quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SEGREDOS.

 



   CONTO.



    Manhã calma e silenciosa...

    Figuravam ainda as primeiras horas do primeiro dia da semana, o sol riscava o horizonte com os seus raios primeiros, tons de vermelho e laranja se espalhando no céu à medida que o escuro véu dava lugar ao astro do dia. Fragmentos dispersos de nuvens eram pinceladas com tons quentes, coloridos e alegres, pássaros controlavam harmoniosamente em algum lugar do lado de fora da casa, era possível ouvi-los, porém, difícil de dizer se estavam no telhado ou em alguma árvore. Uma brisa suave banhada de luz atravessava a fresta da janela semi aberta. Karol dormia profundamente, espalhada na cama, cobertores embolados em seu jovem corpo nu, dormir despida era hábito, estranho, e novo, embora desaprovado para a mãe, agradabilíssimo para ela, que experimentava uma sensação de liberdade completa. 

    O som estridente do despertador a fez pular da cama tamanho foi o susto que levou. Seis horas em ponto, a tirania do relógio era aplicada marcando em ponteiros desiguais o momento que denotava o início de uma rotina, terrivelmente odiosa. Olhou-se no espelho pendurado ao lado da porta do quarto, o corpo nu, os seios empinados, a cintura fina, o sexo devidamente depilado, pernas torneadas, ela era uma bela mulher. Por um momento, um instante apenas, a pequena pausa entre o tic e o tac da terrível tirania do relógio, imaginou-se livre como os pássaros cantarolando alegremente na rua. Bastou a estridente buzina de um veículo para ela sair daquele transe incomum, novamente de retorno a sua realidade de vida. Karol sabia que as horas eram contrárias, se não apressasse atrasaria novamente, seria o segundo no mesmo mês, para ela, algo imperdoável.

    Levantou-se lentamente, espreguiçando, esticando os braços, bocejando, o sol iluminando a manhã de domingo, abençoado silêncio embalando o sono de muitos. O seu desejo era de continuar na cama até o horário do almoço, assim como a maioria de seus conhecidos que trabalhavam em fábricas, desfrutando de turnos normais e folgas nos finais de semana. 

    Calçou os pés, foi até sua cômoda, pegou a primeira calcinha que viu, vermelha, pequena, de rendas, vestiu-se, pegou também sutiã combinando, calças, camisa. Foi até o banheiro, água gelada no rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos, perfumou-se, ficou por uns segundos encarando sua imagem no espelho, todos admiravam sua beleza, porém, ela não conseguia enxergar e nem entender que beleza era essa que as pessoas tanto falam.

    Ainda havia o café a ser feito, morar sozinha foi decisão dela, a mãe reprovou a atitude da filha, se o pai fosse vivo certamente não permitiria que ela saísse de casa. Pegou bolsa, crachá, olhou-o por uns minutos, a foto, o nome. Naquele mês completaria cinco anos de empresa, cinco longos anos trabalhando em um supermercado. Fez de tudo, atendente no balcão da padaria, reposição, açougue, até parar no caixa, onde estacionou, não que gostasse, porém, por estar cansada de tanta mudança, achou confortável a nova função. Arrumou a cama, guardou os cobertores, foi direto para cozinha, pegou a cafeteira italiana, presente da tia, mediu o café, acrescentou o açúcar, colocou no fogo, enquanto não ficava pronto, pegou o pão puma no armário e margarina na geladeira, seria esse o seu café, era sempre esse o cardápio, há tempos não mudava, não pelo fato de gostar de rotinas, era mais pela falta de vontade de querer qualquer coisa nova e diferente.

    Tomou o café rapidamente, não queria perder o horário, teria que caminhar pelo menos dez minutos até o terminal Itavuvu, local onde pegaria o ônibus para o centro da cidade. Antes de sair de casa, conferiu novamente portas e janelas se estavam fechadas, repetiu novamente tudo pelo menos duas vezes, era sempre essa dinâmica todos os dias. A rua Darcy Landuffo estava movimentada naquela hora da manhã, alunos apressados por chegarem no horário, carros, motos, buzinas estridentes. Karol saiu a passos largos pela calçada, sem prestar atenção em ninguém, não percebeu Dona Dita acenar da garagem, nem os olhares cobiçosos de seu José.

