( ALERTA DE SPOILER)
O menino que comeu uma biblioteca...
Certamente, a melhor história que li nesse ano, emocionante, surpreendente, angustiante.
O romance é narrado em primeira pessoa pela personagem chamada Eva, que através das cartas de tarô, herança da avó, ela tem visões com certo menino polonês, "Jósik Tatar", a estrela principal desse romance. Nesse magnífico livro a história de Eva é entrelaçada com a de Jósik Tatar, a narrativa se alterna, por vezes dá no Uruguai, em outras na Polônia durante a grande Segunda Guerra Mundial.
A narradora - "Uruguaia", começa falando sobre a família de Jósik. Os pais do menino vivendo com o avô ( Michael, considerado maluco pela própria mãe do menino) residindo na pequena Terebin, o idoso é um brilhante literato e professor aposentado, apaixonado pelas histórias de Shakespeare.
O amor pelos livros é passado para o menino, e de forma mágica, para nós leitores também. A guerra será retratada na história, o mundo começava a ver a ascensão de Hitler na Alemanha e a ameaça nazista. A personagem Eva aborda sua vida no Uruguai, morando em uma fazenda com a avó Florencia. Uma vida muito humilde, a jovem casa-se aos quinze anos com Miguelito, com ele tem um filho, jovem e sem nenhuma responsabilidade, Miguelito trabalha no único posto de gasolina do vilarejo, vez e outra, se entrega a bebedeira. A vida é difícil, entre altos e baixos, trabalhando aqui e ali. Ela descobre nesse período caótico da vida o amor pela leitura, ao encontrar na lanchonete onde trabalha um exemplar de trabalhadores do mar de Victor Hugo.
A narrativa volta para Jósik, o ano é 1938, o pai do menino Apolinary, que trabalha na ferrovia e com isso viaja muito, ouve rumores da guerra, percebe as movimentações de Hitler nas fronteiras Polonesas. O pai do menino quer tirá-lo da Polônia antes que a guerra chegue. Ouve-se relatos de Judeus presos e perseguidos, embora a família do menino seja Polonesa, o pai teme pelo pior. Ele convence a mãe de que é melhor mandar o menino para América, viver com o tio Wacla até que as coisas se acalmem. O peso do medo da guerra na alma da mãe de Jósik é enorme, as cartas que o pai enviou ao tio na América não foram respondidas, era necessário fazer alguma coisa, porém, eles não sabiam exatamente o quê. O dia fatídico acontece, a Polônia é invadida pelo exército alemão. Morte, medo, terror rastejando como a sombra da noite sobre o dia, nomes, mulheres e homens, tudo desaparecendo, assim foi com o pai do menino. O nome Apolinary tratar ficará apenas nas lembranças do jovem menino, que agora via os tanques e suas suásticas e soldados tomando as ruelas do vilarejo. O monstro da guerra mostrava-se aos poucos sua pior face para as pessoas do seu pobre vilarejo, uma a uma sendo mortas, enforcadas e metralhadas.
O espírito do avô do menino ainda residia na velha e rica biblioteca.
A narrativa dá um salto ao tempo presente.
Jósik e Eva já estão juntos. Porém, ela rememora partes desse período difícil, a sua história é de alguma forma estava ligada com a do jovem Jósik. O menino sente a falta do avô, no entanto, tal falta foi amenizada com a chegada de uma menina chamada Raika, aquela que seria seu primeiro amor. A vida era difícil naquele momento, no entanto, em uma visita do menino na biblioteca que era do avô, repentinamente, o fantasma do velho aparece.
Mais uma manhã fria e triste...
Flora vai até o mercado negro tentar comprar carne e passaportes falsos, o menino não sabia, despede-se da mãe, porém, era a última vez que a veria. Naquele lugar onde os Poloneses se reuniram na tentativa de se comprar algo para comer, uma emboscada das tropas ceifaria a vida de todos. O jovem Jósik salvou-se por pouco, foi o fantasma do velho que insistiu para ele não acompanhar a mãe naquela manhã, tal obediência ao fantasma salvou-lhe a vida. Uma parte dessa narrativa é a própria voz de Jósik.
Foi o fantasma do avô que lhe sugeriu, após contar-lhe a verdade sobre a mãe, agora já morta, que o menino convidasse a amiga Raika e sua mãe Anna Bieska para morarem na sua casa.
A narrativa volta ao presente, Eva rememora momentos de seu começo de vida com Miguelito, o trabalho na lanchonete, vida miserável. Durante a noite sempre sonhava com Jósik, o menino polonês, que viveu os horrores da guerra. O sonho também era um fantasma na mente da menina. Parte da narrativa retorna a voz de Jósik, falando de suas desventuras na tentativa de fugir daquele mundo de morte, a lembrança do fantasma do avô, que, só deixaria de fato a existência espectral quando a biblioteca não existisse mais.
A realidade bate à porta do jovem Jósik.
A narrativa novamente retorna ao momento em que o menino, já em casa, espera o retorno da mãe, embora sabendo que ela jamais voltará. O menino só não ficou sozinho porque seguiu os conselhos do fantasma do avô. Anna Bieska e Raika agora residem com ele em sua casa. Jósik e Raika estão apaixonados, à medida que ambos crescem, aumenta o amor e a implicância da mãe da menina, que, em um surto de raiva ao vê-los abraçados, resolve mudar-se com a menina.
