Dias e semanas que caminham por outubro.
No balé dos meses estamos nos últimos passos de uma dança entristecida, apática, inicia-se a primavera, algumas flores despontam alegres na copa das árvores, nos jardins, nas praças. Findou-se o rigor do inverno com os seus ventos gelados, geadas, noites assombrosas e terríveis, findou-se, para alguns, um tempo que se arremete a tristezas e melancolia profundamente desmedida.
Permita-me falar do jardim...
Adentrou nas dependências do mesmo, uma jovem, belíssima e rara flor, de cujas estruturas magníficas
surpreende, já as pétalas reluzentes são de grandiosa beleza. Tal flor é diferente das demais do jardim,
certamente uma espécie diferente, cultivada em outras culturas, o seu perfume é de uma suavidade inigualável, essa flor adaptou-se perfeitamente.
É o seu nome, flor de lavanda, todos a receberam de braços abertos, sem dúvidas, entre tantas que já passaram pelo Jardim, é a mais promissora.
O jardim está em plena festividade, todas as flores reunidas, desfilando deslumbrantes, o balé de múltiplas cores com belíssimas pétalas, perfumes inebriantes, diferentes e maravilhosos. Até mesmo as flores mais recentes participaram, a flor de lavanda com todo o seu encanto e carisma, a flor de mandacaru de um sorriso contagiante, o lírio branco, vê-la recuperada foi emocionante. Todas as demais espécies de flores em seus momentos magníficos, cada flor com suas histórias, algumas da dor e angústia para plena recuperação. O jardineiro alegrou-se de alma e coração com a festa que a rainha das flores ( a flor de cravo) com todo amor, dedicação e muito esforço organizou.
No entanto...
Espectros, quimeras fantasmagóricas aterrorizantes, quimeras do passado retornam, teimam, insistem, espectros fantasiosos arrastando-se no pensamento maculando o coração aprisionado ao cárcere. Ele já não consegue agir naturalmente como outrora, há tempos ele não tem uma noite inteira de sono, nuvens escuras e pesadas assomando no profundo pensamento, nuvens trovejando todos seus medos. Ele se esconde atrás de muitos sorrisos mentirosos, os lábios riscam uma curva de falso contentamento, no fundo, resta-lhe apenas rios inteiros de lágrimas. Ele se esconde atrás de cada palavra escrita, no entanto, fazemos presença para desmascará-lo.
As janelas da sua alma permaneceram escancaradas, tendo-se o perfeito vislumbre do lado de dentro, vê-se que os sentimentos estão reunidos, as janelas permanecem abertas. Da sua discreta janela ele passou a observá-la, os seus tímidos sentimentos ficaram curiosos, os dela fizeram acenos, houve reciprocidade, as emoções encontram-se no olhar. Repentinamente a janela dela fechou-se para ele, ficou apenas a sua janela silenciosamente muda, e seus sentimentos todos contemplavam estrelas. Repentinamente ficou nele saudade incomoda, confessou-nos os devaneios em versos dolorosos, lembranças eternizadas nas entrelinhas do coração.
Em outro momento...
Ela despretensiosamente aproximou-se dele, lábios fartos e vermelhos o cativante sorriso, nos olhos castanhos claros um brilho muito intenso, cabelos longos perfumados derramados em cachos. Despretensiosamente ela começou a conversa, as palavras ora eram doces, por vezes, revoltosas, as belas curvas generosas chamavam-lhe a atenção, nas vestes tão simples ela ocultou toda sua realeza. Despretensiosamente ele também se aproximou, com toda cautela possível, ela é uma flor proibida, flor de cujos encantos fisgou-lhe o fraco coração. Despretensiosamente ele entregou-se para flor, agora não sabe o que fazer com seus sentimentos sem nossa ajuda.
O que dizer...
A impressão para o forasteiro é de nunca terem lhe dado chances, impressão de esquecimento, ser deixado de lado, diante dos seus olhos moribundos tudo lhe era caótico, no peito ficou a cicatriz de um coração mutilado. A sua juventude passou sem nenhuma novidade, uma vivência completamente apagada, anêmica, os amigos foram poucos, as angústias, muitíssimas, os seus amores impossíveis sempre assombrou-lhe. Restou-lhe o refúgio do silêncio na torre da solidão, restou-lhe uma dor incurável e fantasmas na alma, restou-lhe as palavras e versos jogados aos ventos. Nesse seu momento tenebroso viemos à superfície, o surpreendemos com a nossa existência interna.
Quanto ao jardim...
A flor de cerejeira foi nomeada como a nova líder, belas flores foram adquiridas e enfeitam o jardim, o lírio branco passou por uma situação complicada, retornou finalmente, belíssima, forte, recuperada. Quanto às novas espécies, figuram a flor de lavanda, também faz-se presente o jasmim e a rosa branca, todas belíssimas, de pétalas igualmente perfumadas, o jardim está completo, magnífico. A flor de cravo continua sendo a rainha das flores, o seu poder é absoluto, a sua autoridade se faz cada vez maior e mais influente.