    A passos largos, seguiu reto pela Darci, a rua extensa, movimenta naquela hora do dia, transeuntes apressados, outros, apenas bisbilhotando na calçada. A oficina de motos de seu Carlos, a loja de roupas da Carmen, a padaria Bruna, cada um disputando espaço e clientes, a movimentação costumeira de todos os dias.

    Os pensamentos tumultuados, a lembrança do trabalho não era agradável, clientes exageradamente chatos, mostrando o que não é, arrogantes na maioria das vezes. Havia também àqueles, homens safados, que sempre tinham alguma piada de segundas intenções, os olhares cobiçosos em seus seios empinados, nem ao menos disfarçavam.

    Logo ganhou a avenida Itavuvu, um pouco mais e estaria no terminal próximo ao shopping, o movimento não era tão intenso naquela hora, como de costume em todos os domingos. Karol parou em frente ao semáforo, embora sem movimento de carros, ela preferiu não atravessar, cuidado nunca era demais, ela que perdeu um primo em acidente no trânsito, sabia bem do risco que era atravessar antes do sinal fechar. Ao seu lado parou uma moça, de estatura mediana, cabelos lisos, rosto delicado, nariz afinado, os lábios grandes, carnudos e cheios. O corpo atlético, talvez uma daquelas moças que passa o dia na academia. A calça clara, apertadíssima, revelando coxas torneadas, um bumbum de dar inveja. Karol tentava disfarçar o seu interesse, não queria que a moça percebesse o seu deslumbramento. O corpo feminino a excitava, ela nunca revelou para ninguém sua sexualidade contrária, se a mãe soubesse que ela gostava de mulheres teria um ataque do coração. O sinal abriu, ela esperou a moça tomar a frente, Karol queria observá-la melhor, se perdendo nas curvas delirantes da moça, que tão rapidamente já estava dentro do terminal no meio da multidão. Karol a perdeu de vista. Não demorou muito e o seu ônibus chegou, T140, vitória régia sentido centro. Para o seu desespero não veio o ônibus articulado, era o pequeno, lotado, sem lugar para se sentar. Terrível condição de que não tem escolha, de quem tem que enfrentar lotação e apertos todos os dias, na ida e no retorno do trabalho.

    Ônibus completamente lotado, era esse ou esperar por outro ainda mais apertado, Karol não teve escolha, entrou no meio da muvuca de corpos, espremendo-se aqui, acotovelando-se ali, até encontrar um lugar, a maioria eram trabalhadores dos comércios da cidade. Valentes guerreiros enfrentando a tão odiosa quanto necessária escala de seis por um. Uma boa parcela das pessoas que disputavam um lugarzinho no coletivo eram mulheres, Karol não se importava se ficasse espremida entre uma e outra, até gostava de sentir os corpos esfregando-se no seu.

    O trajeto até o centro da cidade onde fica o ponto final, terminal Santo Antônio, era coisa de pelo menos vinte minutos. Uma vez no terminal, teria que esperar pelo ônibus para Vila Jardini, no plataforma G, coisa de dez minutos de espera até o trabalho, mais dez minutos e estaria no seu destino. Essa era a sua rotina de todos os dias, odiosa e também necessária, sair era o objetivo, conseguir, quase impossível. Karol estava bem de frente de uma das saídas laterais do ônibus, a sua frente estava uma mulher de meia idade, já nas suas costas, outra mulher jovem, alta, cabelos longos, lisos, vermelhos. A cada terminal o ônibus enchia um pouco mais, assim, Karol foi comprimida em um sanduíche humano. Nas suas costas seios fartos se esfregando, o que a deixou em um agradável e gostoso desconforto. Talvez a moça atrás dela também tivesse necessidades e gostos diferentes, assim como ela tinha. Talvez essa moça seja uma operadora de caixa frustrada como ela era. Karol começou a fantasiar com a vida dessa personagem silenciosa e misteriosa. Quanto à mulher de meia idade à sua frente, conseguiu desvencilhar de Karol, possivelmente incomodada com o esfregar de seios as suas costas.

