domingo, 24 de novembro de 2024

PROSA POÉTICA.

 




   CHORE UM POUCO MAIS, NOBRE POETA.


   Canta o amor, solitário poeta, o sentimento que te move, que surge, comove e te transforma. Canta em voz alta toda essa dor. Canta os versos da liberdade, o amor que é reescrito, centrado, canta as tuas muitas vivências e os dias de angústia suprema. Ainda que seja a última vez, que sejam derradeiras as suas palavras, do dizer nunca antes dito. Quem lê que entenda o quanto doi, compreenda quem é que se esconde, se oculta fugitivo em cada estrofe.

   Canta a sua dor solitário poeta, a dor de ter amado tanto, de ter devotado tamanho sentimento e perceber que não valeu de nada. Hoje os teus escritos são de agonia, versos riscados à beira do abismo, prontos a cair no esquecimento, quem nessa vida os lerá? Joga-os aos quatro ventos, ao sabor das estações e talvez alguém os encontre. Coloque-os em uma garrafa, atira-os ao sabor de novas marés e talvez algum náufrago os reencontre.

   Já se faz alta a noite, de muitas estrelas brilhantes estendidas no firmamento a luz de desatento luar. O poeta a tudo contempla, do alto da janela solidão ele tudo contempla, ele vê os sentimentos desnudos passeando soltos no peito. Quem é ela, poeta? Revela-nos o seu nome e onde habitas tal amor? Quem é essa que te enlouqueceu? Que faz teu coração parar quando ela surgiu, por favor, revela-nos, quem é ela?

   Amanheceu e nada mudou, o sol está se levantando lentamente enquanto pássaros estão cantando na copa das árvores, homens e mulheres passando desavisados. Faces fechadas, sisudas, indiferentes, outros acenam sem querer respostas, corações pesados, almas cansadas, sentimentos fervilhando por dentro. Somos observadores da vida alheia de papel e caneta nas mãos, derramando versos na folha em branco. Procuras por ela em cada rosto que passa, às vezes, algumas enganam o teu olhar, então, pensas nela, enganoso coração apaixonado é o teu, nobre poeta.

   Canta as tuas quimeras, nobre poeta, os medos ocultos no coração, os teus muitíssimos desejos proibidos e aquartelados no calabouço da alma. Se derrame em cada estrofe, nobre poeta, enlouquecendo em cada verso, delirante em cada palavra, desvario completo em cada poema. Tornastes o que não querias, encontrando o que não procuravas, vivenciando todas as outras vidas. Enquanto isso, a tua vida ficou esquecida, lutastes tanto por tantos amores e sobrou-te apenas o barco da solidão nesse imenso oceano.

   Aquele teu desejo oculto acorrentado no peito, desejo nunca compreendido, flagelando o aedo seio. Quem é ela, nobre poeta? Revela-nos o seu nome, quem é que te atormenta, te faz perder o sono todas as noites. Tantos foram os versos riscados, feitos e refeitos na tábua do coração, versos de um amor inalcançável. Os sentimentos desnudos, cambaleantes diante dos olhos, quem os poderá compreender?

   Canta uma vez mais, nobre poeta, ainda que teu mundo seja ilusão, ainda que tuas quimeras pareçam reais, ainda que teus devaneios o assombre. Canta pela última vez, nobre poeta, sacie a tua alma com os teus pensamentos, transforme-os em doces palavras, sejam os versos teu porto seguro. Entenda, nobre aedo das palavras, ela nunca terá olhos para você, em nenhuma das existência do cosmo, aliás. Ainda persiste nesse louco amor? Escrevendo dia após dia e noite após noite tua infinita dor em amar tanto?

   Certamente você enlouqueceu.

   Amar tornou-se uma luta, interna, externa e infinita, uma busca pelo inalcançável. É uma quase desistência o tempo todo. Você a vê todos os dias, nobre poeta, ela está diante da janela da tua alma, os olhos brilhantes, a face formosa, o sorriso desconcertante e enlouquecedor. O teu coração arrebenta-se no peito, falta-lhe uma porção do ar, pernas e mãos ficam trêmulas. Basta um olhar, nobre poeta, basta o timbre da voz e um simples aceno, uma ou duas palavras e o seu mundo vira de cabeça para baixo.

   Ela, sempre ela, nobre poeta, desfilando sua bela juventude e suas curvas delirantes. Por onde ela passa é admirada, enfeitiçando outros olhos inocentes e desprotegidos. É sempre ela, nobre poeta, oferecendo graciosos sorrisos, a sonoridade da voz de anjo lêdo, quem, afinal, poderia resistir tal encanto. Sei o quanto você sofre, caríssimo poeta da solidão, todos esses sentimentos aí dentro, corroendo a tua alma e coração. Talvez um dia ela te perceba e note o teu desesperado amor e valorize cada verso do teu sofrer.

