quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O POETA JARDINEIRO.

 



"Existem aqueles momentos da vida de grande alegria, os acontecimentos beneficiam o sorriso no rosto, o que pretendemos fazer ou até mesmo projetamos, de repente, acontecem prosperando. Existem também aqueles momentos de grande tristeza, ressentimentos rasgando a curva do que um dia foi o sorriso, de repente, nada do que fazemos ou pretendemos é assertivo, tudo é caos e confusão. Existem aquelas pessoas que independente da situação estão sempre alegres, dispostas, almas iluminadas, com um sorriso no rosto todo tempo. Bem como aquelas pessoas, poucas, que nunca estão satisfeitas, sempre criticando, apontando mil problemas, o tempo todo, jamais sorrirem".


   A existência é complicada...

   Vejo apenas olhos cansados, semblantes sonolentos, caídos, trabalhadores a caminho de seu destino, almas cansadas, madrugada fria e silenciosa, cada um buscando fazer o seu melhor em suas profissões. Todos estão no mesmo barco, navegando sem destino certo, operários de um sistema injusto na maioria das vezes, cargas horárias excessivas, condições precárias, saúde mental comprometida. Nos ônibus figuram os mesmos personagens do dia a dia, almas atormentadas pelo esforço de pequenos afazeres universais, tão odiosos quanto detestáveis. Na maioria, operadores de caixa, balconista de padaria, açougues, gente do comércio, trabalhando tanto pelo mínimo, e o mínimo tendo que executar tanto...

   Enquanto caminho rumo ao jardim, a lembrança continua vívida... A curva delicada do luminoso sorriso, os belos olhos negros cintilantes, a rosea face levemente avermelhada como maçãs, tudo se veste de igual e espetacular majestade. Vê-la transitar pelo jardim é um bálsamo para os olhos, sentir o doce perfume é enlouquecedor, (diz o jardineiro) já tão perdido de amor, o coração transpassado. 

   Vejo às almas solitárias, caminhando por desertos ermos, enquanto pássaros cantam alegremente pelo caminho.

"Alma" silenciosa, com os seus sonhos inquietantes, flores desabrochando ao nascer de um novo dia. 

Agora é o poeta Jardineiro que narra, tudo observa com muita atenção, o trajeto até o jardim está se revelando, existem tantas flores espalhadas, belas, perfumadas e de igual encanto, ele deseja levar todas consigo.

   É dia de retornar ao enigmático e mágico jardim, dia de cuidar de cada flor habitante desse reino encantado, um mundo dentro do outro. Quanto a amada flor de cravo, ela está cada dia mais resplandecente, estrela que desce do céu, será que tal flor tem consciência de que é amada?

   Os dias são intensos no reino dos homens, caminhos de incertezas em Nárnia do sul, onde a ditadura escancarada está em pleno desenvolvimento pelos 

mandatários, déspotas do poder, tempos sombrios. No reino dos homens a liberdade está sendo arrancada pelas raízes, tal manobra absurda é feita à luz do dia, enquanto os narnianos observam sem conseguir acreditar nas barbaridades cometidas. Este jardineiro poeta está estarrecido com tamanha crueldade e malignidade por parte de quem comanda, lágrimas de dor e agonia caem de muitos olhos. No jardim, as flores parecem indiferentes aos acontecimentos pertinentes, mesmo a flor de cravo tão perspicaz, parece não se ater aos fatos.

   São dias difíceis...

   Assola-nos rigoroso inverno como há muito não se via, igualmente assombra-nos os corações gelados, dias de intensos ventos polares, chuvas torrenciais, almas atormentadas pelo obscurantismo ortodoxo. Caminhamos sem direção em estradas tortuosas, igualmente os corações desnorteados, monstruosos,

decisões insanas de déspotas, mentindo todo tempo,

igualmente almas desprovidas de qualquer moral.. Este jardineiro poeta observa o mundo caótico desmoronando, homens sem valores à beira do abismo existencial, governantes e governados corruptos, esvaindo-se.

   É dia de retornar ao jardim, onde as flores sonham.  Dizem que os sonhos são portais para outras realidades, dimensões paralelas às nossas, locais onde os despertos não podem acessar, lugares mágicos, enigmáticos, às vezes, fantasmagóricos.

Talvez seja possível adentrar em um desses reinos.

Talvez seja possível conhecer os mistérios ocultos.

Talvez seja possível aprender conceitos diferentes.

Talvez seja possível o que para todos é 'impossível'.

   Este jardineiro, também poeta, em uma dessas noites,

adentrou em um lugar estranho onde não era exatamente quem pensava ser, lá, tinha outro amor. Uma vez no mundo desperto, ficou pensando a respeito do que viveu, desejando que aquela realidade tão mágica quanto a sua fosse verdade.

    Todas essas coisas pesaram nos pensamentos. 

    Observando a sociedade fora do jardim, fiquei estarrecido, impactado. Enquanto no jardim, eu busco viver como se fosse em outro tempo, para que as flores cresçam livres, no entanto, essa liberdade do reino está ameaçada.

   Do lado de fora do ônibus...

   Pássaros coloridos cantarolando alegremente na copa das árvores, anunciando uma nova manhã que se inicia, "bem-te-vi" chama por outro que de imediato responde, dia calmo, tranquilo em paz.

Quisera o mundo lá fora ser como essa bela manhã.

Quisera o mundo lá fora ter o cantar de bem-te-vis.

Quisera o mundo lá fora contemplar o amanhecer.

Quisera o mundo lá fora, entender o que é ter paz.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta em um momento introspectivo, silencioso, observação, pensamentos, lembranças, onde Ronaldo adormece e nós definimos sua consciência...

   Vestes resplandecentes, combinações de cores, saias apertadas, corpo esbelto desfilando no salão, cabelos longos, alguns lisos outros em belos cachos, faces sorridentes, perfumes variados, maravilhosos..Era um desfile de jovialidade e exibição, com as vestes íntimas marcando as roupas apertadíssimas, partes superiores igualmente chamando a atenção, sorrisos e abraços, troca de lugares, pura exibição. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, não era para ser tão evidente essas observações a respeito do jardim religioso onde Ronaldo foi, em um desses momentos, uma visita. Lembranças dele...

