sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O ENIGMA DO JARDIM.




   Dias e semanas que caminham por outubro.

   No balé dos meses estamos nos últimos passos de uma dança entristecida, apática, inicia-se a primavera, algumas flores despontam alegres na copa das árvores, nos jardins, nas praças. Findou-se o rigor do inverno com os seus ventos gelados, geadas, noites assombrosas e terríveis, findou-se, para alguns, um tempo que se arremete a tristezas e melancolia profundamente desmedida. 

   Permita-me falar do jardim...

   Adentrou nas dependências do mesmo, uma jovem, belíssima e rara flor, de cujas estruturas magníficas 

surpreende, já as pétalas reluzentes são de grandiosa beleza. Tal flor é diferente das demais do jardim,

certamente uma espécie diferente, cultivada em outras culturas, o seu perfume é de uma suavidade inigualável, essa flor adaptou-se perfeitamente. 

   É o seu nome, flor de lavanda, todos a receberam de braços abertos, sem dúvidas, entre tantas que já passaram pelo Jardim, é a mais promissora.

   O jardim está em plena festividade, todas as flores reunidas, desfilando deslumbrantes, o balé de múltiplas cores com belíssimas pétalas, perfumes inebriantes, diferentes e maravilhosos. Até mesmo as flores mais recentes participaram, a flor de lavanda com todo o seu encanto e carisma, a flor de mandacaru de um sorriso contagiante, o lírio branco, vê-la recuperada foi emocionante. Todas as demais espécies de flores em seus momentos magníficos, cada flor com suas histórias, algumas da dor e angústia para plena recuperação. O jardineiro alegrou-se de alma e coração com a festa que a rainha das flores ( a flor de cravo) com todo amor, dedicação e muito esforço organizou.

   No entanto...

   Espectros, quimeras fantasmagóricas aterrorizantes, quimeras do passado retornam, teimam, insistem, espectros fantasiosos arrastando-se no pensamento maculando o coração aprisionado ao cárcere. Ele já não consegue agir naturalmente como outrora, há tempos ele não tem uma noite inteira de sono, nuvens escuras e pesadas assomando no profundo pensamento, nuvens trovejando todos seus medos. Ele se esconde atrás de muitos sorrisos mentirosos, os lábios riscam uma curva de falso contentamento, no fundo, resta-lhe apenas rios inteiros de lágrimas. Ele se esconde atrás de cada palavra escrita, no entanto, fazemos presença para desmascará-lo.

   As janelas da sua alma permaneceram escancaradas, tendo-se o perfeito vislumbre do lado de dentro, vê-se que os sentimentos estão reunidos, as janelas permanecem abertas. Da sua discreta janela ele passou a observá-la, os seus tímidos sentimentos ficaram curiosos, os dela fizeram acenos, houve reciprocidade, as emoções encontram-se no olhar. Repentinamente a janela dela fechou-se para ele, ficou apenas a sua janela silenciosamente muda, e seus sentimentos todos contemplavam estrelas. Repentinamente ficou nele saudade incomoda, confessou-nos os devaneios em versos dolorosos, lembranças eternizadas nas entrelinhas do coração.

   Em outro momento...

   Ela despretensiosamente aproximou-se dele, lábios fartos e vermelhos o cativante sorriso, nos olhos castanhos claros um brilho muito intenso, cabelos longos perfumados derramados em cachos. Despretensiosamente ela começou a conversa, as palavras ora eram doces, por vezes, revoltosas, as belas curvas generosas chamavam-lhe a atenção, nas vestes tão simples ela ocultou toda sua realeza. Despretensiosamente ele também se aproximou, com toda cautela possível, ela é uma flor proibida, flor de cujos encantos fisgou-lhe o fraco coração. Despretensiosamente ele entregou-se para flor, agora não sabe o que fazer com seus sentimentos sem nossa ajuda.

   O que dizer...

   A impressão para o forasteiro é de nunca terem lhe dado chances, impressão de esquecimento, ser deixado de lado, diante dos seus olhos moribundos tudo lhe era caótico, no peito ficou a cicatriz de um coração mutilado. A sua juventude passou sem nenhuma novidade, uma vivência completamente apagada, anêmica, os amigos foram poucos, as angústias, muitíssimas, os seus amores impossíveis sempre assombrou-lhe. Restou-lhe o refúgio do silêncio na torre da solidão, restou-lhe uma dor incurável e fantasmas na alma, restou-lhe as palavras e versos jogados aos ventos. Nesse seu momento tenebroso viemos à superfície, o surpreendemos com a nossa existência interna.

   Quanto ao jardim...