   Canta uma última vez, nobre poeta, chore um pouco mais, escreva os versos derradeiros, jogue-os ao sabor do vento. A tua canção não será esquecida, alguém a lerá em algum momento, perceberá o quanto você amou, em cada palavra e em cada poema. Laça os teus versos ao mar, deixe-os ao sabor das marés e que sejam navegantes solitários. Um último pedido que te faço, nobre poeta, revela-me em segredo o nome dela, de quem é a face do teu tormento.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

 






    As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas ao público de modo que era possível ver dentro do próprio reino. 

    Nos recônditos do palácio começava um diálogo incomum entre a memória e o coração, no mais profundo do pensamento humano, no âmago quase inimaginável e inabitável da incompreensibilidade do complexo intelecto do eu.

   — Sim! É ela, e isso é inacreditável! É o beija-flor! Sim, aquela mesma de outrora, ela veio ao nosso castelo desfilando toda a sua beleza, com grande esplendor e formosura que lhe cabe, como das vezes anteriores, pousou na janela da alma sem a percebermos, devedoras é espantoso.

   — O que fizeste a respeito, nobre senhor? O que se diz em todo o reino é que ela não aparece já há muitas primaveras, e a propósito, se realmente o que dissestes for verdade, qual o motivo que a trouxe novamente para os nossos domínios, e, principalmente! Como pode tal façanha sem que eu não a tenhamos notado? Uma vez que nada me escapa...

   — Caríssimo amigo, essa história não está muito bem contada, existem algumas variáveis não consideradas nessa complicada equação de sentimentos nus ...

   — O que não está muito bem contado nesse, como você mesmo disse, equação de sentimentos nus? Está mais para um mosaico de sentimentos nus. Escondes algo de mim nobre senhor? Justo eu. E que variáveis são essas dos sentimentos nus no seio das vontades e desejos humanos?

    — Perdoe-me amigo… Perdoe por não ter lhe contado tudo antes.

   — Como podes fazer tal! O que escondes de tão valioso deste que a tanto lhe serve?

   — É o beija-flor... Não o reconhece? Aquela mesma de outrora, lembra-te? Frequentemente ela aparece no domínio da torre, aos olhares dos súditos do castelo, tão desavisados, e do próprio rei que é o meu pai - ela é apenas uma ave voando desavisada nos entornos do castelo, pousando aqui e acolá. Essa ave tão ligeira, é, e sempre será ave, não se engane quanto a isso. Difícil explicar eu sei, um dia você vai entender.

   — Escondestes de mim esse segredo muitíssimo bem, justamente eu, o seu súdito mais leal, como podes?

   — Ainda acreditas em mim?

   — Jamais duvidei de ti meu príncipe, jamais... Tu sabes disso, desde tenra idade sempre acreditei em cada uma das tuas histórias e as guardei a sete chaves, agora que és príncipe, eu continuo a acreditar ainda mais, embora, eu seja o único a crer nestes domínios.

   — Eu sei meu amigo… Eu sei... Mas tudo tem o tempo certo, em breve lhe explico tudo quanto aconteceu.

   — Por favor, meu jovem príncipe! Conte-me o que aconteceu, conte-me agora mesmo?

   — Tudo bem… Tudo bem, eu lhe conto.

   — Obrigado jovem príncipe, muitíssimo obrigado.

   — Era novembro, eu bem me lembro, o jardim banhado em ondas de luz rodopiantes, o luar prateado por sobre a mata densa, os seres da noite fazendo serenata. Eu bem me lembro daquele olhar reluzente e fugitivo, daqueles toques quentes despertando paixão, do som daqueles lábios na pronúncia de cada palavra. Eu bem me lembro daquele nosso último novembro, quando o rei então nos flagrou no primeiro beijo. Proibiu-me de vê-la enquanto vivesse e aprisionou-me na torre deste peito. Foi então, caro amigo memória, que as fadas do reino encantado, a meu pedido, movidas por compaixão ao ver meu sofrimento por esse amor tão impossível, com poderosa magia, em beija-flor a transformou. Vê, essa ave tão alegre, na verdade é ela, sempre foi o meu único e grande amor impossível.

   — Santo Deus! Então esse é o verdadeiro ocorrido… Pensávamos que ela tivesse sido levada pelos ladrões do reino esquecimento ou coisa semelhante. Nunca mais a vimos, o reino do esquecimento é completamente inacessível para nós, pensávamos que ela estivesse por lá.

