quinta-feira, 13 de agosto de 2026

DIÁLOGOS.

 


    



   "A flor de cravo se vestiu de puríssima majestade, as suas belas pétalas em cores refletindo a luz, a face em tom rubro delirante, não há nada igual, o perfume tão delicado, feiticeiro, enlouquecedor. A flor de cravo se compadeceu das outras flores, desceu do seu trono para ajudá-las em seus pequenos afazeres, desfilando sua beleza pelo jardim, deixando o jardineiro desconcertado. O coração batendo descompassado a cada vez que ela se aproximava dele".

   Disse a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador enquanto ambos observavam o jardineiro junto a sua flor de cravo nesse início de setembro.

   "Metade do céu é de um azul límpido e irradiante, a outra é de nuvens escuras, pesadas, trovejantes, enquanto metade da cidade é iluminada pelo sol, a outra é precedida por ventos e chuva pesadíssima. Metade das almas é de uma beleza única magnífica, a outra é de uma ruindade e malignidade indizível, enquanto metade respira bondade e benevolência, a outra é cheia de egoísmo, violência e corrupção. O mundo desperto está completamente dividido, muitas dessas almas estão divididas, cumprindo o que está escrito no santo livro divino".

   Disse o jardineiro para tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro humano narrador.

   "Pessoas vagando como se não houvesse destino,

pensamentos perambulando no vago da mente, coração andarilho por estradas ermas, distantes, assim está o homem desperto do tempo hodierno. Talvez eu seja apenas mais um nessa multidão, contudo, considere o que esse rabisco já fez, cada letra e verso tortuoso derramado no papel, dizendo sempre escancarado palavras de mistério. Quisera eu viver no mundo etéreo, ou mesmo no jardim primavera, estar distante do abismo existencial que é viver no mundo desperto humano".

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e para jardineiro em uma manhã de repetições, monotonia, silêncio e solidão.

   "Mostra-nos o teu coração, desnuda os sentimentos,

mostra-nos a tua alma, nua, tal como ela deve estar,

conta-nos as verdades que nunca foram reveladas,

conta-nos agora todos os teus segredos. Não é o mundo desperto um lugar de desespero? Diga-nos sobre os vossos caminhos desconcertantes, não são os homens despertos egoístas e malignos? Diga-nos sobre as marcas em teu corpo e na alma. Você sempre se esconde atrás de um sorriso falso, eu posso ver as lágrimas, o pranto de uma vida, rasgue o teu coração e alma nestas linhas poéticas".

   Disseram o jardineiro e a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador em um momento de grande angústia no mundo desperto.

   "Insígnias e representações pregadas na parede, brasões, verde, vermelho, branco, variadas cores, nomes daqueles que duelam no descampado, foi o tema proposto, uma ideia de confraternização. A flor de cravo caminhava de um lado para outro, enfeites, degustação de uma espetacular culinária, as flores se reuniram no entorno da mesa retangular, sorrisos inocentes riscando faces de pura juventude. O caótico mundo desperto fora desse jardim está desmoronando em ódio e disputas sem sentido, humanos matando humanos, a esperança desfalece".

   Disse a tinta na caneta do poeta para o jardineiro a respeito do forasteiro humano narrador em sua confraternização no trabalho.

   "Sensações estranhas perambulando no coração, os pensamentos vagando ao ermo da memória, sou apenas um indivíduo no meio da multidão, alguém sem rosto e nome, um transeunte qualquer. É dia de retornar ao jardim, tenho que cumprir pequenos afazeres universais, a sentença imposta por um sistema impiedoso, às vezes tenho que sorrir sem ter vontade. Sou cumpridor de uma função sem nenhuma glória, no mundo desperto não existe esperança alguma, tudo é passageiro, é caminhar à beira de um abismo".

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e o jardineiro na manhã de um dia qualquer, sem glória, expectativa e glamour.

