sábado, 29 de agosto de 2026

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

 

    


   Conto...

   Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vassoura na parede e a pá de plástico ficou caída ao lado, a dor de cabeça e o desconforto eram agoniantes.

   Mirela colocou as duas mãos cobrindo a face, os cabelos longos derramava-se por entre os dedos e ombros, ela sentiu os seus batimentos cardíacos aumentarem, o desconforto na nuca apertando gradativamente e causando grande agonia e até ânsia de vômito.

    Não era a primeira crise naquela semana.

    Ela sabia que a pressão arterial estava muito alterada, evitou fazer a medição minutos antes, sabendo que o desconforto não passaria tomou o remédio que seu médico receitou, agora era esperar ele fazer efeito. Perto de completar o quadragésimo primeiro aniversário, angustiou-se por já estar fazendo uso de medicamentos que para ela eram inconcebíveis. Mirela comparava-se com as amigas na mesma idade, saudáveis, desfrutando do conforto de poder treinar em boas academias, mulheres com corpos invejáveis, enquanto ela estava naquela situação em que julgava-se deplorável.

   A rua estava deserta naquela manhã de sexta-feira, o esposo havia saído para trabalhar e retornaria somente no final de tarde, era apenas ela, com sua dor, a solidão de todos os dias e sua insatisfação com a própria vida. 

    Vãs imaginações e pensamentos imperfeitos no espectro da mente.

    Mirela observava as pessoas que passavam vagarosas pela calçada, sorrisos largos, conversas animadas, um universo que parecia funcionar diferente de seu mundo caótico no lado de dentro de seu portão. Tomada por um impulso repentino, levantou-se quase em um pulo, pegou a vassoura e começou a varrer cada canto da garagem, lentamente, repetiu o processo duas vezes, juntou toda sujeira em uma sacolinha e a deixou no canto do portão. Antes de voltar para dentro de casa, olhou para a rua novamente, figuravam apenas um e outro transeunte desavisado, os olhos miravam o nada, porém, olhando na verdade para dentro da própria alma em fogo ardente. Os pensamentos involuntários, indesejáveis, talvez o resultado dos hormônios à flor da pele naquela semana, os desejos não supridos que atormentava-lhe a carne, a ausência íntima pesava cada vez mais.

    Eram os fantasmas do passado voltando, quimeras terríveis e assustadoras vieram atormentá-la, em sonhos durante a noite e em imaginações no decurso de seu dia. Mirela não tinha mais controle de si mesma nem dos próprios pensamentos. Enquanto a confusão de sentimentos a corroía de dentro para fora, queimando-lhe a carne em um fogo que não se pode ver fazendo-a lutar contra as suas vontades mais secretas, ela bem que tentava distrair a sua mente em seus pequenos afazeres universais domésticos. A tentativa era falha, ainda que ela mentisse para si dizendo que não. O seu corpo gritava em silêncio enquanto ela ignorava os uivos intensos da sexualidade reprimida, as vontades, necessidades de mulher não devidamente satisfeitas.

    O esposo, alheio aos próprios cuidados pessoais, estava longe de se atentar aos da esposa, que por sua vez, secretamente, durante os banhos avançava lentamente em descobrir os prazeres que as mãos lhe poderia proporcionar. Entretanto, nas últimas semanas, tal dinâmica não estava sendo suficiente, assim como os vídeos indecentes também não estavam.

     As horas avançavam lentamente, era preciso cuidar do almoço, terminar de lavar as roupas, arrumar a casa, ir ao mercado, enfim, a lista parecia infinita, o trabalho doméstico parecia nunca ter fim. Mirela pegou a vassoura e pá, deu uma última olhada para a rua, retomou para dentro de casa.

   Enquanto cortava os legumes e preparava o feijão para o almoço, novamente os pensamentos, lembranças, as conversas com o amigo.

   Alguns meses atrás, vasculhando de forma aleatória o seu Facebook, encontrou um velho amigo nas sugestões de amizades, mandou-lhe um convite, sem um retorno imediato. Dias depois o convite foi aceito, conversas se iniciaram pelo messenger, aquele não era qualquer amigo, o passado escondia segredos, ela tentou livrar-se deles, mas, os segredos sempre voltam à superfície da vida em algum momento.