   Finalmente o ônibus chegou em seu destino, terminal vazio naquela manhã desagradável de domingo. Aquela não era uma manhã prazerosa, tal como das amigas, trabalhando em fábricas, tendo folga aos sábados e domingo, podendo ir às festas, casa de parentes, ou mesmo ficar em casa sem nada para fazer. Enquanto isso, lá estava ela, a caminho do trabalho, seu ganha pão, o seu martírio diário, ter que sorrir sem ter vontade, ser cordial quando não quer, agradar pessoas ignorantes quanto a vontade é de estrangular. Os pensamentos revoltosos, lembranças desagradáveis de momentos que deixou escapar por entre os dedos, oportunidades de empregos, amores e sexo dentro do que ela queria. Tudo passou sem que ela aproveitasse, tais recordações a deixou ainda mais depressiva. Uma sensação de incapacidade, de impotência diante do mundo a sua volta. Karol duvidava de si mesma, de quem era, de sua identidade. A dor dentro do peito a corrói tal como cupim destrói um pedaço de madeira de dentro para fora. Assim era ela, um belo espetáculo, bonita por fora e destruída por dentro. A passos curtos foi ao banheiro feminino, vazio naquele momento, depois se direcionou para a plataforma G para esperar pelo ônibus. Uma vez de pé, na fila que se formava de outros escravos do sistema, não demorou para chegar o coletivo. Logo mais, coisa de vinte minutos, estaria em sua moderna senzala.

    O ônibus saiu poucos minutos depois do horário normal, considerando o trajeto diferente em dias de domingo, Karol chegaria ao trabalho quase em atraso, o que em outros tempos era motivo de terrível angústia, agora não importava mais. Muitas coisas deixaram de ser importantes, de ter prioridade. Karol começava a olhar mais para si mesma, suas vontades, o seu bem estar. Era isso ou ela afundaria no oceano dos próprios sentimentos e angústias. Ela sentia que estava na hora de mudar algumas coisas, novas atitudes, assumir o que realmente era sem ter medo do que ou outros pensam.

    Não demorou para ela chegar ao trabalho, a mesma atmosfera de sempre, faces cerradas das amigas, sorrisos falsos de umas, tapinha nas costas de outras, tudo não passava de um teatro, pelas costas eram as mesmas reclamações e até xingamentos. O turno de trabalho começou tranquilo, movimento de sempre, nos momentos de calma quando os caixas estavam livres, Karol aproveitava para ajudar na organização de algum dos corredores, o preferido dela era o corredor que Marisa era a responsável. Jovem, de beleza exuberante, o corpo de dar inveja, há tempos Karol se encantou com a beleza da jovem, tornando-se grandes amigas, no entanto, em uma conversa das duas semanas atrás, tudo mudou de perspectiva quando ela revelou para Karol que gostava de mulheres, sem saber que sua ouvinte também partilhava de igual sentimentos. Karol começava a entender que a aproximação das duas não era apenas capricho do destino, porém, um recíproco sentimento. Os olhares cobiçosos de ambas, os elogios recorrentes, o fato de sempre saírem no horário do almoço para tomarem sorvete, havia nas pequenas atitudes algo muito maior do que a amizade, um sentimento represado que se revelava aos poucos sem a necessidade de palavras ou confissões. Karol se viu completamente apaixonada pela amiga e sentiu que era de alguma maneira correspondida. O almoço daquele manhã foi a prova definitiva de que ambas tinham um relacionamento sério, quando em um local reservado trocaram o primeiro beijo, oculto beijos, lábios nos lábios, a sensação prazerosa, o amor pulsando nas veias, fazendo o coração bater descompassado, a certeza de que ambas se descobriram para o inevitável. O retorno do almoço e restante do dia foi complicado, não sabiam exatamente como se comportar no ambiente de trabalho, não tinham certeza da reação das pessoas. Karol começava a se preocupar em como falaria para a mãe de seu namoro não convencional com outra mulher, era difícil revelar os segredos do coração. Não tinha medo do que a sociedade fosse dizer, porém, estava em completo desespero com relação à mãe, tão devota, religiosa ao extremo.