   A flor de cerejeira foi nomeada como a nova líder, belas flores foram adquiridas e enfeitam o jardim, o lírio branco passou por uma situação complicada, retornou finalmente, belíssima, forte, recuperada. Quanto às novas espécies, figuram a flor de lavanda, também faz-se presente o jasmim e a rosa branca, todas belíssimas, de pétalas igualmente perfumadas, o jardim está completo, magnífico. A flor de cravo continua sendo a rainha das flores, o seu poder é absoluto, a sua autoridade se faz cada vez maior e mais influente. 

   Quanto ao forasteiro... Devo dizer que...

   Se fosse possível para ele retornar ao passado, em qualquer momento, ainda que por pouco tempo, revistar situações da vida, rever cenas, pessoas, lugares importantes que de alguma maneira deixaram marcas. Certamente ele ficaria espantado com certas situações, as vivências atribuladas, os momentos de solidão, seria doloroso para o forasteiro rever todos os seus erros. Se fosse possível, nesse retorno, encontraria com seu "eu" mais novo, em algum momento, talvez diria muitas coisas para aquele jovem inexperiente, ansioso, precipitado em quase tudo. Se fosse possível... Porém, tal possibilidade existe apenas no papel e na imaginação, a escrita tornou-se a única porta ao passado e futuro. ( Nós somos a chave).

   Novos momentos de velhas situações esquecidas,

oportunidades que chegaram lentas e em atraso, o sorriso falso riscando-lhe o rosto entristecido, o coração batendo inquieto dentro do peito adoentado. Há tempos ele não é o mesmo, tudo converge ao caos em sua discreta janela de vida, sensações e impressões inundam a sua alma de incertezas, nada lhe parece normal, a vida está sempre lhe açoitando. As pessoas ao seu redor parecendo tão felizes, os sorrisos riscando lábios fartos e rostos belos, o contentamento desmesuradamente exibicionista. O forasteiro sabe que é apenas mais um triste e caótico.

   Despertou a manhã ao leste, nasce em resplendor o astro do novo dia, pássaros de asas coloridas cantam nos telhados, as ruas exibem transeuntes apressados ao trabalho. A bela musa de cabelos longos, claros e perfumados, passos largos, olhar perdido no horizonte multicolor, aos poucos, carros e motos ruidosas digladiando, a cidade parece estar viva, em plena efervescência. De repente, a paisagem quase deserta redefine-se, pessoas apressadas por chegarem em algum lugar, é a tirania do relógio cobrando seu preço em tempo.

   Desconectado coração batendo desconcertado, a alma inquieta, incompleta dentro do próprio eu, os seus pensamentos como nuvens tempestuosas, nada do que imaginou é como gostaria que fosse. Pessoas indo apressadas para os seus trabalhos, atribuladas em seus pequenos afazeres, cada um seguindo atropeladamente o ciclo da vida, enquanto as horas contam os seus minutos finais. Os dias são trabalhosos no mundo perdido humano, cada um criando conceitos próprios e regras tolas, cada um tornou-se mestre e senhor de si mesmo. Não existe esperança, apenas expectativas incertas.

   De volta ao jardim...

   Dentre todas as belas flores, das que passaram às novas espécies adquiridas, não há nenhuma que se compare à flor de cravo, ela certamente possui domínio completo e único. A cada novo dia suas belíssimas e reluzentes pétalas se vestem de majestade, quanto ao seu perfume é desconcertante, o formoso caule enfeitiça o olhar, o peculiar 'desenho' no caule não pode ser apagado. O jardineiro, atento observador da flor de cravo, encantou-se com o tal desenho em tonalidade azul em seu alvo caule resplandecente. De todos os sentimentos, o amor é o mais perigoso, tornando-o completamente indefeso, um prisioneiro. O seu coração experimenta sentimentos renovados, não compreende toda sua grandiosidade, a efervescência gigantesca dentro de si mesmo, o contentamento tão desmedido e sem explicação.

   Nasce um novo dia, o sol despertou em multicores,

pássaros cantarolando perfeitamente harmoniosos,

nos pensamentos, imagens e lembranças agradáveis,

sentimentos complexos nas linhas líricas e poéticas. O poeta descreve em versos tortuosos o seu mundo,

todos os seus "eus" e segredos ocultos pousando em versos selados com o enigma que só os sábios conhecem. As flores do jardim são um mistério a ser descoberto, no âmago do jardim que reside o maior tesouro.

   Corações desnorteados, enlouquecidos e selvagens, não podem ser conquistados nunca foram domados, corações de ferro, nus, ausentes de sentimentos, não conseguem sentir compaixão nem benevolência. Os humanos deste presente século são difíceis, uma geração onde pouquíssimos escapam à regra, o mundo desperto enaltece suas falsas aparência, acordos mentirosos de uma paz que nunca existiu. A verdade é a filha do tempo, aos poucos, tudo revelará... No momento em que disserem que haja paz, sobrevirá repentina destruição, está escrito no livro santo. Estamos na iminência de um grandioso e completo caos...

