quarta-feira, 2 de setembro de 2026

DESERTO DOS TÁRTAROS.

 

   





    Dia calmo.
  Não é comum dias assim, principalmente em uma cidade recentemente considerada metrópole, com seus mais de setecentos mil habitantes, ou qualquer coisa do tipo. Não é um lugar... Como vou dizer... Totalmente ruim, não é, também não é um paraíso. Todas as cidades são adequadas na medida do possível para os seus habitantes, que, em geral, as consideram dentro dos padrões. Quem acostumou-se em cidades pequenas odeiam as grades, assim procede o repúdio de quem vive em em metrópole indo para lugares menores. É claro que existem aqueles que fogem à regra, bem como os que se adaptam ao ambiente.  
      Talvez eu seja alguém que fugiu à regra.
   Eu não nasci em uma cidade grande, o bem da verdade é que eu nasci em uma cidade minúscula, no então belíssimo hospital por nome nossa senhora de Fátima, quanto a determinada localização do meu nascimento... Me reservo o direito de não dizê-lo. Parte da minha criação foi em uma fazenda, belíssima naquele tempo. Hoje o que resta é mato e os esqueletos de casas velhas. No entanto, ao passado reservo belíssimas recordações. O meu reino encantado ainda existe em algum lugar dentro do meu coração. Da cidade do meu nascimento, pequena, aconchegante, restou algumas boas lembranças, hoje já não é tão pequena.
        O tempo passou, ficaram apenas saudades.
    Hoje eu vivo em uma metrópole alucinada, uma cidade aos moldes da Paulicéia desvairada cujos habitantes parecem não terem tempo sequer para dormirem. Assim é Sorocaba. A manhã calma é apenas ilusão, uma miragem nesse deserto de concreto e aço. Eu finjo para mim mesmo ter me acostumado com toda essa insanidade, no começo funcionava bem, hoje... Já não sei bem o que responder. Trabalho e mais trabalho, sempre assim, a famosa corrida dos ratos, felizes com suas rodas infinitas em gaiolas enormes que não levam a lugar nenhum. A verdade é que estamos fadados ao mesmo triste destino de solidão e desespero.
      Retomando o pensamento inicial...
      Manhã agradável, dia calmo.
    Despertei antes das seis, noite terrível de sono, não foi devido ao barulho das motos na rua, nem as festas barulhentas nos bairros vizinhos, nada disso, a verdade, a causa da insônia, da qual eu odeio de admitir, é a síndrome dos pensamentos acelerados, esse volume de... de coisas no espectro mental na forma imaginária de pensamentos se acumulando e se alternando sem nenhum controle, sem nenhum sentido. É isso. Eu não tenho outra explicação para essa loucura em minha cabeça, todas as noites é a mesma coisa, Já me disseram para procurar um especialista, psicólogo, psiquiatra, qualquer coisa que ajude, dúvido muito que funcione. Em outros tempos da minha vida eu já estive no consultório de uma psicóloga, longas conversas, enfim, foi um período benéfico, um momento em que eu dispunha de tempo, dinheiro, plano de saúde, coisas essas que estão fora do meu escopo no momento. Como dito inicialmente, madruguei, porém, não levantei de pronto, fiquei na cama rolando de um lado para outro, olhando a parede, o teto, minha esposa dormindo profundamente. A certa hora resolvi levantar, havia o café para ser feito, comprar pães, preparar a mochila do trabalho, coisas do cotidiano. Geralmente a minha esposa faz toda essa tarefa, no entanto, hoje eu tomei frente de tudo, é certo que ela vai xingar quando acordar, mas, o motivo de eu ter me adiantado nem mesmo sei dizer.
    Tudo pronto, café feito, despejado na xícara com elegância, a fumaça bailarina esvaindo-se.
        Na cabeça pensamentos...
  Nuvens grossas de imagens fantasmagóricas, nebulosas inundando tudo. Raios de sensações e sentimentos ruins, descobertas agonizantes.
       O primeiro gole, o primeiro pedaço de pão. 
  O coração está acelerado, a alma deslocada. Lembranças do dia anterior, das imagens, ou melhor, escritos que flagrei... Bisbilhotei no celular da minha esposa, lá estava o seu rastro no histórico, vídeos indecentes, pornográficos... Não sei o que dizer, suas vontades não estão sendo satisfeitas? Ou todos nós temos nossos segredos ocultos? 
         A segunda opção é bem válida, quem sou eu para julgá-la.
