sábado, 29 de agosto de 2026

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

 

    


   Conto...

   Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vassoura na parede e a pá de plástico ficou caída ao lado, a dor de cabeça e o desconforto eram agoniantes.

   Mirela colocou as duas mãos cobrindo a face, os cabelos longos derramava-se por entre os dedos e ombros, ela sentiu os seus batimentos cardíacos aumentarem, o desconforto na nuca apertando gradativamente e causando grande agonia e até ânsia de vômito.

    Não era a primeira crise naquela semana.

    Ela sabia que a pressão arterial estava muito alterada, evitou fazer a medição minutos antes, sabendo que o desconforto não passaria tomou o remédio que seu médico receitou, agora era esperar ele fazer efeito. Perto de completar o quadragésimo primeiro aniversário, angustiou-se por já estar fazendo uso de medicamentos que para ela eram inconcebíveis. Mirela comparava-se com as amigas na mesma idade, saudáveis, desfrutando do conforto de poder treinar em boas academias, mulheres com corpos invejáveis, enquanto ela estava naquela situação em que julgava-se deplorável.

   A rua estava deserta naquela manhã de sexta-feira, o esposo havia saído para trabalhar e retornaria somente no final de tarde, era apenas ela, com sua dor, a solidão de todos os dias e sua insatisfação com a própria vida. 

    Vãs imaginações e pensamentos imperfeitos no espectro da mente.

    Mirela observava as pessoas que passavam vagarosas pela calçada, sorrisos largos, conversas animadas, um universo que parecia funcionar diferente de seu mundo caótico no lado de dentro de seu portão. Tomada por um impulso repentino, levantou-se quase em um pulo, pegou a vassoura e começou a varrer cada canto da garagem, lentamente, repetiu o processo duas vezes, juntou toda sujeira em uma sacolinha e a deixou no canto do portão. Antes de voltar para dentro de casa, olhou para a rua novamente, figuravam apenas um e outro transeunte desavisado, os olhos miravam o nada, porém, olhando na verdade para dentro da própria alma em fogo ardente. Os pensamentos involuntários, indesejáveis, talvez o resultado dos hormônios à flor da pele naquela semana, os desejos não supridos que atormentava-lhe a carne, a ausência íntima pesava cada vez mais.

    Eram os fantasmas do passado voltando, quimeras terríveis e assustadoras vieram atormentá-la, em sonhos durante a noite e em imaginações no decurso de seu dia. Mirela não tinha mais controle de si mesma nem dos próprios pensamentos. Enquanto a confusão de sentimentos a corroía de dentro para fora, queimando-lhe a carne em um fogo que não se pode ver fazendo-a lutar contra as suas vontades mais secretas, ela bem que tentava distrair a sua mente em seus pequenos afazeres universais domésticos. A tentativa era falha, ainda que ela mentisse para si dizendo que não. O seu corpo gritava em silêncio enquanto ela ignorava os uivos intensos da sexualidade reprimida, as vontades, necessidades de mulher não devidamente satisfeitas.

    O esposo, alheio aos próprios cuidados pessoais, estava longe de se atentar aos da esposa, que por sua vez, secretamente, durante os banhos avançava lentamente em descobrir os prazeres que as mãos lhe poderia proporcionar. Entretanto, nas últimas semanas, tal dinâmica não estava sendo suficiente, assim como os vídeos indecentes também não estavam.

     As horas avançavam lentamente, era preciso cuidar do almoço, terminar de lavar as roupas, arrumar a casa, ir ao mercado, enfim, a lista parecia infinita, o trabalho doméstico parecia nunca ter fim. Mirela pegou a vassoura e pá, deu uma última olhada para a rua, retomou para dentro de casa.

   Enquanto cortava os legumes e preparava o feijão para o almoço, novamente os pensamentos, lembranças, as conversas com o amigo.

   Alguns meses atrás, vasculhando de forma aleatória o seu Facebook, encontrou um velho amigo nas sugestões de amizades, mandou-lhe um convite, sem um retorno imediato. Dias depois o convite foi aceito, conversas se iniciaram pelo messenger, aquele não era qualquer amigo, o passado escondia segredos, ela tentou livrar-se deles, mas, os segredos sempre voltam à superfície da vida em algum momento.