      Mirela pegou o celular novamente, enquanto procurava um vídeo aleatório no YouTube para distrair, veio a notificação do messenger... Era mensagem dele, o amigo.

           

" Olá gatona, bom dia"


    Ela não respondeu de imediato, lembranças vieram em seus pensamentos, o passado sombrio sempre volta de alguma forma quando não devidamente resolvido.

    Houve uma época na vida de Mirela, semelhante ao momento presente, onde os desacertos e discussões com o parceiro havia criado uma barreira entre eles. Cada vez mais distantes intimamente um do outro, Mirela via-se em terríveis apuros com sua líbido aflorada e não satisfeita. Foi por causa desses desencontros com o marido que ela reencontrou o amigo, no face, messenger. As trocas de mensagens ficaram contínuas, e o contínuo mais íntimo, conversas e fotos indevidas de ambos, enfim, era o abismo diante dela, até ao ponto do peso de sua consciência lhe esbofetear, fazê-la voltar a razão. Lágrimas, meias confissões, decepção e perdão. Ela o bloqueou naquele tempo, jurou nunca mais procurá-lo. Porém, o tempo é um brilhante e carrasco jogador, nada lhe escapa.

     Dedos no teclado, a vontade de responder imediatamente, o corpo respondendo sem o seu controle. A razão dizendo não, o coração desejoso em continuar.


"Bom dia" 

Seguido de um emoji de coração.


       Era tarde demais para voltar atrás, ela estava ciente do que estava fazendo, não era uma traição, apenas uma conversa com o amigo, afinal, o que tem de mais em uma conversa qualquer, pensou. Ambos são comprometidos, não havia nada de errado. 

       Enquanto ela se perdia nesses pensamentos involuntários, aguardava com certa ansiedade a resposta do amigo. A demora aumentando sua ansiedade. Mirela relutante deixou o celular na mesa da cozinha enquanto continuava o almoço. As horas eram fugitivas, se não corresse tudo atrasaria. Apressou-se para terminar o almoço o quanto antes, durante a tarefa, novamente o som de notificação do celular, "deve ser ele", ela pensou pegando o celular novamente, uma ponta de decepção em seu rosto ao ver que era apenas um e-mail qualquer. O dia seguiu o seu curso, entre uma tarefa e outra, o celular ficava ao lado, cada notificação, o coração palpitava, ela corria para ver se era mensagem do amigo, novamente a decepção seguidas vezes. 

      O início de tarde ganhou os céus em tons cinzas e nuvens pesadas, não demoraria muito para o esposo retornar do trabalho, Mirela estava atrasada nos seus afazeres, precavida, antes que o marido cruzasse o umbral da porta era necessário silenciar todas as notificações, uma cautela urgente para evitar qualquer desconfiança dele.


" Bom dia. Estou muito ocupada por aqui, depois conversamos"


          A resposta veio imediatamente, como se ele estivesse apenas aguardando.


" Tudo bem, vou ficar esperando, te envio outra mensagem depois".


         O amigo era esperto, sabia os horários certos de mandar mensagem, conhecendo o momento oportuno em que o esposo de Mirela não estaria em casa.

         O coração estava acelerado, uma mistura estranha de sentimentos, medo, angústia, prazer e satisfação. Mirela sentia seu corpo responder de imediato, a vontade de se tocar, de extravasar, porém, era preciso tomar o controle do corpo enquanto ainda era possível. Aproveitando que o remédio de pressão estava fazendo efeito, a dor de cabeça e aperto na nunca havia passado, ela aproveitou para cuidar dos afazeres mais pesados da casa. 

          A tirania do relógio era implacável.

         Enquanto o feijão estava na pressão, deixou o arroz na panela elétrica, a mistura seria feita depois. Aproveitou para varrer a parte de cima da casa, o silêncio do dia era muito estranho, refletindo as suas vozes interiores, revelando segredos que a alma esconde. Enquanto varria cada quarto, lembranças vieram ao pensamento, recordações das mensagens antigas do amigo, naquela época tudo começou inocentemente, sem segundas intenções, no entanto, a situação contribuiu para cuidar do curso das mensagens mais ousadas, perguntas indecentes, que, aos poucos eram respondidas na mesma medida. Lembrar de tudo era doloroso, inadequado, porém, novamente a vida e os problemas a empurravam ladeira abaixo, sabendo disso, Mirela resistia. Decidiu não responder o amigo naquele dia, se afogaria nos trabalhos domésticos até quase não se aguentar de cansaço, ocupando a mente o máximo possível. Terminado de varrer a casa, pegou o balde com produtos e água, lavaria os banheiros de cima, antes, desligou o feijão, o arroz já estava pronto, faltava a mistura. Para não ter que parar novamente, fritou os bifes rapidamente. Tudo pronto e alinhado. Mirela não quis perder tempo, lutava contra os seus pensamentos, contra as vontades do seu corpo, era difícil resistir, para disfarçar a intensidade de seus hormônios, decidiu limpar o quanto antes a parte de cima da casa, subiu com baldes e toda parafernália para terminar a limpeza da casa, era necessário fazer o que tinha a se fazer.

