terça-feira, 16 de junho de 2026

FRAGMENTOS DO LIVRO. RABISCOS POÉTICOS.

    



JANEIRO.


   Entramos no ano de dois mil e vinte e cinco, figuram as primeiras horas deste novo tempo, pessoas comemoram, cantam, bebem, dançam, enquanto eu... Eu sou apenas uma sombra parada na janela. Às horas passam rapidamente, madrugada longa, inútilmente eu tento me compreender, é impossível. O sono não chegou, horas acordado, pensamentos, a milhão, a dor que surge lá dentro do meu "eu" profundo.

   O dia ganha vida diante de meus olhos.

    A vida sorriu para muitos nesse novo ciclo, eu procuro por esse sorriso... Onde estará? 

     Algumas pessoas chegaram em casa, uma visita nada desejada, novamente o afrontamento da parte deles, a sensação de derrota, novamente eu sou apenas um prisioneiro do meu próprio silêncio.

   Justamente hoje que acordei indisposto. 


   Terrível segundo dia.

   A madrugada foi tumultuada, agoniante, pensamentos perambulando pela cabeça, a tristeza cerca o meu flagelado coração. Estou vivendo os dias mais difíceis da minha vida, às vezes, nem mesmo eu me compreendo, então me questiono de onde surgiu essa inconstância tão incomoda? Amargo fel que me conduz ao obscurantismo.

   A quinta segue o seu curso de tristeza, observo o nada de caminho para outra cidade, paisagens vazias, lugares tortuosos, esquecidos, ermos. 

   Cheguei ao destino meia hora depois, abraços, um sorriso falso, no retorno houve uma ligeira mudança nos planos, voltei para casa cheio de expectativa no peito.

   Abraçou-nos o manto da noite.

   O silêncio cobrindo meros mortais.

   Noites e madrugadas traiçoeiras, nada de novo, eu estou dormindo pouquíssimo, pensando muitíssimo, duas extremidades que estão me enlouquecendo, de repente, nada parece dar certo. 

   Tomei o meu café apressadamente, ninguém se importa com o que eu falo ou penso, nada de novo, me sinto como uma sombra sempre à espreita, escondendo-se, mostrando-se, sempre indeciso.

   Na parte da manhã eu fui para uma entrevista de emprego, estava trêmulo, um pouco de espera, boa recepção, diálogos, espera, ficou uma ótima impressão de ambas as partes, quanto ao teste, muito simples. Retornei para casa muitíssimo eufórico, porém, logo o medo surgiu para tomar conta da minha alma, na parte da tarde eu tive outra entrevista não muito agradável, é a vida que segue o seu curso, como um rio caudaloso.


   Fez-se um novo dia com todos os seus desafios e com todas as suas mazelas. 

   O mundo continua sendo o mesmo mundo, não há nada de novo, a existência dos tempos modernos é a exata cópia do que ocorreu outrora. A minha cabeça continua em extremo conflito consigo mesma, os meus sentimentos e pensamentos estão turbulentos, hora está construtiva, em outros momentos, negativo, é uma guerra sem trégua.

   O dia segue o seu curso entristecido e monótono.

   Uma breve caminhada para distrair os pensamentos, observar em silêncio é o que mais tenho feito nestes últimos tempos. 

   O final de tarde avança rapidamente, a expectativa de uma noite diferente se configura diante de meus olhos, é quando então decidimos estar na casa do pai, a sua presença é reconfortante para a alma atormentanda e um coração tão ansioso.

   Tudo correu maravilhosamente no final da noite.


   Um novo dia, nova expectativa.

   Esse foi, sem nenhuma dúvida, um dia diferente, os raios primeiros do sol brilhando com toda sua força e beleza, estendendo-se como uma cortina na janela do quarto, foi dessa maneira que despertei. Embora seja esse o primeiro dia em outras culturas, portanto, dia de trabalho, em nossa cultura ocidental o costume é de descanso, sendo assim, uma vez com a oportunidade, nada melhor que ir na casa do pai novamente.

   O meu coração transbordou de alegria quando cheguei na presença dele em sua casa, juntamente com os meus irmãos, nos regozijamos e sorrimos, cantamos, nos alegramos. Confesso, o dia teve lá os seus contratempos, nada novo debaixo do sol, o sorriso permaneceu nos lábios, retornamos a casa do pai pela noite, ele alegrou-se conosco. 


