumou-se, ficou por uns segundos encarando sua imagem no espelho, todos admiravam sua beleza, porém, ela não conseguia enxergar e nem entender que beleza era essa que as pessoas tanto falam.

    Ainda havia o café a ser feito, morar sozinha foi decisão dela, a mãe reprovou a atitude da filha, se o pai fosse vivo certamente não permitiria que ela saísse de casa. Pegou bolsa, crachá, olhou-o por uns minutos, a foto, o nome. Naquele mês completaria cinco anos de empresa, cinco longos anos trabalhando em um supermercado. Fez de tudo, atendente no balcão da padaria, reposição, açougue, até parar no caixa, onde estacionou, não que gostasse, porém, por estar cansada de tanta mudança, achou confortável a nova função. Arrumou a cama, guardou os cobertores, foi direto para cozinha, pegou a cafeteira italiana, presente da tia, mediu o café, acrescentou o açúcar, colocou no fogo, enquanto não ficava pronto, pegou o pão puma no armário e margarina na geladeira, seria esse o seu café, era sempre esse o cardápio, há tempos não mudava, não pelo fato de gostar de rotinas, era mais pela falta de vontade de querer qualquer coisa nova e diferente.

    Tomou o café rapidamente, não queria perder o horário, teria que caminhar pelo menos dez minutos até o terminal Itavuvu, local onde pegaria o ônibus para o centro da cidade. Antes de sair de casa, conferiu novamente portas e janelas se estavam fechadas, repetiu novamente tudo pelo menos duas vezes, era sempre essa dinâmica todos os dias. A rua Darcy Landuffo estava movimentada naquela hora da manhã, alunos apressados por chegarem no horário, carros, motos, buzinas estridentes. Karol saiu a passos largos pela calçada, sem prestar atenção em ninguém, não percebeu Dona Dita acenar da garagem, nem os olhares cobiçosos de seu José.

    A passos largos, seguiu reto pela Darci, a rua extensa, movimenta naquela hora do dia, transeuntes apressados, outros, apenas bisbilhotando na calçada. A oficina de motos de seu Carlos, a loja de roupas da Carmen, a padaria Bruna, cada um disputando espaço e clientes, a movimentação costumeira de todos os dias.

    Os pensamentos tumultuados, a lembrança do trabalho não era agradável, clientes exageradamente chatos, mostrando o que não é, arrogantes na maioria das vezes. Havia também àqueles, homens safados, que sempre tinham alguma piada de segundas intenções, os olhares cobiçosos em seus seios empinados, nem ao menos disfarçavam.

    Logo ganhou a avenida Itavuvu, um pouco mais e estaria no terminal próximo ao shopping, o movimento não era tão intenso naquela hora, como de costume em todos os domingos. Karol parou em frente ao semáforo, embora sem movimento de carros, ela preferiu não atravessar, cuidado nunca era demais, ela que perdeu um primo em acidente no trânsito, sabia bem do risco que era atravessar antes do sinal fechar. Ao seu lado parou uma moça, de estatura mediana, cabelos lisos, rosto delicado, nariz afinado, os lábios grandes, carnudos e cheios. O corpo atlético, talvez uma daquelas moças que passa o dia na academia. A calça clara, apertadíssima, revelando coxas torneadas, um bumbum de dar inveja. Karol tentava disfarçar o seu interesse, não queria que a moça percebesse o seu deslumbramento. O corpo feminino a excitava, ela nunca revelou para ninguém sua sexualidade contrária, se a mãe soubesse que ela gostava de mulheres teria um ataque do coração. O sinal abriu, ela esperou a moça tomar a frente, Karol queria observá-la melhor, se perdendo nas curvas delirantes da moça, que tão rapidamente já estava dentro do terminal no meio da multidão. Karol a perdeu de vista. Não demorou muito e o seu ônibus chegou, T140, vitória régia sentido centro. Para o seu desespero não veio o ônibus articulado, era o pequeno, lotado, sem lugar para se sentar. Terrível condição de que não tem escolha, de quem tem que enfrentar lotação e apertos todos os dias, na ida e no retorno do trabalho.

    Ônibus completamente lotado, era esse ou esperar por outro ainda mais apertado, Karol não teve escolha, entrou no meio da muvuca de corpos, espremendo-se aqui, acotovelando-se ali, até encontrar um lugar, a maioria eram trabalhadores dos comércios da cidade. Valentes guerreiros enfrentando a tão odiosa quanto necessária escala de seis por um. Uma boa parcela das pessoas que disputavam um lugarzinho no coletivo eram mulheres, Karol não se importava se ficasse espremida entre uma e outra, até gostava de sentir os corpos esfregando-se no seu.

    O trajeto até o centro da cidade onde fica o ponto final, terminal Santo Antônio, era coisa de pelo menos vinte minutos. Uma vez no terminal, teria que esperar pelo ônibus para Vila Jardini, no plataforma G, coisa de dez minutos de espera até o trabalho, mais dez minutos e estaria no seu destino. Essa era a sua rotina de todos os dias, odiosa e também necessária, sair era o objetivo, conseguir, quase impossível. Karol estava bem de frente de uma das saídas laterais do ônibus, a sua frente estava uma mulher de meia idade, já nas suas costas, outra mulher jovem, alta, cabelos longos, lisos, vermelhos. A cada terminal o ônibus enchia um pouco mais, assim, Karol foi comprimida em um sanduíche humano. Nas suas costas seios fartos se esfregando, o que a deixou em um agradável e gostoso desconforto. Talvez a moça atrás dela também tivesse necessidades e gostos diferentes, assim como ela tinha. Talvez essa moça seja uma operadora de caixa frustrada como ela era. Karol começou a fantasiar com a vida dessa personagem silenciosa e misteriosa. Quanto à mulher de meia idade à sua frente, conseguiu desvencilhar de Karol, possivelmente incomodada com o esfregar de seios as suas costas.