A dramática situação de Jósik agrava-se, uma vez expulso da própria casa foi para a casa que era do avô. A distância não era problema para os jovens apaixonados, que achavam um jeito de se encontrar, o amor sempre encontra um jeito. A pequena Terebin convulsionou-se com a movimentação das tropas. No ano de 1940, a guerra em pleno vapor, a Europa caiu diante de Hitler. O jovem Jósik, aos conselhos do fantasma do avô, vive à beira do perigo, vendendo os livros, encontrando-se com Raika, porém, um novo personagem entra na história, seu nome, Abel Becker. Um soldado Alemão levado a Teberin para trabalhos burocráticos, catalogação de obras de arte entre outros. Assim como Jósik, Abel era amante de livros e literatura, e foi justamente em um desses momentos, quando o jovem polonês tentava vender seus dois Conrad e um Bocaccio que sua vida cruzou com a do Alemão. Não houve morte nem brutalidade, nada disso, os livros e a literatura lançaram aquela improvável amizade. O soldado Alemão, amante de literatura, vê em Jósik um amigo improvável, diferente de muitos que tinha no quartel, cuja visão míope, enxergava apenas a guerra em pleno vapor, mortes, campos de concentração. O medo de Jósik era de ser mais uma vítima da máquina nazista, no entanto, a visita inesperada do soldado em seu reduto literário revelava uma nova fase daquele amizade, fase essa que garantia sua vida.
O menino Jósik, arriscava-se durante a noite para ver sua amada Raika. O amor desafia até mesmo o monstro da guerra. Juras de amor à luz do luar. A narradora adianta que Raika não passaria dos dezesseis em algum momento dessa história, mais um corpo, mais uma trágica morte. Os dias passam, o inverno retorna, um novo elo na estranha corrente da amizade entre o menino e o soldado oficial se forma. Dessa vez, ele mesmo fora convidado para levar o livro pessoalmente ao amigo. Em outro momento inusitado, em uma vista de Adel Becker na biblioteca de Jósik, ele se depara com o fantasma do Michael. O ano é 1941, a guerra avança com ferocidade, ganha a África, esmaga países menores. O jovem Jósik está envolvido no jogo do amor com Raika e na da sobrevivência com o jovem oficial Alemão amante da literatura. O amor enlaça é cega ao mesmo tempo, o avô adverte ao jovem do risco com a mãe da menina, sabendo ela que o namorado oculto da filha era amigo de um oficial Alemão, e que isso colocava tudo em risco, uma armadilha foi planejada.
Entretanto.
Após uma advertência do amigo de Jósik, seguindo à risca suas palavras, a vida é garantida naquele difícil jogo da guerra.
Corria o ano de 1942, a ferrovia de Teberin era a estrada de almas condenadas, lotando os vagões, a caminho dos Campos de concentração. Enquanto Jósik e Raika se amavam debaixo dos lençois, dois jovens apaixonados e inexperientes, o fantasma do avô, de pronto percebeu que a jovem estava grávida, as tonturas, os enjôos. Porém, o jovem Jósik não sabia dessa novidade, ele seguia o curso de sua vida, vendendo os livros da magnífica biblioteca para sobreviver, enquanto o povoado de Terebin, aos poucos, sucumbia ao toque da morte a serviço da máquina nazista. O inesperado acontece, um atentado a bomba, o jovem oficial Alemão está morto em uma emboscada, a represália veio rápido, dez tiros, dez almas sentadas na pequena praça de Teberin são mortas, entre elas.... A jovem Raika.
Sem a mãe, o pai e sua amada Raika, somente com o espectro fantasmagórico do avô, o jovem finalmente foge de Teberin, caminhando pela mata durante a noite, escondendo-se durante o dia. A longa jornada do jovem, entre lugares, fazendas, trabalho temporário, termina em uma noite quando é capturado pelos alemães, seria interrogado, caso não fosse da resistência, trabalharia para os alemães. No campo de concentração, o jovem vê os horrores face a face. Sempre diante da morte e da vida, porém, o destino daquela alma não era a morte, ele sobreviveria enquanto se sonha.
A narradora volta a história para si no tempo presente, a sua gravidez, o menino que nasceu, o descaso do marido. Havia nesse ínterim, os estranhos sonhos com o jovem polonês. Eva aborda a pequena trajetória de seu filho Pablo, morto aos sete meses por meningite. Desconsolada, Eva separa-se de Miguelito e parte para outro destino, lugar esse que seria o palco do encontro dela com Jósik, que a essa altura, perambulava pelo mundo desejando achar a si mesmo.
A narrativa caminha para o seu desfecho final, no entanto, Eva aborda um pouco da história do Uruguai, o seu lar e o futuro destino do jovem Jósik. Os dias cinzentos em Londres estavam findando, uma inusitada oportunidade para América do Sul apareceu, um desconhecido lugar chamado Uruguai. Naquele momento, muitos despatriados vieram para as Américas em busca de uma nova vida, Jósik era um deles.
Chegou o dia finalmente, lá estava ele, Montevidéu, aqui, alí, entre um trabalho e outro, ele tornou-se gerente do hotel onde Eva trabalhava, as duas histórias navegaram por mares diferentes, mas, de alguma forma estavam unidas, destinadas uma à outra. Eles se encontraram, se enamoraram, formaram família, a matéria etérea dos sonhos de Eva tornou-se realidade.
Belíssima história, me arrisco a
dizer, a melhor do ano.
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