   Segunda-feira, 

    Para muitos um dia terrível, odioso, lembro-me de tantas segundas indesejáveis, sim, foram muitas ocasiões, entretanto, houve momentos em que o inverso e o impossível também aconteceu. O dia começa como todos os demais, sem muita novidade, preguiçoso, silencioso ao extremo, isso não me agrada. caminho de um lado para o outro dentro de casa, inquietações corroendo o coração, corroendo a alma.

   Aquela entrevista, a tal que fiz, a oportunidade que surgiu... Então, eu esperando uma mensagem, na ânsia de saber uma resposta, enviei a mensagem antecipada. Que bom, deu certo, finalmente o retorno positivo que tanto esperava. Um possível recomeço na quarta-feira, um passo de cada vez, eu penso, no peito, velhas inquietações batendo com muita força na porta do meu coração.

   Eu que pensei em um sétimo dia tranquilo, sem nenhuma tribulação, sou mesmo tolo e ingênuo, embora o dia logo nas primeiras horas parecesse promissor, outra situação tornou-o impactante. Talvez eu tenha exagerado um pouco com o 'impactante', porém, de certo modo não estou mentindo, tivemos visitas das quais não queríamos nesse momento ímpar da nossa vida, nada contra a vista, também, nada favorável.

   Às horas passaram arrastadas, dolorosas, ao final da noite, já sem os convivas, uma mensagem me foi enviada, nela, outra proposta de uma determinada empresa. Embora a proposta seja inferior à da primeira, ela deixou-me pensativo, tais pensamentos trouxeram-me angústia na anatomia do meu eu enlouquecido.

   Eu estou até agora me perguntando, que dia foi esse?   

   São questionamentos intermináveis, às vezes penso estar ficando completamente louco, são tantos pormenores e por maiores, já nem sei. O dia foi de certa maneira, empolgante, radiante, cheio de expectativas, trabalho novo por iniciar, sensações diferentes no meu coração, embora a alma estivesse receosa, para dizer a verdade, medrosa mesmo. No primeiro dia não era para eu agir dessa forma, eu não consigo entender o que aconteceu comigo, o que tem de errado com esse rabisco de gente. O que eu não imaginava ocorreu nesse novo trabalho, acidentei-me, corte no punho esquerdo, corte contuso, dor, incerteza, por fim, as coisas terminaram dentro do esperado.

   O problema é que, às vezes, nos acostumamos ao ritmo de uma rotina, às vezes, esse mesmo ritmo torna-se opressor, porém, somos de fato seres em desequilíbrio no universo, querendo as duas coisas sem nenhuma necessidade. O meu eu enlouquecido vive intensamente essa dualidade da alma. Eu deveria me regozijar com o descanso de um dia de rotina intensa, no entanto, a angústia da ociosidade me fez buscá-la freneticamente até conseguir encontrá-la.

   Quanto ao dia...

   O dia nasceu belíssimo, intenso e cheio de novidades, a minha nova rotina de vida se desenha com traços leves, pelo menos nesse momento. Parece loucura o que estou a dizer, de certo modo é, este rabisco no papel estava sentindo falta do cansaço e de um dia corrido de trabalho duro, vai entender.

   Os dias seguem o curso de uma normalidade já há muito tempo conhecida, com uma tendência às mesmices e as repetições cotidianas. fazemos por fazer, seguimos por seguir o rio das nossas vidas. O que vou dizer do meu trabalho... Não sei exatamente o que lhes confidenciar, uma coisa é muito certa, estou retornando as raízes, voltando a reviver emoções primeiras da época da minha confusa juventude.

   Eu sigo o fluxo do rio, se é que posso usar tal expressão, considerando que o fluxo desse rio é um tanto quanto diferente de todos os meus outros rios. O dia se foi, quanto a noite... A noite segue o próprio curso, atendimento, afazeres que são concluídos um a um. Uma caminhada noturna até o ponto, ônibus, casa rotina. Cansaço muitíssimo necessário. 

   Sensações, emoções, quem estará livre?