   Finalmente o ônibus chegou em seu destino, terminal vazio naquela manhã desagradável de domingo. Aquela não era uma manhã prazerosa, tal como das amigas, trabalhando em fábricas, tendo folga aos sábados e domingo, podendo ir às festas, casa de parentes, ou mesmo ficar em casa sem nada para fazer. Enquanto isso, lá estava ela, a caminho do trabalho, seu ganha pão, o seu martírio diário, ter que sorrir sem ter vontade, ser cordial quando não quer, agradar pessoas ignorantes quanto a vontade é de estrangular. Os pensamentos revoltosos, lembranças desagradáveis de momentos que deixou escapar por entre os dedos, oportunidades de empregos, amores e sexo dentro do que ela queria. Tudo passou sem que ela aproveitasse, tais recordações a deixou ainda mais depressiva. Uma sensação de incapacidade, de impotência diante do mundo a sua volta. Karol duvidava de si mesma, de quem era, de sua identidade. A dor dentro do peito a corrói tal como cupim destrói um pedaço de madeira de dentro para fora. Assim era ela, um belo espetáculo, bonita por fora e destruída por dentro. A passos curtos foi ao banheiro feminino, vazio naquele momento, depois se direcionou para a plataforma G para esperar pelo ônibus. Uma vez de pé, na fila que se formava de outros escravos do sistema, não demorou para chegar o coletivo. Logo mais, coisa de vinte minutos, estaria em sua moderna senzala.

    O ônibus saiu poucos minutos depois do horário normal, considerando o trajeto diferente em dias de domingo, Karol chegaria ao trabalho quase em atraso, o que em outros tempos era motivo de terrível angústia, agora não importava mais. Muitas coisas deixaram de ser importantes, de ter prioridade. Karol começava a olhar mais para si mesma, suas vontades, o seu bem estar. Era isso ou ela afundaria no oceano dos próprios sentimentos e angústias. Ela sentia que estava na hora de mudar algumas coisas, novas atitudes, assumir o que realmente era sem ter medo do que ou outros pensam.

    Não demorou para ela chegar ao trabalho, a mesma atmosfera de sempre, faces cerradas das amigas, sorrisos falsos de umas, tapinha nas costas de outras, tudo não passava de um teatro, pelas costas eram as mesmas reclamações e até xingamentos. O turno de trabalho começou tranquilo, movimento de sempre, nos momentos de calma quando os caixas estavam livres, Karol aproveitava para ajudar na organização de algum dos corredores, o preferido dela era o corredor que Marisa era a responsável. Jovem, de beleza exuberante, o corpo de dar inveja, há tempos Karol se encantou com a beleza da jovem, tornando-se grandes amigas, no entanto, em uma conversa das duas semanas atrás, tudo mudou de perspectiva quando ela revelou para Karol que gostava de mulheres, sem saber que sua ouvinte também partilhava de igual sentimentos. Karol começava a entender que a aproximação das duas não era apenas capricho do destino, porém, um recíproco sentimento. Os olhares cobiçosos de ambas, os elogios recorrentes, o fato de sempre saírem no horário do almoço para tomarem sorvete, havia nas pequenas atitudes algo muito maior do que a amizade, um sentimento represado que se revelava aos poucos sem a necessidade de palavras ou confissões. Karol se viu completamente apaixonada pela amiga e sentiu que era de alguma maneira correspondida. O almoço daquele manhã foi a prova definitiva de que ambas tinham um relacionamento sério, quando em um local reservado trocaram o primeiro beijo, oculto beijos, lábios nos lábios, a sensação prazerosa, o amor pulsando nas veias, fazendo o coração bater descompassado, a certeza de que ambas se descobriram para o inevitável. O retorno do almoço e restante do dia foi complicado, não sabiam exatamente como se comportar no ambiente de trabalho, não tinham certeza da reação das pessoas. Karol começava a se preocupar em como falaria para a mãe de seu namoro não convencional com outra mulher, era difícil revelar os segredos do coração. Não tinha medo do que a sociedade fosse dizer, porém, estava em completo desespero com relação à mãe, tão devota, religiosa ao extremo.

     O domingo foi se esquecendo no final de tarde, Karol retornando para casa, para solidão de seus pensamentos, a certeza de que em breve não estaria sozinha, porém, esconder os próprios sentimentos era uma maneira de se esconder do mundo o tempo todo. Ao passo que tudo se desenvolvia na sua vida, igualmente se enrolava novamente, a vida era mesmo cíclica.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TEM COISAS QUE NUNCA MUDAM.

 



   TEM COISAS QUE NUNCA MUDAM.



      Dia nublado, pouco movimento na rua, acordei assustada e com coração acelerado... Sonhos ruins outra vez, nem sei se devo chamá-los de sonhos, estão mais para pesadelos terríveis.

     Os meus sonhos são repetitivos, uma representação da vida real, o mesmo cenário, as mesmas pessoas...


