"A flor de cravo se vestiu de puríssima majestade, as suas belas pétalas em cores refletindo a luz, a face em tom rubro delirante, não há nada igual, o perfume tão delicado, feiticeiro, enlouquecedor. A flor de cravo se compadeceu das outras flores, desceu do seu trono para ajudá-las em seus pequenos afazeres, desfilando sua beleza pelo jardim, deixando o jardineiro desconcertado. O coração batendo descompassado a cada vez que ela se aproximava dele".
Disse a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador enquanto ambos observavam o jardineiro junto a sua flor de cravo nesse início de setembro.
"Metade do céu é de um azul límpido e irradiante, a outra é de nuvens escuras, pesadas, trovejantes, enquanto metade da cidade é iluminada pelo sol, a outra é precedida por ventos e chuva pesadíssima. Metade das almas é de uma beleza única magnífica, a outra é de uma ruindade e malignidade indizível, enquanto metade respira bondade e benevolência, a outra é cheia de egoísmo, violência e corrupção. O mundo desperto está completamente dividido, muitas dessas almas estão divididas, cumprindo o que está escrito no santo livro divino".
Disse o jardineiro para tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro humano narrador.
"Pessoas vagando como se não houvesse destino,
pensamentos perambulando no vago da mente, coração andarilho por estradas ermas, distantes, assim está o homem desperto do tempo hodierno. Talvez eu seja apenas mais um nessa multidão, contudo, considere o que esse rabisco já fez, cada letra e verso tortuoso derramado no papel, dizendo sempre escancarado palavras de mistério. Quisera eu viver no mundo etéreo, ou mesmo no jardim primavera, estar distante do abismo existencial que é viver no mundo desperto humano".
Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e para jardineiro em uma manhã de repetições, monotonia, silêncio e solidão.
"Mostra-nos o teu coração, desnuda os sentimentos,
mostra-nos a tua alma, nua, tal como ela deve estar,
conta-nos as verdades que nunca foram reveladas,
conta-nos agora todos os teus segredos. Não é o mundo desperto um lugar de desespero? Diga-nos sobre os vossos caminhos desconcertantes, não são os homens despertos egoístas e malignos? Diga-nos sobre as marcas em teu corpo e na alma. Você sempre se esconde atrás de um sorriso falso, eu posso ver as lágrimas, o pranto de uma vida, rasgue o teu coração e alma nestas linhas poéticas".
Disseram o jardineiro e a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador em um momento de grande angústia no mundo desperto.
"Insígnias e representações pregadas na parede, brasões, verde, vermelho, branco, variadas cores, nomes daqueles que duelam no descampado, foi o tema proposto, uma ideia de confraternização. A flor de cravo caminhava de um lado para outro, enfeites, degustação de uma espetacular culinária, as flores se reuniram no entorno da mesa retangular, sorrisos inocentes riscando faces de pura juventude. O caótico mundo desperto fora desse jardim está desmoronando em ódio e disputas sem sentido, humanos matando humanos, a esperança desfalece".
Disse a tinta na caneta do poeta para o jardineiro a respeito do forasteiro humano narrador em sua confraternização no trabalho.
"Sensações estranhas perambulando no coração, os pensamentos vagando ao ermo da memória, sou apenas um indivíduo no meio da multidão, alguém sem rosto e nome, um transeunte qualquer. É dia de retornar ao jardim, tenho que cumprir pequenos afazeres universais, a sentença imposta por um sistema impiedoso, às vezes tenho que sorrir sem ter vontade. Sou cumpridor de uma função sem nenhuma glória, no mundo desperto não existe esperança alguma, tudo é passageiro, é caminhar à beira de um abismo".
Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e o jardineiro na manhã de um dia qualquer, sem glória, expectativa e glamour.