   "É o alvorecer de um novo tempo no mundo desperto, estamos na véspera do julgamento do legítimo rei Narniano do Sul, os asseclas do falso mandatário forjaram provas falsas para o tal crime. É o alvorecer de um novo tempo na vida de cada um, porém, esse "novo" não é refletido verdadeiramente, o espírito da mentira e corrupção está em atividade, o caráter de muitos foi maculado por esse falso rei. Muito se fala no mundo desperto desse tal dia, no entanto, é sabido que o julgamento tem cartas marcadas, não há como escapar, o mundo não é como no áureo jardim. Estou a pensar de qual substância é feita o que se chama de felicidade? Será possível condensá-la em pequenos frascos, tal qual faz-se com os perfumes? Talvez o criador possa revelar-nos o segredo dessa fórmula. Embora eu reconheça que a felicidade não é abundante no mundo desperto humano, raramente é possível ver uma autêntica curva de sorriso nos lábios dos habitantes do meu reino, felicidade extinta. No reino encantado dos sonhos, ou mesmo no jardim, assim como nas realidades paralelas, tal essência é natural e muito abundante. Talvez, um dia, quem sabe, nós humanos descubramos o segredo dessa substância. Eu vivo sempre na ritualística sequência diária de pequenos afazeres, o despertar sempre no mesmíssimo horário, levantar-se, fazer a higiene pessoal, troca-se, depois, o café, refeição, o tempo passa. Ritualística sequência diária de pequenos afazeres, mochila nas costas, no peito um aperto incômodo, passos na estrada, caminho certo e costumeiro, lotação no terminal... Não há nada nessa rotina. Ritualística sequência diária de pequenos afazeres, cumpridor das suas funções universais, sorriso riscando os lábios por horas inteiras. O meu coração ainda canta, embora esteja sangrando, é preciso lutar".

   Contínuo dizendo o forasteiro humano para o jardineiro e a tinta na caneta do poeta.

   "O tempo corre, urge, sussurra aos quatro ventos, o tempo esmaga, grita, sussurra as quatro estações, impõe, determina, sussurra imperceptível, ele passou, você não notou o discreto assobio. Homem do mundo desperto que sucumbe ao tempo, distante do cronos, não escutam, tic e tac, sem tempo para si. A vida é uma sombra fugitiva em um fim de tarde, é um pássaro de asas abertas entre nuvens, é passageira ao curso do misterioso tempo. Quisera o homem desperto compreender que o tempo é apenas uma singela pincelada do criador, passado, presente, futuro é o reflexo da existência. A xícara de café está na mesa, trêmula fumaça esvaindo-se, a tirania do coração o consome de dentro para fora, entre um gole e outro, pensamentos que o consome, a tirania dos pensamentos acelerados é devastador. Trêmula fumaça esvaindo-se,

a tirania da própria vida desafiando os seus limites, entre um gole e outro, a sensação de insuficiência, a tirania da própria alma, o sentimento de derrota. Olhos moribundos perdidos no horizonte invisível, o coração batendo em um ritmo descompassado, o sorriso falso riscando a face, ocultando lágrimas".

   Disse o jardineiro a respeito do forasteiro humano narrador.

   "O retorno ao jardim após alguns novos procedimentos é complicado, a sensação incômoda, vontade de ficar em casa, o peso da responsabilidade atrelado-se às incertezas, não há nada que possa ser feito para reverter isso. Muitas flores novas no jardim, espécies belíssimas, belas flores ainda não catalogadas pelo jardineiro, folhas e caules de uma geometria que me fascinou, todas elas foram colocadas em destaque no jardim. Os visitantes as observam com toda atenção possível, apreciando a beleza de suas flores e sentindo o doce aroma dos inebriantes perfumes. Quanto a mim, sou apenas uma sombra no jardim, menos até que um pássaro, sou o invisível oculto nas sombras".

   Disse o forasteiro humano narrador sobre o jardim para a tinta na caneta do poeta.

   "Novamente fizeste uma visita no mundo dos sonhos,

desejos ocultos no pensamento sendo visitados, no mundo etéreo não existem barreiras impossíveis, os mundos imaginários tornam-se todos realidade. A bela humana do mundo desperto fez-se presente, as vestes resplandecentes, alvas, transparentes, refletindo no olhar do forasteiro humano narrador todas as loucuras ocultas em seu jovem coração. Beijos à luz do luar, corpos despidos, perfumes, vestes derramadas ao chão,

desejos sendo realizados sem nenhuma restrição. Tudo é possível, o irreal humano sendo construído".

   Disse o jardineiro e a tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro humano narrador.

   "Vivo um dia após o outro, aquele sonho ainda é lembrança, as lutas parecem não ter fim, horas inteiras nos pequenos afazeres universais, não vejo o tempo, um dia após o outro, quando se vê, tudo é passado. Ouço o cantar dos pássaros nas copas das árvores, outros respondem, começa uma belíssima sinfonia, figuram as primeiras horas desta manhã agradável, a natureza, diferente de nós, despertos, estão em festa. Talvez se nós homens enxergássemos o necessário e belo da vida, ao invés de ver o apenas o caótico mundo que nos cerca tão cheio de dor e malignidade. As lutas e disputas se intensificam em nosso reino humano, aquele que liderava as fileiras repentinamente saiu, talvez pelos excessos e exageros do suposto capitão, xingamentos em público, regras absurdas adotadas. Outras funções da mesmíssima máquina sucumbem, não é de se espantar que outras peças desistam, os tempos são de grandes angústias para todos nós, sinceramente, não há muito que ser feito a respeito. Quiser eu fazer parte do mundo etéreo dos sonhos, viver no jardim, nas realidades paralelas, caminhar com liberdade entre as belíssimas flores. No mundo desperto humano tudo é veneno, ilusão, a vida não passa de enfadado, castigos, lamentos e açoites infinitos.