   Eu as sinto ao extremo, sempre caminhando à beira do abismo, nunca foi diferente. Desde que eu me entendo por gente, sou esse tipo de aberração. Talvez você... Sim, você mesmo, caríssimo e desavisado leitor que pousou os olhos nesses rabiscos poéticos, talvez você considere certo exagero minha depreciação, pois digo que não é.


   O meu dia foi corrido, horários diferentes,

a vida em si está rumando para outros caminhos, nem sempre acontece como gostaríamos que fosse. As horas percorrem o curso do relógio sem novidades, porém, com muitos afazeres, o trabalho também segue o seu curso, tudo o que é novo assusta no primeiro momento.


   Finalmente o domingo, dia separado ao descaso,

em outros momentos eu o odiei, hoje, o amo, difícil de explicar a minha relação com esse dia tão especial, o primeiro no curso de uma longa jornada. Parece exagero da minha parte, porém, aos que se entregam na labuta dos pequenos afazeres universais sabe bem do que estou dizendo. A folga na semana não é igual aos descanso de um caloroso e abençoado domingo.

   Como de costume, pelo menos para esse que vos escreve, tenho por objetivo dedicar partes do dia ao senhor Jesus, dando-lhe louvor, honras e glórias. O dia termina com aquela sensação de angústia, sim, afinal, horas nos separam da tediosa e indesejada segunda-feira, contudo, sou grato pelos novos desafios da vida.

   Afinal...

   Os dias nos ensinam coisas que os anos nunca souberam, eu escutei essa frase em algum lugar, acho que foi em um filme, não me lembro bem, sei apenas que se trata de uma grande verdade. Às vezes eu sinto como se não aprendesse nada com os dias, parece que a vida deseja me castigar o tempo todo, a todo o momento sou surpreendido com desafios que fogem da compreensão humana.

   Um ciclo novo se inicia no meu novo trabalho, não sei mensurar os meus sentimentos quanto a essa nova etapa da minha vida tão complexa. Não sou o tipo de pessoa que se adapta facilmente, engano bem, que vê não percebe o meu abismo, estou sempre caminhando com o perigo iminente.

   Nada como um dia depois do outro, a vida em seu curso frenético por estradas sinuosas, correndo como se nunca fosse chegar. A vida é mesmo assim, a minha, a sua e de todos os seres humanos na face da terra. Nessa loucura que é viver, às vezes, não prestamos atenção às pequenas coisas, aos detalhes, eles passam diante de nossos olhos despercebidos, quantas vezes eu fui esse ser desatento, desleixado.


      Hoje o dia foi extremamente cansativo, frenético, para muitos, exagerado, ao ponto de me classificar de um homem caminhando sempre ao abismo. Não se assuste, caríssimo leitor dos rabiscos meus, com o tempo agente se acostuma, você, por exemplo, não é diferente, no fim somos todos iguais.


sábado, 16 de maio de 2026

O SEGREDO FINAL.

 


    "Ler é viajar sem sair de casa". 

     Essa é uma verdade que todos deveriam experienciar, devo, portanto, me considerar um viajante por excelência, sempre estou a conhecer novos lugares sem sair de casa . Já conheci muitos lugares sem me levantar do sofá de casa, tudo, graças às páginas de um bom livro. O livro é uma espécie de portal mágico que te conduz a lugares impensáveis. A minha última façanha, por assim dizer, foi conhecer um pouco da cidade de Praga, e quem me possibilitou tal oportunidade foi Dan Brown, em seu novo e espetacular romance, o segredo final.

        De maneira brilhante, e com a mesma mão de mestre dos seus livros anteriores, o autor nos conduz através dessa narrativa nesse livro maravilhoso. Reencontramos, depois de dez anos, o professor de simbologia, Robert Langdon. A princípio, convidado para ouvir uma palestra de Katherine Solomon - par amoroso do professor. Katherine está na iminência de publicar um livro sobre consciência humana, suas verdadeiras origens, no entanto, algo no livro ameaça desestabilizar crenças e conceitos.

         Um assassinato brutal acontece, o manuscrito desaparece junto com Katherine, estamos diante de um trilhe de tirar o fôlego, mistérios que o professor terá que descobrir para encontrar Katherine e recuperar o manuscrito. É a fórmula infalível de Dan Brown.