   A caminho do jardim...

   Vejo faces e narizes vermelhos, mãos e corpos trêmulos, inverno rigoroso assolando o reino dos homens, temperaturas como nunca antes vistas, cada um buscando se aquecer de alguma maneira. As flores do jardim também são afetadas, as pétalas são delicadas ao jugo de um inverno tão intenso, o jardineiro poeta está muito preocupado, buscou ajudá-las.

   O sol despertou preguiçoso, esgueirando-se por entre os montes, tentando ganhar espaço entre a forte neblina que cobre tudo com seu manto branco. A cidade despertou inquieta, os seus moradores buscando os raios fugitivos desse astro tímido, talvez esse seja um dos dias mais frios do inverno.

   O mundo é um lugar escuro e estranho, cujos habitantes têm comportamentos igualmente esquisitos, fugindo a regra de qualquer atitude que deva ser considerada dentro de padrões normais. As pessoas não se comunicam olhando nos olhos, o coração está longe da benevolência e brandura, o mundo oferece distração e diversão aos milhares, ler poesia, meditar, filosofar, passou a ser obsoleto.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, antigamente o mundo era um jardim belo, no início foi assim, até ser maculado pelo homem. O Éden foi o paraíso plantado na terra, o homem era para ser o seu jardineiro poeta, no entanto, ficaram apenas os espinhos de nossos pecados, concluiu...

   Uma breve curiosidade quanto aos dias... 

   Serão mais curtos, foi o que disseram os "ditos" especialistas, o núcleo da terra está girando mais rápido, os efeitos podem ser percebidos pelos humanos, enfatizaram esses "supostos cientistas". O dia sempre foi o mesmo, nada mudou e nunca vai mudar", foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, "eles pensam que conhecem, mas de nada conhecem da vida, são todos cegos, loucos". 

   Certamente que o jardim estará belíssimo nessa agradável manhã, o frio teimoso e intenso não vai tirar das flores a luz, o encanto nem o brilho, as deixará ainda mais lindas. No entanto, a flor de cravo continuará sendo a rainha soberana de todo o jardim, todas as noites o bravo jardineiro poeta sonha com sua amada flor de cravo.

   Enquanto no caminho...

   É inevitável a observação comparativa, uma vez que os comportamentos tão distantes estão do que era antigamente, tecnologias distanciando ainda mais o mundo de outrora dos tempos atuais, ao ponto de não se conseguir imaginar viver sem isso ou àquilo. O mundo desperto adormeceu quanto aos hábitos mais simplórios, não se olha nos olhos, não se escreve cartas de punho, tão pouco contempla-se a aurora ou o pôr do sol, tudo se foi.

   Os jardins do mundo desperto são de flores artificiais, não existem perfumes, cores cintilantes, a beleza é fabricada por maquinários sem alma. ( Todas essas coisas pesaram no coração do jardineiro, foi o que ele disse para a tinta na caneta do poeta, quando observava o caminho para o jardim).

   O mundo desperto transformou-se em um campo minado, tudo converge para o abismo e caos, ninguém está enxergando o buraco logo adiante.


"O jardineiro poeta estava muito inquieto, novamente teve uma visita inesperada no reino "etéreo" paralelo, a flor de cravo, o seu amor de perdição, surgiu na forma humana, vestida de pura majestade. Os olhos cintilantes, cabelos lisos, longos, negros, derramando-se pelos ombros, a pele alva refletindo o desejo oculto no olhar do jardineiro, as pernas tão belas, o busto delicado, lábios de uma deusa grega. O perfume único, feiticeiro, que o fez enlouquecer no mesmo instante, a voz de um anjo ledo na pronúncia suave e melódica, tal era como a própria Afrodite. Ao se aproximar de sua flor na forma humana, antes que os lábios se tocassem em ardentes beijos, o jardineiro despertou, angustiado, era apenas um sonho".


   Rompe no horizonte raios de luz transpassando as nuvens, as cores múltiplas pincelando o céu com maestria, pássaros cantarolando alegremente nos telhados. Transeuntes apressados seguem o seus destinos, sequer observam toda riqueza diante de seus olhos, estão ocupados em pequenos afazeres universais,

não conseguem conectar-se à vida ou a si mesmos.

   O jardineiro poeta observa tudo da janela do ônibus, o mundo desperto parece não conseguir despertar e enxergar toda magnificência ao redor. Ele está ansioso, deseja mais do que tudo ver o seu amor de perdição, sua majestosa flor de cravo, de retorno ao jardim neste glorioso dia.

   Enquanto no jardim tudo parece transcorrer normalmente, no coração e na alma do jardineiro poeta formou-se tão grandes e terríveis tempestades de incertezas. "Dê-me um sinal apenas", foi o que clamou o coração do poeta jardineiro, uma palavra apenas basta para apaziguar a alma e acalentar o coração tão ferido.

   O coração esconde de todos sentimentos grandiosos, por trás do sorriso simplório existe a dor da paixão ardendo na carne de dentro para fora, ninguém percebe o seu sofrer, a sua luta constante. Vê-la transitar pelo jardim primavera é uma tortura, os olhos brilhantes penetrando no âmago da alma, o sorriso gracioso, a curva delirante de seus lábios, tal é como a própria Afrodite entre meros morrais. Quisera ele apagar todos esses momentos e recomeçar novamente, não ter no peito o bater descompassado de um órgão que lhe traz o sofrer.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, quando o mesmo observava a flor de cravo,

"Quisera ele beijar-lhe os lábios de deusa grega".

   A linha que divide os dois mundos, desperto caótico e o jardim mágico é tênue, porém, ninguém do mundo real consegue vê-la.

   A vida segue o seu complexo curso no mundo desperto, príncipes e reis ditando regras absurdas,

antigos governantes sendo massacrados por serem honestos e fazerem o bem para o seu ingrato povo.

