quinta-feira, 27 de agosto de 2026

SEGREDOS.

 



   CONTO.



    Manhã calma e silenciosa...

    Figuravam ainda as primeiras horas do primeiro dia da semana, o sol riscava o horizonte com os seus raios primeiros, tons de vermelho e laranja se espalhando no céu à medida que o escuro véu dava lugar ao astro do dia. Fragmentos dispersos de nuvens eram pinceladas com tons quentes, coloridos e alegres, pássaros controlavam harmoniosamente em algum lugar do lado de fora da casa, era possível ouvi-los, porém, difícil de dizer se estavam no telhado ou em alguma árvore. Uma brisa suave banhada de luz atravessava a fresta da janela semi aberta. Karol dormia profundamente, espalhada na cama, cobertores embolados em seu jovem corpo nu, dormir despida era hábito, estranho, e novo, embora desaprovado para a mãe, agradabilíssimo para ela, que experimentava uma sensação de liberdade completa. 

    O som estridente do despertador a fez pular da cama tamanho foi o susto que levou. Seis horas em ponto, a tirania do relógio era aplicada marcando em ponteiros desiguais o momento que denotava o início de uma rotina, terrivelmente odiosa. Olhou-se no espelho pendurado ao lado da porta do quarto, o corpo nu, os seios empinados, a cintura fina, o sexo devidamente depilado, pernas torneadas, ela era uma bela mulher. Por um momento, um instante apenas, a pequena pausa entre o tic e o tac da terrível tirania do relógio, imaginou-se livre como os pássaros cantarolando alegremente na rua. Bastou a estridente buzina de um veículo para ela sair daquele transe incomum, novamente de retorno a sua realidade de vida. Karol sabia que as horas eram contrárias, se não apressasse atrasaria novamente, seria o segundo no mesmo mês, para ela, algo imperdoável.

    Levantou-se lentamente, espreguiçando, esticando os braços, bocejando, o sol iluminando a manhã de domingo, abençoado silêncio embalando o sono de muitos. O seu desejo era de continuar na cama até o horário do almoço, assim como a maioria de seus conhecidos que trabalhavam em fábricas, desfrutando de turnos normais e folgas nos finais de semana. 

    Calçou os pés, foi até sua cômoda, pegou a primeira calcinha que viu, vermelha, pequena, de rendas, vestiu-se, pegou também sutiã combinando, calças, camisa. Foi até o banheiro, água gelada no rosto, escovou os dentes, penteou os cabelos, perfumou-se, ficou por uns segundos encarando sua imagem no espelho, todos admiravam sua beleza, porém, ela não conseguia enxergar e nem entender que beleza era essa que as pessoas tanto falam.

    Ainda havia o café a ser feito, morar sozinha foi decisão dela, a mãe reprovou a atitude da filha, se o pai fosse vivo certamente não permitiria que ela saísse de casa. Pegou bolsa, crachá, olhou-o por uns minutos, a foto, o nome. Naquele mês completaria cinco anos de empresa, cinco longos anos trabalhando em um supermercado. Fez de tudo, atendente no balcão da padaria, reposição, açougue, até parar no caixa, onde estacionou, não que gostasse, porém, por estar cansada de tanta mudança, achou confortável a nova função. Arrumou a cama, guardou os cobertores, foi direto para cozinha, pegou a cafeteira italiana, presente da tia, mediu o café, acrescentou o açúcar, colocou no fogo, enquanto não ficava pronto, pegou o pão puma no armário e margarina na geladeira, seria esse o seu café, era sempre esse o cardápio, há tempos não mudava, não pelo fato de gostar de rotinas, era mais pela falta de vontade de querer qualquer coisa nova e diferente.

    Tomou o café rapidamente, não queria perder o horário, teria que caminhar pelo menos dez minutos até o terminal Itavuvu, local onde pegaria o ônibus para o centro da cidade. Antes de sair de casa, conferiu novamente portas e janelas se estavam fechadas, repetiu novamente tudo pelo menos duas vezes, era sempre essa dinâmica todos os dias. A rua Darcy Landuffo estava movimentada naquela hora da manhã, alunos apressados por chegarem no horário, carros, motos, buzinas estridentes. Karol saiu a passos largos pela calçada, sem prestar atenção em ninguém, não percebeu Dona Dita acenar da garagem, nem os olhares cobiçosos de seu José.