     O domingo foi se esquecendo no final de tarde, Karol retornando para casa, para solidão de seus pensamentos, a certeza de que em breve não estaria sozinha, porém, esconder os próprios sentimentos era uma maneira de se esconder do mundo o tempo todo. Ao passo que tudo se desenvolvia na sua vida, igualmente se enrolava novamente, a vida era mesmo cíclica.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

TEM COISAS QUE NUNCA MUDAM.

 



   TEM COISAS QUE NUNCA MUDAM.



      Dia nublado, pouco movimento na rua, acordei assustada e com coração acelerado... Sonhos ruins outra vez, nem sei se devo chamá-los de sonhos, estão mais para pesadelos terríveis.

     Os meus sonhos são repetitivos, uma representação da vida real, o mesmo cenário, as mesmas pessoas...


Nesses sonhos eu tenho de oito para nove anos, mamãe está junta de mim, rodoviária do Tietê, as nossas malas, o ambiente, tudo direitinho, com uma única diferença, a presença dos meus oito irmãos no momento do embarque. O ônibus da viação São Geraldo destino Alagoas, parando na rodoviária, passageiros entrando, malas enormes, abraços de meus irmãos em mim. De repente, as fatídicas palavras do motorista, "A menina vai ter que pagar a passagem, já tem idade." Depois, as aterrorizantes palavras de mamãe, "A Marcilene fica com os irmãos, não tenho dinheiro para pagar." Depois, o meu  choro de desespero, não acreditando que mamãe me abandonaria com os meus irmãos. O sonho termina com o ônibus partindo, o meu coração fora do peito, caído no chão aos pedaços...


     Eu nunca revelei esse sonho para ninguém, nem mesmo para meu esposo, filha e nem para mamãe. Eu sei que preciso de ajuda, de um psicólogo talvez, mas como fazer isso sem plano de saúde? Se eu for depender do SUS nunca vou fazer. 

     Me levanto sem vontade, abro a porta da sacada, fico por um tempo parada do lado de dentro observando a calmaria. Me viro lentamente para esquerda, o meu reflexo no espelho assusta, não gosto do que vejo, me detesto na maioria das vezes por ser como sou. O relógio na parede marca sete horas em ponto, pego o pente que minha filha deixou jogado sobre a cama, começo a lutar com os meus longos e embaraçados cabelos, outra das minhas angústias é nunca sobrar dinheiro para arrumar o cabelo. 

   A casa está em silêncio, minha filha já saiu para escola, o meu esposo foi trabalhar. 

   Lembro-me que tenho médico às onze horas da manhã, o que já me deixa irritada, o consultório médico fica em frente à rodoviária. Embora o meu desejo seja de ficar em casa, eu sei que não posso perder essa consulta, afinal, foram seis meses esperando por um médico, seis meses! Quando eu tinha o plano de saúde era tudo mais fácil, agora, trabalhando em supermercado, ficou tudo mais difícil para nós.

    Mamãe já se levantou, como sempre, às seis da manhã, não sei o motivo de acordar tão cedo. 

     O café já está pronto, posso sentir o seu aroma suave invadindo o quarto. Não demora e ela grita da parte de baixo da casa, 

   — Marcilene... Marcilene... vem tomar café.

    Mamãe é irritante, parece que gosta de provocar, quer que eu acorde junto com as galinhas. 

   — Estou terminando de me arrumar, calma.

    Respondo em um berro, já sem paciência. 

    Termino de arrumar o cabelo, que trabalheira é esse cabelo longo, todo dia a mesma coisa, só não o corto por causa do voto que fiz de cortar quando o processo que meu esposo moveu contra antiga empresa sair, sete anos esperando e nada, meu Deus, quando tudo isso vai terminar.

     Troco de roupa, coloco um perfume e desço para cozinha. Mamãe está esperando, cara fechada como sempre, por certo irritadíssima por não ter conseguido receber a sua aposentadoria no dia anterior, ainda mais sabendo que vou sair.