      Mirela pegou o celular novamente, enquanto procurava um vídeo aleatório no YouTube para distrair, veio a notificação do messenger... Era mensagem dele, o amigo.

           

" Olá gatona, bom dia"


    Ela não respondeu de imediato, lembranças vieram em seus pensamentos, o passado sombrio sempre volta de alguma forma quando não devidamente resolvido.

    Houve uma época na vida de Mirela, semelhante ao momento presente, onde os desacertos e discussões com o parceiro havia criado uma barreira entre eles. Cada vez mais distantes intimamente um do outro, Mirela via-se em terríveis apuros com sua líbido aflorada e não satisfeita. Foi por causa desses desencontros com o marido que ela reencontrou o amigo, no face, messenger. As trocas de mensagens ficaram contínuas, e o contínuo mais íntimo, conversas e fotos indevidas de ambos, enfim, era o abismo diante dela, até ao ponto do peso de sua consciência lhe esbofetear, fazê-la voltar a razão. Lágrimas, meias confissões, decepção e perdão. Ela o bloqueou naquele tempo, jurou nunca mais procurá-lo. Porém, o tempo é um brilhante e carrasco jogador, nada lhe escapa.

     Dedos no teclado, a vontade de responder imediatamente, o corpo respondendo sem o seu controle. A razão dizendo não, o coração desejoso em continuar.


"Bom dia" 

Seguido de um emoji de coração.


       Era tarde demais para voltar atrás, ela estava ciente do que estava fazendo, não era uma traição, apenas uma conversa com o amigo, afinal, o que tem de mais em uma conversa qualquer, pensou. Ambos são comprometidos, não havia nada de errado. 

       Enquanto ela se perdia nesses pensamentos involuntários, aguardava com certa ansiedade a resposta do amigo. A demora aumentando sua ansiedade. Mirela relutante deixou o celular na mesa da cozinha enquanto continuava o almoço. As horas eram fugitivas, se não corresse tudo atrasaria. Apressou-se para terminar o almoço o quanto antes, durante a tarefa, novamente o som de notificação do celular, "deve ser ele", ela pensou pegando o celular novamente, uma ponta de decepção em seu rosto ao ver que era apenas um e-mail qualquer. O dia seguiu o seu curso, entre uma tarefa e outra, o celular ficava ao lado, cada notificação, o coração palpitava, ela corria para ver se era mensagem do amigo, novamente a decepção seguidas vezes. 

      O início de tarde ganhou os céus em tons cinzas e nuvens pesadas, não demoraria muito para o esposo retornar do trabalho, Mirela estava atrasada nos seus afazeres, precavida, antes que o marido cruzasse o umbral da porta era necessário silenciar todas as notificações, uma cautela urgente para evitar qualquer desconfiança dele.


" Bom dia. Estou muito ocupada por aqui, depois conversamos"


          A resposta veio imediatamente, como se ele estivesse apenas aguardando.


" Tudo bem, vou ficar esperando, te envio outra mensagem depois".


         O amigo era esperto, sabia os horários certos de mandar mensagem, conhecendo o momento oportuno em que o esposo de Mirela não estaria em casa.

         O coração estava acelerado, uma mistura estranha de sentimentos, medo, angústia, prazer e satisfação. Mirela sentia seu corpo responder de imediato, a vontade de se tocar, de extravasar, porém, era preciso tomar o controle do corpo enquanto ainda era possível. Aproveitando que o remédio de pressão estava fazendo efeito, a dor de cabeça e aperto na nunca havia passado, ela aproveitou para cuidar dos afazeres mais pesados da casa. 

          A tirania do relógio era implacável.