Quanto ao forasteiro... Devo dizer que...
Se fosse possível para ele retornar ao passado, em qualquer momento, ainda que por pouco tempo, revistar situações da vida, rever cenas, pessoas, lugares importantes que de alguma maneira deixaram marcas. Certamente ele ficaria espantado com certas situações, as vivências atribuladas, os momentos de solidão, seria doloroso para o forasteiro rever todos os seus erros. Se fosse possível, nesse retorno, encontraria com seu "eu" mais novo, em algum momento, talvez diria muitas coisas para aquele jovem inexperiente, ansioso, precipitado em quase tudo. Se fosse possível... Porém, tal possibilidade existe apenas no papel e na imaginação, a escrita tornou-se a única porta ao passado e futuro. ( Nós somos a chave).
Novos momentos de velhas situações esquecidas,
oportunidades que chegaram lentas e em atraso, o sorriso falso riscando-lhe o rosto entristecido, o coração batendo inquieto dentro do peito adoentado. Há tempos ele não é o mesmo, tudo converge ao caos em sua discreta janela de vida, sensações e impressões inundam a sua alma de incertezas, nada lhe parece normal, a vida está sempre lhe açoitando. As pessoas ao seu redor parecendo tão felizes, os sorrisos riscando lábios fartos e rostos belos, o contentamento desmesuradamente exibicionista. O forasteiro sabe que é apenas mais um triste e caótico.
Despertou a manhã ao leste, nasce em resplendor o astro do novo dia, pássaros de asas coloridas cantam nos telhados, as ruas exibem transeuntes apressados ao trabalho. A bela musa de cabelos longos, claros e perfumados, passos largos, olhar perdido no horizonte multicolor, aos poucos, carros e motos ruidosas digladiando, a cidade parece estar viva, em plena efervescência. De repente, a paisagem quase deserta redefine-se, pessoas apressadas por chegarem em algum lugar, é a tirania do relógio cobrando seu preço em tempo.
Desconectado coração batendo desconcertado, a alma inquieta, incompleta dentro do próprio eu, os seus pensamentos como nuvens tempestuosas, nada do que imaginou é como gostaria que fosse. Pessoas indo apressadas para os seus trabalhos, atribuladas em seus pequenos afazeres, cada um seguindo atropeladamente o ciclo da vida, enquanto as horas contam os seus minutos finais. Os dias são trabalhosos no mundo perdido humano, cada um criando conceitos próprios e regras tolas, cada um tornou-se mestre e senhor de si mesmo. Não existe esperança, apenas expectativas incertas.
De volta ao jardim...
Dentre todas as belas flores, das que passaram às novas espécies adquiridas, não há nenhuma que se compare à flor de cravo, ela certamente possui domínio completo e único. A cada novo dia suas belíssimas e reluzentes pétalas se vestem de majestade, quanto ao seu perfume é desconcertante, o formoso caule enfeitiça o olhar, o peculiar 'desenho' no caule não pode ser apagado. O jardineiro, atento observador da flor de cravo, encantou-se com o tal desenho em tonalidade azul em seu alvo caule resplandecente. De todos os sentimentos, o amor é o mais perigoso, tornando-o completamente indefeso, um prisioneiro. O seu coração experimenta sentimentos renovados, não compreende toda sua grandiosidade, a efervescência gigantesca dentro de si mesmo, o contentamento tão desmedido e sem explicação.
Nasce um novo dia, o sol despertou em multicores,
pássaros cantarolando perfeitamente harmoniosos,
nos pensamentos, imagens e lembranças agradáveis,
sentimentos complexos nas linhas líricas e poéticas. O poeta descreve em versos tortuosos o seu mundo,
todos os seus "eus" e segredos ocultos pousando em versos selados com o enigma que só os sábios conhecem. As flores do jardim são um mistério a ser descoberto, no âmago do jardim que reside o maior tesouro.
Corações desnorteados, enlouquecidos e selvagens, não podem ser conquistados nunca foram domados, corações de ferro, nus, ausentes de sentimentos, não conseguem sentir compaixão nem benevolência. Os humanos deste presente século são difíceis, uma geração onde pouquíssimos escapam à regra, o mundo desperto enaltece suas falsas aparência, acordos mentirosos de uma paz que nunca existiu. A verdade é a filha do tempo, aos poucos, tudo revelará... No momento em que disserem que haja paz, sobrevirá repentina destruição, está escrito no livro santo. Estamos na iminência de um grandioso e completo caos...
Quanto ao forasteiro...
