segunda-feira, 17 de agosto de 2026

VERDADES CAMUFLADAS.

 




   "Onde estão escondidos os teus nobres tesouros? Veja que o cofre do teu peito continua inacessível, os teus olhares vagueiam solitários no horizonte, há tempos que você não me conta os teus segredos. Seu coração me revela algo muitíssimo preocupante, batendo descompassado, angustiado todas as vezes, a tua alma está desesperada pedindo socorro, você está sempre inquieto, preocupado e pensativo. Talvez seja o cúpido travesso a resposta de tudo, imagino que, também fostes alvo de suas venenosas flechas, arde no teu seio a chama do próprio Olimpo. Revela seus segredos e te ajudarei".

   Disse o jardineiro para o forasteiro humano narrador diante de sua aflição.

   Lentamente os primeiros raios de sol iluminam o horizonte, a luz desbravando-se nas poucas nuvens, pincelando-as com tons fortes de laranja e vermelho, o clima agradável, manhã calma e silenciosa. Na rua o movimento de carros e motos é pequeno, um e outro transeunte passeando tranquilamente, pássaros anunciando o novo dia com seus cantos, a primavera finalmente tem o seu aspecto típico. O forasteiro humano narrador é dos poucos que conseguem enxergar o espetáculo dessa magnífica manhã. Quanto ao seu coração... Bate desconsolado por uma pequena flor no jardim, de cujo aspecto delicado e o perfume inebriante surpreendeu-lhe.

   A flor misteriosa e pequena existente no mundo etéreo e no mundo desperto, de fato chamou-lhe a atenção, a sua delicadíssima pétala não atraiu ao primeiro olhar, contudo, ao forasteiro ela encantou. O jardineiro ainda não revelou o seu nome para ninguém, é um completo mistério, tal flor tem suas peculiaridades, diferente de outras espécies do jardim, essa flor possui muitíssimas qualidades.

   Quanto à flor de cerejeira...

   Líder de todas as flores, essa majestade em pétalas e perfume está em seu repouso momentâneo, e em breve estará retornando. O mundo humano desperto, lugar de habilitação do forasteiro humano narrador, está a cada dia mais próximo do abismo, diferente do mundo etéreo.

   Os sentimentos do forasteiro inundam a sua alma por completo, complexos sentimentos nas cordas do coração, os pensamentos desnorteados, enlouquecendo-o, imagens de sua quimera. Ele caminha de um lado para o outro, tenta disfarçar, sorrindo para os outros tentando esconder a dor, por fora, parecendo completamente em equilíbrio, por dentro é caos, tempestades revoltosas. A pequena flor misteriosa do jardim é a causa desse sofrimento, dos muitíssimos pensamentos e imaginações lhe atormentando continuamente. Somente o tempo poderá curá-lo, ou, enlouquecê-lo,

   Dias depois...

   A flor de cerejeira retornou ao jardim, as demais flores se alegraram com sua presença, sorrisos fáceis despontados na curva dos lábios, corações desnorteados batendo descompassados. Lady Sif a recebeu com um abraço aconchegante, a sua presença foi celebrada pelo jardineiro poeta, todos os seres mágicos do jardim estão festejando, o seu inebriante perfume espalhou-se pelo jardim. No olhar enigmático esconde mistérios insondáveis, no coração repousa a esperança de um sonho, o príncipe de armadura reluzente não está longe. Se, porventura eu tivesse belas palavras de amor, escreveria versos delirantes em sua homenagem, porém, sou apenas versos soltos e sem talento.

   Queima-lhe o coração em chamas ardentes pela jovem flor misteriosa, o perfume delicado quase a enlouquecê-lo, sorriso enigmático, feiticeiro, olhar de mistério onde nada se revela e tudo se esconde. Certamente que o forasteiro humano narrador está inquieto com os sentimentos perambulando dentro do coração, as imagens e imaginações no espelho do pensamento, ele já não sabe o que fazer a respeito. Essa flor misteriosa e delicada, princesa de outro reino, recebida recentemente no jardim, tem causado tempestades no âmago do forasteiro. O jardineiro poeta há tempos percebeu a inquietação na vida de seu amigo forasteiro humano, alertando-o dos perigos de tal sentimento.

   Ele está inquieto com o tempo...