Nesses sonhos eu tenho de oito para nove anos, mamãe está junta de mim, rodoviária do Tietê, as nossas malas, o ambiente, tudo direitinho, com uma única diferença, a presença dos meus oito irmãos no momento do embarque. O ônibus da viação São Geraldo destino Alagoas, parando na rodoviária, passageiros entrando, malas enormes, abraços de meus irmãos em mim. De repente, as fatídicas palavras do motorista, "A menina vai ter que pagar a passagem, já tem idade." Depois, as aterrorizantes palavras de mamãe, "A Marcilene fica com os irmãos, não tenho dinheiro para pagar." Depois, o meu  choro de desespero, não acreditando que mamãe me abandonaria com os meus irmãos. O sonho termina com o ônibus partindo, o meu coração fora do peito, caído no chão aos pedaços...


     Eu nunca revelei esse sonho para ninguém, nem mesmo para meu esposo, filha e nem para mamãe. Eu sei que preciso de ajuda, de um psicólogo talvez, mas como fazer isso sem plano de saúde? Se eu for depender do SUS nunca vou fazer. 

     Me levanto sem vontade, abro a porta da sacada, fico por um tempo parada do lado de dentro observando a calmaria. Me viro lentamente para esquerda, o meu reflexo no espelho assusta, não gosto do que vejo, me detesto na maioria das vezes por ser como sou. O relógio na parede marca sete horas em ponto, pego o pente que minha filha deixou jogado sobre a cama, começo a lutar com os meus longos e embaraçados cabelos, outra das minhas angústias é nunca sobrar dinheiro para arrumar o cabelo. 

   A casa está em silêncio, minha filha já saiu para escola, o meu esposo foi trabalhar. 

   Lembro-me que tenho médico às onze horas da manhã, o que já me deixa irritada, o consultório médico fica em frente à rodoviária. Embora o meu desejo seja de ficar em casa, eu sei que não posso perder essa consulta, afinal, foram seis meses esperando por um médico, seis meses! Quando eu tinha o plano de saúde era tudo mais fácil, agora, trabalhando em supermercado, ficou tudo mais difícil para nós.

    Mamãe já se levantou, como sempre, às seis da manhã, não sei o motivo de acordar tão cedo. 

     O café já está pronto, posso sentir o seu aroma suave invadindo o quarto. Não demora e ela grita da parte de baixo da casa, 

   — Marcilene... Marcilene... vem tomar café.

    Mamãe é irritante, parece que gosta de provocar, quer que eu acorde junto com as galinhas. 

   — Estou terminando de me arrumar, calma.

    Respondo em um berro, já sem paciência. 

    Termino de arrumar o cabelo, que trabalheira é esse cabelo longo, todo dia a mesma coisa, só não o corto por causa do voto que fiz de cortar quando o processo que meu esposo moveu contra antiga empresa sair, sete anos esperando e nada, meu Deus, quando tudo isso vai terminar.

     Troco de roupa, coloco um perfume e desço para cozinha. Mamãe está esperando, cara fechada como sempre, por certo irritadíssima por não ter conseguido receber a sua aposentadoria no dia anterior, ainda mais sabendo que vou sair.

        — Benção mãe, bom dia.

        Minha cara não é das melhores, a voz sai com irritação.

         — Deus abençoe... 

        A resposta de mamãe vem no mesmo tom.

        — Depois que eu retornar da consulta, levo a senhora pra receber, não me esqueci não...

        — Vou ficar sem receber de novo Marcilene?

        — Não começa mãe! Por favor! Já falei pra senhora que vou levá-la para receber, dá para se acalmar... Que coisa, tenha mais paciência... Peça para o Carlos e a mulher dele te levar.

          — Não começa Marcilene, já falei pra você parar com essa implicância com seu irmão, e outra... Não quero conversar com aquela bandida da mulher dele.

          — Mãe!... Por favor! Eu já não disse pra deixar isso pra lá.

          Mamãe fecha o semblante, fica ainda mais irritada, não quer mais conversar, o que para mim é um alívio, prefiro assim, por mim ficaria o dia todo sem falar com ninguém.

       Termino de tomar o café, mamãe já se levantou e foi cuidar do almoço. Escovo os dentes rapidamente, embora o ponto de ônibus esteja relativamente perto, o horário já está em cima. Pego bolsa, carteira e celular, peço para mamãe buscar a Emily na escola caso eu não chegue a tempo, saio na carreira, com medo do ônibus já ter passado.

       Rua sem movimento, casas fechadas, nenhum vizinho bisbilhotando, o que é raro nesse bairro, até estranho para dizer a verdade. Uma pena que daqui a pouco começa a bagunça, carros e motos, principalmente as motos. Não posso me esquecer dos vizinhos intrometidos, esses são os piores.

     Caminho apressadamente.

     Ganho a avenida Edvar, o ponto é mais a frente, de frente ao Shopping, ponto lotado novamente.

    Felizmente não tem conhecidos para ficar conversando, hoje não estou para conversas. Paro, observo, cada um em seu canto, celulares nas mãos, terrível privilégio da modernidade, aproximando os que estão longe e afastando os de perto.

     Não demora e o ônibus aponta na avenida, por sorte, é o articulado que vem do Vitória Régia. Me arrasto no meio do povo, espremendo aqui e ali, tomando a frente de um e outro até conseguir entrar. Vou direto para o meio do ônibus, o mais próximo possível da porta, procuro um canto qualquer, me sento, pego o celular na bolsa, depois o fone de ouvido. Nem me dei conta de quem se sentou ao meu lado. Vejo apenas de canto que é um homem, fica me comendo com os olhos, bando de safados, talvez querendo puxar conversa, não faço questão nem de cumprimentar. 

     Os pensamentos estão distantes, tumultuosos, como ondas bravias em alto mar. As lembranças distantes, do tempo de criança, de quando mamãe foi de São Paulo para Alagoas, eu tinha apenas sete anos, lembro-me do sonho... Os pensamentos são dissipados com a voz de uma mulher, nem me dei conta de que o homem que estava ao meu lado havia descido, o lugar foi ocupado por uma mulher, que já foi logo querendo puxar conversa.