Esmiuçando-lhe os sentimentos mais profundos, aqueles ocultos e pousados no manto do invisível,
analisando-os cuidadosamente fiquei espantado, havia dores, temores, fantasmas, quimeras antigas. Não lhe posso negar os efeitos tão devastadores, certamente que a sua alma está presa, acorrentada, certamente que o coração foi subjugado pelo medo, por isso o olhar perdido, cabisbaixo todas as vezes. Certamente os seus dias são de grandes dores, as quimeras fantasmagóricas e aterrorizantes lhe causam grandes transtornos. Talvez o mundo etéreo dos sonhos lhe seja uma possível saída.
O forasteiro tornou-se solidão, o seu café é de amargura, a curva delicada do sorriso não lhe cabe no rosto, o coração bate sempre descompassado, angustiado, as lágrimas ocultas riscam-lhe o rosto entristecido. Tornou-se ilusão, as suas palavras são vagas, a alma é uma prisioneira no calabouço de ossos, em seus horizontes não existem mais esperanças, falta-lhe o desejo de viver consigo e com os demais. As palavras tornaram-se um pequeno barco ao mar navegando sem destino aos sabores dos ventos, o seu caminhar é solitário por entre todas as pessoas. As palavras o transformam em uma pequena ilha, o seu maior desejo é que toda a dor, de amá-la, tenha fim.
Permita-me falar dela...
A flor de cravo ganhou mais uma pétala no jardim da existência, certamente que seu semblante florístico ficou irradiante, magnífico, esplêndido, não há no jardim primavera flor semelhante nem mais bela. O jardineiro, alegrou-se com a comemoração da flor de cravo, o seu coração ficou em descompasso ao ver tal alegria contagiante lindamente desenhada na face dessa belíssima flor. Certamente que o jardineiro esconde da flor os seus verdadeiros sentimentos, toda a sua grandiosa admiração, o seu descomunal e avassalador amor. O desejo do jardineiro era de presentear a flor de cravo, contudo, tal atitude revelaria traços de seus sentimentos escondidos na fortaleza do coração do homem forasteiro.
Já dizia o poeta...
Os sentimentos são confusos, nada confiáveis,
Os sentimentos confundem, induzindo a erros,
Os sentimentos se escondem na cofre do coração,
Os sentimentos são totalmente contrários à razão.
Por vezes nós somos enganados no que sentimos,
acreditamos que temos domínio próprio do eu, quando nos damos conta, a nossa razão é enganada, somos vítimas do nosso próprio coração traiçoeiro. Não é necessário muito para o coração ser trapaceiro, basta apenas um pouco de proximidade, diálogo, um sorriso, ou talvez um olhar diferente e pronto. Ninguém é livre das armadilhas do coração, somos todos enganados, o jardineiro, a tinta na caneta do poeta, bem como o forasteiro humano narrador.
Quanto ao coração do jardineiro...
A dor intensa não lhe coube na caixa do peito, destruiu tudo de dentro para fora, roubando-lhe o desejo de viver, a dor não passou e não existe bálsamo nem alento.
É a ausência de um simples e generoso sorriso.
É a ausência de um abraço forte, sincero e amigo.
É a ausência de empatia, compreensão do sofrer.
É a ausência de intimidade, contato, corpo e lábios.
A sua alma amanheceu completamente devastada, o seu moribundo coração amanheceu despedaçado, os olhos se tornaram em rios de lágrimas internas. Essas são palavras de desespero, medo e agonia, talvez a flor de cravo leia os versos tortuosos do jardineiro, talvez ela, apenas ela compreenda o poeta.
A flor de cravo ausentou-se do jardim primavera,
conta-se entre as flores que ela teve um infortúnio
ferindo-se na base de seu caule próximo às raízes, houve a necessidade de imobilização prolongada. O jardineiro ficou triste por não vê-la no jardim, o coração apertando o peito sem sua presença, o perfume ainda é perceptível em cada canto, deixando o poeta completamente descompassado. Olhar moribundo do poeta, sempre cabisbaixo, de um desesperado amor avassalador, paixão, ele tenta disfarçar, todos no jardim já perceberam. Se este sofrer não é amor, o que mais pode ser?
Já no outro dia...
Ela surgiu repentinamente desfilando pelo corredor, os cabelos longos derramando-se nos ombros, o perfume suave, delicado, delirante na verdade, olhos castanhos claros de um brilho único e intenso. Ela surgiu repentinamente, tomou o olhar do poeta, as belas pernas como torres imponentes de ouro, curvas perfeitas ocultas por majestosas vestimentas, o rosto parecendo uma pintura dos mestres antigos. A passos curtos, de corredor a corredor, ela passou sem dizer uma única palavra, apenas observando tudo atentamente, deixando o poeta desnorteado. Ele ficou sem nenhuma reação, mudo, enlouquecido.