         Enquanto o feijão estava na pressão, deixou o arroz na panela elétrica, a mistura seria feita depois. Aproveitou para varrer a parte de cima da casa, o silêncio do dia era muito estranho, refletindo as suas vozes interiores, revelando segredos que a alma esconde. Enquanto varria cada quarto, lembranças vieram ao pensamento, recordações das mensagens antigas do amigo, naquela época tudo começou inocentemente, sem segundas intenções, no entanto, a situação contribuiu para cuidar do curso das mensagens mais ousadas, perguntas indecentes, que, aos poucos eram respondidas na mesma medida. Lembrar de tudo era doloroso, inadequado, porém, novamente a vida e os problemas a empurravam ladeira abaixo, sabendo disso, Mirela resistia. Decidiu não responder o amigo naquele dia, se afogaria nos trabalhos domésticos até quase não se aguentar de cansaço, ocupando a mente o máximo possível. Terminado de varrer a casa, pegou o balde com produtos e água, lavaria os banheiros de cima, antes, desligou o feijão, o arroz já estava pronto, faltava a mistura. Para não ter que parar novamente, fritou os bifes rapidamente. Tudo pronto e alinhado. Mirela não quis perder tempo, lutava contra os seus pensamentos, contra as vontades do seu corpo, era difícil resistir, para disfarçar a intensidade de seus hormônios, decidiu limpar o quanto antes a parte de cima da casa, subiu com baldes e toda parafernália para terminar a limpeza da casa, era necessário fazer o que tinha a se fazer.

      A rua estava movimentada, já precipitando o final da tarde, o barulho típico de carros, motos, buzinas, as escolas que ficavam próximo da sua casa eram responsáveis pelo alvoroço.

     O serviço de limpeza estava pronto, quanto ao almoço já com ares de jantar, era somente esquentar e comer, a fome começava apertar naquele momento. Os pensamentos continuavam tumultuosos, nebulosos, indecentes de certa maneira. Mirela não se contendo, buscou no celular alívio em vídeos proibidos, imaginando-se naquelas posições, era como se fosse ela sendo acariciada por dedos ágeis e línguas ferozes. Fechou os olhos, começou a tocar-se, quando então um buzinaço a devolveu a realidade do dia. As mensagens do amigo já haviam sido visualizadas, respondidas, era um passo que ela sentia ser errado, indevido, porém, naquele momento da vida ela não estava se importando muito com o que poderia acontecer, ainda sim, o senso de prudência ainda prevalecia.

       Guardado todos os utensílios de limpeza, era o momento de cuidar de outros afazeres, esquentar o arroz e feijão, fazer uma salada simples, fazer um suco natural, aproveitaria para deixá-los adiantados para o jantar do esposo.

    Preparou tudo rapidamente, pegou o sal e outros temperos, cúrcuma, pimenta, limão, juntou uma pitada de cada coisa, era uma mistura estranha que revelava ao final uma gama única de sabores. Fritou outros dois bifes deixando-os um pouco fora do ponto ideal, Mirela gostava de sentir o suco da carne, o esposo também.

     Mirela estava inquieta, buscando ocupar-se dentro de casa sem encontrar exatamente o que deveria fazer, tudo parecia vago, não preenchia o vazio em si. Por um momento ficou com o celular nas mãos, olhando as mensagens do amigo, um fogo interior a queimava, deveria ou não respondê-lo, se o fizesse, seria a confirmação, ainda que oculta, de sua traição.

      Mirela digladiavam consigo mesma.entre um afazer e outro que arrumava para distrair a mente, logo via-se com o celular em mãos, o coração aflito, o medo misturado ao prazer do que é proibido. As horas avançam, ela só se deu conta do tempo fugitivo quando o sol já declinava no horizonte, logo mais o esposo estaria de volta, cansado, com fome, cheio de histórias do trabalho, chateações infinitas.

    Temendo ser flagrada pelo esposo, apagou as mensagens do amigo depois de algumas respostas e considerações sobre o como e o quando. Nem bem terminou o procedimento no aparelho, ouviu o cadeado do portão da garagem ranger, era Nicanor que estava chegando do trabalho.

      Era hora de esquentar a janta enquanto o esposo tomava banho, como de costume, ele primeiro beijava Mirela, um selinho descuidado e sem o mínimo de paixão, depois de desfazer a bolsa, tirar a marmita para lavar, a garrafa de água, sentava-se à mesa da cozinha e despejava uma enxurrada de histórias e reclamações do seu trabalho no supermercado. Reclamava dos clientes, de tudo e todos. Somente depois seguia para o banheiro. Mirela já havia se acostumado a escutar sem ouvir, responder automaticamente sem adentrar nos assuntos. A mente e coração estavam em outro lugar, porém, toda cautela era pouco, embora desatento, o esposo poderia perceber seu distanciamento.

        O final de tarde foi dando lugar a noite, os pensamentos dando espaço para fantasias, enquanto o silêncio do quarto era palco de planos teimosos e inquietantes na órbita de um coração a cada dia mais degenerado em mensagens não devidas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SEGREDOS.