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta.

   "O dia despertou pincelando o céu em multi cores cintilantes. Espalhadas nas nuvens a altura do horizonte, pássaros cantando na copa das grandes árvores, a natureza está em festa. As flores exuberantes, perfumadas, com pétalas radiantes, cada uma se entregando aos galanteios do beija-flor, abelhas também se embebedam da doçura do pólen, a natureza está em plena festa. Tudo transcorre em harmonia e equilíbrio na natureza, cada ser obedece as leis, os limites, as estações, cada ser contribuindo com o seu próximo. Deverás eu estou encantado com a deslumbrante visão que me proporcionaste, gostaria que o reino desperto fosse assim. Os dias e seus desdobramentos nas asas do tempo, nunca houve momentos como os que se desenham, a força das tempestades assolam todos os viventes, o mundo desperto está na eminência de um abismo. Nos humanos, pelo menos uma parte, ruiu, trocaram as suas identidades por desejos vãos, os valores de outrora foram trocados por mentiras, e a mentira desfila com as vestimentas da verdade. Gostaria de poder viver apenas no mundo etéreo, caminhar nas terras e reinos dos sonhos eternos, não ter que retornar ao mundo de homens caídos, poder viver da matéria de meus sonhos, caminhar nas linhas e entrelinhas da poesia, ser no mundo desperto o poeta do reino imaginário".

   Continuo a dizer o forasteiro humano narrador.

   "Havia uma locomotiva parada na estação, muitos vagões enfileirados, parecendo um exemplar antigo, entrei na cabine de comando, era eu o maquinista,

liguei os potentes motores, o ranger dos cilindros. Primeiro o movimento lento, o estalar das rodas de metal nos trilhos, o acelerar, paisagens de um lugar completamente desconhecido, lá estava eu e minha companheira, rumamos para determinada estação. Enquanto o monstro de metal estava parado, passageiros adentraram nos vagões enfileirados, todos os tipos de pessoas, todas desconhecidas. Seguimos viagem para algum lugar naquele que foi um dos meus melhores sonhos desses últimos tempos de luta. Sonhos e sua matéria etérea, lugares mágicos enigmáticos onde tudo é possível ver, vivenciar, sonhos e sua matéria etérea, multiplicidade de vidas felizes, onde podemos ser o bem que quisermos. Sonhos e sua matéria etérea, as cores tão cintilantes que parecem estar vivas, o tempo também é infinito, sonhos e sua matéria etérea, flores e seus perfumes tão inebriantes, pássaros, amores e suas realizações. Enquanto no mundo caótico desperto as angústias e incertezas estão sempre presentes, não existe esperança, apenas a dor, lágrimas, infelicidades. Enquanto dormimos e sonhamos vivemos, uma vez despertos, passamos viver o pesadelo da vida real".

    Prosseguiu a dizer o forasteiro humano narrador.

   "Lá estávamos uma vez mais, naquele lugar etéreo,

talvez uma cidade existindo nesse universo paralelo,

pessoas, casas, vivências, vários acontecimentos, uma quase réplica da realidade no mundo irreal. Lá estávamos nós, eu e ela, éramos um belo casal, os olhos dela, face reluzente, os lábios de mel, os beijos ardentes e abraços, tudo parecendo real, eu não queria sair do reino dos sonhos, não mesmo. Repentinamente, tudo naquele lugar transformou-se repentinamente , tudo naquele lugar, desfez-se, repentinamente, era apenas eu no mundo desperto. Quisera eu voltar naquele momento do sonho, ao menos uma vez mais, vê-la, beijá-la, enfim, foi apenas sonho. Contudo, o relógio impõe, determina, sussurra o seu tic e tac infinito, a tirania do cronos sobressaindo, quando se vê, se foi o dia. Transcorreu em acontecimentos, badernas e desordens, as ruas lotadas com seus bravos gladiadores em suas muitas máquinas barulhentas, quando se vê, se foi o entardecer, desfez-se a luz. A noite chega com braços fortes e longos trazendo seres noctâmbulos, ambulantes desvairados e sem conexão com a realidade que os cerca, tudo é caos. Quisera eu poder viver apenas no mundo etéreo dos sonhos, nos campos verdejantes, entre os belos jardins floridos espalhados nesse reino magnífico. No entanto, não compreendo a dinâmica de atoleiro do mundo caído, caótico e sem nenhum sentimento".