"Os dias escondem segredos que os anos não sabem", certa vez seus olhos passaram nessa frase, nunca lhe deu devida atenção, pois os seus olhos estavam focados nos anos e cegos aos dias corridos. Houve então o momento em que no calor da luta o homem tomba, não é uma derrota definitiva, mas um momento de exaustão, foi então que seus olhos passaram a ver os dias corridos ao invés dos anos. Os dias lhe confidenciam segredos ocultos de todos os seus anos, nunca imaginou que a vida fosse lhe dar essa duríssima lição, nada é por acaso. Os dias ainda disseram mais, havia segredos que os seus segredos escondem, camadas ocultas da própria personalidade sendo reveladas.
O céu foi coberto por um tapete de nuvens escuras,
ventos inquietantes assobiando na fresta da porta, o ribombar de trovões estremecendo as janelas, repentinamente a pancada de chuva fortíssima. Os transeuntes desavisados correm pelo calçamento, carros igualmente apressados, trânsito tumultuado, o brilho intenso dos relâmpagos seguido de trovões, é apenas mais um dia caótico na cidade. O jardineiro muito cuidadoso com o seu jardim tratou de proteger muitíssimo bem suas belas flores, cada uma tem um cuidado especial nesses momentos. Enquanto o caos impera do lado de fora do mundo desperto, no jardim, a normalidade tem o seu lugar de destaque na vida de cada pequena flor.
Passado o caos...
Momentos preciosos de silêncio na metrópole, a rua deserta, os pássaros escondidos nos ninhos, o vento soprando na copa da grande árvore, nuvens escuras estendidas como cobertores no céu. O dia aos poucos ganha vida, tudo se transforma, barulhos de todos os lados rompendo o silêncio, a rua não está mais deserta, rápido ela redefine-se, transeuntes apressados retornam, carros e motos ruidosas. Os pássaros fazendo algazarra na copa da árvore, as nuvens abrem espaço para o astro do novo dia, todos os barulhos se intensificam na metrópole. O forasteiro humano narrador é apenas um detalhe, olhos que observam o mundo caído em movimento.
A primavera deitam suas multicores cores no céu,
no horizonte os tons de alaranjado se sobressaem, no alto das árvores pássaros cantando alegremente, o ar fresco soprando em muitas faces avermelhadas. A primavera enfeita a natureza com belas flores, o jardim ficou ainda mais reluzente e colorido, depois do caos, os perfumes inebriantes diferentes de cada flor, o jardineiro está encantado com tamanha realeza. O mundo caótico caído desperto não enxerga o que está diante dos próprios olhos, toda magnitude estendida em cada canto, pincelada em cada pétala. Os humanos não valorizam o que lhes é concedido gratuitamente, riquezas em detalhes únicos que somente o criador pode proporcionar a cada manhã.
Chamou-me a atenção, uma flor muito delicada, de pétalas pequenas, a cor é atraente, cintilando com ao toque da luz, no entanto, o seu perfume supera a de outras flores, o seu caule é igualmente pequeno, talvez o menor. Existem algumas marcas no corpo da jovem flor, desenhos enigmáticos, marcas de seu passado, ao primeiro olhar a flor não chama tanta atenção, o seu nome ainda é desconhecido pelo jardineiro. A jovem flor recém adquirida tem seus admiradores, o jardim transformou-se em um lugar de refúgio, distante das mãos dos vândalos destruidores.
No entanto...
Desejo falar-lhes de certos livros que são verdadeiramente obras primas, Hermann Hesse, por exemplo, é algo fora do comum, sua escrita elegante, poética, genial. Eu poderia citar Thomas Mann, outro autor gigante, a sua obra, a montanha mágica, é de tirar o fôlego, o brasileiro, Machado de Assis, não deixa a desejar, ler é viver outras vidas em um mesmo momento. A tinta na caneta do poeta é o tipo que foge do mundo real para o literário, se escondendo nas páginas de um bom livro. Recentemente, como podem perceber, me aventurei nas letras jogadas no papel, o jardineiro e o forasteiro também habitam o espaço dessa consciência.
Me trancaste nas grades de teu peito, afligindo e açoitando, estou constantemente, os meus sentimentos foram subjugados pelos teus, de todo sou submetido às tuas vontades e desejos. Certamente, caríssimo amigo forasteiro humano narrador, tens um grande problema em mãos, é no entanto presa fácil de ser laçada, basta apenas um olhar diferente, a curva de um sorriso adocicado. Sei que bem o quanto o seu coração é fraco, assim como a sua alma é também desvalida, já não sabes o que fazer quanto a esse problema que agigantou-se. Talvez seja esse o teu terrível privilégio e condição.
Disse a tinta na caneta do poeta a respeito do forasteiro narrador e do jardineiro.

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