         Neste livro, assim como nos anteriores, está recheado de obras de arte, informações que nos dão vontade de pegar um caderno e anotar tudo. A neurociência é apresentada aqui, assim como a ciência noética, conceitos e visões estarrecedores. Praga é sem dúvidas o palco perfeito dessa história, cada personagem, os capítulos curtos e pontos de vista narrativos diferentes. Enquanto você vai caminhando na leitura, alguns personagens te levam para um caminho de entendimento, te fazendo crer piamente em determinado desfecho, quando, na verdade, o autor nos surpreende  fazendo-nos ficar boquiabertos, pelo menos foi assim que eu fiquei com algumas das revelações do livro.

             Para quem é fã do autor como eu, tenho toda certeza que você não vai se arrepender. Os anos de espera valeram muito a pena. Eu fiquei muito feliz com a leitura desse pequeno calhamaço de quase seiscentas páginas. O autor tem mais de 250 milhões de livros vendidos, publicado em 56 idiomas, quem não se lembra do famoso "Código Da Vinci", "Anjos e Demônios", "O Símbolo perdido", "Inferno", "Origem", "Fortaleza digital", enfim, títulos maravilhosos, recomendo a leitura de mais essa obra prima do autor.

         

  

       

domingo, 26 de abril de 2026

CULTO DE DOMINGO.

 



    Passos curtos, olhares atenciosos buscando alguém na plateia ainda pequena, parando, olhando para todos os lados, nos lábios o vislumbre de um sorriso, os olhos fixados em um determinado ponto, talvez o alvo, um aceno. 

    Aos poucos o lugar vai sendo tomado, bancos outrora vazios são preenchidos, famílias pequenas se encontram com outras maiores, os primeiros lugares são os preferidos da maioria dos jovens e adolescentes. O som da orquestra ecoa suavemente na preparação e afinação dos instrumentos, trompetes, trombones, violinos, flautas, entre outros, cada um atento à batuta do maestro. As mulheres desfilam pelos corredores com as suas melhores vestimentas e seus perfumes exagerados, já os homens, exibem os seus ternos elegantes e gravatas chamativas.

    O culto está prestes a começar.

    Aos poucos, o templo ficou cheio, sobrando espaço apenas nas galerias, os atrasados buscam os primeiros lugares, olhando, calculando, voltando para trás com faces não muito amigáveis. O grupo de louvor se posiciona na frente do púlpito, cada um com o seu microfone, os testes de som exaustivamente repetidos, tudo tem que estar na mais perfeita sincronia e ajuste, é um grupo numeroso e belo. O lado esquerdo de quem está no púlpito é reservado aos pastores, amplo espaço, que aos poucos é preenchido, a maioria chegando sempre atrasado. O lado direito fica reservado à orquestra, um espaço grande, com várias pessoas e seus variados instrumentos de sopro, cordas, todos atentos ao maestro.

   Quanto à orquestra, vale a pena mencioná-la.

    É formada por um grande número de irmãos, membros da igreja, jovens da mocidade, obreiros, mulheres do círculo de orações, integrantes do corpo de música e do coral. O maestro, com sua batuta em mãos, posiciona-se de frente aos músicos, a maior parte com os violinos, três deles com os violoncelos, uma parte com instrumentos variados de sopro, por sua vez, perfeitamente organizados, todos igualmente atentos ao ensaio. Os arranjos da orquestra acompanham os dois primeiros hinos da harpa, uma introdução é feita, essa por sua vez é qualquer coisa de extraordinário, simplesmente lindo. Algumas das vezes o maestro acompanha os hinos da mocidade, coral e do círculo de oração, também com arranjos e notas de tocar o mais endurecido dos corações.

    Dar-se início ao culto.

    O presidente inicia com uma breve oração, feita por um dos pastores, em seguida, dois hinos da harpa cristã são cantados, acompanhados pela orquestra em conjunto com o grupo de louvor. Após os hinos, segue a vez da mocidade louvar, seguida do círculo de orações. Após o toque dos louvores, um dos pastores traz uma breve saudação a pedido do presidente, enquanto isso, o imenso coral se posiciona para entoar o mais belo canto. O culto segue o seu curso, ofertas, avisos, o grupo de louvor cantando novamente antes do momento mais importante da reunião, a pregação da palavra. Em geral, um dos pastores do campo, previamente notificado, fica com a imensa responsabilidade de trazer a mensagem. Trinta minutos importantíssimos de exposição bíblica, silêncio e atenção. Cada um ouvindo e trazendo ao seu coração o que a palavra lhe falou ao mais profundo da alma.