        — Benção mãe, bom dia.

        Minha cara não é das melhores, a voz sai com irritação.

         — Deus abençoe... 

        A resposta de mamãe vem no mesmo tom.

        — Depois que eu retornar da consulta, levo a senhora pra receber, não me esqueci não...

        — Vou ficar sem receber de novo Marcilene?

        — Não começa mãe! Por favor! Já falei pra senhora que vou levá-la para receber, dá para se acalmar... Que coisa, tenha mais paciência... Peça para o Carlos e a mulher dele te levar.

          — Não começa Marcilene, já falei pra você parar com essa implicância com seu irmão, e outra... Não quero conversar com aquela bandida da mulher dele.

          — Mãe!... Por favor! Eu já não disse pra deixar isso pra lá.

          Mamãe fecha o semblante, fica ainda mais irritada, não quer mais conversar, o que para mim é um alívio, prefiro assim, por mim ficaria o dia todo sem falar com ninguém.

       Termino de tomar o café, mamãe já se levantou e foi cuidar do almoço. Escovo os dentes rapidamente, embora o ponto de ônibus esteja relativamente perto, o horário já está em cima. Pego bolsa, carteira e celular, peço para mamãe buscar a Emily na escola caso eu não chegue a tempo, saio na carreira, com medo do ônibus já ter passado.

       Rua sem movimento, casas fechadas, nenhum vizinho bisbilhotando, o que é raro nesse bairro, até estranho para dizer a verdade. Uma pena que daqui a pouco começa a bagunça, carros e motos, principalmente as motos. Não posso me esquecer dos vizinhos intrometidos, esses são os piores.

     Caminho apressadamente.

     Ganho a avenida Edvar, o ponto é mais a frente, de frente ao Shopping, ponto lotado novamente.

    Felizmente não tem conhecidos para ficar conversando, hoje não estou para conversas. Paro, observo, cada um em seu canto, celulares nas mãos, terrível privilégio da modernidade, aproximando os que estão longe e afastando os de perto.

     Não demora e o ônibus aponta na avenida, por sorte, é o articulado que vem do Vitória Régia. Me arrasto no meio do povo, espremendo aqui e ali, tomando a frente de um e outro até conseguir entrar. Vou direto para o meio do ônibus, o mais próximo possível da porta, procuro um canto qualquer, me sento, pego o celular na bolsa, depois o fone de ouvido. Nem me dei conta de quem se sentou ao meu lado. Vejo apenas de canto que é um homem, fica me comendo com os olhos, bando de safados, talvez querendo puxar conversa, não faço questão nem de cumprimentar. 

     Os pensamentos estão distantes, tumultuosos, como ondas bravias em alto mar. As lembranças distantes, do tempo de criança, de quando mamãe foi de São Paulo para Alagoas, eu tinha apenas sete anos, lembro-me do sonho... Os pensamentos são dissipados com a voz de uma mulher, nem me dei conta de que o homem que estava ao meu lado havia descido, o lugar foi ocupado por uma mulher, que já foi logo querendo puxar conversa.

     — Olá, bom dia!

     "É sério... Vou ter que responder."  É o meu primeiro pensamento.

     — Olá.

     — Quem bom que veio o articulado hoje né, geralmente é o ônibus menor, odeio quando vem o menor, fica todo mundo espremido.

      — Sim.

      — Quer ver lotar é no horário de saída das escolas, que loucura, molecada bagunceira...

      Deixo ela falar, aumento o som do celular no último até ao ponto dos fones de ouvido tremerem. Olho para ela de canto de olho, ela agora é apenas um boneco, uma boca se mexendo sem parar. Finjo que estou ouvindo, aceno positivamente com a cabeça enquanto ela fala sem parar, meu Deus, o que fiz para merecer.

       Acho que a mulher percebeu que não estou para conversar, a boca para de se mover, dou um meio sorriso forçado. Ela se levanta, desce no próximo ponto. Uma multidão desce junto, me levanto rapidamente e me sento na poltrona que é só de um lugar, sento antes que mais pessoas entrem e tomem o lugar. Assim eu posso terminar a viagem sem ser incomodada, sem ter que interagir.