Talvez estejam realmente vivenciando o apocalipse, a tribulação tal qual descrita no livro sagrado, tempo de angústia, guerra, peste, fome, o reino desperto está sendo assolado dia a dia. Parece não haver esperança, tão pouco se vê uma luz no final do túnel, tudo é escuridão, todas as atitudes estão debaixo da malignidade humana.

   O mundo desperto de Nárnia do norte está em pleno colapso, os seus reis e líderes insistem em ditar regras absurdas, deter inocentes e massacrar os menos favorecidos em nome de uma falsa verdade. São traiçoeiros, cujos corações desnorteados estão congelados, não possuem alma, parecendo com demônios em pele de humanos, não há muito o que fazer quando se caminha ao abismo. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, preocupadíssimo com o jardim primavera, as flores nada percebem do caos reinando lá fora. O único alento do jardineiro é a flor de cravo com o seu mágico, encantador, esplendoroso sorriso, a curva delicada de seus lábios o desnorteia inteiramente.

   No ônibus a caminho do jardim figuram os mesmos personagens de todos os dias, cada um seguindo o seu destino, almas cansadas. Todos iguais obedecendo uma ritualística sequência diária de pequenos afazeres universais. O jardim está sempre renovando suas flores, belas espécies contratadas recentemente como operadoras de caixa, pétalas avermelhadas, perfumes suaves. O jardineiro, também poeta, desdobra-se para cuidar de cada flor, dando especial atenção "às individualidades", até nas pequeníssimas questões.

   Do lado de fora do veículo, pássaros voando livremente entre árvores, telhados, asas abertas, peito estufado, cantando a liberdade, em algum momento essas aves maravilhosas retornam ao ninho, para os seus filhotes, famílias. Bem como as abelhas que passam o dia entre flores, buscando o néctar para fazer o doce mel, em algum momento essas rainhas dos ares retornam para suas colméias, seus casulos e irmãs, a natureza é família.

   Não existe caos entre os animais, a fauna assim como a própria natureza obedecem a ordem familiar seguida desde que o mundo desperto foi criado. O caos desse mundo caótico desperto é o homem, foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta.

   O poeta jardineiro está sofrendo em completo silêncio, o coração devastado, feito aos pedaços, a flor de cravo é a causa de seu flagelo e declínio, ele já não sabe mais o que fazer com esse amor. Basta vê-la transitar pelo jardim, no exato momento em que os seus olhos se cruzam, todo o seu ser estremece no mesmíssimo instante, o perfume único, olhos feiticeiros, lábios de deusa. O poeta jardineiro não sabe dizer se a flor de cravo esconde no coração algum sentimento recíproco, talvez exista uma faísca oculta de uma satisfação. Quisera ele conhecer os segredos mais íntimos da flor de cravo, no entanto, tudo está envolto em um manto de profundo silêncio, um mistério completo.

   Nada pode-se dizer quanto aos seus costumes, ela nada fala, porém, tudo revela em seus olhos, o corpo é de uma beleza ímpar... É deslumbrante, cada detalhe traz-lhe ao ser algo das deusas gregas. A sonoridade da voz é suave, como notas músicas, as vestes majestosas escondendo curvas delirantes, fazendo os pensamentos se perderem em imaginações, o coração descontrolado batendo descompassado. "Toda lembrança é uma tortura". Ela é estonteante flor de cravo estando no jardim, ela também é formosa em mulher no mundo desperto, concluiu o jardineiro que também é poeta.

"Nem tudo são flores, caríssimo", foi o que respondeu o jardineiro para a tinta na caneta do poeta quando observavam a flor de cravo desfilando em seus pensamentos.

   Compreender o próprio coração é um grande desafio, buscamos conhecer e desvendar os outros quando, na verdade, desconhecemos o nosso eu interior, talvez seja uma falha natural de todos. A poesia é uma maneira de tentar desnudar o oculto em cada um, as palavras têm esse poder de dizer sem nada revelar, falar dos maiores segredos do universo sem causar alarme e desapontamento.

   Entramos no final do sétimo mês do ano, o tempo novamente surpreendendo com os seus jogos, quando se vê, o futuro ficou parado no passado. O jardineiro, também poeta, quer desistir do seu ofício, deixar de cuidar das flores e das palavras, talvez seja o amor lhe machucando profundamente.

    Foi mais uma manhã escura de inverno, foi a noite demorando-se, as aves da madrugada estão quietas nos ninhos, é um novo tempo, de dias e noites se entrelaçando. As flores do jardim não se acostumam com o rigor do inverno, suas pétalas tão delicadas sofrem com os ventos gelados e cortantes oriundos das terras de gelo existentes no mundo humano. A flor de cerejeira é dentre todas a mais preparada para o frio intenso, porém, no verão, é quem mais padece com o calor, o motivo talvez seja sua origem asiática. Outras flores chegaram ao jardim por esses dias, algumas enormes, de caules extensos e pétalas fortificadas, outras tão delicadas quanto o lírio.

   Sentimentos perambulando a borda do coração do jardineiro, escalando-o, movendo-se rapidamente na intenção de tomar a fortaleza do peito, quanto 

ao ato ousado, não existe nada que possa ser feito. Sentimentos liderados pela paixão ardente, sendo acompanhada por delírio e ousadia, de início se esconderam nas entranhas do pensamento, quando menos esperavam, lá estavam eles, ousados invasores. Na aljava da paixão ardente estava a flecha flamejante envenenada do cupido, usurpada em outro momento, pronta a ser cravada no coração. Realmente, não foi possível detê-los, os ousados invasores da mesma maneira que surgiram desapareceram, ficou o veneno dessa louca paixão.

   Quanto ao mundo desperto...

   O mundo desperto foi invadido, sentimentos contrários, dominando os corações dos mortais, medo, raiva, inveja, tantos outros que não valem mencionar, quanto a invasão, ninguém a percebeu. Cada mortal vivência um ciclo repetitivo de acontecimentos, é um tempo recíproco, onde as escolhas, embora sejam livres, de maneira nenhuma deixam de trazer colheitas das suas consequências.

