Dia calmo.
Não é comum dias assim, principalmente em uma cidade recentemente considerada metrópole, com seus mais de setecentos mil habitantes, ou qualquer coisa do tipo. Não é um lugar... Como vou dizer... Totalmente ruim, não é, também não é um paraíso. Todas as cidades são adequadas na medida do possível para os seus habitantes, que, em geral, as consideram dentro dos padrões. Quem acostumou-se em cidades pequenas odeiam as grades, assim procede o repúdio de quem vive em em metrópole indo para lugares menores. É claro que existem aqueles que fogem à regra, bem como os que se adaptam ao ambiente.
Talvez eu seja alguém que fugiu à regra.
Eu não nasci em uma cidade grande, o bem da verdade é que eu nasci em uma cidade minúscula, no então belíssimo hospital por nome nossa senhora de Fátima, quanto a determinada localização do meu nascimento... Me reservo o direito de não dizê-lo. Parte da minha criação foi em uma fazenda, belíssima naquele tempo. Hoje o que resta é mato e os esqueletos de casas velhas. No entanto, ao passado reservo belíssimas recordações. O meu reino encantado ainda existe em algum lugar dentro do meu coração. Da cidade do meu nascimento, pequena, aconchegante, restou algumas boas lembranças, hoje já não é tão pequena.
O tempo passou, ficaram apenas saudades.
Hoje eu vivo em uma metrópole alucinada, uma cidade aos moldes da Paulicéia desvairada cujos habitantes parecem não terem tempo sequer para dormirem. Assim é Sorocaba. A manhã calma é apenas ilusão, uma miragem nesse deserto de concreto e aço. Eu finjo para mim mesmo ter me acostumado com toda essa insanidade, no começo funcionava bem, hoje... Já não sei bem o que responder. Trabalho e mais trabalho, sempre assim, a famosa corrida dos ratos, felizes com suas rodas infinitas em gaiolas enormes que não levam a lugar nenhum. A verdade é que estamos fadados ao mesmo triste destino de solidão e desespero.
Retomando o pensamento inicial...
Manhã agradável, dia calmo.
Despertei antes das seis, noite terrível de sono, não foi devido ao barulho das motos na rua, nem as festas barulhentas nos bairros vizinhos, nada disso, a verdade, a causa da insônia, da qual eu odeio de admitir, é a síndrome dos pensamentos acelerados, esse volume de... de coisas no espectro mental na forma imaginária de pensamentos se acumulando e se alternando sem nenhum controle, sem nenhum sentido. É isso. Eu não tenho outra explicação para essa loucura em minha cabeça, todas as noites é a mesma coisa, Já me disseram para procurar um especialista, psicólogo, psiquiatra, qualquer coisa que ajude, dúvido muito que funcione. Em outros tempos da minha vida eu já estive no consultório de uma psicóloga, longas conversas, enfim, foi um período benéfico, um momento em que eu dispunha de tempo, dinheiro, plano de saúde, coisas essas que estão fora do meu escopo no momento. Como dito inicialmente, madruguei, porém, não levantei de pronto, fiquei na cama rolando de um lado para outro, olhando a parede, o teto, minha esposa dormindo profundamente. A certa hora resolvi levantar, havia o café para ser feito, comprar pães, preparar a mochila do trabalho, coisas do cotidiano. Geralmente a minha esposa faz toda essa tarefa, no entanto, hoje eu tomei frente de tudo, é certo que ela vai xingar quando acordar, mas, o motivo de eu ter me adiantado nem mesmo sei dizer.
Tudo pronto, café feito, despejado na xícara com elegância, a fumaça bailarina esvaindo-se.
Na cabeça pensamentos...
Nuvens grossas de imagens fantasmagóricas, nebulosas inundando tudo. Raios de sensações e sentimentos ruins, descobertas agonizantes.
O primeiro gole, o primeiro pedaço de pão.
O coração está acelerado, a alma deslocada. Lembranças do dia anterior, das imagens, ou melhor, escritos que flagrei... Bisbilhotei no celular da minha esposa, lá estava o seu rastro no histórico, vídeos indecentes, pornográficos... Não sei o que dizer, suas vontades não estão sendo satisfeitas? Ou todos nós temos nossos segredos ocultos?
A segunda opção é bem válida, quem sou eu para julgá-la.