     — Olá, bom dia!

     "É sério... Vou ter que responder."  É o meu primeiro pensamento.

     — Olá.

     — Quem bom que veio o articulado hoje né, geralmente é o ônibus menor, odeio quando vem o menor, fica todo mundo espremido.

      — Sim.

      — Quer ver lotar é no horário de saída das escolas, que loucura, molecada bagunceira...

      Deixo ela falar, aumento o som do celular no último até ao ponto dos fones de ouvido tremerem. Olho para ela de canto de olho, ela agora é apenas um boneco, uma boca se mexendo sem parar. Finjo que estou ouvindo, aceno positivamente com a cabeça enquanto ela fala sem parar, meu Deus, o que fiz para merecer.

       Acho que a mulher percebeu que não estou para conversar, a boca para de se mover, dou um meio sorriso forçado. Ela se levanta, desce no próximo ponto. Uma multidão desce junto, me levanto rapidamente e me sento na poltrona que é só de um lugar, sento antes que mais pessoas entrem e tomem o lugar. Assim eu posso terminar a viagem sem ser incomodada, sem ter que interagir.

         Novamente os pensamentos se tumultuam.  


Devaneios, lembranças do sonho, da rodoviária do Tietê, eu, criança ainda inocente. Mamãe estava de viagem para Alagoas, somos nove irmãos, mas, apenas eu viajaria com mamãe, como sempre era todo ano, a minha passagem era sempre gratuita. Eu estava ansiosa, querendo que chegasse logo o ônibus, eu queria tanto fazer aquela viagem com mamãe, só nós duas no ônibus. A rodoviária lotada, uma das amigas de mamãe estava conosco, no sonho era os irmãos, na realidade, foi uma amiga de mamãe, fazendo companhia até sairmos. O meu coração bateu ainda mais acelerado quando o ônibus parou de frente para nós duas...


    Saído do meu devaneio quando alguém me toca no ombro, meu Deus, o ônibus havia chegado na rodoviária, eu tinha que correr para não me atrasar para a consulta.

   Eu saio apressadamente, não posso perder tempo, a tirania do relógio me consome, se não fosse o fato de ter que levar mamãe no banco para receber gastaria a tarde toda por aqui mesmo.

   Ruas movimentadas, pessoas se trombando, enquanto nas esquinas, figuram os mesmos malandros de sempre, querendo uma oportunidade para roubar, seguro minha bolsa firme junto do braço enquanto subo a rua da matriz, o consultório do Dr. Clóvis não fica longe. Neurologista conceituado, o melhor da cidade, do estado eu diria. 

     É a segunda vez que retorno ao Dr. Clóvis desde que o Geraldo foi demitido da antiga empresa, quando então perdemos o plano de saúde, na minha última consulta, me descontrolei, foi uma choradeira na frente do médico, coitado, ficou desconcertado, falou para eu não me preocupar, passaria minha consulta no social, sem cobrar nada, o que não poderia acontecer era eu ficar sem os meus remédios.

    Atravesso a praça do fórum velho, mais uma rua reta e estarei no consultório.

    Enquanto caminho apressada, sou tomada por novos devaneios, pensamentos soltos, tumultuando tudo aqui dentro, Dr. Clóvis disse que minha cabeça vai acabar me matando qualquer hora dessas. Ele tem razão, a minha cabeça é o meu algoz, o Geraldo sempre reclama, não posso fazer nada, sou assim, acho que vou morrer assim. Fui criada praticamente sem pai, mamãe se separou de papai quando eu ainda era pequena. Tive que me virar desde pequena, mamãe nunca parava em casa, sempre de viagem para Alagoas, seis meses lá, seis aqui, ficávamos à própria sorte, cada um tendo que se virar como podia.

 

Rodoviária do Tietê, movimento intenso, malas aos montes, ônibus da companhia São Geraldo. Eu sempre acompanhava mamãe nas viagens, nunca aconteceu de eu não viajar, até aquele dia. Papai morava com outra família em Alagoas, era raro vê-lo por lá. Dono Cleusa e o esposo, ambos amigos de muito tempo de mamãe estavam nos acompanhando. Eu, ansiosa para entrar no ônibus, três dias de viagens, era uma aventura que adorava fazer com mamãe. O ônibus chega, abraços e beijos, enquanto isso, o motorista guarda as malas dos passageiros, chegou a nossa vez, o motorista me encara, olha, pede à mamãe os meus documentos. "Senhora, a menina já tem oito anos, ela também paga a passagem". Mamãe olha para amiga, para mim, eu sem entender nada, querendo subir logo no ônibus, quando escuto as palavras de mamãe. "Cleusa, eu não tenho dinheiro para pagar a passagem da Marcilene, vou deixar ela aí com vocês". Eu começo a chorar vendo o motorista arrancar minha mala novamente, lágrimas do fundo da alma, eu não conseguia acreditar naquilo ( até hoje não consigo), minha mãe teve a capacidade de me deixar para trás com, "estranhos", por assim dizer. Qualquer outra mãe do mundo cancelaria a viagem, emprestaria dinheiro para a passagem, sei lá, mas, com certeza não deixaria sua filha caçula...


   Me desfaço do devaneio, já na porta do consultório, a secretária destravou a porta, entro, converso um pouco com ela, o médico estava atendendo, eu seria a próxima, se desse tudo certo, daria tempo de pegar a Emily na escola e levar mamãe para receber.