         Olho no relógio, a hora é fugitiva, deixo a xícara na pia, pego minhas chaves, crachá, bolsa, sigo o destino de todos os dias. Abro o portão da garagem com cuidado, olhando de um lado para outro, o medo ainda está lá dentro, lembranças do assalto de outros tempos. Toda precaução é necessária. Ganho a rua, a caminhada até o terminal Itavuvu é um pouquinho longa, coisa de dez minutos. Quanto ao trabalho, figura do outro lado da cidade. Vila Nova, supermercado dos Estados.
        Já no terminal, alívio.
        No primeiro momento estou sozinho.
       No segundo momento, como em um piscar de olhos, o pequeno espaço retangular de um metro e setenta por vinte, fica lotado. Trabalhadores e trabalhadoras como eu, CLT, correria, marmitex feita na mochila, rostos de pedra, fisionomias nada amigáveis. É apenas uma impressão, no entanto, a primeira imagem é a que fica. Me posiciono perto da porta automática, dentro de dois minutos o ônibus 140 linha vitória estará encostando, ônibus sanfonado, embora enorme, sempre está lotado, sempre viajo de pé.
        No terceiro momento, quando já dentro do veículo, me posiciono no lugar de todos os dias, o cantinho esquerdo da parte sanfonada, onde é possível ver a extensão do ônibus de um lado para outro. Não deixo de observar as pessoas, todas elas, principalmente as mulheres. Elas, sempre presentes, rostos joviais, belíssimos, lábios pintados, carnudos, outros finos, olhos claros, outros escuros, seios enormes e bicudos, outros menores, calças apertadas, a intimidade divididas, outras nem aparecem. Talvez, lá dentro de mim, exista um certo maníaco... Loucura pensar nisso, mas, vai lá saber se elas também não fazem as mesmas observações no silêncio de suas mentes a respeito de nós homens. Nunca falei uma única palavra com qualquer pessoa que fosse, seja homem ou mulher, no máximo, respondendo alguma pergunta. Esse ser degenerado e imaginativo existe somente aqui dentro, alias, cada um possui a sua parte, degenerada, em algum lugar lá dentro.
           O ônibus segue o seu curso de todos os dias, segue pelo centro, transeuntes de todos os dias, passos apressados de alguns, passos despreocupados de outros, enquanto a maioria está de olhos grudados nas telas dos celulares, outros estão com eles grudados nos ouvidos. Não é diferente dentro do ônibus, de toda esse amontoado de pessoas, apenas dois não estão debaixo do domínio da tecnologia. Um sou eu, o outro é uma moça, cabelos longos, tatuagens nós braços, livro nas mãos, "Naná, de Zola", belíssimo exemplar de um dos grandes romances franceses. É uma pena que somente ela desfrute de tão agradável companhia que é o livro. O meu livro está na mochila. "A paixão do Dr. Christian - Colleen McCullouch." Sem dúvidas, essa leitura está sendo uma das melhores do mês de dezembro. No entanto, enquanto estou no ônibus, gosto de observar o que as pessoas fazem, costume estranho eu sei, porém, não sou o único. Fazemos coisas que são estranhas e nem percebemos, seja em público ou no privado, principalmente quando, ( achamos que não estamos sendo notados). Tais costumes acabam revelando do lado de fora do nosso exterior o que, às vezes, escondemos por dentro do próprio eu.
         Nesse exato momento me sinto dividido, a minha mente está dividida, metade preocupadíssima com os afazeres que tenho por obrigação... A outra metade, em pensamentos não convencionais, conforme meus desejos internos se afloram, por fim, afogando-se em frustrações.
       Ruas e curvas, trânsito, buzinas estridentes, pessoas caminhando apressadas pelo calçamento. É um mundo novo, diferente do passado, onde, olhos encontrava-se repentinamente e dava-se início em algum diálogo empolgante. O meu destino está próximo. O local de trabalho está no meu campo de visão, do lado de dentro do ônibus, tudo parece perfeito, no entanto, sabe-se que é uma mentira, o lado de fora veste-se de uma falsa paz com cores de normalidade.
