domingo, 22 de setembro de 2024

CRÔNICA DE DOMINGO.

    



                 A FOTOGRAFIA.


Desejei os teus lábios logo ao acordar, eu os desejei intensamente, de uma maneira única como nunca houvera desejado antes.

É manhã de domingo, fria manhã, final de inverno, é um domingo qualquer sem tanta importância. Você visitou-me nessa doce manhã logo ao despertar, lembrança de um tempo em que eu era poeta e a juventude vestia de beleza nossos corpos.

Lá estava você, na recordação desse pensamento fugaz, vestida de majestade e beleza, com um universo inteiro de estrelas cintilantes em seu olhar. Os teus lábios em suaves movimentos na pronúncia delicada de doces palavras, o teu corpo tão perfeito, com curvas tão delirantes, eu apenas observava, quieto em meu canto, abismado, sem reação, éramos um jovem casal... Você… A passos lentos aproximando-se, sentando-se ao meu lado, o inebriante perfume de flores do campo, perfume que até as tulipas encantam, você enlouquecendo-me. Quisera eu voltar naquele tempo, poder beijar-te a face em ardentes beijos e ser o alimento dos teus lábios, sentir novamente a doçura do amor, o teu encanto cheio de mistérios e os mistérios no encanto silencioso do olhar. 

Eu era apenas um espectador naquela ocasião, naquela melancólica manhã de um dia qualquer. O insano desejo em minha mente, a incontrolável vontade de ter teus beijos ardentes, este teu sorriso mágico, tão perfeito, tão natural. O tempo passou, restou as lembranças atormentando nossos corpos envelhecidos.

Um discreto sorriso no formato desejável da loucura, já o meu desconcertado sorriso, revelando toda minha admiração, revelando o quanto você me dominava. O teu poder sobre mim deveras era mesmo absoluto. Quisera eu ser como o beija-flor para arrancar da seiva virgem dos teus lábios a doçura de cada primavera. Contudo, sou apenas um poeta observando em silêncio essas dolorosas lembranças. O magnífico ser tão distante de mim, a nossa fotografia, o teu sorriso, a rósea face, por dentro eu me enlouqueço, por dentro eu te desejo. Como eu gostaria de ter aquele fugitivo momento. Minha alma guarda tão grande amor, maior que o próprio peito e o tempo. Recordar é viver uma vez mais, essa nossa fotografia me fez jovem por dentro novamente, uma única e talvez última vez.

Perdoe-me a indiscrição, perdoe-me a indelicadeza das palavras, eu não pude resistir, meus olhos enfeitiçados enlouquecem na contemplação de algo tão divino de curvas tão delicadas. A cor exuberante da pele, tudo enfim, era magnífico, lembra-te amor? Ainda te recordas?

Revela-me ainda mais, meus olhos não resistem.  Então, enlouquecido, na perfeição de tua beleza, tal qual a flor do amor plantada no jardim primavera, a enlouquecer os poetas ingênuos. Talvez sim… Eu... Poeta ingênuo das madrugadas, talvez sim… Eu… Seja mesmo insano, diga qual criatura não seria? 

As horas passaram-se rapidamente, eu continuo a observá-la pela nossa fotografia em meus dedos trêmulos, o tempo não perdoa ninguém, você — anjo ledo, tão perto e distante de mim, sou este poeta louco, perdidamente apaixonado, sou como o beija-flor que sonhou com a rosa da primavera, ou, talvez eu seja a própria rosa da primavera que sonha ser com o beija-flor.

Logo mais tudo será silêncio, apenas essa fotografia e as palavras do poeta continuará um pouco mais, até que o tempo, este déspota sem coração os corroa lentamente.


domingo, 8 de setembro de 2024

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


    UM PÁSSARO EM MINHA JANELA.


    Um pássaro pousou em minha janela.

    Quisera eu ter a paz e a tranquilidade da pequena ave que pousou em minha janela na tarde desta bela sexta-feira. Quisera eu ter as suas asas e voar livremente pelo imenso azul celeste, entre fogosas nuvens, brincar alegremente, ver o mundo lá de cima, ter a liberdade brincando com o vento em minhas asas. No entanto, é dolorida a realidade em que percebo não ser tal como o pássaro, de não ter asas, de nunca ter sonhos, de nunca poder voar, de não ser livre. Talvez a imaginação me crie asas, ainda que essas, antes mesmo da existência tenham sido cortadas pelos homens, ainda que sejam as asas de Ícaro.

     Um pássaro pousou em minha janela.

     Quisera eu ser esse pássaro de penas reluzentes, com o bico afinado, cantando suave e harmonioso — eu não sou este pássaro, pelo contrário, eu sou o poeta da melancolia e tristeza, bêbado de solidão no meio da multidão, desajeitado com as palavras, tropeçando vez ou outra aqui e ali em alguma desavisada rima que passa, acenando de uma janela triste. A liberdade que eu sonhei, imaginei, voou nas asas do pássaro que estava preso na minha imaginação, estava preso... Agora não mais.

    Um pássaro pousou em minha janela.

   Outro dia veio em minha janela esse pássaro diferente de todos os outros que já pousou por outras vezes. Esse tinha as asas coloridas, mais longas, com o bico também alongado. Contudo, a sua canção parecia a viva entonação de meus versos tristes e melancólicos. Não consegui determinar que ave era aquela, nem entender a sonoridade quase fúnebre de seu canto. Sei que ela causou-me grande admiração, medo e espanto. Uma vez mais faço-me repetir… Quisera eu ser aquela ave, ou qualquer outra a propósito, conquanto que eu tenha asas e possa voar, que tenha a liberdade novamente. Liberdade essa roubada por mercenários do pensamento, da ideologia de que não teremos nada e seremos felizes... Eu não sou esse pássaro, talvez no passado eu tenha sido, porém, até mesmo as lembranças do meu passado foram roubadas de mim.

   Um pássaro pousou em minha janela.

   Quisera eu poder ser todos os pássaros do mundo, pelo menos um de cada nação 

— que fosse apenas um dia — e ter a mais bela canção, ainda que não lírica. Quisera eu ser esses pássaros todos e ganhar todas as nuvens e todas as liberdades em cada céu de cada lugar, e poder voar sempre mais alto possível até quase desmaiar, e ter a liberdade e a solidão entre minhas asas. 

   Quisera eu… 

   Ser apenas uma vez na vida, um pássaro qualquer. Entretanto, me oferecem as asas de Ícaro e um céu terrivelmente ensolarado, me vendem a ideia de que eu posso sim voar perto do sol, que o mito de Ícaro é uma ilusão, afinal, não existem perigos. Os mercenários do pensamento plantam nas mentes essas e outras ideologias mentirosas. Não sou um pássaro, aliás, não somos pássaros, a única certeza de que tenho é a de estar preso numa gaiola, suspensa no mundo, a porta está aberta, ao lado, ( as asas de Ícaro ). A falsa sensação de liberdade chamando do lado de fora.

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

          Conto...    Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vas...