   Chegou a minha vez de ser atendida, em silêncio entro na sala do médico. A consulta é demorada, como deveria ser toda consulta, atencioso, Dr. Clóvis me examina, tira pressão, faz os procedimentos habituais, ritualísticos até. Depois, pega a minha ficha, lê inteira, hábito estranho, porém, muito eficiente, se reitera no meu caso. 

     Depois de uma boa conversa ele passa a receita com os medicamentos, todos caríssimos com certeza, Dr. Clóvis disse que metade dos meus problemas é psicológico, que a qualquer hora minha cabeça vai me matar, concordo com ele. Falei para ele a respeito da complexidade que a minha relação com a família, minha mãe e meus oito irmãos. Do primeiro casamento, mamãe teve cinco filhos, do segundo, quatro. Sou a raspa do tacho, a caçula por assim dizer. O primeiro esposo da mãe faleceu faz anos, o segundo, o meu pai, se separou. Papai casou novamente, ele bem que tentou voltar com mamãe, mas, aquele coração duro só mesmo Jesus para quebrar. O problema de minha mãe é que ela não dá o braço a torcer, difícil situação. Quando a confrontei do episódio da rodoviária, ela teve capacidade de dizer que não foi eu que havia ficado, mesmo na presença daquela amiga que estava no dia mamãe negou tudo, o que me deixou ainda mais chateada, o sentimento que trago entalado no peito, é como se eu tivesse sido abandonada pela segunda vez.

     Saio do consultório apressada, as horas são fugitivas, tenho que passar no centro comercial da cidade, comprar alguma coisa pra Emily, mamãe e meu esposo, mesmo com o peso das lembranças nunca deixei de amar e ajudar a minha mãe. 

     Passo por uma rua e outra, o dinheiro é curto, tenho que ficar de loja em loja até achar o que quero dentro do que posso pagar.

     O horário é fugitivo.

     Termino de comprar o básico daquilo que pretendia, retorno para casa já depois do horário planejado, por certo Emily já está em casa. Esticada no sofá, fones de ouvidos, celular nas mãos. Mamãe, agoniada me esperando para receber. Desço apressada para a rodoviária, entro na correria para não perder o ônibus, por pouco não dá tempo. 


   Cheguei em casa às duas da tarde em ponto, correndo feito uma louca, morta de fome.

    Emily está no sofá, me cumprimenta, pede benção, um abraço, vem xeretar o que trago na sacola, menina curiosa, parece o pai.


    — Cadê a sua vó? Pergunto

    — Na cozinha, te esperando. 


   Não foi diferente dessa vez, assim como de outras tantas, mamãe fez as mesmas reclamações, eu nem almocei, embora o estômago estivesse nas costas como dizem. Puxei mamãe pelo braço, ela falou que era para eu comer primeiro, mas, conheço bem a peça, se eu não for com ela, a cara emburrada ficará pior.

   Lá vou eu novamente para a caixa econômica federal, por sorte, é perto de casa. Só não é mais rápido porque mamãe anda devagar. Se o meu esposo estivesse em casa pediria ele para nos levar de carro. 

   Vinte minutos depois, entramos no banco, vazio, por um milagre inexplicável, vazio. Não perdi tempo, saquei a aposentadoria da mamãe, coloquei tudo em sua carteira, e retornei para casa.

     Quanto à mamãe... 

    Como das vezes anteriores, tirou a cara emburrada e colocou um largo sorriso no rosto na mesma hora, guardou o dinheiro na bolsinha e foi para o centro da cidade, eu, cansada, com fome, com raiva, voltei para casa sozinha, no peito o mesmo sentimento de abandono, é sempre assim, tem coisas que nunca mudam.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

VERDADES CAMUFLADAS.

 




   "Onde estão escondidos os teus nobres tesouros? Veja que o cofre do teu peito continua inacessível, os teus olhares vagueiam solitários no horizonte, há tempos que você não me conta os teus segredos. Seu coração me revela algo muitíssimo preocupante, batendo descompassado, angustiado todas as vezes, a tua alma está desesperada pedindo socorro, você está sempre inquieto, preocupado e pensativo. Talvez seja o cúpido travesso a resposta de tudo, imagino que, também fostes alvo de suas venenosas flechas, arde no teu seio a chama do próprio Olimpo. Revela seus segredos e te ajudarei".

   Disse o jardineiro para o forasteiro humano narrador diante de sua aflição.

   Lentamente os primeiros raios de sol iluminam o horizonte, a luz desbravando-se nas poucas nuvens, pincelando-as com tons fortes de laranja e vermelho, o clima agradável, manhã calma e silenciosa. Na rua o movimento de carros e motos é pequeno, um e outro transeunte passeando tranquilamente, pássaros anunciando o novo dia com seus cantos, a primavera finalmente tem o seu aspecto típico. O forasteiro humano narrador é dos poucos que conseguem enxergar o espetáculo dessa magnífica manhã. Quanto ao seu coração... Bate desconsolado por uma pequena flor no jardim, de cujo aspecto delicado e o perfume inebriante surpreendeu-lhe.

   A flor misteriosa e pequena existente no mundo etéreo e no mundo desperto, de fato chamou-lhe a atenção, a sua delicadíssima pétala não atraiu ao primeiro olhar, contudo, ao forasteiro ela encantou. O jardineiro ainda não revelou o seu nome para ninguém, é um completo mistério, tal flor tem suas peculiaridades, diferente de outras espécies do jardim, essa flor possui muitíssimas qualidades.

   Quanto à flor de cerejeira...