         Novamente os pensamentos se tumultuam.  


Devaneios, lembranças do sonho, da rodoviária do Tietê, eu, criança ainda inocente. Mamãe estava de viagem para Alagoas, somos nove irmãos, mas, apenas eu viajaria com mamãe, como sempre era todo ano, a minha passagem era sempre gratuita. Eu estava ansiosa, querendo que chegasse logo o ônibus, eu queria tanto fazer aquela viagem com mamãe, só nós duas no ônibus. A rodoviária lotada, uma das amigas de mamãe estava conosco, no sonho era os irmãos, na realidade, foi uma amiga de mamãe, fazendo companhia até sairmos. O meu coração bateu ainda mais acelerado quando o ônibus parou de frente para nós duas...


    Saído do meu devaneio quando alguém me toca no ombro, meu Deus, o ônibus havia chegado na rodoviária, eu tinha que correr para não me atrasar para a consulta.

   Eu saio apressadamente, não posso perder tempo, a tirania do relógio me consome, se não fosse o fato de ter que levar mamãe no banco para receber gastaria a tarde toda por aqui mesmo.

   Ruas movimentadas, pessoas se trombando, enquanto nas esquinas, figuram os mesmos malandros de sempre, querendo uma oportunidade para roubar, seguro minha bolsa firme junto do braço enquanto subo a rua da matriz, o consultório do Dr. Clóvis não fica longe. Neurologista conceituado, o melhor da cidade, do estado eu diria. 

     É a segunda vez que retorno ao Dr. Clóvis desde que o Geraldo foi demitido da antiga empresa, quando então perdemos o plano de saúde, na minha última consulta, me descontrolei, foi uma choradeira na frente do médico, coitado, ficou desconcertado, falou para eu não me preocupar, passaria minha consulta no social, sem cobrar nada, o que não poderia acontecer era eu ficar sem os meus remédios.

    Atravesso a praça do fórum velho, mais uma rua reta e estarei no consultório.

    Enquanto caminho apressada, sou tomada por novos devaneios, pensamentos soltos, tumultuando tudo aqui dentro, Dr. Clóvis disse que minha cabeça vai acabar me matando qualquer hora dessas. Ele tem razão, a minha cabeça é o meu algoz, o Geraldo sempre reclama, não posso fazer nada, sou assim, acho que vou morrer assim. Fui criada praticamente sem pai, mamãe se separou de papai quando eu ainda era pequena. Tive que me virar desde pequena, mamãe nunca parava em casa, sempre de viagem para Alagoas, seis meses lá, seis aqui, ficávamos à própria sorte, cada um tendo que se virar como podia.

 

Rodoviária do Tietê, movimento intenso, malas aos montes, ônibus da companhia São Geraldo. Eu sempre acompanhava mamãe nas viagens, nunca aconteceu de eu não viajar, até aquele dia. Papai morava com outra família em Alagoas, era raro vê-lo por lá. Dono Cleusa e o esposo, ambos amigos de muito tempo de mamãe estavam nos acompanhando. Eu, ansiosa para entrar no ônibus, três dias de viagens, era uma aventura que adorava fazer com mamãe. O ônibus chega, abraços e beijos, enquanto isso, o motorista guarda as malas dos passageiros, chegou a nossa vez, o motorista me encara, olha, pede à mamãe os meus documentos. "Senhora, a menina já tem oito anos, ela também paga a passagem". Mamãe olha para amiga, para mim, eu sem entender nada, querendo subir logo no ônibus, quando escuto as palavras de mamãe. "Cleusa, eu não tenho dinheiro para pagar a passagem da Marcilene, vou deixar ela aí com vocês". Eu começo a chorar vendo o motorista arrancar minha mala novamente, lágrimas do fundo da alma, eu não conseguia acreditar naquilo ( até hoje não consigo), minha mãe teve a capacidade de me deixar para trás com, "estranhos", por assim dizer. Qualquer outra mãe do mundo cancelaria a viagem, emprestaria dinheiro para a passagem, sei lá, mas, com certeza não deixaria sua filha caçula...