   Embora o caos domine mentes e corações, existem poucos humanos que conseguiram guardar-se de tais ataques, são esses pérolas de grande valor.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta nesse último dia do sétimo mês, a caminho do jardim…

domingo, 2 de agosto de 2026

AMOR DE PERDIÇÃO.

   



 ( Fragmento do livro - o jardim)


   "Só deixarei de amar a flor do cravo no dia em eu conseguir pintar o som de uma lágrima caindo", foi o que disse o jardineiro para o cisne quando o mesmo foi questionado a respeito do amor. 

   O jardineiro, também poeta, passou a ter sonhos recorrentes com a flor do cravo, de modo que ele passou a sonhar de olhos abertos todas as vezes que a vê passear pelo jardim nos finais de tarde.

   A tinta na caneta do poeta se debruça nas palavras em uma falha tentativa de explicar os sentimentos

grandiosos que se movem no íntimo do jardineiro.

   Inicia-se uma madrugada fria, silenciosa, o poeta, também jardineiro, não vê o momento de estar na presença da flor que conquistou o seu coração.

   A tinta no papel não alcança toda dimensão do que se passa no íntimo do jardineiro, por mais que ele tente se expressar é impossível captar toda a grandiosidade do amor que sente pela flor. A noite foi inquietante, rolou de um lado para outro sem conseguir dormir, os pensamentos na flor do cravo, quase não a viu no jardim durante o dia anterior, tão atarefada que estava, ela não teve tempo de seus passeios diários. Já a flor de cerejeira, estava diferente, cabelos curtos, ficou mais elegante, certamente terá grande destaque e renovado lume.

   O jardineiro é assolado pelos fantasmas da alma,

assombra-lhe terríveis quimeras do seu passado, não importa onde ele esteja ou o motivo de estar, imagens agonizantes pesam em seu pálido coração. Ele tentou ver-se livre desses grilhões invisíveis, buscou em si libertar-se 'dessas vis amarras', reuniu forças para aguentar em seu cativeiro, ele, jardineiro, tornou-se então 'o poeta das flores'. Esse, "suposto jardim", alivia o coração do jardineiro, já há tempos flagelado, neste, "universo paralelo" ele encontrou um novo refúgio para sua vida, uma ocupação para não enlouquecer rapidamente. No entanto, o jardim revelou-se para o jardineiro, tudo parecia tranquilo, controlado, até o momento em que a flor de cravo surgiu, 'o seu amor de perdição'.

   Prisioneiro de si mesmo, de suas próprias loucuras, o jardineiro despertou inquieto, triste, angustiado, o coração batendo sofrível, descompassado dentro do peito, parece não haver mais lugar que lhe caiba. As imagens agonizantes provenientes dos longos sonhos,

imagens com a flor do cravo, sensações tão vívidas, às vezes, de intensas, as imagens pareciam reais e verdadeiras, deixando-o perturbado, em caos total.

   É dia de retornar aos trabalhos no jardim "primavera", de retomar as atividades do cotidiano, pequenos afazeres universais, regar, cuidar das flores. Ver o cravo é uma tortura para o jardineiro, o lume que emana da flor cega-o com um amor abrasador, faltam-lhe as palavras, o ar, quisera ele tê-la em seus domínios.

   A brisa gelada invadindo o quarto, cobertores embolados, o calor gostoso, a lembrança ainda machucando no peito, o jardineiro inquieto vira de um lado para o outro, se foi o sono. O frio teimoso incomoda, os pés ficam gelados, o jardineiro só tem um pensamento que teima no espectro de sua desconcertada memória, é ela, sempre será ela...

   As horas revelam o momento de retornar ao jardim,

quando então poderá dar-se aos cuidados das flores, cuidar minuciosamente de todos os detalhes. O coração batendo acelerado, o pensamento está nela, na flor do cravo, em sua beleza magnífica, em seu perfume e formato único, seu amor de perdição.

   O sol desponta no horizonte, lentamente, do lado de fora barulho intenso, carros, motos, buzinas, crianças indo para escola, todo silêncio é desfeito em questão de minutos. O jardim é uma lembrança, os afazeres diários se tornaram mais intensos e a cada dia novas responsabilidades pesam sobre os seus ombros. A flor de cravo, o seu amor de perdição, de todas, é a lembrança mais dolorosa, o desejo oculto do jardineiro.

   Ele se levanta, troca-se, escova os dentes, vai direto para cozinha.

   Ele desperta...

   É momento do desjejum...

   O café despejado na xícara, o líquido precioso, a fumaça bailarina esvaindo-se lentamente, o aroma gosto tão brasileiro, mesa simples, pães ovos, tudo feito com muito carinho, simplesmente magnífico. O mundo do lado de fora da porta não reconhece e tão pouco compreende o seu lado de dentro, a paz e tranquilidade exposta em faces sofridas pela vida.  

   Quisera o jardineiro penetrar na profundidade dos pensamentos da flor do cravo, desvendar-lhe os mistérios ocultos em olhos tão feiticeiros, sentir o pulsar do seu coração deslumbrante e iluminado. Quisera o jardineiro queimar-lhe a face em ardentes beijos, arrebentar os grilhões de seus desejos, ser para a flor assim como a flor é para ele, arrancar da lira do amor as notas mais profundas e marcantes. Quisera o jardineiro, também poeta, que tais sonhos fossem de fatos reais, dói-lhe na alma saber que tudo transcorreu no espectro de seus pensamentos. Quisera o jardineiro, quando então retornar ao jardim primavera, externar para o cravo todo o sentimento represado em seu pálido coração aedo.

   O coração do poeta jardineiro bate descompassado,

fora do ritmo frenético, desajustado todas as vezes, basta que ele veja a flor de cravo pelo jardim, ouvir sua doce voz de anjo ledo, sentir seu perfume. Quando a flor de cravo está perto do jardineiro tudo ao seu redor desaparece, 'ela' é quem permanece no seu campo de visão, enquanto todas as vozes se calam, apenas "ela" com a sua força e presença de flor. São esses dias de lutas e incertezas, fora do jardim tudo parece caminhar para o caos absoluto, decisões de outros déspotas insanos podem sim afetar o jardim. É momento de silêncio e observação, cálculo e estudo, qualquer decisão errada pode não ter retorno, o jardineiro conhece bem essa verdade.