   Quanto ao forasteiro...

   Esmiuçando-lhe os sentimentos mais profundos, aqueles ocultos e pousados no manto do invisível,

analisando-os cuidadosamente fiquei espantado, havia dores, temores, fantasmas, quimeras antigas. Não lhe posso negar os efeitos tão devastadores, certamente que a sua alma está presa, acorrentada, certamente que o coração foi subjugado pelo medo, por isso o olhar perdido, cabisbaixo todas as vezes. Certamente os seus dias são de grandes dores, as quimeras fantasmagóricas e aterrorizantes lhe causam grandes transtornos. Talvez o mundo etéreo dos sonhos lhe seja uma possível saída.

   O forasteiro tornou-se solidão, o seu café é de amargura, a curva delicada do sorriso não lhe cabe no rosto, o coração bate sempre descompassado, angustiado, as lágrimas ocultas riscam-lhe o rosto entristecido. Tornou-se ilusão, as suas palavras são vagas, a alma é uma prisioneira no calabouço de ossos, em seus horizontes não existem mais esperanças, falta-lhe o desejo de viver consigo e com os demais. As palavras tornaram-se um pequeno barco ao mar navegando sem destino aos sabores dos ventos, o seu caminhar é solitário por entre todas as pessoas. As palavras o transformam em uma pequena ilha, o seu maior desejo é que toda a dor, de amá-la, tenha fim.

   Permita-me falar dela...

   A flor de cravo ganhou mais uma pétala no jardim da existência, certamente que seu semblante florístico ficou irradiante, magnífico, esplêndido, não há no jardim primavera flor semelhante nem mais bela. O jardineiro, alegrou-se com a comemoração da flor de cravo, o seu coração ficou em descompasso ao ver tal alegria contagiante lindamente desenhada na face dessa belíssima flor. Certamente que o jardineiro esconde da flor os seus verdadeiros sentimentos, toda a sua grandiosa admiração, o seu descomunal e avassalador amor. O desejo do jardineiro era de presentear a flor de cravo, contudo, tal atitude revelaria traços de seus sentimentos escondidos na fortaleza do coração do homem forasteiro.

   Já dizia o poeta...

   Os sentimentos são confusos, nada confiáveis,

   Os sentimentos confundem, induzindo a erros,

   Os sentimentos se escondem na cofre do coração,

   Os sentimentos são totalmente contrários à razão.

   Por vezes nós somos enganados no que sentimos,

acreditamos que temos domínio próprio do eu, quando nos damos conta, a nossa razão é enganada, somos vítimas do nosso próprio coração traiçoeiro. Não é necessário muito para o coração ser trapaceiro, basta apenas um pouco de proximidade, diálogo, um sorriso, ou talvez um olhar diferente e pronto. Ninguém é livre das armadilhas do coração, somos todos enganados, o jardineiro, a tinta na caneta do poeta, bem como o forasteiro humano narrador.

   Quanto ao coração do jardineiro...

   A dor intensa não lhe coube na caixa do peito, destruiu tudo de dentro para fora, roubando-lhe o desejo de viver, a dor não passou e não existe bálsamo nem alento.

   É a ausência de um simples e generoso sorriso.

   É a ausência de um abraço forte, sincero e amigo.

   É a ausência de empatia, compreensão do sofrer.

   É a ausência de intimidade, contato, corpo e lábios.

   A sua alma amanheceu completamente devastada, o seu moribundo coração amanheceu despedaçado, os olhos se tornaram em rios de lágrimas internas. Essas são palavras de desespero, medo e agonia, talvez a flor de cravo leia os versos tortuosos do jardineiro, talvez ela, apenas ela compreenda o poeta.

   A flor de cravo ausentou-se do jardim primavera,

conta-se entre as flores que ela teve um infortúnio

ferindo-se na base de seu caule próximo às raízes, houve a necessidade de imobilização prolongada. O jardineiro ficou triste por não vê-la no jardim, o coração apertando o peito sem sua presença, o perfume ainda é perceptível em cada canto, deixando o poeta completamente descompassado. Olhar moribundo do poeta, sempre cabisbaixo, de um desesperado amor avassalador, paixão, ele tenta disfarçar, todos no jardim já perceberam. Se este sofrer não é amor, o que mais pode ser?

   Já no outro dia...