         Desço do ônibus, paro na esquina, a poucos metros de distância do trabalho. O coração começa a bater descompassado, as mãos começam a suar frio, a alma está em terrível aflição. No pensamento uma voz dizendo para voltar, eu não a obedeço é claro, nunca obedeço minhas vezes interiores. Passos apressados seguem sem vontade de chegar, ajeito a mochila nas costas. O coração parece que vai sair pela boca, não consigo controlar minhas emoções, então tomo a decisão de mantê-las trancafiadas no calabouço das memórias perdidas. Lá, nesse inusitado lugar esconde-se, ou, está aprisionado todos os tipos e formas de pensamentos involuntários, indesejáveis, indiscretos. Às vezes, não é costumeiro, porém, um e outro pensamento consegue fugir da prisão, então sou atormentado o tempo todo, é impossível evitar.
      Estou na frente do estabelecimento.
     No caixa a japonesa e outra menina, jovem aprendiz.
    Um discreto aceno, outro quase inaudível bom dia, que respondo de pronto com o menear de cabeça e um meio sorriso. É o momento ideal para praticar meu terrível teatro de todos os dias.
    Passo pelos corredores apressado, vou direto para o vestiário.
     Troco de roupas, troco de fisionomia, em uma última análise, troco de corpo eu acho. De uma pessoa atormentada para outra sorridente, de alguém que não fala nada para outro conversador. É o momento de entrar em cena, o palco é o balcão de atendimento, os clientes, minha plateia. Tudo pronto para começar a encenação mais mentirosa de todos os tempos.
         Cliente após cliente...
         Sorrisos falsos, descabida alegria que não existe na realidade, mentiras sendo contadas e amontoadas. Enquanto isso, entre pausas regulares de clientes, correria nos pequenos afazeres universais. Nesses instantes, aflora o homem verdadeiro cheio de ressentimento e amargura, sendo trancado novamente pelo eu interior sorridente e mentiroso.
            Clientes, afazeres, horas que passam...
           É o momento do fechar das cortinas, o palco está silencioso, a plateia foi embora, agora, resta o que sobrou do verdadeiro ator, completamente atormentado e de retorno para o seu lar. O caminho é inverso, um mundo invertido de personagens maléficos, novamente volto aos pensamentos involuntários, indesejáveis, indiscretos, de observações indevidas sem ser notado. É o acumulo de frustrações no peito.
          Ônibus, ruas, luzes...
    Ao caminho do lar, ruas escuras com figuras estranhas que não assustam mais.
            Uma vez em casa... Beijos, banho, jantar, papo rápido sobre o dia, as mesmas coisas de sempre. É hora de dormir, o momento de finalizar o pensamento repetitivo para recomeçá-lo no outro dia.
         É sempre assim neste meu deserto dos tártaros de todos os dias.
 A campina verdejante, flores ao longe, o perfume único e suave de espécies diversas, ele caminha livre, liberto de todas as amarras da vida. Não há vestígios de preocupação em sua mente com relação a trabalho, casa, contas, mundo, nada de nada. Ele apenas caminha naquele lugar nunca antes visto, pássaros cantando ao longe, ele caminha livre, tão pouco a frente aparece, repentinamente, um grande abismo, uma ponte estreita de cordas e tábuas, do outro lado, outro jardim ainda mais belo e cheio de seres mágicos alados. Ele quer atravessar, o primeiro passo incerto nas pequenas tábuas daquela ponte. Abaixo o abismo cheio de trevas. A curiosidade é maior do que o medo, passo após passo, de repente, quando alcança o meio da ponte, ouve-se o romper das cordas, depois a queda naquele abismo sem fim, gritos e escuridão... Depois do silêncio o desapertar, não é mais o jardim, campinas verdejantes, agora figurava um grande deserto a frente, assustou-se com a paisagem árida, o som cortante do vento, atrás de si, um enorme castelo, "certamente", era aquele o famoso deserto dos tártaros, "mas como isso é possível", pensou novamente. De repente,o som de cavalheiros, era um exército vindo em sua direção, o som agudo de uma flecha acertando o seu peito, a dor descomunal...
        Acordei aos gritos, assustando a todos, era apenas o mesmo sonho terrível, todas as noites o mesmo sonho, o tal deserto dos tártaros, a formação dos pensamentos, involuntários, indesejáveis. O irreal às vezes, se faz realidade no mundo caótico dos sonhos.
    Nos últimos tempos tenho sonhos recorrentes e perturbadores. Não basta o dia em si ser assombrado, à noite também revela os seus segredos, enquanto a loucura lentamente encobre meu entendimento.