   Navegantes de oceanos perigosos e conturbados,

assim são os pensamentos do jardineiro poeta, a vida que se apresentava tão calma e silenciosa,

repentinamente transformou-se em tempestades. Os dias no jardim são de incertezas, preocupações assolaram o coração do jardineiro poeta, as ervas daninhas ameaçam o seu belo trabalho, decisões difíceis devem ser de fato consideradas.

   Algumas flores parecem indiferentes aos acontecimentos pertinentes ao dia a dia do jardim,

talvez essas flores se façam desentendidas.

   Perder a flor de cravo é para o jardineiro algo impensável, ficar longe de seu grande e terrível amor de perdição é para o poeta algo inconcebível.


"O meu verso é um rabisco desconcertado, sem jeito,

sou o poeta do inconcebível, jardineiro por opção,

cuidando das mais belas flores no jardim primavera,

nas horas vagas eu rego de palavras a minha poesia. A flor de cerejeira é magnífica, de beleza oriental, a túlipa de mil sorrisos é a mais alegre de todas, existem tantas, é quase impossível falar de cada uma delas, é um grande privilégio tê-las bem perto. No entanto, eu não poderia deixar de mencionar a mais bonita de todas as flores, cujo perfume é inigualável, de um brilho intenso, ela é estonteante. A flor do cravo surgiu despretensiosa, como quem não deseja nada, no início foi difícil aceitar, com o tempo, alma e coração se renderam em êxtase total".


  De volta do devaneio...

   O sol rasgou a escuridão noturna com sua luz multicolorida, invadindo o dia, as cores se misturando no firmamento, pincelando as nuvens, tal beleza é magnífica, gigantesca e divina. Ele é apenas um observador, a tinta na caneta do poeta jardineiro, verso esquecido, rabiscado de intenso desejo, aquele que se esconde no jardim primavera. As flores se comportam de modo diferente quando está frio, nesse diferente jardim onde tudo é mágico, encantador, de singular diferença. O jardineiro está em êxtase total, buscando saber como vai descobrir uma forma de não enlouquecer rapidamente com tão grande amor à flor de cravo.

   Xícara de café, ainda na mesa, momento de silêncio e observação, os pensamentos soltos, tumultuados, o coração batendo desconcertado, arrebentando tudo por dentro, a alma do poeta jardineiro está inquieta. Tudo converge para o caos absoluto no mundo externo, as nações estão à beira do abismo, enquanto no jardim primavera, as flores estão indiferentes aos acontecimentos diante dos olhos. Xícara de café na mesa, momento único, de momentânea paz, quisera o poeta fazê-lo eterno, no entanto, essa paz se rende, e o silêncio se esvai. 

   O jardineiro está com alma cansada, dilacerada pelas adversidades da vida, gritando dentro de si, desejando a tão sonhada liberdade e paz, o mundo é um lugar escuro e frio, já não existe alegria, todos são ilhas. Corações cansados, flagelados dentro do peito, arrebentando, sofrendo em silêncio as violências de um mundo impiedoso, não há nada que possa ser feito, o abismo está diante dos olhos, há um passo. 

   O jardineiro poeta vive apenas para sua labuta diária, ocupando-se em seus pequenos afazeres universais, cuidando do jardim primavera com dedicação e amor, nada lhe escapava do olhar. As flores tão bem cuidadas nesse outono frio, a flor de cerejeira exibindo uma beleza magnífica, a túlipa de mil sorrisos é também extraordinária, cada flor tem sua peculiaridade, atraindo olhares. No entanto, a flor de cravo, o amor oculto do jardineiro, parece estar ausente dos olhares do poeta, o motivo é um completo mistério para ele. Quisera o jardineiro poeta saber o que está exatamente acontecendo, o que se passa em seus pensamentos, não vê-la pelo jardim é doloroso.

   Manhã agradável de outono, prenúncio do inverno que se aproxima. Meus pensamentos estão para o jardim.

    A flor de cerejeira é entre 'todas' realmente muito diferenciada, assim como a túlipa de mil sorrisos, cada uma com aspectos diferentes e maravilhosos. Quanto à flor do cravo, é qualquer coisa sem nenhuma explicação, sempre estará bela. Não é pelo fato do jardineiro poeta amar perdidamente, ao ponto de não enxergar nada além dela, ela é inexplicável, uma Afrodite entre mortais.

   Manhã de silêncio, ele a caminho do trabalho.

   No momento, pouca movimentação, uns e outros transeuntes, encapuzados, trabalhadores, escravos modernos, na labuta diária de pequenos afazeres universais.

   Ele contempla as mesmas faces derramando-se em sono, apenas um e outro grudado na tela virtual, correndo os dedos incansáveis em busca de qualquer tipo de distração vazia. 

   No terminal Santo Antônio, tudo parece caminhar dentro de uma normalidade nada costumeira, não é sempre que o lugar está... Entregue ao assombro.

   Para e observa...

   Os cabelos longos, lisos, castanhos claros, o rosto pequeno, pele alva com pequenas e delicadas pinceladas de sardas nos sulcos das bochechas, os olhos verdes intensos, lábios carnudos e cheios. O olhar grudado na tela virtual, correndo os dedos freneticamente para cima e para baixo, roupas de frio, verde escuro, mochila nas costas, perfume de açucena, ele não sabe o nome daquela belíssima flor. Ela estava próxima, era um pouco menor do que o jardineiro, passou a observá-la, as roupas quentes certamente que escondem um belo e formoso corpo. Os olhos dele e da moça quase não se cruzavam, ela estava tão compenetrada no que fazia ao celular.

   Ele está inquieto...