   Ela surgiu repentinamente desfilando pelo corredor, os cabelos longos derramando-se nos ombros, o perfume suave, delicado, delirante na verdade, olhos castanhos claros de um brilho único e intenso. Ela surgiu repentinamente, tomou o olhar do poeta, as belas pernas como torres imponentes de ouro, curvas perfeitas ocultas por majestosas vestimentas, o rosto parecendo uma pintura dos mestres antigos. A passos curtos, de corredor a corredor, ela passou sem dizer uma única palavra, apenas observando tudo atentamente, deixando o poeta desnorteado. Ele ficou sem nenhuma reação, mudo, enlouquecido.

   "Os dias escondem segredos que os anos não sabem", certa vez seus olhos passaram nessa frase, nunca lhe deu devida atenção, pois os seus olhos estavam focados nos anos e cegos aos dias corridos. Houve então o momento em que no calor da luta o homem tomba, não é uma derrota definitiva, mas um momento de exaustão, foi então que seus olhos passaram a ver os dias corridos ao invés dos anos. Os dias lhe confidenciam segredos ocultos de todos os seus anos, nunca imaginou que a vida fosse lhe dar essa duríssima lição, nada é por acaso. Os dias ainda disseram mais, havia segredos que os seus segredos escondem, camadas ocultas da própria personalidade sendo reveladas.

   O céu foi coberto por um tapete de nuvens escuras,

ventos inquietantes assobiando na fresta da porta, o ribombar de trovões estremecendo as janelas, repentinamente a pancada de chuva fortíssima. Os transeuntes desavisados correm pelo calçamento, carros igualmente apressados, trânsito tumultuado, o brilho intenso dos relâmpagos seguido de trovões, é apenas mais um dia caótico na cidade. O jardineiro muito cuidadoso com o seu jardim tratou de proteger muitíssimo bem suas belas flores, cada uma tem um cuidado especial nesses momentos. Enquanto o caos impera do lado de fora do mundo desperto, no jardim, a normalidade tem o seu lugar de destaque na vida de cada pequena flor.

   Passado o caos...

   Momentos preciosos de silêncio na metrópole, a rua deserta, os pássaros escondidos nos ninhos, o vento soprando na copa da grande árvore, nuvens escuras estendidas como cobertores no céu. O dia aos poucos ganha vida, tudo se transforma, barulhos de todos os lados rompendo o silêncio, a rua não está mais deserta, rápido ela redefine-se, transeuntes apressados retornam, carros e motos ruidosas. Os pássaros fazendo algazarra na copa da árvore, as nuvens abrem espaço para o astro do novo dia, todos os barulhos se intensificam na metrópole. O forasteiro humano narrador é apenas um detalhe, olhos que observam o mundo caído em movimento.

   A primavera deitam suas multicores cores no céu,

no horizonte os tons de alaranjado se sobressaem, no alto das árvores pássaros cantando alegremente, o ar fresco soprando em muitas faces avermelhadas. A primavera enfeita a natureza com belas flores, o jardim ficou ainda  mais reluzente e colorido, depois do caos,  os perfumes inebriantes diferentes de cada flor, o jardineiro está encantado com tamanha realeza. O mundo caótico caído desperto não enxerga o que está diante dos próprios olhos, toda magnitude estendida em cada canto, pincelada em cada pétala. Os humanos não valorizam o que lhes é concedido gratuitamente, riquezas em detalhes únicos que somente o criador pode proporcionar a cada manhã.

   Chamou-me a atenção, uma flor muito delicada, de pétalas pequenas, a cor é atraente, cintilando com ao toque da luz, no entanto, o seu perfume supera a de outras flores, o seu caule é igualmente pequeno, talvez o menor. Existem algumas marcas no corpo da jovem flor, desenhos enigmáticos, marcas de seu passado, ao primeiro olhar a flor não chama tanta atenção, o seu nome ainda é desconhecido pelo jardineiro. A jovem flor recém adquirida tem seus admiradores, o jardim transformou-se em um lugar de refúgio, distante das mãos dos vândalos destruidores.

   No entanto...

   Desejo falar-lhes de certos livros que são verdadeiramente obras primas, Hermann Hesse, por exemplo, é algo fora do comum, sua escrita elegante, poética, genial. Eu poderia citar Thomas Mann, outro autor gigante, a sua obra, a montanha mágica, é de tirar o fôlego, o brasileiro, Machado de Assis, não deixa a desejar, ler é viver outras vidas em um mesmo momento. A tinta na caneta do poeta é o tipo que foge do mundo real para o literário, se escondendo nas páginas de um bom livro. Recentemente, como podem perceber, me aventurei nas letras jogadas no papel, o jardineiro e o forasteiro também habitam o espaço dessa consciência.