   Continuo a dizer o forasteiro humano narrador, enquanto atentos ouviam a tinta na caneta do poeta e o jardineiro.

   "Flor de cravo, beleza impossível de ser descrita, flor de perfumes incomparáveis e todo o reino, flor de pétalas reluzentes e inigualável quilate, flor de cravo, rainha absoluta no jardim. O tempo é cruel, carrasco, impiedoso com todos nós, no entanto, o tempo está é benevolente com você, flor de cravo, cujo caule enfeitiça todos os olhares, sua estrutura é certamente obra prima da natureza. Ainda que não percebas, olhares de desejos ocultos pousam em tua majestade augusta todas as vezes que desce ao jardim primavera em suas incursões".

   Disse o jardineiro e a tinta na caneta do poeta para o forasteiro humano narrador.

   "Nos meus lábios não existe a bela curva do sorriso, não é possível quando se tem uma boca deformada, invejo-lhes os sorrisos cheios de dentes brilhantes, invejo-lhes toda alegria no escancarar suas bocas. Parte do meu dia tenho que ficar com máscara, a face semi-oculta, escondendo minha abominação, é preferível esconder-se do que se expor ao público,

enquanto eu não recuperar a boa estima será assim. Sei que, talvez haja certo exagero meu, não faço questão de ser como sou, apenas respeitem as minhas decisões, ainda que pareçam exageradas. Talvez os meus lábios voltem a conhecer a bela curva de um sorriso, talvez os meus olhos voltem a brilhar novamente. Digo mais, peitos de aço guardando corações de puro ferro, os olhares são de abutres devoradores de carne, atitudes covardes, agressores e baderneiros brutais, não possuem alma, são impiedosos, inescrupulosos. Tal é o retrato do mundo desperto e seus monstros, sim, monstros, há muito perderam a parte humana, trocaram as suas identidades originais por outras forjadas no mais profundo do abismo e do inferno. Poucos restaram que ainda guardam no peito de carne um coração que sangra, chora e sorri pela bondade, humanos verdadeiramente piedosos. O apocalipse é o único caminho, não existem outras saídas para o presente século, nem para esses tais desumanos".

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta e o jardineiro.

   "Um sentimento novo surgiu despontando no coração, tal como um botão de rosa que surge assim despretensioso, sem alardes, nem muitas cores, no entanto, traz consigo, a promessa de uma bela flor. Assim é este novo e despretensioso sentimento no peito do jardineiro, também poeta, ele desdobra-se aos cuidados dessa novidade em si mesmo, a sua experiência lhe diz da grandiosidade que o cerca. A flor da primavera é uma das novas espécies adquiridas recentemente, e tão logo despertou no jardineiro sensações novas, únicas e maravilhosas. Talvez assim ele esqueça definitivamente a flor de cravo, que tanto o faz sobre com esperanças vagas".

   Disse a tinta na caneta do poeta a respeito do jardineiro.

"(Transforma-se o amador na coisa amada por virtude do muito imaginar), é um belo verso que utilizo por empréstimo, terá a imaginação esse tal poder de transformação? Por muito tempo imaginei com todas as forças do pensamento, as minhas coisas amadas, no intuito de fazê-las de algum modo reais, contudo, nada ocorreu, aconteceu-me apenas de criar quimeras. O sonhar estando no mundo caótico desperto é cheio de impossibilidades. O mundo é caótico, as pessoas são confusas tal como indecisas, por vezes, odiosas, não sabem o que desejam na maioria das vezes, machucando-se por motivos mesquinhos, insignificantes, sem sentido..Sou vítima desse mundo caótico desperto, as minhas atitudes não são compreendidas. Sou vítima de mim mesmo ou desse mundo caótico?"

   Disse o forasteiro humano narrador para a tinta na caneta do poeta.

   "Na frenética dança de todos os meses do ano, setembro faz parte dos passos finais, o fim do baile, por assim dizer, os dançarinos já exaustos reúnem o último suspiro e energia para o momento decisivo. Setembro é o limite, o ponto de transição cósmica, alguns sequer percebem esses efeitos e os sinais, o universo em todos os planos também se converge. As flores conseguem transitar por entre esses pontos de mudança sem nenhuma consequência. Já os humanos do mundo caótico"... 

   Disse a tinta na caneta do poeta e o jardineiro para o forasteiro.

   Encerrou-se, repentinamente, o diálogo ao final do dia na mente de Ronaldo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O POETA JARDINEIRO.