sábado, 29 de agosto de 2026

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

 

    


   Conto...

   Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vassoura na parede e a pá de plástico ficou caída ao lado, a dor de cabeça e o desconforto eram agoniantes.

   Mirela colocou as duas mãos cobrindo a face, os cabelos longos derramava-se por entre os dedos e ombros, ela sentiu os seus batimentos cardíacos aumentarem, o desconforto na nuca apertando gradativamente e causando grande agonia e até ânsia de vômito.

    Não era a primeira crise naquela semana.

    Ela sabia que a pressão arterial estava muito alterada, evitou fazer a medição minutos antes, sabendo que o desconforto não passaria tomou o remédio que seu médico receitou, agora era esperar ele fazer efeito. Perto de completar o quadragésimo primeiro aniversário, angustiou-se por já estar fazendo uso de medicamentos que para ela eram inconcebíveis. Mirela comparava-se com as amigas na mesma idade, saudáveis, desfrutando do conforto de poder treinar em boas academias, mulheres com corpos invejáveis, enquanto ela estava naquela situação em que julgava-se deplorável.

   A rua estava deserta naquela manhã de sexta-feira, o esposo havia saído para trabalhar e retornaria somente no final de tarde, era apenas ela, com sua dor, a solidão de todos os dias e sua insatisfação com a própria vida. 

    Vãs imaginações e pensamentos imperfeitos no espectro da mente.

    Mirela observava as pessoas que passavam vagarosas pela calçada, sorrisos largos, conversas animadas, um universo que parecia funcionar diferente de seu mundo caótico no lado de dentro de seu portão. Tomada por um impulso repentino, levantou-se quase em um pulo, pegou a vassoura e começou a varrer cada canto da garagem, lentamente, repetiu o processo duas vezes, juntou toda sujeira em uma sacolinha e a deixou no canto do portão. Antes de voltar para dentro de casa, olhou para a rua novamente, figuravam apenas um e outro transeunte desavisado, os olhos miravam o nada, porém, olhando na verdade para dentro da própria alma em fogo ardente. Os pensamentos involuntários, indesejáveis, talvez o resultado dos hormônios à flor da pele naquela semana, os desejos não supridos que atormentava-lhe a carne, a ausência íntima pesava cada vez mais.

    Eram os fantasmas do passado voltando, quimeras terríveis e assustadoras vieram atormentá-la, em sonhos durante a noite e em imaginações no decurso de seu dia. Mirela não tinha mais controle de si mesma nem dos próprios pensamentos. Enquanto a confusão de sentimentos a corroía de dentro para fora, queimando-lhe a carne em um fogo que não se pode ver fazendo-a lutar contra as suas vontades mais secretas, ela bem que tentava distrair a sua mente em seus pequenos afazeres universais domésticos. A tentativa era falha, ainda que ela mentisse para si dizendo que não. O seu corpo gritava em silêncio enquanto ela ignorava os uivos intensos da sexualidade reprimida, as vontades, necessidades de mulher não devidamente satisfeitas.

    O esposo, alheio aos próprios cuidados pessoais, estava longe de se atentar aos da esposa, que por sua vez, secretamente, durante os banhos avançava lentamente em descobrir os prazeres que as mãos lhe poderia proporcionar. Entretanto, nas últimas semanas, tal dinâmica não estava sendo suficiente, assim como os vídeos indecentes também não estavam.

     As horas avançavam lentamente, era preciso cuidar do almoço, terminar de lavar as roupas, arrumar a casa, ir ao mercado, enfim, a lista parecia infinita, o trabalho doméstico parecia nunca ter fim. Mirela pegou a vassoura e pá, deu uma última olhada para a rua, retomou para dentro de casa.

   Enquanto cortava os legumes e preparava o feijão para o almoço, novamente os pensamentos, lembranças, as conversas com o amigo.

   Alguns meses atrás, vasculhando de forma aleatória o seu Facebook, encontrou um velho amigo nas sugestões de amizades, mandou-lhe um convite, sem um retorno imediato. Dias depois o convite foi aceito, conversas se iniciaram pelo messenger, aquele não era qualquer amigo, o passado escondia segredos, ela tentou livrar-se deles, mas, os segredos sempre voltam à superfície da vida em algum momento.

      Mirela pegou o celular novamente, enquanto procurava um vídeo aleatório no YouTube para distrair, veio a notificação do messenger... Era mensagem dele, o amigo.