 



   CONTO.



    Manhã calma e silenciosa...

    Figuravam ainda as primeiras horas do primeiro dia da semana, o sol riscava o horizonte com os seus raios primeiros, tons de vermelho e laranja se espalhando no céu à medida que o escuro véu dava lugar ao astro do dia. Fragmentos dispersos de nuvens eram pinceladas com tons quentes, coloridos e alegres, pássaros controlavam harmoniosamente em algum lugar do lado de fora da casa, era possível ouvi-los, porém, difícil de dizer se estavam no telhado ou em alguma árvore. Uma brisa suave banhada de luz atravessava a fresta da janela semi aberta. Karol dormia profundamente, espalhada na cama, cobertores embolados em seu jovem corpo nu, dormir despida era hábito, estranho, e novo, embora desaprovado para a mãe, agradabilíssimo para ela, que experimentava uma sensação de liberdade completa. 

    O som estridente do despertador a fez pular da cama tamanho foi o susto que levou. Seis horas em ponto, a tirania do relógio era aplicada marcando em ponteiros desiguais o momento que denotava o início de uma rotina, terrivelmente odiosa. Olhou-se no espelho pendurado ao lado da porta do quarto, o corpo nu, os seios empinados, a cintura fina, o sexo devidamente depilado, pernas torneadas, ela era uma bela mulher. Por um momento, um instante apenas, a pequena pausa entre o tic e o tac da terrível tirania do relógio, imaginou-se livre como os pássaros cantarolando alegremente na rua. Bastou a estridente buzina de um veículo para ela sair daquele transe incomum, novamente de retorno a sua realidade de vida. Karol sabia que as horas eram contrárias, se não apressasse atrasaria novamente, seria o segundo no mesmo mês, para ela, algo imperdoável.

    Levantou-se lentamente, espreguiçando, esticando os braços, bocejando, o sol iluminando a manhã de domingo, abençoado silêncio embalando o sono de muitos. O seu desejo era de continuar na cama até o horário do almoço, assim como a maioria de seus conhecidos que trabalhavam em fábricas, desfrutando de turnos normais e folgas nos finais de semana. 

    Calçou os pés, foi até sua cômoda, pegou a primeira calcinha que viu, vermelha, pequena, de rendas, vestiu-se, pegou também sutiã combinando, calças, camisa. Foi até o banheiro, água gelada no rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos, perfumou-se, ficou por uns segundos encarando sua imagem no espelho, todos admiravam sua beleza, porém, ela não conseguia enxergar e nem entender que beleza era essa que as pessoas tanto falam.

    Ainda havia o café a ser feito, morar sozinha foi decisão dela, a mãe reprovou a atitude da filha, se o pai fosse vivo certamente não permitiria que ela saísse de casa. Pegou bolsa, crachá, olhou-o por uns minutos, a foto, o nome. Naquele mês completaria cinco anos de empresa, cinco longos anos trabalhando em um supermercado. Fez de tudo, atendente no balcão da padaria, reposição, açougue, até parar no caixa, onde estacionou, não que gostasse, porém, por estar cansada de tanta mudança, achou confortável a nova função. Arrumou a cama, guardou os cobertores, foi direto para cozinha, pegou a cafeteira italiana, presente da tia, mediu o café, acrescentou o açúcar, colocou no fogo, enquanto não ficava pronto, pegou o pão puma no armário e margarina na geladeira, seria esse o seu café, era sempre esse o cardápio, há tempos não mudava, não pelo fato de gostar de rotinas, era mais pela falta de vontade de querer qualquer coisa nova e diferente.

    Tomou o café rapidamente, não queria perder o horário, teria que caminhar pelo menos dez minutos até o terminal Itavuvu, local onde pegaria o ônibus para o centro da cidade. Antes de sair de casa, conferiu novamente portas e janelas se estavam fechadas, repetiu novamente tudo pelo menos duas vezes, era sempre essa dinâmica todos os dias. A rua Darcy Landuffo estava movimentada naquela hora da manhã, alunos apressados por chegarem no horário, carros, motos, buzinas estridentes. Karol saiu a passos largos pela calçada, sem prestar atenção em ninguém, não percebeu Dona Dita acenar da garagem, nem os olhares cobiçosos de seu José.