   A tirania do relógio roubando o precioso tempo, o tic e o tac continuam aprisionando-o em cadeias invisíveis, grades que não podem ser rompidas. Quando se vê, já é a hora de levantar, a sonolência pesando nos olhos cansados, o corpo dolorido, a sensação de que não se dormiu nada, ele deseja mais cinco minutos de descanso. Quando se vê, o café já está pronto, a fumaça bailarina esvaindo-se, novamente o tic e tac, anúncio do tempo que já não existe. Quanto se vê, a vida passou como uma nuvem solitária no céu, o tempo que nunca teve foi tomado, nada foi feito, sobrou apenas lembranças. Passos deixados na areia da praia da sua vida, passos expostos das vivências e momentos, marcas de situações, amigos, sorrisos inocentes riscando faces, mesas fartas, paz e alegria. Passos deixados na areia da praia, expondo turbulências constantes, marcas de situações controversas e inquietantes rostos de mármore, corações de pedra, guerra e dor. A vida é apenas um sopro, uma sombra que passa, chegará o dia em que todos ficarão esquecidos, as marcas serão lembranças apagadas pelo tempo.

   Ela é ainda uma jovem flor de pétalas pequenas, suas cores fortes e cintilantes chamam a atenção, o perfume é suave, delicado, feiticeiro, maravilhoso, o nome dessa flor ainda não lhe foi confidenciado. No jardim ela está em pleno movimento, desbravando-se em relação às outras, o caule pequeno esconde marcas antigas, segredos, a luz do sol beija-lhe as pétalas com todo cuidado. Certamente que a flor de cravo não lhe é generosa, pois tal flor, ainda que delicada, tem sua fortaleza, dentre as novas espécies adquiridas, ela é um destaque. Certamente que a flor de cravo não é benevolente, não simpatiza com nenhuma das flores do jardim, tal atitude revela ao forasteiro grande preocupação.

   Chove neste momento...

   O som contínuo da chuva nos telhados, nas calhas, uma brisa fria, soprando suave pela fresta da janela, trovões e relâmpagos, o sono está pesando em seus olhos preguiçosos. O cheiro gostoso do café é um convite a despertar. O toque das gotas grossas de chuva na calha é forte, um após outro, aumentando, diminuindo parecendo uma orquestra muitíssimo bem ensaiada, elaborada.

   Enquanto a chuva cai.

   Eu sondo o seu coração e a mente.

   Todo o tempo, o tempo todo.

   Ele finge uma alegria que na verdade nunca existiu, finge a curva escancarada de um sorriso que é falso, uma satisfação que é uma completa mentira para poder satisfazer o ego de outros mais. O forasteiro é amargo, triste, nunca em nenhum momento houve contentamentos no seu íntimo. A sua vida é um amontoado de fatores aleatórios causadores de dor e agonias, fatos que se sobrepõem amontoando-se enquanto os dias se arrastam.

   Foi o que vislumbrei.

   Finalmente revelou-me o jardineiro o nome da pequena flor, "dente de Leão", ela muito, delicada, porém, de grandiosa formosura, de beleza sem igual, estou encantado com essa novíssima espécie. É certo dizer-lhes que em tempos passados o pequeno dente de Leão passou pelo jardim, no entanto, por motivos que desconheço, a flor de cravo, sim, ela cruelmente desprezou-a. Longe de todos os olhos, o dente de Leão vagou solitária fora dos domínios do jardim, aprouve o tempo para cuidar dos detalhes para o retorno da flor. O pequeno e belíssimo dente de Leão está novamente enfeitando o jardim, transformou-se em peça valiosa, embora pequena, figura entre gigantes.

   Quanto ao nosso forasteiro...

   O seu coração está completamente desfigurado, açoitado, esfacelado impiedosamente até sangrar, a sua alma foi trancafiada em um cárcere escuro, cerrou-lhe os lábios, calou-se a voz, foi-se a alegria. Os seus passos são de incertezas, angústias infinitas, é sempre um caminhar solitário por entre as gentes, dor ferindo o peito como se fosse despedaçá-lo, a sensação de uma amarga derrota, o final da linha. O seu desejo mais profundo é da não existência, ele está por completo anestesiado, sorriso forçado, quem lhe vê não percebe o abismo em seus olhos.

   O coração ainda ferido, não parou de sangrar, a alma ainda assustada, não deixou as grades, os passos tão incertos, não deixou o deserto, os pensamentos confusos, não querem lembrar.

   Passa-se às horas nas asas velozes de uma águia.

   Passa-se os dias tal como a sombra de uma nuvem.

   Passa-se os meses sem ao menos percebermos.

   Passa-se os anos sem os nossos consentimentos.

   O jardineiro está na sua labuta diária com as flores, eu, a tinta na caneta do poeta, estou na confecção de palavras e versos, oculto na mente e no coração de ambos. Quanto ao caótico forasteiro, ocupado está na sentença de pequenos afazeres universais, invisíveis, inglórios no mundo desperto, na pele de alguém por nome Ronaldo.

   O forasteiro humano narrador está devastado, completamente vencido, esvaiu-lhe suas forças, não há muito o que se fazer a respeito. No olhar já não habita o mesmo brilho de outrora, o coração batendo desconcertado, fora de sintonia, a alma vagando por desertos alados desconhecidos, falta-lhe o vigor e a vontade de viver plenamente. Ninguém sabe dizer ao certo o que lhe aconteceu, a sua vida no mundo caótico doente desperto é um completo mistério para todos ao seu derredor. 