     O culto tem o seu término com os avisos da semana e oração final seguida da bênção apostólica. 

     Certo é, caríssimos amigos, disso eu posso testemunhar, que jamais sai de um culto da mesma maneira que adentrei. O culto de domingo é maravilhoso, a igreja é um lugar onde você fala com Deus, e ele, de pronto, lhe responde das mais diversas maneiras.

      

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O ESPELHO.

    

    



       Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.        

   Do lado de fora, o silêncio, quieto e contemplativo na própria solidão, observando as quimeras do pensamento.

       Quem é?

       Pergunta para si mesmo quem é o ser degenerado, enquanto do lado de dentro o vento sopra cada vez mais furioso.

     É necessário olhar para dentro, no âmago de si mesmo, talvez assim consiga enxergar o lado externo. Nem sempre o que está descrito no rótulo condiz com o conteúdo, então nos confundimos e ficamos sem saber se a verdade está no oculto lado de dentro ou na aparência externa.

        O reflexo no espelho… 

        A imagem refletida de alguém que se olha por muito tempo, estudando as suas feições sem nada dizer. Alguém tentando entender quem realmente é nesse mundo caótico, buscando a compreensão da sua natureza em meio a complexa natureza humana.

      É preciso olhar para dentro, olhar para o espelho da própria alma, ver o que será refletido de si mesmo, se esse rótulo expresso na curva dos lábios condiz com o que está escondido no interior, ver se a verdade se oculta do lado de dentro ou se está fora.

      A imagem refletida é de alguém que se descobre com regozijo ou de quem se esconde por medo?

        Corpos e formas não moldam alma e corações. Às vezes, a fraqueza se disfarça querendo se parecer com a força e a feiúra se veste com as roupas da beleza. 

     É preciso escutar o silêncio para ouvir a própria voz. Nem sempre a natureza humana vai nos sorrir, às vezes, ela vai nos esbofetear, então sentiremos dor sem saber onde dói, choramos sem saber de onde surgem as lágrimas.

         O reflexo no espelho…

      A janela da alma foi aberta pela fúria do vento, está chovendo do lado de dentro, molhado tudo do lado de fora. Não é sobre quem ele é ou quem ele foi, e sim no que se tornou. O espelho nunca mente, mostra o exato reflexo do que é revelado.


         

      

sábado, 17 de janeiro de 2026

AO TEMPO QUE O AMOR ENLAÇA, TAMBÉM CEGA.



     ( ALERTA DE SPOILER)



     O menino que comeu uma biblioteca...

     Certamente, a melhor história que li nesse ano, emocionante, surpreendente, angustiante.

      O romance é narrado em primeira pessoa pela personagem chamada Eva, que através das cartas de tarô, herança da avó, ela tem visões com certo menino polonês, "Jósik Tatar", a estrela principal desse romance. Nesse magnífico livro a história de Eva é entrelaçada com a de Jósik Tatar, a narrativa se alterna, por vezes dá no Uruguai, em outras na Polônia durante a grande Segunda Guerra Mundial. 

A narradora - "Uruguaia", começa falando sobre a família de Jósik. Os pais do menino vivendo com o avô ( Michael, considerado maluco pela própria mãe do menino) residindo na pequena Terebin, o idoso é um brilhante literato e professor aposentado, apaixonado pelas histórias de Shakespeare.

    O amor pelos livros é passado para o menino, e de forma mágica, para nós leitores também. A guerra será retratada na história, o mundo começava a ver a ascensão de Hitler na Alemanha e a ameaça nazista. A personagem Eva aborda sua vida no Uruguai, morando em uma fazenda com a avó Florencia. Uma vida muito humilde, a jovem casa-se aos quinze anos com Miguelito, com ele tem um filho, jovem e sem nenhuma responsabilidade, Miguelito trabalha no único posto de gasolina do vilarejo, vez e outra, se entrega a bebedeira. A vida é difícil, entre altos e baixos, trabalhando aqui e ali. Ela descobre nesse período caótico da vida o amor pela leitura, ao encontrar na lanchonete onde trabalha um exemplar de trabalhadores do mar de Victor Hugo. 