   Sensação estranha lhe corroendo por dentro,

não sabendo exatamente como explicar tal sentimento, uma mistura de angústia e descontentamento, não sabendo o que fazer com todo o tormento. Os pensamentos estão tumultuados, revoltados, ao mesmo tempo que sente intenso prazer e alegria, aparece essa dor inexplicável, intensa dor, agonia, os olhos do poeta moribundo estão molhados. Realmente ele não sabe a causa do que está sentindo, se é devido aos acontecimentos no ambiente externo, ou se é qualquer anomalia no interno. Talvez o jardim seja a resposta que tanto ignora, talvez sejam os pequenos afazeres universais, talvez, o motivo, seja o amor pela flor do cravo.

   Saiu o sol, temperatura amena no momento, clima agradável, a impressão de ser primavera novamente, no entanto, é apenas momentâneo, logo tudo mudará repentinamente.

   Sábado.

   Dia de descanso para muitos trabalhadores, para este jardineiro que vos escreve, é apenas véspera de folga, aguardado domingo, o jardineiro está ansioso com a expectativa do dia, há planos interessantes. No jardim, segundo o que disse uma flor, as coisas não parecem bem, rumores nefastos rondam o espectro de todos. O jardineiro está sofrendo com os seus complexos sentimentos em relação à flor de cravo, vê-la pelo jardim dói no mais profundo da alma e no coração.

   A imagem do cravo é forte... Os olhos castanhos escuros, os cílios tão delicados, lábios de deusa grega, carnudos, a face levemente ondulada, nariz delicado, pele reluzente, cabelos longos, lisos, derramados nos ombros. Assim é, disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, como ele vê a flor do cravo transformada, é um mistério completo e sem nenhuma explicação, uma bela flor que deixa de ser flor repentinamente. Quisera a tinta na caneta do poeta saber o verdadeiro nome da flor de cravo no reino dos homens, no entanto, tal mistério nunca foi revelado. O jardineiro está sofrendo em completo silêncio, esse amor, disse ele, é um oceano enquanto ele se sente como um pequeno barco navegando à deriva.

   Vivemos dias intensos, não só no jardim, vivemos momentos que precedem o caos, o mundo caminha à beira de um grande abismo, líderes à passos largos, vacilantes e precipitados, enquanto isso, os habitantes da terra dormem. Vivemos exatamente a parábola das dez viagens, estamos entre loucas e prudentes, talvez com ou sem reservas, contudo, todas indistintamente estão em profundo sono, despertar depende da trombeta. O mundo tornou-se um lugar estranho e escuro, seres viventes que olham apenas para o umbigo, desejam apenas a satisfação da carne corrompida. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, ele também está inserido neste terrível contexto, reconhece em si o duelo de luz e trevas.

   Bolas de fogo caindo do céu, mísseis que parecem estrelas, cortando as nuvens em grande velocidade,

cidades são atingidas, cogumelos ardentes são formados, logo após, o rastro de morte e destruição. Contra ataques... Aqueles que eram pacíficos e tinham discursos de paz movimentavam os seus blindados,

homens e mulheres com seus fuzis e metralhadoras,

roupas camufladas, o mundo está envolto em trevas. O jardineiro está em lágrimas, os jardins e suas belas flores mundo afora estão sendo massacrados impiedosamente, não se ouve canções de alegria. Os nossos jardins não conhecem o peso e o preço de uma guerra, não existem vencedores nessas batalhas, diz o jardineiro, apenas corpos e mortes.

   O terminal começa a lotar, homens e mulheres apressados para o trabalho, filas intermináveis em cada ponto, em alguns, duas ou três para o mesmo destino, é apenas mais um dia de batalha árdua e travada. 

   É dia de retornar ao jardim, ver as belíssimas flores, ainda mais encantadoras nesse frio teimoso, cada pétala se veste de majestade. É encantador ver a flor de cravo, rainha de todas as flores, soberana, dominadora, impondo respeito, dona do coração do jardineiro, que também é poeta.

   Lembro-me do momento em que os olhos desse jardineiro poeta pousaram nos olhos dela, em uma tarde quente, ela recém contratada no jardim, no mesmo instante ele se enamorou, ali estava a enigmática flor de cravo. Naquele instante o jardineiro descobriu o que é a dor de um coração apaixonado, o sofrer dos poetas de outrora, foi no início de tempo com tardes silenciosas, de despedidas repentinas no jardim. O amor se desabrochou para o jardineiro poeta, desabrochou de uma forma inesperada, nunca que ele pensou na convulsão dos seus sentimentos. Quando os lábios da flor de cravo se aproximaram de sua face, em outras tardes, negando-lhe imaginários beijos, descobriu a dor de nunca esquecer tal flor.

   O coração batendo descompassado, em desajuste dentro do peito, o olhar por vezes perdido no horizonte, a alma inquieta, angustiada, silêncio, os pensamentos tumultuados, revoltados, distantes. 

   A noite anterior foi inquietante, de sonhos intensos com a flor do cravo, sua beleza magnífica desnuda diante dos olhos moribundos do jardineiro poeta, o calor intenso do amor envolvendo a flor e o jardineiro.

   É dia de retornar ao jardim, ver todas as flores, sentir os perfumes, se encantar com todas as cores, regar cada uma e cuidar dos mínimos detalhes. É dia de ver a flor de cravo novamente, de sentir o coração balançar dentro do peito, o amor queimado por dentro, o sonho que teve, lembranças ardentes.

  No entanto...

   Sombras nefastas e fantasmagóricas cercam a tinta na caneta do poeta, atormentando com muita insistência, medo e angústia corrói sua pobre alma, não importa o que faça, sempre será assombrado. Dia de nuvens escuras e pesadas cobrindo o céu, frio, ventanias e chuvas pesadas, trovões e fortes relâmpagos riscando de um lado para outro, os olhos assustados assistindo o espetáculo tenebroso. A tinta na caneta do poeta não consegue cultivar esperança em cada linha de tempestade, quisera ser como o jardineiro poeta, sempre alegre, calmo. 

    Segue o ônibus seu percurso triste até o jardim.

   "Deslumbrante"...