   Há uma grande turbulência no trabalho, assim como na sociedade em geral, homens vestidos de violência e sem misericórdia, vestidos de morte, embriagados do inferno. No trabalho do forasteiro imperou o caos completamente, o mundo desperto está à beira do abismo, o sol da justiça está ofuscado, nunca mais raiou em nossos céus.

   A manhã reaparece agradável, embora seja apenas uma impressão mentirosa, logo volta-se ao caos.

   As suas supostas e belas palavras são o resultado da dor, ele veste a nudez da realidade com literatura, assim, alguns fins podem parecer novos começos, é o ponto final pode parecer com uma vírgula.

   Cessou-lhe as lágrimas nos olhos já ressecados.

   Cessou-lhe os risos de uma alegria falsificada.

   Ele ocultou-se no meio de todas as multidões.

   Ele fechou-se em seu casulo de sofrimento.

   Nem todos que o vêm conseguem enxergá-lo, e os que o percebem não conseguem decifrá-lo, é o enigma do coração ferido sempre a sangrar. Ele vive de transformar sua tortura em versos, quem é este poeta silencioso e de passos miúdos? Quem é este que se embriaga com o cálice da dor?

   Passa-se os dias sem que o percebamos voando nas asas velozes de águias de rapina, o tempo brinca com o relógio, o tic e o tac não são mais percebidos, homens correm atrás do vento sem nunca alcançá-lo. O jardineiro atarefado em sua labuta diária com as flores também não percebe que o tempo afeta o mundo dos sonhos, embora o tic e o tac sejam percebidos de maneira diferente por seres etéreos. Eu busco diligentemente compreender a passagem do tempo, suas conexões.

   Quanto ao forasteiro...

   Se entregou ao cronos, a tirania do relógio prevaleceu.

   Já a flor de cerejeira... 

   Está atuando de maneira esplêndida no jardim, o seu novo posto de liderança não afetou o seu caráter, ela continua sendo magnífica, educada, formidável em tudo. O lírio branco recuperou-se de seu grave ferimento, a luz que emana de suas jovens pétalas é belíssima, outras flores que enfeitam a entrada do jardim também exibem características e perfumes únicos. Entre as flores recentemente adquiridas figura-se uma espécie de origem Indiana, certamente uma flor diferenciada, brilhante, perfumada e majestosa. O jardineiro também poeta, desdobra-se em seu cuidado todo especial com o jardim, mantê-lo oculto do mundo caótico desperto está sendo um desafio.

   Os dias no mundo desperto caótico são consumidos em desespero, almas mortas ambulantes vagando a esmo sem perceberem o abismo logo à frente de seus olhos, de alguma forma, tudo converge ao caos. Os déspotas governantes destilam veneno em seus discursos, os governados não percebem que são manipulados, não compreende que tudo é feito para esmagá-los enquanto se distraem com pão e circo. Os poucos que ainda resistem se opondo ao sistema nefasto, são perseguidos, silenciados e por vezes mortos, não existem saídas nesse labirinto sádico. Enquanto escrevo verdades camufladas, o mundo cai minuto após minuto.

   Corações alvoroçados se precipitando ao desespero, desnorteados, entregando-se ao medo, é o mundo desperto caótico expondo suas garras, caminhando no abismo. Almas mortas ambulantes, cada uma seguindo a direção do próprio nariz, cada um é o senhor de si, não existem regras e nem leis, cada um se tornou juiz dos seus atos abomináveis. O mundo desperto prepara o seus fantoches para o teatro mundial, peças posicionadas tal como em um jogo de xadrez, pão e circo a serviço da distração. Todos são dominados, iludidos com a mentira de estar controlando.

   Quanto ao nosso jardineiro...

   O pequeno dente de Leão passeou pelos seus sonhos, vagando nos ermos obscuros da memória, toda sua delicadeza, o perfume suave, adocicado, o olhar feiticeiro, o abraço apertado, parecia real. Repentinamente tudo naquele lugar transformou-se em outra realidade, ele foi transportado para a cidade onde chove o tempo todo, sem nunca parar, o mundo dos sonhos etéreos é estranho no primeiro momento. Ao romper da aurora, o retorno ao mundo caótico desperto humano, o feixe de luz invadindo a fresta da janela, riscando o piso do quarto.

   O sol está se erguendo entre nuvens, estendendo os seus raios lentamente no firmamento, no horizonte, tons de laranja pincelando nuvens dispersas, o vento fresco da primavera sopra suavemente. Transeuntes desavisados e apressados seguem sem ao menos perceberem o espetáculo que se descortina diante de todos os olhos, passos largos pelo calçamento, rostos endurecidos, sonolentos. A bela jovem de cabelos longos e olhar luminoso é a única que nota o balé das nuvens, as multicores vestindo o céu, o vento brinca com os seus cabelos.