"É o alvorecer de um novo tempo no mundo desperto, estamos na véspera do julgamento do legítimo rei Narniano do Sul, os asseclas do falso mandatário forjaram provas falsas para o tal crime. É o alvorecer de um novo tempo na vida de cada um, porém, esse "novo" não é refletido verdadeiramente, o espírito da mentira e corrupção está em atividade, o caráter de muitos foi maculado por esse falso rei. Muito se fala no mundo desperto desse tal dia, no entanto, é sabido que o julgamento tem cartas marcadas, não há como escapar, o mundo não é como no áureo jardim. Estou a pensar de qual substância é feita o que se chama de felicidade? Será possível condensá-la em pequenos frascos, tal qual faz-se com os perfumes? Talvez o criador possa revelar-nos o segredo dessa fórmula. Embora eu reconheça que a felicidade não é abundante no mundo desperto humano, raramente é possível ver uma autêntica curva de sorriso nos lábios dos habitantes do meu reino, felicidade extinta. No reino encantado dos sonhos, ou mesmo no jardim, assim como nas realidades paralelas, tal essência é natural e muito abundante. Talvez, um dia, quem sabe, nós humanos descubramos o segredo dessa substância. Eu vivo sempre na ritualística sequência diária de pequenos afazeres, o despertar sempre no mesmíssimo horário, levantar-se, fazer a higiene pessoal, troca-se, depois, o café, refeição, o tempo passa. Ritualística sequência diária de pequenos afazeres, mochila nas costas, no peito um aperto incômodo, passos na estrada, caminho certo e costumeiro, lotação no terminal... Não há nada nessa rotina. Ritualística sequência diária de pequenos afazeres, cumpridor das suas funções universais, sorriso riscando os lábios por horas inteiras. O meu coração ainda canta, embora esteja sangrando, é preciso lutar".
Contínuo dizendo o forasteiro humano para o jardineiro e a tinta na caneta do poeta.
"O tempo corre, urge, sussurra aos quatro ventos, o tempo esmaga, grita, sussurra as quatro estações, impõe, determina, sussurra imperceptível, ele passou, você não notou o discreto assobio. Homem do mundo desperto que sucumbe ao tempo, distante do cronos, não escutam, tic e tac, sem tempo para si. A vida é uma sombra fugitiva em um fim de tarde, é um pássaro de asas abertas entre nuvens, é passageira ao curso do misterioso tempo. Quisera o homem desperto compreender que o tempo é apenas uma singela pincelada do criador, passado, presente, futuro é o reflexo da existência. A xícara de café está na mesa, trêmula fumaça esvaindo-se, a tirania do coração o consome de dentro para fora, entre um gole e outro, pensamentos que o consome, a tirania dos pensamentos acelerados é devastador. Trêmula fumaça esvaindo-se,
a tirania da própria vida desafiando os seus limites, entre um gole e outro, a sensação de insuficiência, a tirania da própria alma, o sentimento de derrota. Olhos moribundos perdidos no horizonte invisível, o coração batendo em um ritmo descompassado, o sorriso falso riscando a face, ocultando lágrimas".
Disse o jardineiro a respeito do forasteiro humano narrador.
"O retorno ao jardim após alguns novos procedimentos é complicado, a sensação incômoda, vontade de ficar em casa, o peso da responsabilidade atrelado-se às incertezas, não há nada que possa ser feito para reverter isso. Muitas flores novas no jardim, espécies belíssimas, belas flores ainda não catalogadas pelo jardineiro, folhas e caules de uma geometria que me fascinou, todas elas foram colocadas em destaque no jardim. Os visitantes as observam com toda atenção possível, apreciando a beleza de suas flores e sentindo o doce aroma dos inebriantes perfumes. Quanto a mim, sou apenas uma sombra no jardim, menos até que um pássaro, sou o invisível oculto nas sombras".
Disse o forasteiro humano narrador sobre o jardim para a tinta na caneta do poeta.
"Novamente fizeste uma visita no mundo dos sonhos,
desejos ocultos no pensamento sendo visitados, no mundo etéreo não existem barreiras impossíveis, os mundos imaginários tornam-se todos realidade. A bela humana do mundo desperto fez-se presente, as vestes resplandecentes, alvas, transparentes, refletindo no olhar do forasteiro humano narrador todas as loucuras ocultas em seu jovem coração. Beijos à luz do luar, corpos despidos, perfumes, vestes derramadas ao chão,
desejos sendo realizados sem nenhuma restrição. Tudo é possível, o irreal humano sendo construído".
Disse o jardineiro e a tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro humano narrador.
"Vivo um dia após o outro, aquele sonho ainda é lembrança, as lutas parecem não ter fim, horas inteiras nos pequenos afazeres universais, não vejo o tempo, um dia após o outro, quando se vê, tudo é passado. Ouço o cantar dos pássaros nas copas das árvores, outros respondem, começa uma belíssima sinfonia, figuram as primeiras horas desta manhã agradável, a natureza, diferente de nós, despertos, estão em festa. Talvez se nós homens enxergássemos o necessário e belo da vida, ao invés de ver o apenas o caótico mundo que nos cerca tão cheio de dor e malignidade. As lutas e disputas se intensificam em nosso reino humano, aquele que liderava as fileiras repentinamente saiu, talvez pelos excessos e exageros do suposto capitão, xingamentos em público, regras absurdas adotadas. Outras funções da mesmíssima máquina sucumbem, não é de se espantar que outras peças desistam, os tempos são de grandes angústias para todos nós, sinceramente, não há muito que ser feito a respeito. Quiser eu fazer parte do mundo etéreo dos sonhos, viver no jardim, nas realidades paralelas, caminhar com liberdade entre as belíssimas flores. No mundo desperto humano tudo é veneno, ilusão, a vida não passa de enfadado, castigos, lamentos e açoites infinitos.
Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta.
"O dia despertou pincelando o céu em multi cores cintilantes. Espalhadas nas nuvens a altura do horizonte, pássaros cantando na copa das grandes árvores, a natureza está em festa. As flores exuberantes, perfumadas, com pétalas radiantes, cada uma se entregando aos galanteios do beija-flor, abelhas também se embebedam da doçura do pólen, a natureza está em plena festa. Tudo transcorre em harmonia e equilíbrio na natureza, cada ser obedece as leis, os limites, as estações, cada ser contribuindo com o seu próximo. Deverás eu estou encantado com a deslumbrante visão que me proporcionaste, gostaria que o reino desperto fosse assim. Os dias e seus desdobramentos nas asas do tempo, nunca houve momentos como os que se desenham, a força das tempestades assolam todos os viventes, o mundo desperto está na eminência de um abismo. Nos humanos, pelo menos uma parte, ruiu, trocaram as suas identidades por desejos vãos, os valores de outrora foram trocados por mentiras, e a mentira desfila com as vestimentas da verdade. Gostaria de poder viver apenas no mundo etéreo, caminhar nas terras e reinos dos sonhos eternos, não ter que retornar ao mundo de homens caídos, poder viver da matéria de meus sonhos, caminhar nas linhas e entrelinhas da poesia, ser no mundo desperto o poeta do reino imaginário".
Continuo a dizer o forasteiro humano narrador.
"Havia uma locomotiva parada na estação, muitos vagões enfileirados, parecendo um exemplar antigo, entrei na cabine de comando, era eu o maquinista,
liguei os potentes motores, o ranger dos cilindros. Primeiro o movimento lento, o estalar das rodas de metal nos trilhos, o acelerar, paisagens de um lugar completamente desconhecido, lá estava eu e minha companheira, rumamos para determinada estação. Enquanto o monstro de metal estava parado, passageiros adentraram nos vagões enfileirados, todos os tipos de pessoas, todas desconhecidas. Seguimos viagem para algum lugar naquele que foi um dos meus melhores sonhos desses últimos tempos de luta. Sonhos e sua matéria etérea, lugares mágicos enigmáticos onde tudo é possível ver, vivenciar, sonhos e sua matéria etérea, multiplicidade de vidas felizes, onde podemos ser o bem que quisermos. Sonhos e sua matéria etérea, as cores tão cintilantes que parecem estar vivas, o tempo também é infinito, sonhos e sua matéria etérea, flores e seus perfumes tão inebriantes, pássaros, amores e suas realizações. Enquanto no mundo caótico desperto as angústias e incertezas estão sempre presentes, não existe esperança, apenas a dor, lágrimas, infelicidades. Enquanto dormimos e sonhamos vivemos, uma vez despertos, passamos viver o pesadelo da vida real".
Prosseguiu a dizer o forasteiro humano narrador.
"Lá estávamos uma vez mais, naquele lugar etéreo,
talvez uma cidade existindo nesse universo paralelo,
pessoas, casas, vivências, vários acontecimentos, uma quase réplica da realidade no mundo irreal. Lá estávamos nós, eu e ela, éramos um belo casal, os olhos dela, face reluzente, os lábios de mel, os beijos ardentes e abraços, tudo parecendo real, eu não queria sair do reino dos sonhos, não mesmo. Repentinamente, tudo naquele lugar transformou-se repentinamente , tudo naquele lugar, desfez-se, repentinamente, era apenas eu no mundo desperto. Quisera eu voltar naquele momento do sonho, ao menos uma vez mais, vê-la, beijá-la, enfim, foi apenas sonho. Contudo, o relógio impõe, determina, sussurra o seu tic e tac infinito, a tirania do cronos sobressaindo, quando se vê, se foi o dia. Transcorreu em acontecimentos, badernas e desordens, as ruas lotadas com seus bravos gladiadores em suas muitas máquinas barulhentas, quando se vê, se foi o entardecer, desfez-se a luz. A noite chega com braços fortes e longos trazendo seres noctâmbulos, ambulantes desvairados e sem conexão com a realidade que os cerca, tudo é caos. Quisera eu poder viver apenas no mundo etéreo dos sonhos, nos campos verdejantes, entre os belos jardins floridos espalhados nesse reino magnífico. No entanto, não compreendo a dinâmica de atoleiro do mundo caído, caótico e sem nenhum sentimento".