  Me trancaste nas grades de teu peito, afligindo e açoitando, estou constantemente, os meus sentimentos foram subjugados pelos teus, de todo sou submetido às tuas vontades e desejos. Certamente, caríssimo amigo forasteiro humano narrador, tens um grande problema em mãos, é no entanto presa fácil de ser laçada, basta apenas um olhar diferente, a curva de um sorriso adocicado. Sei que bem o quanto o seu coração é fraco, assim como a sua alma é também desvalida, já não sabes o que fazer quanto a esse problema que agigantou-se. Talvez seja esse o teu terrível privilégio e condição.

   Disse a tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro narrador e do jardineiro.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

DIÁLOGOS.

 


    



   "A flor de cravo se vestiu de puríssima majestade, as suas belas pétalas em cores refletindo a luz, a face em tom rubro delirante, não há nada igual, o perfume tão delicado, feiticeiro, enlouquecedor. A flor de cravo se compadeceu das outras flores, desceu do seu trono para ajudá-las em seus pequenos afazeres, desfilando sua beleza pelo jardim, deixando o jardineiro desconcertado. O coração batendo descompassado a cada vez que ela se aproximava dele".

   Disse a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador enquanto ambos observavam o jardineiro junto a sua flor de cravo nesse início de setembro.

   "Metade do céu é de um azul límpido e irradiante, a outra é de nuvens escuras, pesadas, trovejantes, enquanto metade da cidade é iluminada pelo sol, a outra é precedida por ventos e chuva pesadíssima. Metade das almas é de uma beleza única magnífica, a outra é de uma ruindade e malignidade indizível, enquanto metade respira bondade e benevolência, a outra é cheia de egoísmo, violência e corrupção. O mundo desperto está completamente dividido, muitas dessas almas estão divididas, cumprindo o que está escrito no santo livro divino".

   Disse o jardineiro para tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro humano narrador.

   "Pessoas vagando como se não houvesse destino,

pensamentos perambulando no vago da mente, coração andarilho por estradas ermas, distantes, assim está o homem desperto do tempo hodierno. Talvez eu seja apenas mais um nessa multidão, contudo, considere o que esse rabisco já fez, cada letra e verso tortuoso derramado no papel, dizendo sempre escancarado palavras de mistério. Quisera eu viver no mundo etéreo, ou mesmo no jardim primavera, estar distante do abismo existencial que é viver no mundo desperto humano".

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e para jardineiro em uma manhã de repetições, monotonia, silêncio e solidão.

   "Mostra-nos o teu coração, desnuda os sentimentos,

mostra-nos a tua alma, nua, tal como ela deve estar,

conta-nos as verdades que nunca foram reveladas,

conta-nos agora todos os teus segredos. Não é o mundo desperto um lugar de desespero? Diga-nos sobre os vossos caminhos desconcertantes, não são os homens despertos egoístas e malignos? Diga-nos sobre as marcas em teu corpo e na alma. Você sempre se esconde atrás de um sorriso falso, eu posso ver as lágrimas, o pranto de uma vida, rasgue o teu coração e alma nestas linhas poéticas".

   Disseram o jardineiro e a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador em um momento de grande angústia no mundo desperto.

   "Insígnias e representações pregadas na parede, brasões, verde, vermelho, branco, variadas cores, nomes daqueles que duelam no descampado, foi o tema proposto, uma ideia de confraternização. A flor de cravo caminhava de um lado para outro, enfeites, degustação de uma espetacular culinária, as flores se reuniram no entorno da mesa retangular, sorrisos inocentes riscando faces de pura juventude. O caótico mundo desperto fora desse jardim está desmoronando em ódio e disputas sem sentido, humanos matando humanos, a esperança desfalece".

   Disse a tinta na caneta do poeta para o jardineiro a respeito do forasteiro humano narrador em sua confraternização no trabalho.

   "Sensações estranhas perambulando no coração, os pensamentos vagando ao ermo da memória, sou apenas um indivíduo no meio da multidão, alguém sem rosto e nome, um transeunte qualquer. É dia de retornar ao jardim, tenho que cumprir pequenos afazeres universais, a sentença imposta por um sistema impiedoso, às vezes tenho que sorrir sem ter vontade. Sou cumpridor de uma função sem nenhuma glória, no mundo desperto não existe esperança alguma, tudo é passageiro, é caminhar à beira de um abismo".

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e o jardineiro na manhã de um dia qualquer, sem glória, expectativa e glamour.