    A narrativa volta para Jósik, o ano é 1938, o pai do menino Apolinary, que trabalha na ferrovia e com isso viaja muito, ouve rumores da guerra, percebe as movimentações de Hitler nas fronteiras Polonesas. O pai do menino quer tirá-lo da Polônia antes que a guerra chegue. Ouve-se relatos de Judeus presos e perseguidos, embora a família do menino seja Polonesa, o pai teme pelo pior. Ele convence a mãe de que é melhor mandar o menino para América, viver com o tio Wacla até que as coisas se acalmem. O peso do medo da guerra na alma da mãe de Jósik é enorme, as cartas que o pai enviou ao tio na América não foram respondidas, era necessário fazer alguma coisa, porém, eles não sabiam exatamente o quê. O dia fatídico acontece, a Polônia é invadida pelo exército alemão. Morte, medo, terror rastejando como a sombra da noite sobre o dia, nomes, mulheres e homens, tudo desaparecendo, assim foi com o pai do menino. O nome Apolinary tratar ficará apenas nas lembranças do jovem menino, que agora via os tanques e suas suásticas e soldados tomando as ruelas do vilarejo. O monstro da guerra mostrava-se aos poucos sua pior face para as pessoas do seu pobre vilarejo, uma a uma sendo mortas, enforcadas e metralhadas. 

     O espírito do avô do menino ainda residia na velha e rica biblioteca.

     A narrativa dá um salto ao tempo presente.

Jósik e Eva já estão juntos. Porém, ela rememora partes desse período difícil, a sua história é de alguma forma estava ligada com a do jovem Jósik. O menino sente a falta do avô, no entanto, tal falta foi amenizada com a chegada de uma menina chamada Raika, aquela que seria seu primeiro amor. A vida era difícil naquele momento, no entanto, em uma visita do menino na biblioteca que era do avô, repentinamente, o fantasma do velho aparece. 

     Mais uma manhã fria e triste...

     Flora vai até o mercado negro tentar comprar carne e passaportes falsos, o menino não sabia, despede-se da mãe, porém, era a última vez que a veria. Naquele lugar onde os Poloneses se reuniram na tentativa de se comprar algo para comer, uma emboscada das tropas ceifaria a vida de todos. O jovem Jósik salvou-se por pouco, foi o fantasma do velho que insistiu para ele não acompanhar a mãe naquela manhã, tal obediência ao fantasma salvou-lhe a vida. Uma parte dessa narrativa é a própria voz de Jósik.

       Foi o fantasma do avô que lhe sugeriu, após contar-lhe a verdade sobre a mãe, agora já morta, que o menino convidasse a amiga Raika e sua mãe Anna Bieska para morarem na sua casa.

     A narrativa volta ao presente, Eva rememora momentos de seu começo de vida com Miguelito, o trabalho na lanchonete, vida miserável. Durante a noite sempre sonhava com Jósik, o menino polonês, que viveu os horrores da guerra. O sonho também era um fantasma na mente da menina. Parte da narrativa retorna a voz de Jósik, falando de suas desventuras na tentativa de fugir daquele mundo de morte, a lembrança do fantasma do avô, que, só deixaria de fato a existência espectral quando a biblioteca não existisse mais.

     A realidade bate à porta do jovem Jósik.

     A narrativa novamente retorna ao momento em que o menino, já em casa, espera o retorno da mãe, embora sabendo que ela jamais voltará. O menino só não ficou sozinho porque seguiu os conselhos do fantasma do avô. Anna Bieska e Raika agora residem com ele em sua casa. Jósik e Raika estão apaixonados, à medida que ambos crescem, aumenta o amor e a implicância da mãe da menina, que, em um surto de raiva ao vê-los abraçados, resolve mudar-se com a menina.