    A passos largos, seguiu reto pela Darci, a rua extensa, movimenta naquela hora do dia, transeuntes apressados, outros, apenas bisbilhotando na calçada. A oficina de motos de seu Carlos, a loja de roupas da Carmen, a padaria Bruna, cada um disputando espaço e clientes, a movimentação costumeira de todos os dias.

    Os pensamentos tumultuados, a lembrança do trabalho não era agradável, clientes exageradamente chatos, mostrando o que não é, arrogantes na maioria das vezes. Havia também àqueles, homens safados, que sempre tinham alguma piada de segundas intenções, os olhares cobiçosos em seus seios empinados, nem ao menos disfarçavam.

    Logo ganhou a avenida Itavuvu, um pouco mais e estaria no terminal próximo ao shopping, o movimento não era tão intenso naquela hora, como de costume em todos os domingos. Karol parou em frente ao semáforo, embora sem movimento de carros, ela preferiu não atravessar, cuidado nunca era demais, ela que perdeu um primo em acidente no trânsito, sabia bem do risco que era atravessar antes do sinal fechar. Ao seu lado parou uma moça, de estatura mediana, cabelos lisos, rosto delicado, nariz afinado, os lábios grandes, carnudos e cheios. O corpo atlético, talvez uma daquelas moças que passa o dia na academia. A calça clara, apertadíssima, revelando coxas torneadas, um bumbum de dar inveja. Karol tentava disfarçar o seu interesse, não queria que a moça percebesse o seu deslumbramento. O corpo feminino a excitava, ela nunca revelou para ninguém sua sexualidade contrária, se a mãe soubesse que ela gostava de mulheres teria um ataque do coração. O sinal abriu, ela esperou a moça tomar a frente, Karol queria observá-la melhor, se perdendo nas curvas delirantes da moça, que tão rapidamente já estava dentro do terminal no meio da multidão. Karol a perdeu de vista. Não demorou muito e o seu ônibus chegou, T140, vitória régia sentido centro. Para o seu desespero não veio o ônibus articulado, era o pequeno, lotado, sem lugar para se sentar. Terrível condição de que não tem escolha, de quem tem que enfrentar lotação e apertos todos os dias, na ida e no retorno do trabalho.

    Ônibus completamente lotado, era esse ou esperar por outro ainda mais apertado, Karol não teve escolha, entrou no meio da muvuca de corpos, espremendo-se aqui, acotovelando-se ali, até encontrar um lugar, a maioria eram trabalhadores dos comércios da cidade. Valentes guerreiros enfrentando a tão odiosa quanto necessária escala de seis por um. Uma boa parcela das pessoas que disputavam um lugarzinho no coletivo eram mulheres, Karol não se importava se ficasse espremida entre uma e outra, até gostava de sentir os corpos esfregando-se no seu.

    O trajeto até o centro da cidade onde fica o ponto final, terminal Santo Antônio, era coisa de pelo menos vinte minutos. Uma vez no terminal, teria que esperar pelo ônibus para Vila Jardini, no plataforma G, coisa de dez minutos de espera até o trabalho, mais dez minutos e estaria no seu destino. Essa era a sua rotina de todos os dias, odiosa e também necessária, sair era o objetivo, conseguir, quase impossível. Karol estava bem de frente de uma das saídas laterais do ônibus, a sua frente estava uma mulher de meia idade, já nas suas costas, outra mulher jovem, alta, cabelos longos, lisos, vermelhos. A cada terminal o ônibus enchia um pouco mais, assim, Karol foi comprimida em um sanduíche humano. Nas suas costas seios fartos se esfregando, o que a deixou em um agradável e gostoso desconforto. Talvez a moça atrás dela também tivesse necessidades e gostos diferentes, assim como ela tinha. Talvez essa moça seja uma operadora de caixa frustrada como ela era. Karol começou a fantasiar com a vida dessa personagem silenciosa e misteriosa. Quanto à mulher de meia idade à sua frente, conseguiu desvencilhar de Karol, possivelmente incomodada com o esfregar de seios as suas costas.