 



"Existem aqueles momentos da vida de grande alegria, os acontecimentos beneficiam o sorriso no rosto, o que pretendemos fazer ou até mesmo projetamos, de repente, acontecem prosperando. Existem também aqueles momentos de grande tristeza, ressentimentos rasgando a curva do que um dia foi o sorriso, de repente, nada do que fazemos ou pretendemos é assertivo, tudo é caos e confusão. Existem aquelas pessoas que independente da situação estão sempre alegres, dispostas, almas iluminadas, com um sorriso no rosto todo tempo. Bem como aquelas pessoas, poucas, que nunca estão satisfeitas, sempre criticando, apontando mil problemas, o tempo todo, jamais sorrirem".


   A existência é complicada...

   Vejo apenas olhos cansados, semblantes sonolentos, caídos, trabalhadores a caminho de seu destino, almas cansadas, madrugada fria e silenciosa, cada um buscando fazer o seu melhor em suas profissões. Todos estão no mesmo barco, navegando sem destino certo, operários de um sistema injusto na maioria das vezes, cargas horárias excessivas, condições precárias, saúde mental comprometida. Nos ônibus figuram os mesmos personagens do dia a dia, almas atormentadas pelo esforço de pequenos afazeres universais, tão odiosos quanto detestáveis. Na maioria, operadores de caixa, balconista de padaria, açougues, gente do comércio, trabalhando tanto pelo mínimo, e o mínimo tendo que executar tanto...

   Enquanto caminho rumo ao jardim, a lembrança continua vívida... A curva delicada do luminoso sorriso, os belos olhos negros cintilantes, a rosea face levemente avermelhada como maçãs, tudo se veste de igual e espetacular majestade. Vê-la transitar pelo jardim é um bálsamo para os olhos, sentir o doce perfume é enlouquecedor, (diz o jardineiro) já tão perdido de amor, o coração transpassado. 

   Vejo às almas solitárias, caminhando por desertos ermos, enquanto pássaros cantam alegremente pelo caminho.

"Alma" silenciosa, com os seus sonhos inquietantes, flores desabrochando ao nascer de um novo dia. 

Agora é o poeta Jardineiro que narra, tudo observa com muita atenção, o trajeto até o jardim está se revelando, existem tantas flores espalhadas, belas, perfumadas e de igual encanto, ele deseja levar todas consigo.

   É dia de retornar ao enigmático e mágico jardim, dia de cuidar de cada flor habitante desse reino encantado, um mundo dentro do outro. Quanto a amada flor de cravo, ela está cada dia mais resplandecente, estrela que desce do céu, será que tal flor tem consciência de que é amada?

   Os dias são intensos no reino dos homens, caminhos de incertezas em Nárnia do sul, onde a ditadura escancarada está em pleno desenvolvimento pelos 

mandatários, déspotas do poder, tempos sombrios. No reino dos homens a liberdade está sendo arrancada pelas raízes, tal manobra absurda é feita à luz do dia, enquanto os narnianos observam sem conseguir acreditar nas barbaridades cometidas. Este jardineiro poeta está estarrecido com tamanha crueldade e malignidade por parte de quem comanda, lágrimas de dor e agonia caem de muitos olhos. No jardim, as flores parecem indiferentes aos acontecimentos pertinentes, mesmo a flor de cravo tão perspicaz, parece não se ater aos fatos.

   São dias difíceis...

   Assola-nos rigoroso inverno como há muito não se via, igualmente assombra-nos os corações gelados, dias de intensos ventos polares, chuvas torrenciais, almas atormentadas pelo obscurantismo ortodoxo. Caminhamos sem direção em estradas tortuosas, igualmente os corações desnorteados, monstruosos,

decisões insanas de déspotas, mentindo todo tempo,

igualmente almas desprovidas de qualquer moral.. Este jardineiro poeta observa o mundo caótico desmoronando, homens sem valores à beira do abismo existencial, governantes e governados corruptos, esvaindo-se.

   É dia de retornar ao jardim, onde as flores sonham.  Dizem que os sonhos são portais para outras realidades, dimensões paralelas às nossas, locais onde os despertos não podem acessar, lugares mágicos, enigmáticos, às vezes, fantasmagóricos.

Talvez seja possível adentrar em um desses reinos.

Talvez seja possível conhecer os mistérios ocultos.

Talvez seja possível aprender conceitos diferentes.

Talvez seja possível o que para todos é 'impossível'.

   Este jardineiro, também poeta, em uma dessas noites,

adentrou em um lugar estranho onde não era exatamente quem pensava ser, lá, tinha outro amor. Uma vez no mundo desperto, ficou pensando a respeito do que viveu, desejando que aquela realidade tão mágica quanto a sua fosse verdade.

