CANTO 1.
Vê... Como ela é bela,
De olhar reluzente,
A face de uma donzela,
De olhar envolvente,
Lembra, a flor na janela,
Lembra, a estrela cadente,
Recordo tudo com emoção,
São tesouros ocultos no coração.
Vê... como ela é formosa,
Cheia de encantos,
Inteligente, altruísta, graciosa,
Espreitando-me pelos cantos,
Tão impulsiva, ansiosa,
Dominando os meus sentimentos,
És tu, mesmo assim,
Oceano de amor sem fim.
Vê... Como o tempo passou,
Lembra da nossa mocidade,
Hoje, aquilo tudo acabou,
Eu era ainda de pouca idade,
Quando o amor me arrebatou,
Meu coração tão sem maldade,
Inundado de boas recordações,
Sentimentos e emoções.
Vê... O nosso tempo findou,
No coração, se fez calmaria,
Este seio que tanto amou,
Entre a dor e a alegria,
Este órgão que por ti cantou,
Jurou que não mais cantaria,
E nas asas do vento,
Foi-se tão ditoso intento.
Vê... Nada mais é como antes
Tudo se faz diferente,
Nossos corações tão inocentes,
Tolo aventureiro, navegante imprudente,
Aqueles momentos tão importantes,
Se fez agora mais distante,
Minha alma cheia de medo,
Ocultou-se neste peito aedo.
Vê... O alvorecer de novembro,
De calor tão intenso,
Ainda me lembro,
Na janela, branco lenço,
Parei, chorei, angustiante, relembro,
Aquele amor foi tão imenso,
Desejei-a sem ter medo,
Você era meu doce anjo ledo.
Vê... O quanto eu te amei
Demasiadamente noite e dia,
Com você sempre sonhei,
Meu coração, que era alegria,
Agora eu já nem sei,
Tudo é vão, é dor, agonia,
Sou poeta forasteiro,
Louco desordeiro.
Vê... O meu desespero absoluto,
Diante do teu silêncio desalmado,
Não sou aquele jovem astuto,
Sou um tanto triste, infeliz, calado,
Meu coração está em luto,
No peito foi dilacerado,
Morreu a bela flor,
Morreu tão grande amor.
Vê... Que mundo tão traiçoeiro,
Quisera eu viver esses desejos,
Pobre que sou, triste cancioneiro,
Desejando teus ardentes beijos,
Sou, no entanto, vil prisioneiro,
De teus ardis gracejos,
Sou a ave cancioneira,
No Olimpo prisioneira.
Vê... Estou sempre escondido,
Envolto na neblina da incerteza,
De tudo e de todos, perdido,
De nada mais tenho certeza,
Meu olhar de ti esquecido,
Clamando por tua beleza,
Sou mesmo um poeta destemido?
Ou, apenas um insano deprimido?