   "É o alvorecer de um novo tempo no mundo desperto, estamos na véspera do julgamento do legítimo rei Narniano do Sul, os asseclas do falso mandatário forjaram provas falsas para o tal crime. É o alvorecer de um novo tempo na vida de cada um, porém, esse "novo" não é refletido verdadeiramente, o espírito da mentira e corrupção está em atividade, o caráter de muitos foi maculado por esse falso rei. Muito se fala no mundo desperto desse tal dia, no entanto, é sabido que o julgamento tem cartas marcadas, não há como escapar, o mundo não é como no áureo jardim. Estou a pensar de qual substância é feita o que se chama de felicidade? Será possível condensá-la em pequenos frascos, tal qual faz-se com os perfumes? Talvez o criador possa revelar-nos o segredo dessa fórmula. Embora eu reconheça que a felicidade não é abundante no mundo desperto humano, raramente é possível ver uma autêntica curva de sorriso nos lábios dos habitantes do meu reino, felicidade extinta. No reino encantado dos sonhos, ou mesmo no jardim, assim como nas realidades paralelas, tal essência é natural e muito abundante. Talvez, um dia, quem sabe, nós humanos descubramos o segredo dessa substância. Eu vivo sempre na ritualística sequência diária de pequenos afazeres, o despertar sempre no mesmíssimo horário, levantar-se, fazer a higiene pessoal, troca-se, depois, o café, refeição, o tempo passa. Ritualística sequência diária de pequenos afazeres, mochila nas costas, no peito um aperto incômodo, passos na estrada, caminho certo e costumeiro, lotação no terminal... Não há nada nessa rotina. Ritualística sequência diária de pequenos afazeres, cumpridor das suas funções universais, sorriso riscando os lábios por horas inteiras. O meu coração ainda canta, embora esteja sangrando, é preciso lutar".

   Contínuo dizendo o forasteiro humano para o jardineiro e a tinta na caneta do poeta.

   "O tempo corre, urge, sussurra aos quatro ventos, o tempo esmaga, grita, sussurra as quatro estações, impõe, determina, sussurra imperceptível, ele passou, você não notou o discreto assobio. Homem do mundo desperto que sucumbe ao tempo, distante do cronos, não escutam, tic e tac, sem tempo para si. A vida é uma sombra fugitiva em um fim de tarde, é um pássaro de asas abertas entre nuvens, é passageira ao curso do misterioso tempo. Quisera o homem desperto compreender que o tempo é apenas uma singela pincelada do criador, passado, presente, futuro é o reflexo da existência. A xícara de café está na mesa, trêmula fumaça esvaindo-se, a tirania do coração o consome de dentro para fora, entre um gole e outro, pensamentos que o consome, a tirania dos pensamentos acelerados é devastador. Trêmula fumaça esvaindo-se,

a tirania da própria vida desafiando os seus limites, entre um gole e outro, a sensação de insuficiência, a tirania da própria alma, o sentimento de derrota. Olhos moribundos perdidos no horizonte invisível, o coração batendo em um ritmo descompassado, o sorriso falso riscando a face, ocultando lágrimas".

   Disse o jardineiro a respeito do forasteiro humano narrador.

   "O retorno ao jardim após alguns novos procedimentos é complicado, a sensação incômoda, vontade de ficar em casa, o peso da responsabilidade atrelado-se às incertezas, não há nada que possa ser feito para reverter isso. Muitas flores novas no jardim, espécies belíssimas, belas flores ainda não catalogadas pelo jardineiro, folhas e caules de uma geometria que me fascinou, todas elas foram colocadas em destaque no jardim. Os visitantes as observam com toda atenção possível, apreciando a beleza de suas flores e sentindo o doce aroma dos inebriantes perfumes. Quanto a mim, sou apenas uma sombra no jardim, menos até que um pássaro, sou o invisível oculto nas sombras".

   Disse o forasteiro humano narrador sobre o jardim para a tinta na caneta do poeta.

   "Novamente fizeste uma visita no mundo dos sonhos,

desejos ocultos no pensamento sendo visitados, no mundo etéreo não existem barreiras impossíveis, os mundos imaginários tornam-se todos realidade. A bela humana do mundo desperto fez-se presente, as vestes resplandecentes, alvas, transparentes, refletindo no olhar do forasteiro humano narrador todas as loucuras ocultas em seu jovem coração. Beijos à luz do luar, corpos despidos, perfumes, vestes derramadas ao chão,

desejos sendo realizados sem nenhuma restrição. Tudo é possível, o irreal humano sendo construído".

   Disse o jardineiro e a tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro humano narrador.

   "Vivo um dia após o outro, aquele sonho ainda é lembrança, as lutas parecem não ter fim, horas inteiras nos pequenos afazeres universais, não vejo o tempo, um dia após o outro, quando se vê, tudo é passado. Ouço o cantar dos pássaros nas copas das árvores, outros respondem, começa uma belíssima sinfonia, figuram as primeiras horas desta manhã agradável, a natureza, diferente de nós, despertos, estão em festa. Talvez se nós homens enxergássemos o necessário e belo da vida, ao invés de ver o apenas o caótico mundo que nos cerca tão cheio de dor e malignidade. As lutas e disputas se intensificam em nosso reino humano, aquele que liderava as fileiras repentinamente saiu, talvez pelos excessos e exageros do suposto capitão, xingamentos em público, regras absurdas adotadas. Outras funções da mesmíssima máquina sucumbem, não é de se espantar que outras peças desistam, os tempos são de grandes angústias para todos nós, sinceramente, não há muito que ser feito a respeito. Quiser eu fazer parte do mundo etéreo dos sonhos, viver no jardim, nas realidades paralelas, caminhar com liberdade entre as belíssimas flores. No mundo desperto humano tudo é veneno, ilusão, a vida não passa de enfadado, castigos, lamentos e açoites infinitos.