    Todas essas coisas pesaram nos pensamentos. 

    Observando a sociedade fora do jardim, fiquei estarrecido, impactado. Enquanto no jardim, eu busco viver como se fosse em outro tempo, para que as flores cresçam livres, no entanto, essa liberdade do reino está ameaçada.

   Do lado de fora do ônibus...

   Pássaros coloridos cantarolando alegremente na copa das árvores, anunciando uma nova manhã que se inicia, "bem-te-vi" chama por outro que de imediato responde, dia calmo, tranquilo em paz.

Quisera o mundo lá fora ser como essa bela manhã.

Quisera o mundo lá fora ter o cantar de bem-te-vis.

Quisera o mundo lá fora contemplar o amanhecer.

Quisera o mundo lá fora, entender o que é ter paz.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta em um momento introspectivo, silencioso, observação, pensamentos, lembranças, onde Ronaldo adormece e nós definimos sua consciência...

   Vestes resplandecentes, combinações de cores, saias apertadas, corpo esbelto desfilando no salão, cabelos longos, alguns lisos outros em belos cachos, faces sorridentes, perfumes variados, maravilhosos..Era um desfile de jovialidade e exibição, com as vestes íntimas marcando as roupas apertadíssimas, partes superiores igualmente chamando a atenção, sorrisos e abraços, troca de lugares, pura exibição. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, não era para ser tão evidente essas observações a respeito do jardim religioso onde Ronaldo foi, em um desses momentos, uma visita. Lembranças dele...

   A caminho do jardim...

   Vejo faces e narizes vermelhos, mãos e corpos trêmulos, inverno rigoroso assolando o reino dos homens, temperaturas como nunca antes vistas, cada um buscando se aquecer de alguma maneira. As flores do jardim também são afetadas, as pétalas são delicadas ao jugo de um inverno tão intenso, o jardineiro poeta está muito preocupado, buscou ajudá-las.

   O sol despertou preguiçoso, esgueirando-se por entre os montes, tentando ganhar espaço entre a forte neblina que cobre tudo com seu manto branco. A cidade despertou inquieta, os seus moradores buscando os raios fugitivos desse astro tímido, talvez esse seja um dos dias mais frios do inverno.

   O mundo é um lugar escuro e estranho, cujos habitantes têm comportamentos igualmente esquisitos, fugindo a regra de qualquer atitude que deva ser considerada dentro de padrões normais. As pessoas não se comunicam olhando nos olhos, o coração está longe da benevolência e brandura, o mundo oferece distração e diversão aos milhares, ler poesia, meditar, filosofar, passou a ser obsoleto.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, antigamente o mundo era um jardim belo, no início foi assim, até ser maculado pelo homem. O Éden foi o paraíso plantado na terra, o homem era para ser o seu jardineiro poeta, no entanto, ficaram apenas os espinhos de nossos pecados, concluiu...

   Uma breve curiosidade quanto aos dias... 

   Serão mais curtos, foi o que disseram os "ditos" especialistas, o núcleo da terra está girando mais rápido, os efeitos podem ser percebidos pelos humanos, enfatizaram esses "supostos cientistas". O dia sempre foi o mesmo, nada mudou e nunca vai mudar", foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, "eles pensam que conhecem, mas de nada conhecem da vida, são todos cegos, loucos". 

   Certamente que o jardim estará belíssimo nessa agradável manhã, o frio teimoso e intenso não vai tirar das flores a luz, o encanto nem o brilho, as deixará ainda mais lindas. No entanto, a flor de cravo continuará sendo a rainha soberana de todo o jardim, todas as noites o bravo jardineiro poeta sonha com sua amada flor de cravo.

   Enquanto no caminho...

   É inevitável a observação comparativa, uma vez que os comportamentos tão distantes estão do que era antigamente, tecnologias distanciando ainda mais o mundo de outrora dos tempos atuais, ao ponto de não se conseguir imaginar viver sem isso ou àquilo. O mundo desperto adormeceu quanto aos hábitos mais simplórios, não se olha nos olhos, não se escreve cartas de punho, tão pouco contempla-se a aurora ou o pôr do sol, tudo se foi.

   Os jardins do mundo desperto são de flores artificiais, não existem perfumes, cores cintilantes, a beleza é fabricada por maquinários sem alma. ( Todas essas coisas pesaram no coração do jardineiro, foi o que ele disse para a tinta na caneta do poeta, quando observava o caminho para o jardim).

   O mundo desperto transformou-se em um campo minado, tudo converge para o abismo e caos, ninguém está enxergando o buraco logo adiante.