   Líder de todas as flores, essa majestade em pétalas e perfume está em seu repouso momentâneo, e em breve estará retornando. O mundo humano desperto, lugar de habilitação do forasteiro humano narrador, está a cada dia mais próximo do abismo, diferente do mundo etéreo.

   Os sentimentos do forasteiro inundam a sua alma por completo, complexos sentimentos nas cordas do coração, os pensamentos desnorteados, enlouquecendo-o, imagens de sua quimera. Ele caminha de um lado para o outro, tenta disfarçar, sorrindo para os outros tentando esconder a dor, por fora, parecendo completamente em equilíbrio, por dentro é caos, tempestades revoltosas. A pequena flor misteriosa do jardim é a causa desse sofrimento, dos muitíssimos pensamentos e imaginações lhe atormentando continuamente. Somente o tempo poderá curá-lo, ou, enlouquecê-lo,

   Dias depois...

   A flor de cerejeira retornou ao jardim, as demais flores se alegraram com sua presença, sorrisos fáceis despontados na curva dos lábios, corações desnorteados batendo descompassados. Lady Sif a recebeu com um abraço aconchegante, a sua presença foi celebrada pelo jardineiro poeta, todos os seres mágicos do jardim estão festejando, o seu inebriante perfume espalhou-se pelo jardim. No olhar enigmático esconde mistérios insondáveis, no coração repousa a esperança de um sonho, o príncipe de armadura reluzente não está longe. Se, porventura eu tivesse belas palavras de amor, escreveria versos delirantes em sua homenagem, porém, sou apenas versos soltos e sem talento.

   Queima-lhe o coração em chamas ardentes pela jovem flor misteriosa, o perfume delicado quase a enlouquecê-lo, sorriso enigmático, feiticeiro, olhar de mistério onde nada se revela e tudo se esconde. Certamente que o forasteiro humano narrador está inquieto com os sentimentos perambulando dentro do coração, as imagens e imaginações no espelho do pensamento, ele já não sabe o que fazer a respeito. Essa flor misteriosa e delicada, princesa de outro reino, recebida recentemente no jardim, tem causado tempestades no âmago do forasteiro. O jardineiro poeta há tempos percebeu a inquietação na vida de seu amigo forasteiro humano, alertando-o dos perigos de tal sentimento.

   Ele está inquieto com o tempo...

   A tirania do relógio roubando o precioso tempo, o tic e o tac continuam aprisionando-o em cadeias invisíveis, grades que não podem ser rompidas. Quando se vê, já é a hora de levantar, a sonolência pesando nos olhos cansados, o corpo dolorido, a sensação de que não se dormiu nada, ele deseja mais cinco minutos de descanso. Quando se vê, o café já está pronto, a fumaça bailarina esvaindo-se, novamente o tic e tac, anúncio do tempo que já não existe. Quanto se vê, a vida passou como uma nuvem solitária no céu, o tempo que nunca teve foi tomado, nada foi feito, sobrou apenas lembranças. Passos deixados na areia da praia da sua vida, passos expostos das vivências e momentos, marcas de situações, amigos, sorrisos inocentes riscando faces, mesas fartas, paz e alegria. Passos deixados na areia da praia, expondo turbulências constantes, marcas de situações controversas e inquietantes rostos de mármore, corações de pedra, guerra e dor. A vida é apenas um sopro, uma sombra que passa, chegará o dia em que todos ficarão esquecidos, as marcas serão lembranças apagadas pelo tempo.

   Ela é ainda uma jovem flor de pétalas pequenas, suas cores fortes e cintilantes chamam a atenção, o perfume é suave, delicado, feiticeiro, maravilhoso, o nome dessa flor ainda não lhe foi confidenciado. No jardim ela está em pleno movimento, desbravando-se em relação às outras, o caule pequeno esconde marcas antigas, segredos, a luz do sol beija-lhe as pétalas com todo cuidado. Certamente que a flor de cravo não lhe é generosa, pois tal flor, ainda que delicada, tem sua fortaleza, dentre as novas espécies adquiridas, ela é um destaque. Certamente que a flor de cravo não é benevolente, não simpatiza com nenhuma das flores do jardim, tal atitude revela ao forasteiro grande preocupação.

   Chove neste momento...

   O som contínuo da chuva nos telhados, nas calhas, uma brisa fria, soprando suave pela fresta da janela, trovões e relâmpagos, o sono está pesando em seus olhos preguiçosos. O cheiro gostoso do café é um convite a despertar. O toque das gotas grossas de chuva na calha é forte, um após outro, aumentando, diminuindo parecendo uma orquestra muitíssimo bem ensaiada, elaborada.

   Enquanto a chuva cai.

   Eu sondo o seu coração e a mente.

   Todo o tempo, o tempo todo.

   Ele finge uma alegria que na verdade nunca existiu, finge a curva escancarada de um sorriso que é falso, uma satisfação que é uma completa mentira para poder satisfazer o ego de outros mais. O forasteiro é amargo, triste, nunca em nenhum momento houve contentamentos no seu íntimo. A sua vida é um amontoado de fatores aleatórios causadores de dor e agonias, fatos que se sobrepõem amontoando-se enquanto os dias se arrastam.

   Foi o que vislumbrei.

   Finalmente revelou-me o jardineiro o nome da pequena flor, "dente de Leão", ela muito, delicada, porém, de grandiosa formosura, de beleza sem igual, estou encantado com essa novíssima espécie. É certo dizer-lhes que em tempos passados o pequeno dente de Leão passou pelo jardim, no entanto, por motivos que desconheço, a flor de cravo, sim, ela cruelmente desprezou-a. Longe de todos os olhos, o dente de Leão vagou solitária fora dos domínios do jardim, aprouve o tempo para cuidar dos detalhes para o retorno da flor. O pequeno e belíssimo dente de Leão está novamente enfeitando o jardim, transformou-se em peça valiosa, embora pequena, figura entre gigantes.

