quinta-feira, 8 de outubro de 2026

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

 

    


   CONTO.

    

    As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível vislumbrar o lado de dentro.

    Nos recônditos desse suntuoso palácio deu-se início há um diálogo incomum entre a memória e o coração, a conversa passou-se no mais profundo do pensamento humano, no âmago quase inimaginável e inabitável do intelecto denominado de "eu" absoluto.

     Tentarei da melhor forma narrar-lhes todos os pormenores dessa conversa.


   — Sim! É ela, e isso é inacreditável! É o beija-flor! Sim, é ela... Aquela mesma de outrora, ela passou por nosso castelo desfilando toda a sua suntuosidade, com grande esplendor e formosura que lhe são marca única, fez exatamente como nas vezes anteriores, pousou por nossa janela sem a percebermos, devedoras é espantoso que tenha retomado.

   — O que fizeste a respeito, nobre senhor? O que se diz em todo o reino é que ela não aparece já há muitas primaveras, e a propósito... Se realmente o que dissestes for verdadeiro, qual o motivo que a trouxe novamente para os nossos domínios, e, principalmente! Como pode tal façanha sem que eu não a tenha notado? Uma vez que nada me escapa...

   — Caríssimo amigo, essa história não está muito bem contada, existem algumas variáveis não consideradas nessa complicada equação de sentimentos nus ...

   — O que não está muito bem contado nesse, como você mesmo disse, equação de sentimentos nus, isso está mais para um mosaico de sentimentos nus. Escondes algo de mim nobre senhor? Justo eu. E que variáveis são essas dos sentimentos nus no seio das vontades e desejos humanos?

    — Perdoe-me amigo… Perdoe por não ter lhe contado tudo antes.

   — Como podes fazer tal! O que escondes de tão valioso deste que a tanto lhe serve?

   — É o beija-flor... Não o reconhece? Aquela mesma de outrora, lembra-te dela? Frequentemente ela aparece no domínio da torre, aos olhares dos súditos do castelo, tão desavisados, e do próprio rei que é o meu pai - ela é apenas uma ave voando desavisada nos entornos do castelo, pousando sua beleza aqui e acolá. Essa ave tão ligeira, é, e sempre será ave, não se engane quanto a isso. Difícil explicar eu sei, um dia você vai entender.

   — Escondestes de mim esse segredo muitíssimo bem, justamente eu, o seu súdito mais leal, como podes?

   — Ainda acreditas em mim?

   — Jamais duvidei de ti meu príncipe, jamais... Tu sabes disso, desde tenra idade sempre acreditei em cada uma das tuas histórias e as guardei a sete chaves, agora que és príncipe, eu continuo a acreditar ainda mais, embora, eu seja o único a crer nestes domínios.

   — Eu sei meu amigo… Eu sei... Mas tudo tem o tempo certo, em breve lhe explico como tudo aconteceu.

   — Por favor, meu jovem príncipe! Conte-me o que aconteceu, conte-me agora mesmo?

   — Tudo bem… Tudo bem... Eu lhe conto.

   — Obrigado jovem príncipe, muitíssimo obrigado pela vossa benevolência para com este servo.

   — Era novembro, eu bem me lembro, o jardim banhado em ondas de luzes rodopiantes, o luar prateado por sobre a mata densa, os seres da noite fazendo serenata em uma sinfonia única. Eu bem me lembro daquele olhar reluzente e fugitivo, daqueles toques quentes despertando paixão ardente, do som daqueles lábios na pronúncia de cada palavra. Eu bem me lembro daquele nosso último novembro, quando o rei então nos em um beijo. Proibiu-me de vê-la enquanto vivesse e aprisionou-me na torre deste peito. Foi então, caro amigo memória, que as fadas do reino encantado, a meu pedido, movidas por grandiosa compaixão ao ver meu sofrimento por esse amor tão impossível de acontecer, com poderosa magia, em beija-flor a transformou. Vê, essa ave tão alegre voando em nosso entorno, na verdade é ela, sempre foi o meu único e grande amor impossível deste coração desventurado.

   — Santo Deus! Então esse é o verdadeiro ocorrido… Pensávamos que ela tivesse sido levada pelos ladrões do reino esquecimento ou coisa semelhante. Nunca mais a vimos, o reino do esquecimento é completamente inacessível para nós, pensávamos que ela estivesse por lá.

   — Para todos os efeitos, amigo memória, ela foi levada sim, contudo, peço-te, fiel companheiro, que guardes este meu segredo enquanto vivermos. Não o reveles a ninguém, principalmente a razão, sempre contraditória ao que eu tanto anseio e projeto, sempre fazendo oposição a tudo que entendo por agradável, nunca na história desse reino concordamos em alguma questão.