   Veio na mente do forasteiro algumas lembranças de tempos antigos, recordações de amores esquecidos, os olhos claros banhados de luz, fogo e paixão, um nome, o momento da inocência que foi perdida. O dia calmo, silencioso, de recordações, o fogão a lenha, vermelho vivo, no quintal espaçoso, inúmeros pés de frutas, galinhas cacarejando próximo ao pé de pitanga. Veio-lhe novamente a imagem do seu anjo ledo, dos lábios fartos, os olhos de um lume ofuscante, o beijo cheio de desejos, promessas, sensações. O tempo não volta mais, forasteiro humano narrador. Disse a tinta na caneta do poeta.

   O tempo não lhe é benevolente em nenhum momento, a cada segundo dele é como se fosse uma eternidade, olhos grudados nos ponteiros do relógio, o desejo de retroceder. O tempo passou sem que ele o percebesse, quando deu por conta, os anos lhe roubaram todos os seus dias sem que os aproveitassem, é a tirania do relógio servindo o déspota enlouquecido cronos.

   Talvez em algum lugar no mundo dos sonhos ou nos muitos mundos paralelos o tempo não seja contado e a eternidade sejam as suas vestimentas de gala. Enquanto isso, no mundo caótico desperto, ele corre atrás do tic e do tac sem nunca alcançá-los, alma ambulante nesse deserto.

   Ao coração sempre cante, caríssimo poeta das madrugadas, cante os seus versos tortuosos jogados aos ventos, tuas lamúrias em noites de lua cheia, ao coração jamais deixe de cantar.

   Ao coração sempre cante caríssimo poeta de amores improváveis, cante os teus ardentes versos de paixão, os teus segredos ocultos nas entrelinhas do poema, ao coração revele os nomes das suas flores.

   Ao coração sempre cante, alegremente cante quando o sol lentamente declinar no horizonte de teus olhos entristecidos, cante como se fosse a última música.

   Ao coração sempre cante, regozije a tua alma na melodia dos teus sentimentos, a imaginação na tela da mente, cante como se fosse a última vez.

   Houve um dia que...

   O pequeno dente de Leão ausentou-se do jardim, um pequeno acidente, nada grave, a impossibilitou, suas pétalas tão delicadas necessitam de cuidados, de todas as flores, o dente de leão requer os maiores cuidados.

    A flor de cerejeira é impressionante, magnífica, tal é sua destreza que impressiona todo o jardim, a luz do sol em suas pétalas a deixa ainda mais bela, o perfume inebriante e feiticeiro é surpreendente. Entre as flores que ficam na entrada do jardim está o lírio branco, a rosa do deserto, a calêndula e a nova espécie, cujo nome continua sendo um segredo. A flor de cravo está em um período complexo, de grandes desafios, embora continue sendo uma deusa entre meros mortais, a rainha desse jardim.

   Estamos no final de mais um ciclo, o término do penúltimo mês do ano, parando para refletir sobre tudo o que aconteceu até o presente momento, a reação do humano é de espanto e assombro. Os dias ensinam coisas que os anos jamais souberam, já dizia o poeta, o bem da verdade é que jamais saberá, passa-se o tempo, ou melhor, atropela o tempo com toda sua força e seus atos.

   Quanto ao jardim... 

   É o momento de intenso movimento de visitantes, trânsito de novas flores tentando se adaptar, outras desejando sair. Todos os personagens obedecem ao teatro invisível, cada um seguindo o ritmo da música sendo tocada, gostem ou não dessa melodia um tanto quanto nefasta.

   O coração está completamente desfigurado por dentro e por fora, irreconhecível, transpassado por uma espada invisível e cortante, a dor causada pelo ferimento da espada no peito do forasteiro é devastador. Dor que desatina a doer, espada essa forjada pelo metal dos sentimentos, afiada na pedra das paixões, maníaco cúpido que a manuseia, não satisfeito com as suas flechas venenosas, está agora com espada.

   Quisera o forasteiro ter as armaduras dos nobres guerreiros de outrora, ter o escudo no coração, poder se defender de todas essas crueldades praticadas. Maníaco menino cúpido travesso, sempre zombando da frágil natureza humana, pobre coração moribundo do forasteiro.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O ENIGMA DO JARDIM.




   Dias e semanas que caminham por outubro.

   No balé dos meses estamos nos últimos passos de uma dança entristecida, apática, inicia-se a primavera, algumas flores despontam alegres na copa das árvores, nos jardins, nas praças. Findou-se o rigor do inverno com os seus ventos gelados, geadas, noites assombrosas e terríveis, findou-se, para alguns, um tempo que se arremete a tristezas e melancolia profundamente desmedida. 