"O jardineiro poeta estava muito inquieto, novamente teve uma visita inesperada no reino "etéreo" paralelo, a flor de cravo, o seu amor de perdição, surgiu na forma humana, vestida de pura majestade. Os olhos cintilantes, cabelos lisos, longos, negros, derramando-se pelos ombros, a pele alva refletindo o desejo oculto no olhar do jardineiro, as pernas tão belas, o busto delicado, lábios de uma deusa grega. O perfume único, feiticeiro, que o fez enlouquecer no mesmo instante, a voz de um anjo ledo na pronúncia suave e melódica, tal era como a própria Afrodite. Ao se aproximar de sua flor na forma humana, antes que os lábios se tocassem em ardentes beijos, o jardineiro despertou, angustiado, era apenas um sonho".


   Rompe no horizonte raios de luz transpassando as nuvens, as cores múltiplas pincelando o céu com maestria, pássaros cantarolando alegremente nos telhados. Transeuntes apressados seguem o seus destinos, sequer observam toda riqueza diante de seus olhos, estão ocupados em pequenos afazeres universais,

não conseguem conectar-se à vida ou a si mesmos.

   O jardineiro poeta observa tudo da janela do ônibus, o mundo desperto parece não conseguir despertar e enxergar toda magnificência ao redor. Ele está ansioso, deseja mais do que tudo ver o seu amor de perdição, sua majestosa flor de cravo, de retorno ao jardim neste glorioso dia.

   Enquanto no jardim tudo parece transcorrer normalmente, no coração e na alma do jardineiro poeta formou-se tão grandes e terríveis tempestades de incertezas. "Dê-me um sinal apenas", foi o que clamou o coração do poeta jardineiro, uma palavra apenas basta para apaziguar a alma e acalentar o coração tão ferido.

   O coração esconde de todos sentimentos grandiosos, por trás do sorriso simplório existe a dor da paixão ardendo na carne de dentro para fora, ninguém percebe o seu sofrer, a sua luta constante. Vê-la transitar pelo jardim primavera é uma tortura, os olhos brilhantes penetrando no âmago da alma, o sorriso gracioso, a curva delirante de seus lábios, tal é como a própria Afrodite entre meros morrais. Quisera ele apagar todos esses momentos e recomeçar novamente, não ter no peito o bater descompassado de um órgão que lhe traz o sofrer.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, quando o mesmo observava a flor de cravo,

"Quisera ele beijar-lhe os lábios de deusa grega".

   A linha que divide os dois mundos, desperto caótico e o jardim mágico é tênue, porém, ninguém do mundo real consegue vê-la.

   A vida segue o seu complexo curso no mundo desperto, príncipes e reis ditando regras absurdas,

antigos governantes sendo massacrados por serem honestos e fazerem o bem para o seu ingrato povo.

Talvez estejam realmente vivenciando o apocalipse, a tribulação tal qual descrita no livro sagrado, tempo de angústia, guerra, peste, fome, o reino desperto está sendo assolado dia a dia. Parece não haver esperança, tão pouco se vê uma luz no final do túnel, tudo é escuridão, todas as atitudes estão debaixo da malignidade humana.

   O mundo desperto de Nárnia do norte está em pleno colapso, os seus reis e líderes insistem em ditar regras absurdas, deter inocentes e massacrar os menos favorecidos em nome de uma falsa verdade. São traiçoeiros, cujos corações desnorteados estão congelados, não possuem alma, parecendo com demônios em pele de humanos, não há muito o que fazer quando se caminha ao abismo. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, preocupadíssimo com o jardim primavera, as flores nada percebem do caos reinando lá fora. O único alento do jardineiro é a flor de cravo com o seu mágico, encantador, esplendoroso sorriso, a curva delicada de seus lábios o desnorteia inteiramente.

   No ônibus a caminho do jardim figuram os mesmos personagens de todos os dias, cada um seguindo o seu destino, almas cansadas. Todos iguais obedecendo uma ritualística sequência diária de pequenos afazeres universais. O jardim está sempre renovando suas flores, belas espécies contratadas recentemente como operadoras de caixa, pétalas avermelhadas, perfumes suaves. O jardineiro, também poeta, desdobra-se para cuidar de cada flor, dando especial atenção "às individualidades", até nas pequeníssimas questões.

   Do lado de fora do veículo, pássaros voando livremente entre árvores, telhados, asas abertas, peito estufado, cantando a liberdade, em algum momento essas aves maravilhosas retornam ao ninho, para os seus filhotes, famílias. Bem como as abelhas que passam o dia entre flores, buscando o néctar para fazer o doce mel, em algum momento essas rainhas dos ares retornam para suas colméias, seus casulos e irmãs, a natureza é família.