      A rua estava movimentada, já precipitando o final da tarde, o barulho típico de carros, motos, buzinas, as escolas que ficavam próximo da sua casa eram responsáveis pelo alvoroço.

     O serviço de limpeza estava pronto, quanto ao almoço já com ares de jantar, era somente esquentar e comer, a fome começava apertar naquele momento. Os pensamentos continuavam tumultuosos, nebulosos, indecentes de certa maneira. Mirela não se contendo, buscou no celular alívio em vídeos proibidos, imaginando-se naquelas posições, era como se fosse ela sendo acariciada por dedos ágeis e línguas ferozes. Fechou os olhos, começou a tocar-se, quando então um buzinaço a devolveu a realidade do dia. As mensagens do amigo já haviam sido visualizadas, respondidas, era um passo que ela sentia ser errado, indevido, porém, naquele momento da vida ela não estava se importando muito com o que poderia acontecer, ainda sim, o senso de prudência ainda prevalecia.

       Guardado todos os utensílios de limpeza, era o momento de cuidar de outros afazeres, esquentar o arroz e feijão, fazer uma salada simples, fazer um suco natural, aproveitaria para deixá-los adiantados para o jantar do esposo.

    Preparou tudo rapidamente, pegou o sal e outros temperos, cúrcuma, pimenta, limão, juntou uma pitada de cada coisa, era uma mistura estranha que revelava ao final uma gama única de sabores. Fritou outros dois bifes deixando-os um pouco fora do ponto ideal, Mirela gostava de sentir o suco da carne, o esposo também.

     Mirela estava inquieta, buscando ocupar-se dentro de casa sem encontrar exatamente o que deveria fazer, tudo parecia vago, não preenchia o vazio em si. Por um momento ficou com o celular nas mãos, olhando as mensagens do amigo, um fogo interior a queimava, deveria ou não respondê-lo, se o fizesse, seria a confirmação, ainda que oculta, de sua traição.

      Mirela digladiavam consigo mesma.entre um afazer e outro que arrumava para distrair a mente, logo via-se com o celular em mãos, o coração aflito, o medo misturado ao prazer do que é proibido. As horas avançam, ela só se deu conta do tempo fugitivo quando o sol já declinava no horizonte, logo mais o esposo estaria de volta, cansado, com fome, cheio de histórias do trabalho, chateações infinitas.

    Temendo ser flagrada pelo esposo, apagou as mensagens do amigo depois de algumas respostas e considerações sobre o como e o quando. Nem bem terminou o procedimento no aparelho, ouviu o cadeado do portão da garagem ranger, era Nicanor que estava chegando do trabalho.

      Era hora de esquentar a janta enquanto o esposo tomava banho, como de costume, ele primeiro beijava Mirela, um selinho descuidado e sem o mínimo de paixão, depois de desfazer a bolsa, tirar a marmita para lavar, a garrafa de água, sentava-se à mesa da cozinha e despejava uma enxurrada de histórias e reclamações do seu trabalho no supermercado. Reclamava dos clientes, de tudo e todos. Somente depois seguia para o banheiro. Mirela já havia se acostumado a escutar sem ouvir, responder automaticamente sem adentrar nos assuntos. A mente e coração estavam em outro lugar, porém, toda cautela era pouco, embora desatento, o esposo poderia perceber seu distanciamento.

        O final de tarde foi dando lugar a noite, os pensamentos dando espaço para fantasias, enquanto o silêncio do quarto era palco de planos teimosos e inquietantes na órbita de um coração a cada dia mais degenerado em mensagens não devidas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

          Conto...    Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vas...