   Essa é a palavra que o jardineiro conseguiu encontrar para descrever a flor de cravo, assim que a viu, nessa agradável manhã sabatina, neste final de junho, o jardim está enfeitado para festa típica, músicas e doces deliciosos. A flor de cravo desfilando sua beleza magnífica e estonteante, o coração do jardineiro batendo descompassado no peito, o amor a queimar-lhe o seio, tal visão o deixou desconcertado, arrebatado.

   Quisera ele beijar-lhe os lábios carnudos vermelhos intensos, sentir em seus braços os abraços a ferver o sangue, certamente que é o amor o enlouquecendo. A flor de cravo parece provocar, desfilando diante de moribundos olhos toda sua majestade de uma verdadeira deusa do Olimpo, tal como Afrodite.

terça-feira, 16 de junho de 2026

FRAGMENTOS DO LIVRO. RABISCOS POÉTICOS.

    



JANEIRO.


   Entramos no ano de dois mil e vinte e cinco, figuram as primeiras horas deste novo tempo, pessoas comemoram, cantam, bebem, dançam, enquanto eu... Eu sou apenas uma sombra parada na janela. Às horas passam rapidamente, madrugada longa, inútilmente eu tento me compreender, é impossível. O sono não chegou, horas acordado, pensamentos, a milhão, a dor que surge lá dentro do meu "eu" profundo.

   O dia ganha vida diante de meus olhos.

    A vida sorriu para muitos nesse novo ciclo, eu procuro por esse sorriso... Onde estará? 

     Algumas pessoas chegaram em casa, uma visita nada desejada, novamente o afrontamento da parte deles, a sensação de derrota, novamente eu sou apenas um prisioneiro do meu próprio silêncio.

   Justamente hoje que acordei indisposto. 


   Terrível segundo dia.

   A madrugada foi tumultuada, agoniante, pensamentos perambulando pela cabeça, a tristeza cerca o meu flagelado coração. Estou vivendo os dias mais difíceis da minha vida, às vezes, nem mesmo eu me compreendo, então me questiono de onde surgiu essa inconstância tão incomoda? Amargo fel que me conduz ao obscurantismo.

   A quinta segue o seu curso de tristeza, observo o nada de caminho para outra cidade, paisagens vazias, lugares tortuosos, esquecidos, ermos. 

   Cheguei ao destino meia hora depois, abraços, um sorriso falso, no retorno houve uma ligeira mudança nos planos, voltei para casa cheio de expectativa no peito.

   Abraçou-nos o manto da noite.

   O silêncio cobrindo meros mortais.

   Noites e madrugadas traiçoeiras, nada de novo, eu estou dormindo pouquíssimo, pensando muitíssimo, duas extremidades que estão me enlouquecendo, de repente, nada parece dar certo. 

   Tomei o meu café apressadamente, ninguém se importa com o que eu falo ou penso, nada de novo, me sinto como uma sombra sempre à espreita, escondendo-se, mostrando-se, sempre indeciso.

   Na parte da manhã eu fui para uma entrevista de emprego, estava trêmulo, um pouco de espera, boa recepção, diálogos, espera, ficou uma ótima impressão de ambas as partes, quanto ao teste, muito simples. Retornei para casa muitíssimo eufórico, porém, logo o medo surgiu para tomar conta da minha alma, na parte da tarde eu tive outra entrevista não muito agradável, é a vida que segue o seu curso, como um rio caudaloso.


   Fez-se um novo dia com todos os seus desafios e com todas as suas mazelas. 

   O mundo continua sendo o mesmo mundo, não há nada de novo, a existência dos tempos modernos é a exata cópia do que ocorreu outrora. A minha cabeça continua em extremo conflito consigo mesma, os meus sentimentos e pensamentos estão turbulentos, hora está construtiva, em outros momentos, negativo, é uma guerra sem trégua.

   O dia segue o seu curso entristecido e monótono.

   Uma breve caminhada para distrair os pensamentos, observar em silêncio é o que mais tenho feito nestes últimos tempos. 

   O final de tarde avança rapidamente, a expectativa de uma noite diferente se configura diante de meus olhos, é quando então decidimos estar na casa do pai, a sua presença é reconfortante para a alma atormentanda e um coração tão ansioso.

   Tudo correu maravilhosamente no final da noite.


   Um novo dia, nova expectativa.

   Esse foi, sem nenhuma dúvida, um dia diferente, os raios primeiros do sol brilhando com toda sua força e beleza, estendendo-se como uma cortina na janela do quarto, foi dessa maneira que despertei. Embora seja esse o primeiro dia em outras culturas, portanto, dia de trabalho, em nossa cultura ocidental o costume é de descanso, sendo assim, uma vez com a oportunidade, nada melhor que ir na casa do pai novamente.

   O meu coração transbordou de alegria quando cheguei na presença dele em sua casa, juntamente com os meus irmãos, nos regozijamos e sorrimos, cantamos, nos alegramos. Confesso, o dia teve lá os seus contratempos, nada novo debaixo do sol, o sorriso permaneceu nos lábios, retornamos a casa do pai pela noite, ele alegrou-se conosco. 


   Segunda-feira, 

    Para muitos um dia terrível, odioso, lembro-me de tantas segundas indesejáveis, sim, foram muitas ocasiões, entretanto, houve momentos em que o inverso e o impossível também aconteceu. O dia começa como todos os demais, sem muita novidade, preguiçoso, silencioso ao extremo, isso não me agrada. caminho de um lado para o outro dentro de casa, inquietações corroendo o coração, corroendo a alma.

   Aquela entrevista, a tal que fiz, a oportunidade que surgiu... Então, eu esperando uma mensagem, na ânsia de saber uma resposta, enviei a mensagem antecipada. Que bom, deu certo, finalmente o retorno positivo que tanto esperava. Um possível recomeço na quarta-feira, um passo de cada vez, eu penso, no peito, velhas inquietações batendo com muita força na porta do meu coração.