   Não existe caos entre os animais, a fauna assim como a própria natureza obedecem a ordem familiar seguida desde que o mundo desperto foi criado. O caos desse mundo caótico desperto é o homem, foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta.

   O poeta jardineiro está sofrendo em completo silêncio, o coração devastado, feito aos pedaços, a flor de cravo é a causa de seu flagelo e declínio, ele já não sabe mais o que fazer com esse amor. Basta vê-la transitar pelo jardim, no exato momento em que os seus olhos se cruzam, todo o seu ser estremece no mesmíssimo instante, o perfume único, olhos feiticeiros, lábios de deusa. O poeta jardineiro não sabe dizer se a flor de cravo esconde no coração algum sentimento recíproco, talvez exista uma faísca oculta de uma satisfação. Quisera ele conhecer os segredos mais íntimos da flor de cravo, no entanto, tudo está envolto em um manto de profundo silêncio, um mistério completo.

   Nada pode-se dizer quanto aos seus costumes, ela nada fala, porém, tudo revela em seus olhos, o corpo é de uma beleza ímpar... É deslumbrante, cada detalhe traz-lhe ao ser algo das deusas gregas. A sonoridade da voz é suave, como notas músicas, as vestes majestosas escondendo curvas delirantes, fazendo os pensamentos se perderem em imaginações, o coração descontrolado batendo descompassado. "Toda lembrança é uma tortura". Ela é estonteante flor de cravo estando no jardim, ela também é formosa em mulher no mundo desperto, concluiu o jardineiro que também é poeta.

"Nem tudo são flores, caríssimo", foi o que respondeu o jardineiro para a tinta na caneta do poeta quando observavam a flor de cravo desfilando em seus pensamentos.

   Compreender o próprio coração é um grande desafio, buscamos conhecer e desvendar os outros quando, na verdade, desconhecemos o nosso eu interior, talvez seja uma falha natural de todos. A poesia é uma maneira de tentar desnudar o oculto em cada um, as palavras têm esse poder de dizer sem nada revelar, falar dos maiores segredos do universo sem causar alarme e desapontamento.

   Entramos no final do sétimo mês do ano, o tempo novamente surpreendendo com os seus jogos, quando se vê, o futuro ficou parado no passado. O jardineiro, também poeta, quer desistir do seu ofício, deixar de cuidar das flores e das palavras, talvez seja o amor lhe machucando profundamente.

    Foi mais uma manhã escura de inverno, foi a noite demorando-se, as aves da madrugada estão quietas nos ninhos, é um novo tempo, de dias e noites se entrelaçando. As flores do jardim não se acostumam com o rigor do inverno, suas pétalas tão delicadas sofrem com os ventos gelados e cortantes oriundos das terras de gelo existentes no mundo humano. A flor de cerejeira é dentre todas a mais preparada para o frio intenso, porém, no verão, é quem mais padece com o calor, o motivo talvez seja sua origem asiática. Outras flores chegaram ao jardim por esses dias, algumas enormes, de caules extensos e pétalas fortificadas, outras tão delicadas quanto o lírio.

   Sentimentos perambulando a borda do coração do jardineiro, escalando-o, movendo-se rapidamente na intenção de tomar a fortaleza do peito, quanto 

ao ato ousado, não existe nada que possa ser feito. Sentimentos liderados pela paixão ardente, sendo acompanhada por delírio e ousadia, de início se esconderam nas entranhas do pensamento, quando menos esperavam, lá estavam eles, ousados invasores. Na aljava da paixão ardente estava a flecha flamejante envenenada do cupido, usurpada em outro momento, pronta a ser cravada no coração. Realmente, não foi possível detê-los, os ousados invasores da mesma maneira que surgiram desapareceram, ficou o veneno dessa louca paixão.

   Quanto ao mundo desperto...

   O mundo desperto foi invadido, sentimentos contrários, dominando os corações dos mortais, medo, raiva, inveja, tantos outros que não valem mencionar, quanto a invasão, ninguém a percebeu. Cada mortal vivência um ciclo repetitivo de acontecimentos, é um tempo recíproco, onde as escolhas, embora sejam livres, de maneira nenhuma deixam de trazer colheitas das suas consequências.

   Embora o caos domine mentes e corações, existem poucos humanos que conseguiram guardar-se de tais ataques, são esses pérolas de grande valor.

   Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta nesse último dia do sétimo mês, a caminho do jardim…

DIÁLOGOS.

          "A flor de cravo se vestiu de puríssima majestade, as suas belas pétalas em cores refletindo a luz, a face em tom rubro delir...