   Me desfaço do devaneio, já na porta do consultório, a secretária destravou a porta, entro, converso um pouco com ela, o médico estava atendendo, eu seria a próxima, se desse tudo certo, daria tempo de pegar a Emily na escola e levar mamãe para receber.

   Chegou a minha vez de ser atendida, em silêncio entro na sala do médico. A consulta é demorada, como deveria ser toda consulta, atencioso, Dr. Clóvis me examina, tira pressão, faz os procedimentos habituais, ritualísticos até. Depois, pega a minha ficha, lê inteira, hábito estranho, porém, muito eficiente, se reitera no meu caso. 

     Depois de uma boa conversa ele passa a receita com os medicamentos, todos caríssimos com certeza, Dr. Clóvis disse que metade dos meus problemas é psicológico, que a qualquer hora minha cabeça vai me matar, concordo com ele. Falei para ele a respeito da complexidade que a minha relação com a família, minha mãe e meus oito irmãos. Do primeiro casamento, mamãe teve cinco filhos, do segundo, quatro. Sou a raspa do tacho, a caçula por assim dizer. O primeiro esposo da mãe faleceu faz anos, o segundo, o meu pai, se separou. Papai casou novamente, ele bem que tentou voltar com mamãe, mas, aquele coração duro só mesmo Jesus para quebrar. O problema de minha mãe é que ela não dá o braço a torcer, difícil situação. Quando a confrontei do episódio da rodoviária, ela teve capacidade de dizer que não foi eu que havia ficado, mesmo na presença daquela amiga que estava no dia mamãe negou tudo, o que me deixou ainda mais chateada, o sentimento que trago entalado no peito, é como se eu tivesse sido abandonada pela segunda vez.

     Saio do consultório apressada, as horas são fugitivas, tenho que passar no centro comercial da cidade, comprar alguma coisa pra Emily, mamãe e meu esposo, mesmo com o peso das lembranças nunca deixei de amar e ajudar a minha mãe. 

     Passo por uma rua e outra, o dinheiro é curto, tenho que ficar de loja em loja até achar o que quero dentro do que posso pagar.

     O horário é fugitivo.

     Termino de comprar o básico daquilo que pretendia, retorno para casa já depois do horário planejado, por certo Emily já está em casa. Esticada no sofá, fones de ouvidos, celular nas mãos. Mamãe, agoniada me esperando para receber. Desço apressada para a rodoviária, entro na correria para não perder o ônibus, por pouco não dá tempo. 


   Cheguei em casa às duas da tarde em ponto, correndo feito uma louca, morta de fome.

    Emily está no sofá, me cumprimenta, pede benção, um abraço, vem xeretar o que trago na sacola, menina curiosa, parece o pai.


    — Cadê a sua vó? Pergunto

    — Na cozinha, te esperando. 


   Não foi diferente dessa vez, assim como de outras tantas, mamãe fez as mesmas reclamações, eu nem almocei, embora o estômago estivesse nas costas como dizem. Puxei mamãe pelo braço, ela falou que era para eu comer primeiro, mas, conheço bem a peça, se eu não for com ela, a cara emburrada ficará pior.

   Lá vou eu novamente para a caixa econômica federal, por sorte, é perto de casa. Só não é mais rápido porque mamãe anda devagar. Se o meu esposo estivesse em casa pediria ele para nos levar de carro. 

   Vinte minutos depois, entramos no banco, vazio, por um milagre inexplicável, vazio. Não perdi tempo, saquei a aposentadoria da mamãe, coloquei tudo em sua carteira, e retornei para casa.

     Quanto à mamãe... 

    Como das vezes anteriores, tirou a cara emburrada e colocou um largo sorriso no rosto na mesma hora, guardou o dinheiro na bolsinha e foi para o centro da cidade, eu, cansada, com fome, com raiva, voltei para casa sozinha, no peito o mesmo sentimento de abandono, é sempre assim, tem coisas que nunca mudam.

SEGREDOS.

     CONTO.     Manhã calma e silenciosa...     Figuravam ainda as primeiras horas do primeiro dia da semana, o sol riscava o horizonte com ...