   Eu que pensei em um sétimo dia tranquilo, sem nenhuma tribulação, sou mesmo tolo e ingênuo, embora o dia logo nas primeiras horas parecesse promissor, outra situação tornou-o impactante. Talvez eu tenha exagerado um pouco com o 'impactante', porém, de certo modo não estou mentindo, tivemos visitas das quais não queríamos nesse momento ímpar da nossa vida, nada contra a vista, também, nada favorável.

   Às horas passaram arrastadas, dolorosas, ao final da noite, já sem os convivas, uma mensagem me foi enviada, nela, outra proposta de uma determinada empresa. Embora a proposta seja inferior à da primeira, ela deixou-me pensativo, tais pensamentos trouxeram-me angústia na anatomia do meu eu enlouquecido.

   Eu estou até agora me perguntando, que dia foi esse?   

   São questionamentos intermináveis, às vezes penso estar ficando completamente louco, são tantos pormenores e por maiores, já nem sei. O dia foi de certa maneira, empolgante, radiante, cheio de expectativas, trabalho novo por iniciar, sensações diferentes no meu coração, embora a alma estivesse receosa, para dizer a verdade, medrosa mesmo. No primeiro dia não era para eu agir dessa forma, eu não consigo entender o que aconteceu comigo, o que tem de errado com esse rabisco de gente. O que eu não imaginava ocorreu nesse novo trabalho, acidentei-me, corte no punho esquerdo, corte contuso, dor, incerteza, por fim, as coisas terminaram dentro do esperado.

   O problema é que, às vezes, nos acostumamos ao ritmo de uma rotina, às vezes, esse mesmo ritmo torna-se opressor, porém, somos de fato seres em desequilíbrio no universo, querendo as duas coisas sem nenhuma necessidade. O meu eu enlouquecido vive intensamente essa dualidade da alma. Eu deveria me regozijar com o descanso de um dia de rotina intensa, no entanto, a angústia da ociosidade me fez buscá-la freneticamente até conseguir encontrá-la.

   Quanto ao dia...

   O dia nasceu belíssimo, intenso e cheio de novidades, a minha nova rotina de vida se desenha com traços leves, pelo menos nesse momento. Parece loucura o que estou a dizer, de certo modo é, este rabisco no papel estava sentindo falta do cansaço e de um dia corrido de trabalho duro, vai entender.

   Os dias seguem o curso de uma normalidade já há muito tempo conhecida, com uma tendência às mesmices e as repetições cotidianas. fazemos por fazer, seguimos por seguir o rio das nossas vidas. O que vou dizer do meu trabalho... Não sei exatamente o que lhes confidenciar, uma coisa é muito certa, estou retornando as raízes, voltando a reviver emoções primeiras da época da minha confusa juventude.

   Eu sigo o fluxo do rio, se é que posso usar tal expressão, considerando que o fluxo desse rio é um tanto quanto diferente de todos os meus outros rios. O dia se foi, quanto a noite... A noite segue o próprio curso, atendimento, afazeres que são concluídos um a um. Uma caminhada noturna até o ponto, ônibus, casa rotina. Cansaço muitíssimo necessário. 

   Sensações, emoções, quem estará livre?

   Eu as sinto ao extremo, sempre caminhando à beira do abismo, nunca foi diferente. Desde que eu me entendo por gente, sou esse tipo de aberração. Talvez você... Sim, você mesmo, caríssimo e desavisado leitor que pousou os olhos nesses rabiscos poéticos, talvez você considere certo exagero minha depreciação, pois digo que não é.


   O meu dia foi corrido, horários diferentes,

a vida em si está rumando para outros caminhos, nem sempre acontece como gostaríamos que fosse. As horas percorrem o curso do relógio sem novidades, porém, com muitos afazeres, o trabalho também segue o seu curso, tudo o que é novo assusta no primeiro momento.


   Finalmente o domingo, dia separado ao descaso,

em outros momentos eu o odiei, hoje, o amo, difícil de explicar a minha relação com esse dia tão especial, o primeiro no curso de uma longa jornada. Parece exagero da minha parte, porém, aos que se entregam na labuta dos pequenos afazeres universais sabe bem do que estou dizendo. A folga na semana não é igual aos descanso de um caloroso e abençoado domingo.

   Como de costume, pelo menos para esse que vos escreve, tenho por objetivo dedicar partes do dia ao senhor Jesus, dando-lhe louvor, honras e glórias. O dia termina com aquela sensação de angústia, sim, afinal, horas nos separam da tediosa e indesejada segunda-feira, contudo, sou grato pelos novos desafios da vida.

   Afinal...

   Os dias nos ensinam coisas que os anos nunca souberam, eu escutei essa frase em algum lugar, acho que foi em um filme, não me lembro bem, sei apenas que se trata de uma grande verdade. Às vezes eu sinto como se não aprendesse nada com os dias, parece que a vida deseja me castigar o tempo todo, a todo o momento sou surpreendido com desafios que fogem da compreensão humana.

   Um ciclo novo se inicia no meu novo trabalho, não sei mensurar os meus sentimentos quanto a essa nova etapa da minha vida tão complexa. Não sou o tipo de pessoa que se adapta facilmente, engano bem, que vê não percebe o meu abismo, estou sempre caminhando com o perigo iminente.

   Nada como um dia depois do outro, a vida em seu curso frenético por estradas sinuosas, correndo como se nunca fosse chegar. A vida é mesmo assim, a minha, a sua e de todos os seres humanos na face da terra. Nessa loucura que é viver, às vezes, não prestamos atenção às pequenas coisas, aos detalhes, eles passam diante de nossos olhos despercebidos, quantas vezes eu fui esse ser desatento, desleixado.


      Hoje o dia foi extremamente cansativo, frenético, para muitos, exagerado, ao ponto de me classificar de um homem caminhando sempre ao abismo. Não se assuste, caríssimo leitor dos rabiscos meus, com o tempo agente se acostuma, você, por exemplo, não é diferente, no fim somos todos iguais.


O POETA JARDINEIRO.

  "Existem aqueles momentos da vida de grande alegria, os acontecimentos beneficiam o sorriso no rosto, o que pretendemos fazer ou até ...