   Permita-me falar do jardim...

   Adentrou nas dependências do mesmo, uma jovem, belíssima e rara flor, de cujas estruturas magníficas 

surpreende, já as pétalas reluzentes são de grandiosa beleza. Tal flor é diferente das demais do jardim,

certamente uma espécie diferente, cultivada em outras culturas, o seu perfume é de uma suavidade inigualável, essa flor adaptou-se perfeitamente. 

   É o seu nome, flor de lavanda, todos a receberam de braços abertos, sem dúvidas, entre tantas que já passaram pelo Jardim, é a mais promissora.

   O jardim está em plena festividade, todas as flores reunidas, desfilando deslumbrantes, o balé de múltiplas cores com belíssimas pétalas, perfumes inebriantes, diferentes e maravilhosos. Até mesmo as flores mais recentes participaram, a flor de lavanda com todo o seu encanto e carisma, a flor de mandacaru de um sorriso contagiante, o lírio branco, vê-la recuperada foi emocionante. Todas as demais espécies de flores em seus momentos magníficos, cada flor com suas histórias, algumas da dor e angústia para plena recuperação. O jardineiro alegrou-se de alma e coração com a festa que a rainha das flores ( a flor de cravo) com todo amor, dedicação e muito esforço organizou.

   No entanto...

   Espectros, quimeras fantasmagóricas aterrorizantes, quimeras do passado retornam, teimam, insistem, espectros fantasiosos arrastando-se no pensamento maculando o coração aprisionado ao cárcere. Ele já não consegue agir naturalmente como outrora, há tempos ele não tem uma noite inteira de sono, nuvens escuras e pesadas assomando no profundo pensamento, nuvens trovejando todos seus medos. Ele se esconde atrás de muitos sorrisos mentirosos, os lábios riscam uma curva de falso contentamento, no fundo, resta-lhe apenas rios inteiros de lágrimas. Ele se esconde atrás de cada palavra escrita, no entanto, fazemos presença para desmascará-lo.

   As janelas da sua alma permaneceram escancaradas, tendo-se o perfeito vislumbre do lado de dentro, vê-se que os sentimentos estão reunidos, as janelas permanecem abertas. Da sua discreta janela ele passou a observá-la, os seus tímidos sentimentos ficaram curiosos, os dela fizeram acenos, houve reciprocidade, as emoções encontram-se no olhar. Repentinamente a janela dela fechou-se para ele, ficou apenas a sua janela silenciosamente muda, e seus sentimentos todos contemplavam estrelas. Repentinamente ficou nele saudade incomoda, confessou-nos os devaneios em versos dolorosos, lembranças eternizadas nas entrelinhas do coração.

   Em outro momento...

   Ela despretensiosamente aproximou-se dele, lábios fartos e vermelhos o cativante sorriso, nos olhos castanhos claros um brilho muito intenso, cabelos longos perfumados derramados em cachos. Despretensiosamente ela começou a conversa, as palavras ora eram doces, por vezes, revoltosas, as belas curvas generosas chamavam-lhe a atenção, nas vestes tão simples ela ocultou toda sua realeza. Despretensiosamente ele também se aproximou, com toda cautela possível, ela é uma flor proibida, flor de cujos encantos fisgou-lhe o fraco coração. Despretensiosamente ele entregou-se para flor, agora não sabe o que fazer com seus sentimentos sem nossa ajuda.

   O que dizer...

   A impressão para o forasteiro é de nunca terem lhe dado chances, impressão de esquecimento, ser deixado de lado, diante dos seus olhos moribundos tudo lhe era caótico, no peito ficou a cicatriz de um coração mutilado. A sua juventude passou sem nenhuma novidade, uma vivência completamente apagada, anêmica, os amigos foram poucos, as angústias, muitíssimas, os seus amores impossíveis sempre assombrou-lhe. Restou-lhe o refúgio do silêncio na torre da solidão, restou-lhe uma dor incurável e fantasmas na alma, restou-lhe as palavras e versos jogados aos ventos. Nesse seu momento tenebroso viemos à superfície, o surpreendemos com a nossa existência interna.

   Quanto ao jardim...

   A flor de cerejeira foi nomeada como a nova líder, belas flores foram adquiridas e enfeitam o jardim, o lírio branco passou por uma situação complicada, retornou finalmente, belíssima, forte, recuperada. Quanto às novas espécies, figuram a flor de lavanda, também faz-se presente o jasmim e a rosa branca, todas belíssimas, de pétalas igualmente perfumadas, o jardim está completo, magnífico. A flor de cravo continua sendo a rainha das flores, o seu poder é absoluto, a sua autoridade se faz cada vez maior e mais influente. 