    A passos largos, seguiu reto pela Darci, a rua extensa, movimenta naquela hora do dia, transeuntes apressados, outros, apenas bisbilhotando na calçada. A oficina de motos de seu Carlos, a loja de roupas da Carmen, a padaria Bruna, cada um disputando espaço e clientes, a movimentação costumeira de todos os dias.

    Os pensamentos tumultuados, a lembrança do trabalho não era agradável, clientes exageradamente chatos, mostrando o que não é, arrogantes na maioria das vezes. Havia também àqueles, homens safados, que sempre tinham alguma piada de segundas intenções, os olhares cobiçosos em seus seios empinados, nem ao menos disfarçavam.

    Logo ganhou a avenida Itavuvu, um pouco mais e estaria no terminal próximo ao shopping, o movimento não era tão intenso naquela hora, como de costume em todos os domingos. Karol parou em frente ao semáforo, embora sem movimento de carros, ela preferiu não atravessar, cuidado nunca era demais, ela que perdeu um primo em acidente no trânsito, sabia bem do risco que era atravessar antes do sinal fechar. Ao seu lado parou uma moça, de estatura mediana, cabelos lisos, rosto delicado, nariz afinado, os lábios grandes, carnudos e cheios. O corpo atlético, talvez uma daquelas moças que passa o dia na academia. A calça clara, apertadíssima, revelando coxas torneadas, um bumbum de dar inveja. Karol tentava disfarçar o seu interesse, não queria que a moça percebesse o seu deslumbramento. O corpo feminino a excitava, ela nunca revelou para ninguém sua sexualidade contrária, se a mãe soubesse que ela gostava de mulheres teria um ataque do coração. O sinal abriu, ela esperou a moça tomar a frente, Karol queria observá-la melhor, se perdendo nas curvas delirantes da moça, que tão rapidamente já estava dentro do terminal no meio da multidão. Karol a perdeu de vista. Não demorou muito e o seu ônibus chegou, T140, vitória régia sentido centro. Para o seu desespero não veio o ônibus articulado, era o pequeno, lotado, sem lugar para se sentar. Terrível condição de que não tem escolha, de quem tem que enfrentar lotação e apertos todos os dias, na ida e no retorno do trabalho.

    Ônibus completamente lotado, era esse ou esperar por outro ainda mais apertado, Karol não teve escolha, entrou no meio da muvuca de corpos, espremendo-se aqui, acotovelando-se ali, até encontrar um lugar, a maioria eram trabalhadores dos comércios da cidade. Valentes guerreiros enfrentando a tão odiosa quanto necessária escala de seis por um. Uma boa parcela das pessoas que disputavam um lugarzinho no coletivo eram mulheres, Karol não se importava se ficasse espremida entre uma e outra, até gostava de sentir os corpos esfregando-se no seu.

    O trajeto até o centro da cidade onde fica o ponto final, terminal Santo Antônio, era coisa de pelo menos vinte minutos. Uma vez no terminal, teria que esperar pelo ônibus para Vila Jardini, no plataforma G, coisa de dez minutos de espera até o trabalho, mais dez minutos e estaria no seu destino. Essa era a sua rotina de todos os dias, odiosa e também necessária, sair era o objetivo, conseguir, quase impossível. Karol estava bem de frente de uma das saídas laterais do ônibus, a sua frente estava uma mulher de meia idade, já nas suas costas, outra mulher jovem, alta, cabelos longos, lisos, vermelhos. A cada terminal o ônibus enchia um pouco mais, assim, Karol foi comprimida em um sanduíche humano. Nas suas costas seios fartos se esfregando, o que a deixou em um agradável e gostoso desconforto. Talvez a moça atrás dela também tivesse necessidades e gostos diferentes, assim como ela tinha. Talvez essa moça seja uma operadora de caixa frustrada como ela era. Karol começou a fantasiar com a vida dessa personagem silenciosa e misteriosa. Quanto à mulher de meia idade à sua frente, conseguiu desvencilhar de Karol, possivelmente incomodada com o esfregar de seios as suas costas.