   Quanto ao nosso forasteiro...

   O seu coração está completamente desfigurado, açoitado, esfacelado impiedosamente até sangrar, a sua alma foi trancafiada em um cárcere escuro, cerrou-lhe os lábios, calou-se a voz, foi-se a alegria. Os seus passos são de incertezas, angústias infinitas, é sempre um caminhar solitário por entre as gentes, dor ferindo o peito como se fosse despedaçá-lo, a sensação de uma amarga derrota, o final da linha. O seu desejo mais profundo é da não existência, ele está por completo anestesiado, sorriso forçado, quem lhe vê não percebe o abismo em seus olhos.

   O coração ainda ferido, não parou de sangrar, a alma ainda assustada, não deixou as grades, os passos tão incertos, não deixou o deserto, os pensamentos confusos, não querem lembrar.

   Passa-se às horas nas asas velozes de uma águia.

   Passa-se os dias tal como a sombra de uma nuvem.

   Passa-se os meses sem ao menos percebermos.

   Passa-se os anos sem os nossos consentimentos.

   O jardineiro está na sua labuta diária com as flores, eu, a tinta na caneta do poeta, estou na confecção de palavras e versos, oculto na mente e no coração de ambos. Quanto ao caótico forasteiro, ocupado está na sentença de pequenos afazeres universais, invisíveis, inglórios no mundo desperto, na pele de alguém por nome Ronaldo.

   O forasteiro humano narrador está devastado, completamente vencido, esvaiu-lhe suas forças, não há muito o que se fazer a respeito. No olhar já não habita o mesmo brilho de outrora, o coração batendo desconcertado, fora de sintonia, a alma vagando por desertos alados desconhecidos, falta-lhe o vigor e a vontade de viver plenamente. Ninguém sabe dizer ao certo o que lhe aconteceu, a sua vida no mundo caótico doente desperto é um completo mistério para todos ao seu derredor. 

   Há uma grande turbulência no trabalho, assim como na sociedade em geral, homens vestidos de violência e sem misericórdia, vestidos de morte, embriagados do inferno. No trabalho do forasteiro imperou o caos completamente, o mundo desperto está à beira do abismo, o sol da justiça está ofuscado, nunca mais raiou em nossos céus.

   A manhã reaparece agradável, embora seja apenas uma impressão mentirosa, logo volta-se ao caos.

   As suas supostas e belas palavras são o resultado da dor, ele veste a nudez da realidade com literatura, assim, alguns fins podem parecer novos começos, é o ponto final pode parecer com uma vírgula.

   Cessou-lhe as lágrimas nos olhos já ressecados.

   Cessou-lhe os risos de uma alegria falsificada.

   Ele ocultou-se no meio de todas as multidões.

   Ele fechou-se em seu casulo de sofrimento.

   Nem todos que o vêm conseguem enxergá-lo, e os que o percebem não conseguem decifrá-lo, é o enigma do coração ferido sempre a sangrar. Ele vive de transformar sua tortura em versos, quem é este poeta silencioso e de passos miúdos? Quem é este que se embriaga com o cálice da dor?

   Passa-se os dias sem que o percebamos voando nas asas velozes de águias de rapina, o tempo brinca com o relógio, o tic e o tac não são mais percebidos, homens correm atrás do vento sem nunca alcançá-lo. O jardineiro atarefado em sua labuta diária com as flores também não percebe que o tempo afeta o mundo dos sonhos, embora o tic e o tac sejam percebidos de maneira diferente por seres etéreos. Eu busco diligentemente compreender a passagem do tempo, suas conexões.

   Quanto ao forasteiro...

   Se entregou ao cronos, a tirania do relógio prevaleceu.

   Já a flor de cerejeira... 

   Está atuando de maneira esplêndida no jardim, o seu novo posto de liderança não afetou o seu caráter, ela continua sendo magnífica, educada, formidável em tudo. O lírio branco recuperou-se de seu grave ferimento, a luz que emana de suas jovens pétalas é belíssima, outras flores que enfeitam a entrada do jardim também exibem características e perfumes únicos. Entre as flores recentemente adquiridas figura-se uma espécie de origem Indiana, certamente uma flor diferenciada, brilhante, perfumada e majestosa. O jardineiro também poeta, desdobra-se em seu cuidado todo especial com o jardim, mantê-lo oculto do mundo caótico desperto está sendo um desafio.

   Os dias no mundo desperto caótico são consumidos em desespero, almas mortas ambulantes vagando a esmo sem perceberem o abismo logo à frente de seus olhos, de alguma forma, tudo converge ao caos. Os déspotas governantes destilam veneno em seus discursos, os governados não percebem que são manipulados, não compreende que tudo é feito para esmagá-los enquanto se distraem com pão e circo. Os poucos que ainda resistem se opondo ao sistema nefasto, são perseguidos, silenciados e por vezes mortos, não existem saídas nesse labirinto sádico. Enquanto escrevo verdades camufladas, o mundo cai minuto após minuto.

   Corações alvoroçados se precipitando ao desespero, desnorteados, entregando-se ao medo, é o mundo desperto caótico expondo suas garras, caminhando no abismo. Almas mortas ambulantes, cada uma seguindo a direção do próprio nariz, cada um é o senhor de si, não existem regras e nem leis, cada um se tornou juiz dos seus atos abomináveis. O mundo desperto prepara o seus fantoches para o teatro mundial, peças posicionadas tal como em um jogo de xadrez, pão e circo a serviço da distração. Todos são dominados, iludidos com a mentira de estar controlando.