   Quanto ao forasteiro... Devo dizer que...

   Se fosse possível para ele retornar ao passado, em qualquer momento, ainda que por pouco tempo, revistar situações da vida, rever cenas, pessoas, lugares importantes que de alguma maneira deixaram marcas. Certamente ele ficaria espantado com certas situações, as vivências atribuladas, os momentos de solidão, seria doloroso para o forasteiro rever todos os seus erros. Se fosse possível, nesse retorno, encontraria com seu "eu" mais novo, em algum momento, talvez diria muitas coisas para aquele jovem inexperiente, ansioso, precipitado em quase tudo. Se fosse possível... Porém, tal possibilidade existe apenas no papel e na imaginação, a escrita tornou-se a única porta ao passado e futuro. ( Nós somos a chave).

   Novos momentos de velhas situações esquecidas,

oportunidades que chegaram lentas e em atraso, o sorriso falso riscando-lhe o rosto entristecido, o coração batendo inquieto dentro do peito adoentado. Há tempos ele não é o mesmo, tudo converge ao caos em sua discreta janela de vida, sensações e impressões inundam a sua alma de incertezas, nada lhe parece normal, a vida está sempre lhe açoitando. As pessoas ao seu redor parecendo tão felizes, os sorrisos riscando lábios fartos e rostos belos, o contentamento desmesuradamente exibicionista. O forasteiro sabe que é apenas mais um triste e caótico.

   Despertou a manhã ao leste, nasce em resplendor o astro do novo dia, pássaros de asas coloridas cantam nos telhados, as ruas exibem transeuntes apressados ao trabalho. A bela musa de cabelos longos, claros e perfumados, passos largos, olhar perdido no horizonte multicolor, aos poucos, carros e motos ruidosas digladiando, a cidade parece estar viva, em plena efervescência. De repente, a paisagem quase deserta redefine-se, pessoas apressadas por chegarem em algum lugar, é a tirania do relógio cobrando seu preço em tempo.

   Desconectado coração batendo desconcertado, a alma inquieta, incompleta dentro do próprio eu, os seus pensamentos como nuvens tempestuosas, nada do que imaginou é como gostaria que fosse. Pessoas indo apressadas para os seus trabalhos, atribuladas em seus pequenos afazeres, cada um seguindo atropeladamente o ciclo da vida, enquanto as horas contam os seus minutos finais. Os dias são trabalhosos no mundo perdido humano, cada um criando conceitos próprios e regras tolas, cada um tornou-se mestre e senhor de si mesmo. Não existe esperança, apenas expectativas incertas.

   De volta ao jardim...

   Dentre todas as belas flores, das que passaram às novas espécies adquiridas, não há nenhuma que se compare à flor de cravo, ela certamente possui domínio completo e único. A cada novo dia suas belíssimas e reluzentes pétalas se vestem de majestade, quanto ao seu perfume é desconcertante, o formoso caule enfeitiça o olhar, o peculiar 'desenho' no caule não pode ser apagado. O jardineiro, atento observador da flor de cravo, encantou-se com o tal desenho em tonalidade azul em seu alvo caule resplandecente. De todos os sentimentos, o amor é o mais perigoso, tornando-o completamente indefeso, um prisioneiro. O seu coração experimenta sentimentos renovados, não compreende toda sua grandiosidade, a efervescência gigantesca dentro de si mesmo, o contentamento tão desmedido e sem explicação.

   Nasce um novo dia, o sol despertou em multicores,

pássaros cantarolando perfeitamente harmoniosos,

nos pensamentos, imagens e lembranças agradáveis,

sentimentos complexos nas linhas líricas e poéticas. O poeta descreve em versos tortuosos o seu mundo,

todos os seus "eus" e segredos ocultos pousando em versos selados com o enigma que só os sábios conhecem. As flores do jardim são um mistério a ser descoberto, no âmago do jardim que reside o maior tesouro.

   Corações desnorteados, enlouquecidos e selvagens, não podem ser conquistados nunca foram domados, corações de ferro, nus, ausentes de sentimentos, não conseguem sentir compaixão nem benevolência. Os humanos deste presente século são difíceis, uma geração onde pouquíssimos escapam à regra, o mundo desperto enaltece suas falsas aparência, acordos mentirosos de uma paz que nunca existiu. A verdade é a filha do tempo, aos poucos, tudo revelará... No momento em que disserem que haja paz, sobrevirá repentina destruição, está escrito no livro santo. Estamos na iminência de um grandioso e completo caos...

   Quanto ao forasteiro...