Olho no relógio, a hora é fugitiva, deixo a xícara na pia, pego minhas chaves, crachá, bolsa, sigo o destino de todos os dias. Abro o portão da garagem com cuidado, olhando de um lado para outro, o medo ainda está lá dentro, lembranças do assalto de outros tempos. Toda precaução é necessária. Ganho a rua, a caminhada até o terminal Itavuvu é um pouquinho longa, coisa de dez minutos. Quanto ao trabalho, figura do outro lado da cidade. Vila Nova, supermercado dos Estados.
Já no terminal, alívio.
No primeiro momento estou sozinho.
No segundo momento, como em um piscar de olhos, o pequeno espaço retangular de um metro e setenta por vinte, fica lotado. Trabalhadores e trabalhadoras como eu, CLT, correria, marmitex feita na mochila, rostos de pedra, fisionomias nada amigáveis. É apenas uma impressão, no entanto, a primeira imagem é a que fica. Me posiciono perto da porta automática, dentro de dois minutos o ônibus 140 linha vitória estará encostando, ônibus sanfonado, embora enorme, sempre está lotado, sempre viajo de pé.
No terceiro momento, quando já dentro do veículo, me posiciono no lugar de todos os dias, o cantinho esquerdo da parte sanfonada, onde é possível ver a extensão do ônibus de um lado para outro. Não deixo de observar as pessoas, todas elas, principalmente as mulheres. Elas, sempre presentes, rostos joviais, belíssimos, lábios pintados, carnudos, outros finos, olhos claros, outros escuros, seios enormes e bicudos, outros menores, calças apertadas, a intimidade divididas, outras nem aparecem. Talvez, lá dentro de mim, exista um certo maníaco... Loucura pensar nisso, mas, vai lá saber se elas também não fazem as mesmas observações no silêncio de suas mentes a respeito de nós homens. Nunca falei uma única palavra com qualquer pessoa que fosse, seja homem ou mulher, no máximo, respondendo alguma pergunta. Esse ser degenerado e imaginativo existe somente aqui dentro, alias, cada um possui a sua parte, degenerada, em algum lugar lá dentro.
O ônibus segue o seu curso de todos os dias, segue pelo centro, transeuntes de todos os dias, passos apressados de alguns, passos despreocupados de outros, enquanto a maioria está de olhos grudados nas telas dos celulares, outros estão com eles grudados nos ouvidos. Não é diferente dentro do ônibus, de toda esse amontoado de pessoas, apenas dois não estão debaixo do domínio da tecnologia. Um sou eu, o outro é uma moça, cabelos longos, tatuagens nós braços, livro nas mãos, "Naná, de Zola", belíssimo exemplar de um dos grandes romances franceses. É uma pena que somente ela desfrute de tão agradável companhia que é o livro. O meu livro está na mochila. "A paixão do Dr. Christian - Colleen McCullouch." Sem dúvidas, essa leitura está sendo uma das melhores do mês de dezembro. No entanto, enquanto estou no ônibus, gosto de observar o que as pessoas fazem, costume estranho eu sei, porém, não sou o único. Fazemos coisas que são estranhas e nem percebemos, seja em público ou no privado, principalmente quando, ( achamos que não estamos sendo notados). Tais costumes acabam revelando do lado de fora do nosso exterior o que, às vezes, escondemos por dentro do próprio eu.
Nesse exato momento me sinto dividido, a minha mente está dividida, metade preocupadíssima com os afazeres que tenho por obrigação... A outra metade, em pensamentos não convencionais, conforme meus desejos internos se afloram, por fim, afogando-se em frustrações.
Ruas e curvas, trânsito, buzinas estridentes, pessoas caminhando apressadas pelo calçamento. É um mundo novo, diferente do passado, onde, olhos encontrava-se repentinamente e dava-se início em algum diálogo empolgante. O meu destino está próximo. O local de trabalho está no meu campo de visão, do lado de dentro do ônibus, tudo parece perfeito, no entanto, sabe-se que é uma mentira, o lado de fora veste-se de uma falsa paz com cores de normalidade.