   — Eu prometo que vou guardar esse segredo com a minha própria vida, ele estará salvo com a memória em seus recônditos mais ocultos e profundos, somente tu terás acesso.

   — Obrigado amigo, pode retirar-se, desejo ficar à sós.

   — Sim nobre coração, como desejares, este teu amigo memória estará sempre à disposição para lhe ajudar no que for necessário.

   — Os dias são ruins, caríssimo amigo coração, e como todos os outros, nada tenho a fazer do que observar tudo em silêncio. Os pensamentos do coração são como o vento, como a brisa que sopra vindo sem direção indo sem destino, ou uma sombra passageira em um final de tarde. O beija-flor, o meu beija-flor, o meu único e grande amor, aquele mesmo de outrora, de todas as minhas primaveras, ainda não sabe de todos os motivos que me levou ao cárcere dentro de mim mesmo, pretendo, se possível for, jamais revelar tal segredo. Enquanto isso, a solidão me cabe perfeitamente na companhia deste peito. Podes retirar-se amigo, se continuares aqui, a razão logo desconfiaram, uma vez que isso aconteça, estaremos com sérios problemas.

   — Como quiser, serei como sempre, muito discreto. 


   O castelo forte fechou as janelas da alma, passou as mãos sobre os cabelos, coçou a cabeça, não compreendendo os mistérios que passavam dentro do reino oculto de seu próprio ser. 

    Observou uma vez mais a visão daquela noite, o luar, o balé das estrelas, saiu cabisbaixo sem dizer uma única palavra, porém, escondendo todas as impressões que teve da mulher que há tanto tempo conhecia e a muito amava, ela, fugitiva noite afora, ele, fugitivo dos próprios sentimentos noite adentro, em si, o mosaico de sentimentos nus que lhe torturava por tantos e tantos anos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

VISÕES DO AMOR.

 



CANTO 1.


Vê... Como ela é bela,

De olhar reluzente,

A face de uma donzela,

De olhar envolvente,

Lembra, a flor na janela,

Lembra, a estrela cadente,

Recordo tudo com emoção,

São tesouros ocultos no coração.


Vê... como ela é formosa,

Cheia de encantos,

Inteligente, altruísta, graciosa,

Espreitando-me pelos cantos,

Tão impulsiva, ansiosa,

Dominando os meus sentimentos,

És tu, mesmo assim,

Oceano de amor sem fim.


Vê... Como o tempo passou,

Lembra da nossa mocidade,

Hoje, aquilo tudo acabou,

Eu era ainda de pouca idade,

Quando o amor me arrebatou,

Meu coração tão sem maldade,

Inundado de boas recordações,

Sentimentos e emoções.


Vê... O nosso tempo findou,

No coração, se fez calmaria,

Este seio que tanto amou,

Entre a dor e a alegria,

Este órgão que por ti cantou,

Jurou que não mais cantaria,

E nas asas do vento,

Foi-se tão ditoso intento.


Vê... Nada mais é como antes

Tudo se faz diferente,

Nossos corações tão inocentes,

Tolo aventureiro, navegante imprudente,

Aqueles momentos tão importantes,

Se fez agora mais distante,

Minha alma cheia de medo,

Ocultou-se neste peito aedo.


Vê... O alvorecer de novembro,

De calor tão intenso,

Ainda me lembro,

Na janela, branco lenço,

Parei, chorei, angustiante, relembro, 

Aquele amor foi tão imenso,

Desejei-a sem ter medo,

Você era meu doce anjo ledo.


Vê... O quanto eu te amei

Demasiadamente noite e dia,

Com você sempre sonhei,

Meu coração, que era alegria,

Agora eu já nem sei,

Tudo é vão, é dor, agonia,

Sou poeta forasteiro,

Louco desordeiro.


Vê... O meu desespero absoluto,

Diante do teu silêncio desalmado,

Não sou aquele jovem astuto,

Sou um tanto triste, infeliz, calado,

Meu coração está em luto,

No peito foi dilacerado,

Morreu a bela flor,

Morreu tão grande amor.


Vê... Que mundo tão traiçoeiro,

Quisera eu viver esses desejos,

Pobre que sou, triste cancioneiro,

Desejando teus ardentes beijos,

Sou, no entanto, vil prisioneiro,

De teus ardis gracejos,

Sou a ave cancioneira, 

No Olimpo prisioneira.


Vê... Estou sempre escondido,

Envolto na neblina da incerteza,

De tudo e de todos, perdido,

De nada mais tenho certeza,

Meu olhar de ti esquecido,

Clamando por tua beleza,

Sou mesmo um poeta destemido?

Ou, apenas um insano deprimido?


MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

          CONTO.          As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível vislumbrar o lado de dentr...