   Esmiuçando-lhe os sentimentos mais profundos, aqueles ocultos e pousados no manto do invisível,

analisando-os cuidadosamente fiquei espantado, havia dores, temores, fantasmas, quimeras antigas. Não lhe posso negar os efeitos tão devastadores, certamente que a sua alma está presa, acorrentada, certamente que o coração foi subjugado pelo medo, por isso o olhar perdido, cabisbaixo todas as vezes. Certamente os seus dias são de grandes dores, as quimeras fantasmagóricas e aterrorizantes lhe causam grandes transtornos. Talvez o mundo etéreo dos sonhos lhe seja uma possível saída.

   O forasteiro tornou-se solidão, o seu café é de amargura, a curva delicada do sorriso não lhe cabe no rosto, o coração bate sempre descompassado, angustiado, as lágrimas ocultas riscam-lhe o rosto entristecido. Tornou-se ilusão, as suas palavras são vagas, a alma é uma prisioneira no calabouço de ossos, em seus horizontes não existem mais esperanças, falta-lhe o desejo de viver consigo e com os demais. As palavras tornaram-se um pequeno barco ao mar navegando sem destino aos sabores dos ventos, o seu caminhar é solitário por entre todas as pessoas. As palavras o transformam em uma pequena ilha, o seu maior desejo é que toda a dor, de amá-la, tenha fim.

   Permita-me falar dela...

   A flor de cravo ganhou mais uma pétala no jardim da existência, certamente que seu semblante florístico ficou irradiante, magnífico, esplêndido, não há no jardim primavera flor semelhante nem mais bela. O jardineiro, alegrou-se com a comemoração da flor de cravo, o seu coração ficou em descompasso ao ver tal alegria contagiante lindamente desenhada na face dessa belíssima flor. Certamente que o jardineiro esconde da flor os seus verdadeiros sentimentos, toda a sua grandiosa admiração, o seu descomunal e avassalador amor. O desejo do jardineiro era de presentear a flor de cravo, contudo, tal atitude revelaria traços de seus sentimentos escondidos na fortaleza do coração do homem forasteiro.

   Já dizia o poeta...

   Os sentimentos são confusos, nada confiáveis,

   Os sentimentos confundem, induzindo a erros,

   Os sentimentos se escondem na cofre do coração,

   Os sentimentos são totalmente contrários à razão.

   Por vezes nós somos enganados no que sentimos,

acreditamos que temos domínio próprio do eu, quando nos damos conta, a nossa razão é enganada, somos vítimas do nosso próprio coração traiçoeiro. Não é necessário muito para o coração ser trapaceiro, basta apenas um pouco de proximidade, diálogo, um sorriso, ou talvez um olhar diferente e pronto. Ninguém é livre das armadilhas do coração, somos todos enganados, o jardineiro, a tinta na caneta do poeta, bem como o forasteiro humano narrador.

   Quanto ao coração do jardineiro...

   A dor intensa não lhe coube na caixa do peito, destruiu tudo de dentro para fora, roubando-lhe o desejo de viver, a dor não passou e não existe bálsamo nem alento.

   É a ausência de um simples e generoso sorriso.

   É a ausência de um abraço forte, sincero e amigo.

   É a ausência de empatia, compreensão do sofrer.

   É a ausência de intimidade, contato, corpo e lábios.

   A sua alma amanheceu completamente devastada, o seu moribundo coração amanheceu despedaçado, os olhos se tornaram em rios de lágrimas internas. Essas são palavras de desespero, medo e agonia, talvez a flor de cravo leia os versos tortuosos do jardineiro, talvez ela, apenas ela compreenda o poeta.

   A flor de cravo ausentou-se do jardim primavera,

conta-se entre as flores que ela teve um infortúnio

ferindo-se na base de seu caule próximo às raízes, houve a necessidade de imobilização prolongada. O jardineiro ficou triste por não vê-la no jardim, o coração apertando o peito sem sua presença, o perfume ainda é perceptível em cada canto, deixando o poeta completamente descompassado. Olhar moribundo do poeta, sempre cabisbaixo, de um desesperado amor avassalador, paixão, ele tenta disfarçar, todos no jardim já perceberam. Se este sofrer não é amor, o que mais pode ser?

   Já no outro dia...

   Ela surgiu repentinamente desfilando pelo corredor, os cabelos longos derramando-se nos ombros, o perfume suave, delicado, delirante na verdade, olhos castanhos claros de um brilho único e intenso. Ela surgiu repentinamente, tomou o olhar do poeta, as belas pernas como torres imponentes de ouro, curvas perfeitas ocultas por majestosas vestimentas, o rosto parecendo uma pintura dos mestres antigos. A passos curtos, de corredor a corredor, ela passou sem dizer uma única palavra, apenas observando tudo atentamente, deixando o poeta desnorteado. Ele ficou sem nenhuma reação, mudo, enlouquecido.