           

" Olá gatona, bom dia"


    Ela não respondeu de imediato, lembranças vieram em seus pensamentos, o passado sombrio sempre volta de alguma forma quando não devidamente resolvido.

    Houve uma época na vida de Mirela, semelhante ao momento presente, onde os desacertos e discussões com o parceiro havia criado uma barreira entre eles. Cada vez mais distantes intimamente um do outro, Mirela via-se em terríveis apuros com sua líbido aflorada e não satisfeita. Foi por causa desses desencontros com o marido que ela reencontrou o amigo, no face, messenger. As trocas de mensagens ficaram contínuas, e o contínuo mais íntimo, conversas e fotos indevidas de ambos, enfim, era o abismo diante dela, até ao ponto do peso de sua consciência lhe esbofetear, fazê-la voltar a razão. Lágrimas, meias confissões, decepção e perdão. Ela o bloqueou naquele tempo, jurou nunca mais procurá-lo. Porém, o tempo é um brilhante e carrasco jogador, nada lhe escapa.

     Dedos no teclado, a vontade de responder imediatamente, o corpo respondendo sem o seu controle. A razão dizendo não, o coração desejoso em continuar.


"Bom dia" 

Seguido de um emoji de coração.


       Era tarde demais para voltar atrás, ela estava ciente do que estava fazendo, não era uma traição, apenas uma conversa com o amigo, afinal, o que tem de mais em uma conversa qualquer, pensou. Ambos são comprometidos, não havia nada de errado. 

       Enquanto ela se perdia nesses pensamentos involuntários, aguardava com certa ansiedade a resposta do amigo. A demora aumentando sua ansiedade. Mirela relutante deixou o celular na mesa da cozinha enquanto continuava o almoço. As horas eram fugitivas, se não corresse tudo atrasaria. Apressou-se para terminar o almoço o quanto antes, durante a tarefa, novamente o som de notificação do celular, "deve ser ele", ela pensou pegando o celular novamente, uma ponta de decepção em seu rosto ao ver que era apenas um e-mail qualquer. O dia seguiu o seu curso, entre uma tarefa e outra, o celular ficava ao lado, cada notificação, o coração palpitava, ela corria para ver se era mensagem do amigo, novamente a decepção seguidas vezes. 

      O início de tarde ganhou os céus em tons cinzas e nuvens pesadas, não demoraria muito para o esposo retornar do trabalho, Mirela estava atrasada nos seus afazeres, precavida, antes que o marido cruzasse o umbral da porta era necessário silenciar todas as notificações, uma cautela urgente para evitar qualquer desconfiança dele.


" Bom dia. Estou muito ocupada por aqui, depois conversamos"


          A resposta veio imediatamente, como se ele estivesse apenas aguardando.


" Tudo bem, vou ficar esperando, te envio outra mensagem depois".


         O amigo era esperto, sabia os horários certos de mandar mensagem, conhecendo o momento oportuno em que o esposo de Mirela não estaria em casa.

         O coração estava acelerado, uma mistura estranha de sentimentos, medo, angústia, prazer e satisfação. Mirela sentia seu corpo responder de imediato, a vontade de se tocar, de extravasar, porém, era preciso tomar o controle do corpo enquanto ainda era possível. Aproveitando que o remédio de pressão estava fazendo efeito, a dor de cabeça e aperto na nunca havia passado, ela aproveitou para cuidar dos afazeres mais pesados da casa. 

          A tirania do relógio era implacável.

         Enquanto o feijão estava na pressão, deixou o arroz na panela elétrica, a mistura seria feita depois. Aproveitou para varrer a parte de cima da casa, o silêncio do dia era muito estranho, refletindo as suas vozes interiores, revelando segredos que a alma esconde. Enquanto varria cada quarto, lembranças vieram ao pensamento, recordações das mensagens antigas do amigo, naquela época tudo começou inocentemente, sem segundas intenções, no entanto, a situação contribuiu para cuidar do curso das mensagens mais ousadas, perguntas indecentes, que, aos poucos eram respondidas na mesma medida. Lembrar de tudo era doloroso, inadequado, porém, novamente a vida e os problemas a empurravam ladeira abaixo, sabendo disso, Mirela resistia. Decidiu não responder o amigo naquele dia, se afogaria nos trabalhos domésticos até quase não se aguentar de cansaço, ocupando a mente o máximo possível. Terminado de varrer a casa, pegou o balde com produtos e água, lavaria os banheiros de cima, antes, desligou o feijão, o arroz já estava pronto, faltava a mistura. Para não ter que parar novamente, fritou os bifes rapidamente. Tudo pronto e alinhado. Mirela não quis perder tempo, lutava contra os seus pensamentos, contra as vontades do seu corpo, era difícil resistir, para disfarçar a intensidade de seus hormônios, decidiu limpar o quanto antes a parte de cima da casa, subiu com baldes e toda parafernália para terminar a limpeza da casa, era necessário fazer o que tinha a se fazer.