Continuo a dizer o forasteiro humano narrador, enquanto atentos ouviam a tinta na caneta do poeta e o jardineiro.
"Flor de cravo, beleza impossível de ser descrita, flor de perfumes incomparáveis e todo o reino, flor de pétalas reluzentes e inigualável quilate, flor de cravo, rainha absoluta no jardim. O tempo é cruel, carrasco, impiedoso com todos nós, no entanto, o tempo está é benevolente com você, flor de cravo, cujo caule enfeitiça todos os olhares, sua estrutura é certamente obra prima da natureza. Ainda que não percebas, olhares de desejos ocultos pousam em tua majestade augusta todas as vezes que desce ao jardim primavera em suas incursões".
Disse o jardineiro e a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador.
"Nos meus lábios não existe a bela curva do sorriso, não é possível quando se tem uma boca deformada, invejo-lhes os sorrisos cheios de dentes brilhantes, invejo-lhes toda alegria no escancarar suas bocas. Parte do meu dia tenho que ficar com máscara, a face semi-oculta, escondendo minha abominação, é preferível esconder-se do que se expor ao público,
enquanto eu não recuperar a boa estima será assim. Sei que, talvez haja certo exagero meu, não faço questão de ser como sou, apenas respeitem as minhas decisões, ainda que pareçam exageradas. Talvez os meus lábios voltem a conhecer a bela curva de um sorriso, talvez os meus olhos voltem a brilhar novamente. Digo mais, peitos de aço guardando corações de puro ferro, os olhares são de abutres devoradores de carne, atitudes covardes, agressores e baderneiros brutais, não possuem alma, são impiedosos, inescrupulosos. Tal é o retrato do mundo desperto e seus monstros, sim, monstros, há muito perderam a parte humana, trocaram as suas identidades originais por outras forjadas no mais profundo do abismo e do inferno. Poucos restaram que ainda guardam no peito de carne um coração que sangra, chora e sorri pela bondade, humanos verdadeiramente piedosos. O apocalipse é o único caminho, não existem outras saídas para o presente século, nem para esses tais desumanos".
Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e o jardineiro.
"Um sentimento novo surgiu despontando no coração, tal como um botão de rosa que surge assim despretensioso, sem alardes, nem muitas cores, no entanto, traz consigo, a promessa de uma bela flor. Assim é este novo e despretensioso sentimento no peito do jardineiro, também poeta, ele desdobra-se aos cuidados dessa novidade em si mesmo, a sua experiência lhe diz da grandiosidade que o cerca. A flor da primavera é uma das novas espécies adquiridas recentemente, e tão logo despertou no jardineiro sensações novas, únicas e maravilhosas. Talvez assim ele esqueça definitivamente a flor de cravo, que tanto o faz sobre com esperanças vagas".
Disse a tinta na caneta do poeta a respeito do jardineiro.
"(Transforma-se o amador na coisa amada por virtude do muito imaginar), é um belo verso que utilizo por empréstimo, terá a imaginação esse tal poder de transformação? Por muito tempo imaginei com todas as forças do pensamento, as minhas coisas amadas, no intuito de fazê-las de algum modo reais, contudo, nada ocorreu, aconteceu-me apenas de criar quimeras. O sonhar estando no mundo caótico desperto é cheio de impossibilidades. O mundo é caótico, as pessoas são confusas tal como indecisas, por vezes, odiosas, não sabem o que desejam na maioria das vezes, machucando-se por motivos mesquinhos, insignificantes, sem sentido..Sou vítima desse mundo caótico desperto, as minhas atitudes não são compreendidas. Sou vítima de mim mesmo ou desse mundo caótico?"
Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta.
"Na frenética dança de todos os meses do ano, setembro faz parte dos passos finais, o fim do baile, por assim dizer, os dançarinos já exaustos reúnem o último suspiro e energia para o momento decisivo. Setembro é o limite, o ponto de transição cósmica, alguns sequer percebem esses efeitos e os sinais, o universo em todos os planos também se converge. As flores conseguem transitar por entre esses pontos de mudança sem nenhuma consequência. Já os humanos do mundo caótico"...
Disse a tinta na caneta do poeta e o jardineiro para o forasteiro.
Encerrou-se, repentinamente, o diálogo ao final do dia na mente de Ronaldo.