   Finalmente o ônibus chegou em seu destino, terminal vazio naquela manhã desagradável de domingo. Aquela não era uma manhã prazerosa, tal como das amigas, trabalhando em fábricas, tendo folga aos sábados e domingo, podendo ir às festas, casa de parentes, ou mesmo ficar em casa sem nada para fazer. Enquanto isso, lá estava ela, a caminho do trabalho, seu ganha pão, o seu martírio diário, ter que sorrir sem ter vontade, ser cordial quando não quer, agradar pessoas ignorantes quanto a vontade é de estrangular. Os pensamentos revoltosos, lembranças desagradáveis de momentos que deixou escapar por entre os dedos, oportunidades de empregos, amores e sexo dentro do que ela queria. Tudo passou sem que ela aproveitasse, tais recordações a deixou ainda mais depressiva. Uma sensação de incapacidade, de impotência diante do mundo a sua volta. Karol duvidava de si mesma, de quem era, de sua identidade. A dor dentro do peito a corrói tal como cupim destrói um pedaço de madeira de dentro para fora. Assim era ela, um belo espetáculo, bonita por fora e destruída por dentro. A passos curtos foi ao banheiro feminino, vazio naquele momento, depois se direcionou para a plataforma G para esperar pelo ônibus. Uma vez de pé, na fila que se formava de outros escravos do sistema, não demorou para chegar o coletivo. Logo mais, coisa de vinte minutos, estaria em sua moderna senzala.

    O ônibus saiu poucos minutos depois do horário normal, considerando o trajeto diferente em dias de domingo, Karol chegaria ao trabalho quase em atraso, o que em outros tempos era motivo de terrível angústia, agora não importava mais. Muitas coisas deixaram de ser importantes, de ter prioridade. Karol começava a olhar mais para si mesma, suas vontades, o seu bem estar. Era isso ou ela afundaria no oceano dos próprios sentimentos e angústias. Ela sentia que estava na hora de mudar algumas coisas, novas atitudes, assumir o que realmente era sem ter medo do que ou outros pensam.

    Não demorou para ela chegar ao trabalho, a mesma atmosfera de sempre, faces cerradas das amigas, sorrisos falsos de umas, tapinha nas costas de outras, tudo não passava de um teatro, pelas costas eram as mesmas reclamações e até xingamentos. O turno de trabalho começou tranquilo, movimento de sempre, nos momentos de calma quando os caixas estavam livres, Karol aproveitava para ajudar na organização de algum dos corredores, o preferido dela era o corredor que Marisa era a responsável. Jovem, de beleza exuberante, o corpo de dar inveja, há tempos Karol se encantou com a beleza da jovem, tornando-se grandes amigas, no entanto, em uma conversa das duas semanas atrás, tudo mudou de perspectiva quando ela revelou para Karol que gostava de mulheres, sem saber que sua ouvinte também partilhava de igual sentimentos. Karol começava a entender que a aproximação das duas não era apenas capricho do destino, porém, um recíproco sentimento. Os olhares cobiçosos de ambas, os elogios recorrentes, o fato de sempre saírem no horário do almoço para tomarem sorvete, havia nas pequenas atitudes algo muito maior do que a amizade, um sentimento represado que se revelava aos poucos sem a necessidade de palavras ou confissões. Karol se viu completamente apaixonada pela amiga e sentiu que era de alguma maneira correspondida. O almoço daquele manhã foi a prova definitiva de que ambas tinham um relacionamento sério, quando em um local reservado trocaram o primeiro beijo, oculto beijos, lábios nos lábios, a sensação prazerosa, o amor pulsando nas veias, fazendo o coração bater descompassado, a certeza de que ambas se descobriram para o inevitável. O retorno do almoço e restante do dia foi complicado, não sabiam exatamente como se comportar no ambiente de trabalho, não tinham certeza da reação das pessoas. Karol começava a se preocupar em como falaria para a mãe de seu namoro não convencional com outra mulher, era difícil revelar os segredos do coração. Não tinha medo do que a sociedade fosse dizer, porém, estava em completo desespero com relação à mãe, tão devota, religiosa ao extremo.

     O domingo foi se esquecendo no final de tarde, Karol retornando para casa, para solidão de seus pensamentos, a certeza de que em breve não estaria sozinha, porém, esconder os próprios sentimentos era uma maneira de se esconder do mundo o tempo todo. Ao passo que tudo se desenvolvia na sua vida, igualmente se enrolava novamente, a vida era mesmo cíclica.

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