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta.

   "O dia despertou pincelando o céu em multi cores cintilantes. Espalhadas nas nuvens a altura do horizonte, pássaros cantando na copa das grandes árvores, a natureza está em festa. As flores exuberantes, perfumadas, com pétalas radiantes, cada uma se entregando aos galanteios do beija-flor, abelhas também se embebedam da doçura do pólen, a natureza está em plena festa. Tudo transcorre em harmonia e equilíbrio na natureza, cada ser obedece as leis, os limites, as estações, cada ser contribuindo com o seu próximo. Deverás eu estou encantado com a deslumbrante visão que me proporcionaste, gostaria que o reino desperto fosse assim. Os dias e seus desdobramentos nas asas do tempo, nunca houve momentos como os que se desenham, a força das tempestades assolam todos os viventes, o mundo desperto está na eminência de um abismo. Nos humanos, pelo menos uma parte, ruiu, trocaram as suas identidades por desejos vãos, os valores de outrora foram trocados por mentiras, e a mentira desfila com as vestimentas da verdade. Gostaria de poder viver apenas no mundo etéreo, caminhar nas terras e reinos dos sonhos eternos, não ter que retornar ao mundo de homens caídos, poder viver da matéria de meus sonhos, caminhar nas linhas e entrelinhas da poesia, ser no mundo desperto o poeta do reino imaginário".

   Continuo a dizer o forasteiro humano narrador.

   "Havia uma locomotiva parada na estação, muitos vagões enfileirados, parecendo um exemplar antigo, entrei na cabine de comando, era eu o maquinista,

liguei os potentes motores, o ranger dos cilindros. Primeiro o movimento lento, o estalar das rodas de metal nos trilhos, o acelerar, paisagens de um lugar completamente desconhecido, lá estava eu e minha companheira, rumamos para determinada estação. Enquanto o monstro de metal estava parado, passageiros adentraram nos vagões enfileirados, todos os tipos de pessoas, todas desconhecidas. Seguimos viagem para algum lugar naquele que foi um dos meus melhores sonhos desses últimos tempos de luta. Sonhos e sua matéria etérea, lugares mágicos enigmáticos onde tudo é possível ver, vivenciar, sonhos e sua matéria etérea, multiplicidade de vidas felizes, onde podemos ser o bem que quisermos. Sonhos e sua matéria etérea, as cores tão cintilantes que parecem estar vivas, o tempo também é infinito, sonhos e sua matéria etérea, flores e seus perfumes tão inebriantes, pássaros, amores e suas realizações. Enquanto no mundo caótico desperto as angústias e incertezas estão sempre presentes, não existe esperança, apenas a dor, lágrimas, infelicidades. Enquanto dormimos e sonhamos vivemos, uma vez despertos, passamos viver o pesadelo da vida real".

    Prosseguiu a dizer o forasteiro humano narrador.

   "Lá estávamos uma vez mais, naquele lugar etéreo,

talvez uma cidade existindo nesse universo paralelo,

pessoas, casas, vivências, vários acontecimentos, uma quase réplica da realidade no mundo irreal. Lá estávamos nós, eu e ela, éramos um belo casal, os olhos dela, face reluzente, os lábios de mel, os beijos ardentes e abraços, tudo parecendo real, eu não queria sair do reino dos sonhos, não mesmo. Repentinamente, tudo naquele lugar transformou-se repentinamente , tudo naquele lugar, desfez-se, repentinamente, era apenas eu no mundo desperto. Quisera eu voltar naquele momento do sonho, ao menos uma vez mais, vê-la, beijá-la, enfim, foi apenas sonho. Contudo, o relógio impõe, determina, sussurra o seu tic e tac infinito, a tirania do cronos sobressaindo, quando se vê, se foi o dia. Transcorreu em acontecimentos, badernas e desordens, as ruas lotadas com seus bravos gladiadores em suas muitas máquinas barulhentas, quando se vê, se foi o entardecer, desfez-se a luz. A noite chega com braços fortes e longos trazendo seres noctâmbulos, ambulantes desvairados e sem conexão com a realidade que os cerca, tudo é caos. Quisera eu poder viver apenas no mundo etéreo dos sonhos, nos campos verdejantes, entre os belos jardins floridos espalhados nesse reino magnífico. No entanto, não compreendo a dinâmica de atoleiro do mundo caído, caótico e sem nenhum sentimento".