      A dramática situação de Jósik agrava-se, uma vez expulso da própria casa foi para a casa que era do avô. A distância não era problema para os jovens apaixonados, que achavam um jeito de se encontrar, o amor sempre encontra um jeito. A pequena Terebin convulsionou-se com a movimentação das tropas. No ano de 1940, a guerra em pleno vapor, a Europa caiu diante de Hitler. O jovem Jósik, aos conselhos do fantasma do avô, vive à beira do perigo, vendendo os livros, encontrando-se com Raika, porém, um novo personagem entra na história, seu nome, Abel Becker. Um soldado Alemão levado a Teberin para trabalhos burocráticos, catalogação de obras de arte entre outros. Assim como Jósik, Abel era amante de livros e literatura, e foi justamente em um desses momentos, quando o jovem polonês tentava vender seus dois Conrad e um Bocaccio que sua vida cruzou com a do Alemão. Não houve morte nem brutalidade, nada disso, os livros e a literatura lançaram aquela improvável amizade. O soldado Alemão, amante de literatura, vê em Jósik um amigo improvável, diferente de muitos que tinha no quartel, cuja visão míope, enxergava apenas a guerra em pleno vapor, mortes, campos de concentração. O medo de Jósik era de ser mais uma vítima da máquina nazista, no entanto, a visita inesperada do soldado em seu reduto literário revelava uma nova fase daquele amizade, fase essa que garantia sua vida.

      O menino Jósik, arriscava-se durante a noite para ver sua amada Raika. O amor desafia até mesmo o monstro da guerra. Juras de amor à luz do luar. A narradora adianta que Raika não passaria dos dezesseis em algum momento dessa história, mais um corpo, mais uma trágica morte. Os dias passam, o inverno retorna, um novo elo na estranha corrente da amizade entre o menino e o soldado oficial se forma. Dessa vez, ele mesmo fora convidado para levar o livro pessoalmente ao amigo. Em outro momento inusitado, em uma vista de Adel Becker na biblioteca de Jósik, ele se depara com o fantasma do Michael. O ano é 1941, a guerra avança com ferocidade, ganha a África, esmaga países menores. O jovem Jósik está envolvido no jogo do amor com Raika e na da sobrevivência com o jovem oficial Alemão amante da literatura. O amor enlaça é cega ao mesmo tempo, o avô adverte ao jovem do risco com a mãe da menina, sabendo ela que o namorado oculto da filha era amigo de um oficial Alemão, e que isso colocava tudo em risco, uma armadilha foi planejada.

    Entretanto.

    Após uma advertência do amigo de Jósik, seguindo à risca suas palavras, a vida é garantida naquele difícil jogo da guerra. 

     Corria o ano de 1942, a ferrovia de Teberin era a estrada de almas condenadas, lotando os vagões, a caminho dos Campos de concentração. Enquanto Jósik e Raika se amavam debaixo dos lençois, dois jovens apaixonados e inexperientes, o fantasma do avô, de pronto percebeu que a jovem estava grávida, as tonturas, os enjôos. Porém, o jovem Jósik não sabia dessa novidade, ele seguia o curso de sua vida, vendendo os livros da magnífica biblioteca para sobreviver, enquanto o povoado de Terebin, aos poucos, sucumbia ao toque da morte a serviço da máquina nazista. O inesperado acontece, um atentado a bomba, o jovem oficial Alemão está morto em uma emboscada, a represália veio rápido, dez tiros, dez almas sentadas na pequena praça de Teberin são mortas, entre elas.... A jovem Raika.

    Sem a mãe, o pai e sua amada Raika, somente com o espectro fantasmagórico do avô, o jovem finalmente foge de Teberin, caminhando pela mata durante a noite, escondendo-se durante o dia. A longa jornada do jovem, entre lugares, fazendas, trabalho temporário, termina em uma noite quando é capturado pelos alemães, seria interrogado, caso não fosse da resistência, trabalharia para os alemães. No campo de concentração, o jovem vê os horrores face a face. Sempre diante da morte e da vida, porém, o destino daquela alma não era a morte, ele sobreviveria enquanto se sonha.

      A narradora volta a história para si no tempo presente, a sua gravidez, o menino que nasceu, o descaso do marido. Havia nesse ínterim, os estranhos sonhos com o jovem polonês. Eva aborda a pequena trajetória de seu filho Pablo, morto aos sete meses por meningite. Desconsolada, Eva separa-se de Miguelito e parte para outro destino, lugar esse que seria o palco do encontro dela com Jósik, que a essa altura, perambulava pelo mundo desejando achar a si mesmo.