   — Para todos os efeitos, amigo memória, ela foi levada, contudo, peço-te, fiel companheiro, que guardes este meu segredo enquanto vivermos. Não o reveles a ninguém, principalmente a razão, sempre contraditória ao que eu tanto desejo, sempre fazendo oposição a tudo que entendo por agradável, nunca na história desse reino concordamos em alguma questão.

   — Eu prometo que vou guardar esse segredo com a minha própria vida, ele estará salvo com a memória em seus recônditos mais ocultos, somente tu terás acesso.

   — Obrigado amigo, pode se retirar, desejo ficar à sós.

   — Sim nobre coração, como desejares, este teu amigo memória estará sempre à disposição para lhe ajudar no que for.

   — Os dias são ruins, caríssimo amigo coração, e como todos os outros, nada tenho a fazer do que observar tudo em silêncio. Os pensamentos do coração são como o vento, como a brisa que sopra vindo do norte, ou uma sombra passageira. O beija-flor, o meu beija-flor, o meu único e grande amor, aquele mesmo de outrora, de todas as minhas primaveras, ainda não sabe de todos os motivos que me levou ao cárcere dentro de mim mesmo, pretendo, se possível for, jamais revelar tal segredo. Enquanto isso, a solidão me cabe perfeitamente na companhia deste peito. Podes sair agora amigo...

   — Como quiser.

   O castelo forte fechou as janelas da alma, passou as mãos sobre os cabelos, coçou a cabeça, não compreendo os mistérios que passavam dentro do reino oculto de seu próprio eu. 

    Observou uma vez mais a visão daquela noite, saiu cabisbaixo sem dizer uma única palavra, porém, escondendo todas as impressões que teve da moça que há tanto conhecia e a muito amava, ela, fugitiva noite adentro, ele, fugitivo dos próprios sentimentos noite afora, dentro de si, o mosaico de sentimentos nus.


quinta-feira, 17 de outubro de 2024

OSEIAS ( CAPÍTULO 1)

 




    NOTA DO NARRADOR.


… Não me considero a pessoa ideal para contar essa história. Sou um sacerdote e não um narrador, porém, dadas as circunstâncias, o momento em que vivemos, crises políticas, pandemia, quarentena, extremismo, violência, enfim, eu não poderia deixar de lhes contar alguns pormenores da vida desse homem, da qual tenho especial afinidade 

   Este meu amigo é sem dúvidas um homem brilhante, político habilidoso, cristão sincero e com um coração enorme, porém, descobriu da pior forma que a fama e o declínio caminham juntas. 

   Nos conhecemos no seminário (Legionários de Cristo em Arujá), estávamos estudando para sermos padres. Ele abandonou o vocacionado antes de completar um ano, descobriu que não tinha vocação para uma vida de solidão, celibato, estudos e renúncias. Mudaria de religião pouco depois enquanto eu continuaria o caminho rumo ao sacerdócio.

   Cada um seguiu o que seu coração determinou.

   No entanto, jamais perdemos o contato um com o outro pelas voltas tão diferentes que as nossas vidas deu. O pouco tempo que convivemos no seminário foi o suficiente para se forjar uma amizade sólida, independente das diferenças, dogmas teológicos ou qualquer ideologia. Mesmo hoje ele praticando outra fé a nossa amizade permanece ainda mais forte, respeitamos a individualidade um do outro — coisa rara hoje em dia — em suas aflições ele me procura buscando conselhos, eu a ele nas minhas tribulações, nunca os neguei, ele nunca me negou. Eu sempre estive ao seu lado nos piores e melhores momentos.

   Por isso, essa é uma vida que vale uma história…



                         CAPÍTULO 1.

                       O CASAMENTO.


   Ao alvorecer, no esconder-se do astro que rege a vida de cada simples mortal, o dia foi se esquecendo lentamente, deitando-se por trás das belas montanhas da cidade de Ouro preto, pincelando as nuvens mineiras com vivas cores, salpicando o azul-celeste da cidade colonial da serra do espinhaço com tons rubros mesclados de laranja e amarelo em um aconchegante início de primavera. Bailarinas aves em voos rasantes de um lado para o outro, tal  como crianças brincando e correndo pelas ruas calcetadas íngremes e sinuosas da histórica vila Rica.

   Outras aves mais quietas figuravam na copa de frondosas e frutíferas árvores, outras no telhado da igreja nossa senhora do Carmo, cantavam em uma entonação vibrante, fazendo lembrar da canção do exílio de Gonçalves Dias. 

... Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá ...

   A mesa estava pronta, majestosa, repleta de incontáveis delícias de encher os olhos, enfeites dos mais admiráveis, cores cintilantes, apenas esperando o final da cerimônia. Os músicos todos enfileirados, com os seus suntuosos ternos pretos e gravatas borboletas, uma diversidade de instrumentos em perfeita harmonia. Rostos e sorrisos mascarados, emoções à flor da pele. 

… O que é a vida se não esse emaranhado de sentimentos se sobrepondo ao outro, atropelando-nos, levando-nos ao extremo de nossas forças. Neste jogo da vida somos apenas peças como em um tabuleiro de xadrez. Cada um com o seu valor e em sua respectiva posição, fazendo exatamente aquilo que lhe foi designado a fazer. Viver é uma aventura completa nesse novo tempo, esse novo mundo tão cheio de terror, medo, incerteza, vírus desconhecido. Muitas das vezes somos indefesos e não sabemos o que fazer. É um jogo complexo que só se vence sendo o mais simples possível. É estranho dizer isso, mas, a simplicidade é a maior e mais poderosa das armas, sempre engatilhada, pronta a disparar em corações despercebidos …

   Rostos e sorrisos cobertos por máscaras bonitas e coloridas.   

   A festa de casamento do senhor Oséias Fausto estava glamourosa. Uma aura de alegria era soprada em sonoras notas musicais, vieram todos os seus convivas, com suas resplandecentes vestes para tão importante ocasião. Oséias em seu infindo regozijo não cabia dentro de seu sorriso oculto, cantava risonho, dançava na alegria extravagante do seu coração. A noiva tão bela, com o seu longo vestido branco, desfilava com o buquê pelo jardim, estava tão encantadora quanto às rosas e tulipas que enfeitavam a festa, era invejada por cada curioso olhar dos especuladores.   

   Ao toque dos instrumentos iniciou-se a marcha nupcial, no altar, lágrimas vertiam aos olhos do senhor Fausto, o tão esperado dia que havia finalmente chegado à vida do promissor político, nem mesmo a crescente ameaça invisível e a crise política instaurada no parlamento impediu o planejamento de seu casório em sua terra natal.

   Todos os convidados de pronto se levantaram em aplausos entusiasmados, estavam pasmos com a beleza da noiva. Cantos, palmas, lágrimas, o vinho doce em sorridentes lábios, pétalas de tulipas e rosas eram espalhados adiante de seus passos. 

   Da noiva, havia poucos parentes no casamento. 

   De origem humilde, a maioria dos seus parentes e convidados não quiseram comparecer, disseram temer a contaminação, era o primórdio da pandemia. De Oséias, viva turba urbana, festeira, uns bebendo, já outros cambaleantes pelo salão de festa, sem se preocuparem com nada. Entre os dele, havia os que não queriam que o casamento acontecesse. Da integridade da moça eram esses mesmos tão desconfiados. Gomer não despertava tanta admiração entre os parentes do noivo, havia algo no passado da moça que os incomodava, algo que não poderia ser dito, não naquela ocasião tão importante.  Duvidoso e amargo passado na vida de Gomer que não agradava em nada alguns dos convidados do noivo, ainda sim, tanto mais amor Oséias lhe devotava em face de todo ódio contrário a ela, ele a amou profundamente desde quando a conheceu, resgatou-a de uma vida de prostituição e pecado. O casamento era uma nova oportunidade em sua vida, uma janela aberta a novas oportunidades, alguns não conseguiam acreditar em tal mudança da parte dela. Oséias estava convicto de sua conversão ao evangelho. Foi corajoso quando enfrentou toda a sua família em nome desse amor. Diziam que ele estava louco, fora si, porém, o seu amor parecia ser maior que tudo.   

   Os pensamentos de Oséias estavam nas lembranças do dia em que se conheceram na festa de um amigo.

( … Lá estava Gomer, embriagada, cantando e dançando para todos, ao vê-la, Oséias admirou-se de sua beleza, não acreditou que se tratava de uma prostituta, tão nova para viver uma vida de abusos. Foi amor à primeira vista, mesmo sabendo quem ela era, amou-a desde o primeiro momento, sendo desses sentimentos indescritíveis e inexplicáveis. Os amigos e familiares não acreditavam quando ele dizia que se casaria com aquela moça. Por fim, com muita insistência, a conquistou, para si próprio e para a igreja que frequentava ... )     

   Oséias estava a minutos de realizar o seu maior sonho.

O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...