   Quanto ao nosso jardineiro...

   O pequeno dente de Leão passeou pelos seus sonhos, vagando nos ermos obscuros da memória, toda sua delicadeza, o perfume suave, adocicado, o olhar feiticeiro, o abraço apertado, parecia real. Repentinamente tudo naquele lugar transformou-se em outra realidade, ele foi transportado para a cidade onde chove o tempo todo, sem nunca parar, o mundo dos sonhos etéreos é estranho no primeiro momento. Ao romper da aurora, o retorno ao mundo caótico desperto humano, o feixe de luz invadindo a fresta da janela, riscando o piso do quarto.

   O sol está se erguendo entre nuvens, estendendo os seus raios lentamente no firmamento, no horizonte, tons de laranja pincelando nuvens dispersas, o vento fresco da primavera sopra suavemente. Transeuntes desavisados e apressados seguem sem ao menos perceberem o espetáculo que se descortina diante de todos os olhos, passos largos pelo calçamento, rostos endurecidos, sonolentos. A bela jovem de cabelos longos e olhar luminoso é a única que nota o balé das nuvens, as multicores vestindo o céu, o vento brinca com os seus cabelos.

   Veio na mente do forasteiro algumas lembranças de tempos antigos, recordações de amores esquecidos, os olhos claros banhados de luz, fogo e paixão, um nome, o momento da inocência que foi perdida. O dia calmo, silencioso, de recordações, o fogão a lenha, vermelho vivo, no quintal espaçoso, inúmeros pés de frutas, galinhas cacarejando próximo ao pé de pitanga. Veio-lhe novamente a imagem do seu anjo ledo, dos lábios fartos, os olhos de um lume ofuscante, o beijo cheio de desejos, promessas, sensações. O tempo não volta mais, forasteiro humano narrador. Disse a tinta na caneta do poeta.

   O tempo não lhe é benevolente em nenhum momento, a cada segundo dele é como se fosse uma eternidade, olhos grudados nos ponteiros do relógio, o desejo de retroceder. O tempo passou sem que ele o percebesse, quando deu por conta, os anos lhe roubaram todos os seus dias sem que os aproveitassem, é a tirania do relógio servindo o déspota enlouquecido cronos.

   Talvez em algum lugar no mundo dos sonhos ou nos muitos mundos paralelos o tempo não seja contado e a eternidade sejam as suas vestimentas de gala. Enquanto isso, no mundo caótico desperto, ele corre atrás do tic e do tac sem nunca alcançá-los, alma ambulante nesse deserto.

   Ao coração sempre cante, caríssimo poeta das madrugadas, cante os seus versos tortuosos jogados aos ventos, tuas lamúrias em noites de lua cheia, ao coração jamais deixe de cantar.

   Ao coração sempre cante caríssimo poeta de amores improváveis, cante os teus ardentes versos de paixão, os teus segredos ocultos nas entrelinhas do poema, ao coração revele os nomes das suas flores.

   Ao coração sempre cante, alegremente cante quando o sol lentamente declinar no horizonte de teus olhos entristecidos, cante como se fosse a última música.

   Ao coração sempre cante, regozije a tua alma na melodia dos teus sentimentos, a imaginação na tela da mente, cante como se fosse a última vez.

   Houve um dia que...

   O pequeno dente de Leão ausentou-se do jardim, um pequeno acidente, nada grave, a impossibilitou, suas pétalas tão delicadas necessitam de cuidados, de todas as flores, o dente de leão requer os maiores cuidados.

    A flor de cerejeira é impressionante, magnífica, tal é sua destreza que impressiona todo o jardim, a luz do sol em suas pétalas a deixa ainda mais bela, o perfume inebriante e feiticeiro é surpreendente. Entre as flores que ficam na entrada do jardim está o lírio branco, a rosa do deserto, a calêndula e a nova espécie, cujo nome continua sendo um segredo. A flor de cravo está em um período complexo, de grandes desafios, embora continue sendo uma deusa entre meros mortais, a rainha desse jardim.

   Estamos no final de mais um ciclo, o término do penúltimo mês do ano, parando para refletir sobre tudo o que aconteceu até o presente momento, a reação do humano é de espanto e assombro. Os dias ensinam coisas que os anos jamais souberam, já dizia o poeta, o bem da verdade é que jamais saberá, passa-se o tempo, ou melhor, atropela o tempo com toda sua força e seus atos.

   Quanto ao jardim... 

   É o momento de intenso movimento de visitantes, trânsito de novas flores tentando se adaptar, outras desejando sair. Todos os personagens obedecem ao teatro invisível, cada um seguindo o ritmo da música sendo tocada, gostem ou não dessa melodia um tanto quanto nefasta.

   O coração está completamente desfigurado por dentro e por fora, irreconhecível, transpassado por uma espada invisível e cortante, a dor causada pelo ferimento da espada no peito do forasteiro é devastador. Dor que desatina a doer, espada essa forjada pelo metal dos sentimentos, afiada na pedra das paixões, maníaco cúpido que a manuseia, não satisfeito com as suas flechas venenosas, está agora com espada.

   Quisera o forasteiro ter as armaduras dos nobres guerreiros de outrora, ter o escudo no coração, poder se defender de todas essas crueldades praticadas. Maníaco menino cúpido travesso, sempre zombando da frágil natureza humana, pobre coração moribundo do forasteiro.

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

          Conto...    Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vas...