   Continuo a dizer o forasteiro humano narrador, enquanto atentos ouviam a tinta na caneta do poeta e o jardineiro.

   "Flor de cravo, beleza impossível de ser descrita, flor de perfumes incomparáveis e todo o reino, flor de pétalas reluzentes e inigualável quilate, flor de cravo, rainha absoluta no jardim. O tempo é cruel, carrasco, impiedoso com todos nós, no entanto, o tempo está é benevolente com você, flor de cravo, cujo caule enfeitiça todos os olhares, sua estrutura é certamente obra prima da natureza. Ainda que não percebas, olhares de desejos ocultos pousam em tua majestade augusta todas as vezes que desce ao jardim primavera em suas incursões".

   Disse o jardineiro e a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador.

   "Nos meus lábios não existe a bela curva do sorriso, não é possível quando se tem uma boca deformada, invejo-lhes os sorrisos cheios de dentes brilhantes, invejo-lhes toda alegria no escancarar suas bocas. Parte do meu dia tenho que ficar com máscara, a face semi-oculta, escondendo minha abominação, é preferível esconder-se do que se expor ao público,

enquanto eu não recuperar a boa estima será assim. Sei que, talvez haja certo exagero meu, não faço questão de ser como sou, apenas respeitem as minhas decisões, ainda que pareçam exageradas. Talvez os meus lábios voltem a conhecer a bela curva de um sorriso, talvez os meus olhos voltem a brilhar novamente. Digo mais, peitos de aço guardando corações de puro ferro, os olhares são de abutres devoradores de carne, atitudes covardes, agressores e baderneiros brutais, não possuem alma, são impiedosos, inescrupulosos. Tal é o retrato do mundo desperto e seus monstros, sim, monstros, há muito perderam a parte humana, trocaram as suas identidades originais por outras forjadas no mais profundo do abismo e do inferno. Poucos restaram que ainda guardam no peito de carne um coração que sangra, chora e sorri pela bondade, humanos verdadeiramente piedosos. O apocalipse é o único caminho, não existem outras saídas para o presente século, nem para esses tais desumanos".

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e o jardineiro.

   "Um sentimento novo surgiu despontando no coração, tal como um botão de rosa que surge assim despretensioso, sem alardes, nem muitas cores, no entanto, traz consigo, a promessa de uma bela flor. Assim é este novo e despretensioso sentimento no peito do jardineiro, também poeta, ele desdobra-se aos cuidados dessa novidade em si mesmo, a sua experiência lhe diz da grandiosidade que o cerca. A flor da primavera é uma das novas espécies adquiridas recentemente, e tão logo despertou no jardineiro sensações novas, únicas e maravilhosas. Talvez assim ele esqueça definitivamente a flor de cravo, que tanto o faz sobre com esperanças vagas".

   Disse a tinta na caneta do poeta a respeito do jardineiro.

"(Transforma-se o amador na coisa amada por virtude do muito imaginar), é um belo verso que utilizo por empréstimo, terá a imaginação esse tal poder de transformação? Por muito tempo imaginei com todas as forças do pensamento, as minhas coisas amadas, no intuito de fazê-las de algum modo reais, contudo, nada ocorreu, aconteceu-me apenas de criar quimeras. O sonhar estando no mundo caótico desperto é cheio de impossibilidades. O mundo é caótico, as pessoas são confusas tal como indecisas, por vezes, odiosas, não sabem o que desejam na maioria das vezes, machucando-se por motivos mesquinhos, insignificantes, sem sentido..Sou vítima desse mundo caótico desperto, as minhas atitudes não são compreendidas. Sou vítima de mim mesmo ou desse mundo caótico?"

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta.

   "Na frenética dança de todos os meses do ano, setembro faz parte dos passos finais, o fim do baile, por assim dizer, os dançarinos já exaustos reúnem o último suspiro e energia para o momento decisivo. Setembro é o limite, o ponto de transição cósmica, alguns sequer percebem esses efeitos e os sinais, o universo em todos os planos também se converge. As flores conseguem transitar por entre esses pontos de mudança sem nenhuma consequência. Já os humanos do mundo caótico"... 

   Disse a tinta na caneta do poeta e o jardineiro para o forasteiro.

   Encerrou-se, repentinamente, o diálogo ao final do dia na mente de Ronaldo.

O ENIGMA DO JARDIM.

   Dias e semanas que caminham por outubro.    No balé dos meses estamos nos últimos passos de uma dança entristecida, apática, inicia-se a ...