   Finalmente o ônibus chegou em seu destino, terminal vazio naquela manhã desagradável de domingo. Aquela não era uma manhã prazerosa, tal como das amigas, trabalhando em fábricas, tendo folga aos sábados e domingo, podendo ir às festas, casa de parentes, ou mesmo ficar em casa sem nada para fazer. Enquanto isso, lá estava ela, a caminho do trabalho, seu ganha pão, o seu martírio diário, ter que sorrir sem ter vontade, ser cordial quando não quer, agradar pessoas ignorantes quanto a vontade é de estrangular. Os pensamentos revoltosos, lembranças desagradáveis de momentos que deixou escapar por entre os dedos, oportunidades de empregos, amores e sexo dentro do que ela queria. Tudo passou sem que ela aproveitasse, tais recordações a deixou ainda mais depressiva. Uma sensação de incapacidade, de impotência diante do mundo a sua volta. Karol duvidava de si mesma, de quem era, de sua identidade. A dor dentro do peito a corrói tal como cupim destrói um pedaço de madeira de dentro para fora. Assim era ela, um belo espetáculo, bonita por fora e destruída por dentro. A passos curtos foi ao banheiro feminino, vazio naquele momento, depois se direcionou para a plataforma G para esperar pelo ônibus. Uma vez de pé, na fila que se formava de outros escravos do sistema, não demorou para chegar o coletivo. Logo mais, coisa de vinte minutos, estaria em sua moderna senzala.

    O ônibus saiu poucos minutos depois do horário normal, considerando o trajeto diferente em dias de domingo, Karol chegaria ao trabalho quase em atraso, o que em outros tempos era motivo de terrível angústia, agora não importava mais. Muitas coisas deixaram de ser importantes, de ter prioridade. Karol começava a olhar mais para si mesma, suas vontades, o seu bem estar. Era isso ou ela afundaria no oceano dos próprios sentimentos e angústias. Ela sentia que estava na hora de mudar algumas coisas, novas atitudes, assumir o que realmente era sem ter medo do que ou outros pensam.

    Não demorou para ela chegar ao trabalho, a mesma atmosfera de sempre, faces cerradas das amigas, sorrisos falsos de umas, tapinha nas costas de outras, tudo não passava de um teatro, pelas costas eram as mesmas reclamações e até xingamentos. O turno de trabalho começou tranquilo, movimento de sempre, nos momentos de calma quando os caixas estavam livres, Karol aproveitava para ajudar na organização de algum dos corredores, o preferido dela era o corredor que Marisa era a responsável. Jovem, de beleza exuberante, o corpo de dar inveja, há tempos Karol se encantou com a beleza da jovem, tornando-se grandes amigas, no entanto, em uma conversa das duas semanas atrás, tudo mudou de perspectiva quando ela revelou para Karol que gostava de mulheres, sem saber que sua ouvinte também partilhava de igual sentimentos. Karol começava a entender que a aproximação das duas não era apenas capricho do destino, porém, um recíproco sentimento. Os olhares cobiçosos de ambas, os elogios recorrentes, o fato de sempre saírem no horário do almoço para tomarem sorvete, havia nas pequenas atitudes algo muito maior do que a amizade, um sentimento represado que se revelava aos poucos sem a necessidade de palavras ou confissões. Karol se viu completamente apaixonada pela amiga e sentiu que era de alguma maneira correspondida. O almoço daquele manhã foi a prova definitiva de que ambas tinham um relacionamento sério, quando em um local reservado trocaram o primeiro beijo, oculto beijos, lábios nos lábios, a sensação prazerosa, o amor pulsando nas veias, fazendo o coração bater descompassado, a certeza de que ambas se descobriram para o inevitável. O retorno do almoço e restante do dia foi complicado, não sabiam exatamente como se comportar no ambiente de trabalho, não tinham certeza da reação das pessoas. Karol começava a se preocupar em como falaria para a mãe de seu namoro não convencional com outra mulher, era difícil revelar os segredos do coração. Não tinha medo do que a sociedade fosse dizer, porém, estava em completo desespero com relação à mãe, tão devota, religiosa ao extremo.

     O domingo foi se esquecendo no final de tarde, Karol retornando para casa, para solidão de seus pensamentos, a certeza de que em breve não estaria sozinha, porém, esconder os próprios sentimentos era uma maneira de se esconder do mundo o tempo todo. Ao passo que tudo se desenvolvia na sua vida, igualmente se enrolava novamente, a vida era mesmo cíclica.

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

          Conto...    Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vas...