   "Os dias escondem segredos que os anos não sabem", certa vez seus olhos passaram nessa frase, nunca lhe deu devida atenção, pois os seus olhos estavam focados nos anos e cegos aos dias corridos. Houve então o momento em que no calor da luta o homem tomba, não é uma derrota definitiva, mas um momento de exaustão, foi então que seus olhos passaram a ver os dias corridos ao invés dos anos. Os dias lhe confidenciam segredos ocultos de todos os seus anos, nunca imaginou que a vida fosse lhe dar essa duríssima lição, nada é por acaso. Os dias ainda disseram mais, havia segredos que os seus segredos escondem, camadas ocultas da própria personalidade sendo reveladas.

   O céu foi coberto por um tapete de nuvens escuras,

ventos inquietantes assobiando na fresta da porta, o ribombar de trovões estremecendo as janelas, repentinamente a pancada de chuva fortíssima. Os transeuntes desavisados correm pelo calçamento, carros igualmente apressados, trânsito tumultuado, o brilho intenso dos relâmpagos seguido de trovões, é apenas mais um dia caótico na cidade. O jardineiro muito cuidadoso com o seu jardim tratou de proteger muitíssimo bem suas belas flores, cada uma tem um cuidado especial nesses momentos. Enquanto o caos impera do lado de fora do mundo desperto, no jardim, a normalidade tem o seu lugar de destaque na vida de cada pequena flor.

   Passado o caos...

   Momentos preciosos de silêncio na metrópole, a rua deserta, os pássaros escondidos nos ninhos, o vento soprando na copa da grande árvore, nuvens escuras estendidas como cobertores no céu. O dia aos poucos ganha vida, tudo se transforma, barulhos de todos os lados rompendo o silêncio, a rua não está mais deserta, rápido ela redefine-se, transeuntes apressados retornam, carros e motos ruidosas. Os pássaros fazendo algazarra na copa da árvore, as nuvens abrem espaço para o astro do novo dia, todos os barulhos se intensificam na metrópole. O forasteiro humano narrador é apenas um detalhe, olhos que observam o mundo caído em movimento.

   A primavera deitam suas multicores cores no céu,

no horizonte os tons de alaranjado se sobressaem, no alto das árvores pássaros cantando alegremente, o ar fresco soprando em muitas faces avermelhadas. A primavera enfeita a natureza com belas flores, o jardim ficou ainda  mais reluzente e colorido, depois do caos,  os perfumes inebriantes diferentes de cada flor, o jardineiro está encantado com tamanha realeza. O mundo caótico caído desperto não enxerga o que está diante dos próprios olhos, toda magnitude estendida em cada canto, pincelada em cada pétala. Os humanos não valorizam o que lhes é concedido gratuitamente, riquezas em detalhes únicos que somente o criador pode proporcionar a cada manhã.

   Chamou-me a atenção, uma flor muito delicada, de pétalas pequenas, a cor é atraente, cintilando com ao toque da luz, no entanto, o seu perfume supera a de outras flores, o seu caule é igualmente pequeno, talvez o menor. Existem algumas marcas no corpo da jovem flor, desenhos enigmáticos, marcas de seu passado, ao primeiro olhar a flor não chama tanta atenção, o seu nome ainda é desconhecido pelo jardineiro. A jovem flor recém adquirida tem seus admiradores, o jardim transformou-se em um lugar de refúgio, distante das mãos dos vândalos destruidores.

   No entanto...

   Desejo falar-lhes de certos livros que são verdadeiramente obras primas, Hermann Hesse, por exemplo, é algo fora do comum, sua escrita elegante, poética, genial. Eu poderia citar Thomas Mann, outro autor gigante, a sua obra, a montanha mágica, é de tirar o fôlego, o brasileiro, Machado de Assis, não deixa a desejar, ler é viver outras vidas em um mesmo momento. A tinta na caneta do poeta é o tipo que foge do mundo real para o literário, se escondendo nas páginas de um bom livro. Recentemente, como podem perceber, me aventurei nas letras jogadas no papel, o jardineiro e o forasteiro também habitam o espaço dessa consciência.

  Me trancaste nas grades de teu peito, afligindo e açoitando, estou constantemente, os meus sentimentos foram subjugados pelos teus, de todo sou submetido às tuas vontades e desejos. Certamente, caríssimo amigo forasteiro humano narrador, tens um grande problema em mãos, é no entanto presa fácil de ser laçada, basta apenas um olhar diferente, a curva de um sorriso adocicado. Sei que bem o quanto o seu coração é fraco, assim como a sua alma é também desvalida, já não sabes o que fazer quanto a esse problema que agigantou-se. Talvez seja esse o teu terrível privilégio e condição.

   Disse a tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro narrador e do jardineiro.

VERDADES CAMUFLADAS.

     "Onde estão escondidos os teus nobres tesouros? Veja que o cofre do teu peito continua inacessível, os teus olhares vagueiam solit...