     A narrativa caminha para o seu desfecho final, no entanto, Eva aborda um pouco da história do Uruguai, o seu lar e o futuro destino do jovem Jósik. Os dias cinzentos em Londres estavam findando, uma inusitada oportunidade para América do Sul apareceu, um desconhecido lugar chamado Uruguai. Naquele momento, muitos despatriados vieram para as Américas em busca de uma nova vida, Jósik era um deles. 

      Chegou o dia finalmente, lá estava ele, Montevidéu, aqui, alí, entre um trabalho e outro, ele tornou-se gerente do hotel onde Eva trabalhava, as duas histórias navegaram por mares diferentes, mas, de alguma forma estavam unidas, destinadas uma à outra. Eles se encontraram, se enamoraram, formaram família, a matéria etérea dos sonhos de Eva tornou-se realidade. 

      Belíssima história, me arrisco a 

dizer, a melhor do ano.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

ANATOMIA DA DOR.




    A dor é intensa e pulsante dentro da alma, nada do que digam ou façam ajudará contê-la, é simplesmente aterrorizante o que estou sentindo, eu queria muito lhes explicar, porém, o meu coração está desfigurado, feito em mil pedaços. Às minhas incessantes lágrimas beijam a terra nua, e tal beijo reflete a vontade de desaparecer para todo o sempre. 
     Eu sei que gritar não adianta, nada do que eu faça me ajudará, aliás, sou o meu próprio fundo do poço, o ápice da minha derrota. Quisera eu ser como as pessoas que me cercam, ter uma vida normal, tal como meus compatriotas, todos perfeitos, contudo, em nada me assemelho com "os normais". Talvez a inexistência me caia bem daqui por diante, estou plenamente convencido e sem dúvidas volto a lhes dizer que minha voz deverá ser silenciada.
     Eu penso na dor existencial, na sua concepção,
na dor que move minhas entranhas dia após dia, noite após noite, entre horas e minutos de um tic a um tac, por muito tempo tentei inutilmente compreender-me, tolo que fui em acreditar que seria capaz de tal prodígio, haja vista ser um pródigo alcançar a compreensão de si mesmo. Há dias, e esses são tão raros quanto o ouro, dias de felicidades e sorrisos quase largos estampados na face, no entanto, assim como nuvens passageiras é o meu pálido sorriso, e novamente a dor se faz presente na tábua do meu coração. Se eu fosse lhes contar todos os pormenores do projeto a poeta que vos escreve... Certamente que ficaríamos horas inteiras falando, são inúmeras as histórias de meus fracassos. Estou me convencendo que realmente o silêncio me define muito bem, afinal, sou eu um nada feito de mentiras e mistérios cercados de insignificâncias.
    O mundo caminha a passos largos, à beira do abismo e ninguém está percebendo o perigo iminente. A maioria anda sem nenhuma atenção pelo abismo, não importa o que aconteça ao redor, nada importa. Talvez eu seja alguém fora do perigo dos outros, porém, caminho a passos largos e vacilantes tão mais próximo do meu próprio precipício, estou ao ponto de cair e não há quem possa me socorrer. Quando essas percepções alcança meu vago intelecto, o coração se desespera gritando e chorando querendo arrebatar-se inteiro dentro do meu peito. Novamente as lágrimas teimando em nascer, os meus olhos choram a derrota mais do que certa, tenho apenas que observar a minha decadência pessoal e o fim.
    O meu sincero desejo de fazer compreensível minha dor, torná-la entendível por meio das minhas palavras escritas, se possível for, fazê-la tal quase a ser palpável, criar uma anatomia desse sentimento tão complexo. Embora eu procure exaustivamente pelas palavras, prospectando no mais profundo da minha alma, os dizeres desse relés rabisco não explicam nada, por mais belas que pareçam as minhas palavras são ventos soltos e sem destino. Às vezes, para não dizer que em todos os momentos da vida, sou completamente introspectivo e melancólico, os meus dias são feitos de noites inteiras sem fim e eternas. Não gosto de escutar o som do meu próprio coração, cada batida é um terrível infindo de dor e lamento, nada faz sentido, sou alguém sem perspectivas.

FRAGMENTOS DO LIVRO. RABISCOS POÉTICOS.

     JANEIRO.    Entramos no ano de dois mil e vinte e cinco, figuram as primeiras horas deste novo tempo, pessoas comemoram, cantam, bebem,...