      A rua estava movimentada, já precipitando o final da tarde, o barulho típico de carros, motos, buzinas, as escolas que ficavam próximo da sua casa eram responsáveis pelo alvoroço.

     O serviço de limpeza estava pronto, quanto ao almoço já com ares de jantar, era somente esquentar e comer, a fome começava apertar naquele momento. Os pensamentos continuavam tumultuosos, nebulosos, indecentes de certa maneira. Mirela não se contendo, buscou no celular alívio em vídeos proibidos, imaginando-se naquelas posições, era como se fosse ela sendo acariciada por dedos ágeis e línguas ferozes. Fechou os olhos, começou a tocar-se, quando então um buzinaço a devolveu a realidade do dia. As mensagens do amigo já haviam sido visualizadas, respondidas, era um passo que ela sentia ser errado, indevido, porém, naquele momento da vida ela não estava se importando muito com o que poderia acontecer, ainda sim, o senso de prudência ainda prevalecia.

       Guardado todos os utensílios de limpeza, era o momento de cuidar de outros afazeres, esquentar o arroz e feijão, fazer uma salada simples, fazer um suco natural, aproveitaria para deixá-los adiantados para o jantar do esposo.

    Preparou tudo rapidamente, pegou o sal e outros temperos, cúrcuma, pimenta, limão, juntou uma pitada de cada coisa, era uma mistura estranha que revelava ao final uma gama única de sabores. Fritou outros dois bifes deixando-os um pouco fora do ponto ideal, Mirela gostava de sentir o suco da carne, o esposo também.

     Mirela estava inquieta, buscando ocupar-se dentro de casa sem encontrar exatamente o que deveria fazer, tudo parecia vago, não preenchia o vazio em si. Por um momento ficou com o celular nas mãos, olhando as mensagens do amigo, um fogo interior a queimava, deveria ou não respondê-lo, se o fizesse, seria a confirmação, ainda que oculta, de sua traição.

      Mirela digladiavam consigo mesma.entre um afazer e outro que arrumava para distrair a mente, logo via-se com o celular em mãos, o coração aflito, o medo misturado ao prazer do que é proibido. As horas avançam, ela só se deu conta do tempo fugitivo quando o sol já declinava no horizonte, logo mais o esposo estaria de volta, cansado, com fome, cheio de histórias do trabalho, chateações infinitas.

    Temendo ser flagrada pelo esposo, apagou as mensagens do amigo depois de algumas respostas e considerações sobre o como e o quando. Nem bem terminou o procedimento no aparelho, ouviu o cadeado do portão da garagem ranger, era Nicanor que estava chegando do trabalho.

      Era hora de esquentar a janta enquanto o esposo tomava banho, como de costume, ele primeiro beijava Mirela, um selinho descuidado e sem o mínimo de paixão, depois de desfazer a bolsa, tirar a marmita para lavar, a garrafa de água, sentava-se à mesa da cozinha e despejava uma enxurrada de histórias e reclamações do seu trabalho no supermercado. Reclamava dos clientes, de tudo e todos. Somente depois seguia para o banheiro. Mirela já havia se acostumado a escutar sem ouvir, responder automaticamente sem adentrar nos assuntos. A mente e coração estavam em outro lugar, porém, toda cautela era pouco, embora desatento, o esposo poderia perceber seu distanciamento.

        O final de tarde foi dando lugar a noite, os pensamentos dando espaço para fantasias, enquanto o silêncio do quarto era palco de planos teimosos e inquietantes na órbita de um coração a cada dia mais degenerado em mensagens não devidas.

DESERTO DOS TÁRTAROS.

          Dia calmo.   Não é comum dias assim, principalmente em uma cidade recentemente considerada metrópole, com seus mais de setecentos ...