Desço do ônibus, paro na esquina, a poucos metros de distância do trabalho. O coração começa a bater descompassado, as mãos começam a suar frio, a alma está em terrível aflição. No pensamento uma voz dizendo para voltar, eu não a obedeço é claro, nunca obedeço minhas vezes interiores. Passos apressados seguem sem vontade de chegar, ajeito a mochila nas costas. O coração parece que vai sair pela boca, não consigo controlar minhas emoções, então tomo a decisão de mantê-las trancafiadas no calabouço das memórias perdidas. Lá, nesse inusitado lugar esconde-se, ou, está aprisionado todos os tipos e formas de pensamentos involuntários, indesejáveis, indiscretos. Às vezes, não é costumeiro, porém, um e outro pensamento consegue fugir da prisão, então sou atormentado o tempo todo, é impossível evitar.
Estou na frente do estabelecimento.
No caixa a japonesa e outra menina, jovem aprendiz.
Um discreto aceno, outro quase inaudível bom dia, que respondo de pronto com o menear de cabeça e um meio sorriso. É o momento ideal para praticar meu terrível teatro de todos os dias.
Passo pelos corredores apressado, vou direto para o vestiário.
Troco de roupas, troco de fisionomia, em uma última análise, troco de corpo eu acho. De uma pessoa atormentada para outra sorridente, de alguém que não fala nada para outro conversador. É o momento de entrar em cena, o palco é o balcão de atendimento, os clientes, minha plateia. Tudo pronto para começar a encenação mais mentirosa de todos os tempos.
Cliente após cliente...
Sorrisos falsos, descabida alegria que não existe na realidade, mentiras sendo contadas e amontoadas. Enquanto isso, entre pausas regulares de clientes, correria nos pequenos afazeres universais. Nesses instantes, aflora o homem verdadeiro cheio de ressentimento e amargura, sendo trancado novamente pelo eu interior sorridente e mentiroso.
Clientes, afazeres, horas que passam...
É o momento do fechar das cortinas, o palco está silencioso, a plateia foi embora, agora, resta o que sobrou do verdadeiro ator, completamente atormentado e de retorno para o seu lar. O caminho é inverso, um mundo invertido de personagens maléficos, novamente volto aos pensamentos involuntários, indesejáveis, indiscretos, de observações indevidas sem ser notado. É o acumulo de frustrações no peito.
Ônibus, ruas, luzes...
Ao caminho do lar, ruas escuras com figuras estranhas que não assustam mais.
Uma vez em casa... Beijos, banho, jantar, papo rápido sobre o dia, as mesmas coisas de sempre. É hora de dormir, o momento de finalizar o pensamento repetitivo para recomeçá-lo no outro dia.
É sempre assim neste meu deserto dos tártaros de todos os dias.
A campina verdejante, flores ao longe, o perfume único e suave de espécies diversas, ele caminha livre, liberto de todas as amarras da vida. Não há vestígios de preocupação em sua mente com relação a trabalho, casa, contas, mundo, nada de nada. Ele apenas caminha naquele lugar nunca antes visto, pássaros cantando ao longe, ele caminha livre, tão pouco a frente aparece, repentinamente, um grande abismo, uma ponte estreita de cordas e tábuas, do outro lado, outro jardim ainda mais belo e cheio de seres mágicos alados. Ele quer atravessar, o primeiro passo incerto nas pequenas tábuas daquela ponte. Abaixo o abismo cheio de trevas. A curiosidade é maior do que o medo, passo após passo, de repente, quando alcança o meio da ponte, ouve-se o romper das cordas, depois a queda naquele abismo sem fim, gritos e escuridão... Depois do silêncio o desapertar, não é mais o jardim, campinas verdejantes, agora figurava um grande deserto a frente, assustou-se com a paisagem árida, o som cortante do vento, atrás de si, um enorme castelo, "certamente", era aquele o famoso deserto dos tártaros, "mas como isso é possível", pensou novamente. De repente,o som de cavalheiros, era um exército vindo em sua direção, o som agudo de uma flecha acertando o seu peito, a dor descomunal...
Acordei aos gritos, assustando a todos, era apenas o mesmo sonho terrível, todas as noites o mesmo sonho, o tal deserto dos tártaros, a formação dos pensamentos, involuntários, indesejáveis. O irreal às vezes, se faz realidade no mundo caótico dos sonhos.
Nos últimos tempos tenho sonhos recorrentes e perturbadores. Não basta o dia em si ser assombrado, à noite também revela os seus segredos, enquanto a loucura lentamente encobre meu entendimento.

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