domingo, 12 de junho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 




O DESAFIO DE SORRIR QUANDO A VONTADE É DE CHORAR.

  

   Exaustivo trabalho de todos os dias, cansativa labuta diária, ter que sorrir para clientes, por vezes, ignorantes, ser cortês e educado com pessoas que não refletem igual tratamento. Às vezes, para não dizer em quase todos os momentos, tenho a vontade de chutar o balde, jogar tudo para o alto, abandonar o ambiente claustrofóbico, ( para mim pelo menos ), e sumir no mapa. Porém, ainda existe lá dentro do meu ser um senso de responsabilidade, onde a análise apurada e calculista racional da situação me permite sensatez, me impedindo de fazer qualquer besteira ou de tomar decisões da qual eu venha me arrepender depois. A vida de quem lida com o público não é nada fácil, como dito inicialmente, tenho que sorrir quando a vontade é de chorar. Certa vez me disseram que o sorriso de um palhaço não é reflexo de sua alegria, mas, de seu profundo desespero; pois é bem isso que sinto, desespero contrapondo a falsa alegria que meus lábios demonstram. Na maioria das vezes, quem está do lado de fora do balcão de atendimento notará uma alegria exagerada do lado de dentro, dirão uns para os outros, como são alegres esses aí. Pois bem, não se engane, alegria em excesso é loucura. Não é que somos excessivamente contentes, mas, abismos certo de insanidade.

   Lidar com o público é um desafio, há de se entender que o atende também será atendido em algum momento, por isso, assim como o balconista quer ser atendido ele também terá que fazê-lo com a sua clientela. A empatia tem que acontecer dos dois lados, pesos diferentes desequilibra a balança, não é saudável no atendimento partes que não se entendem. O cidadão do lado de dentro do balcão tem por obrigação oferecer o melhor serviço possível, e, em contrapartida, espera-se que a pessoa atendida seja no mínimo educada, e que tenha disponibilidade de diálogo, pois é com ele que se chega ao entendimento. Em cada lugar de trabalho existem as suas regras, cada ambiente, seja qual for o balcão, açougue, padaria, frios, enfim, existem algumas regras que o funcionário tem por obrigação seguir. Agora entenda, em face de tais ordenanças, existe o código de defesa do consumidor que, na maioria das vezes, conflita com as regras daquele ambiente, e o empregador nem se dá conta disso... É nesse momento que o diálogo é fundamental, com uma boa conversa é possível corrigir certos erros sem agredir nenhuma das partes. No entanto, seria muito bom se isso acontecesse de fato em harmonia.

Eu já falei em outras crônicas do meu ambiente de trabalho, 'balcão de açougue', o que eu acabei de relatar acontece sempre, eu conheço o código de defesa do consumidor, também conheço as regras de onde eu trabalho, sei que algumas dessas regras estão em conflito com o código, por isso, busco ser a ponte entre um e outro, com bom entendimento e diálogo entre as partes para que o cliente não seja lesado em seus direitos garantidos pelo código e nem o empregador fique com raiva por eu ter retrabalhado certa regra interna. Como disse anteriormente, nem sempre esse equilíbrio é possível, existem clientes 'ignorantes', que desprezam qualquer norma, desprezam a si mesmos, não são educados e machucam o próximo, assim como empregadores inflexíveis em suas regras. Mas, tenho que lidar com todos igualmente, sendo ou não agredido. Não é fácil sorrir quando se é xingado e maltratado. Caríssimos amigos leitores, a crônica deste domingo retrata apenas uma mínima parcela do que é o meu trabalho, com tempo, escreverei um pouco mais sobre o assunto.







domingo, 5 de junho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.





 TENHO EM MIM TODOS OS SONHOS DO MUNDO.

   

   "Tenho em mim todos os sonhos do mundo", reza o verso de certo poema. Porém, eu acredito que os sonhos são ilusões transitórias, momentos em que a mente deseja relaxar fugindo da realidade. Geralmente, em especial quando estamos dormindo, a nossa mente se utiliza desse artifício para descansar a memória. No entanto, quando acordados, raramente sonhamos de olhos abertos, e quando o fazemos, a mente utiliza desse mecanismo como arma de tortura contra corações despercebidos. 

   Independente de como seja isso, tortura ou não, eu sonho e ouso sonhar até de olhos abertos, pois tenho em mim todos os sonhos do mundo, existe um prazer nesse tipo de flagelo psicológico, talvez o torturador não seja tão cruel assim. Uma vez que o mundo se tornou em horrendo monstro de crueldade sem limites, de dores infinitas e sem possibilidades de prazer.

   Às vezes eu passo bons minutos observando as pessoas, no que fazem, como andam, nos gestos da face, o tom de voz, o movimento das mãos, enfim. Eu sou o típico cara que fica de canto, sem dizer nada, sem interagir, apenas observando. Pessoalmente eu não gosto de interagir, prefiro o anonimato e a solidão, contudo, são esses os momentos em que toda a cena no meu campo de visão entra para dentro de mim. Tudo é recriado para dentro, do modo como a minha mente deseja, cada pessoa se transforma em personagens, eu as transformo e as refaço. Eu sei que isso parece loucura, e confesso que realmente é, mas, é um terrível privilégio, um sonhar de olhos abertos.

    A mente é um depósito de tudo, um campo de concentração das imagens e sons visualizados e capturados durante o dia. Ainda que não nos recordemos, esse filme está lá dentro. O inconsciente é a parte do depósito que fica sempre trancado, o acumulado vai prá lá, a superficialidade fica na sala menor, fora desse cofre, se é que posso chamá-lo assim. É o espaço da mente, em que detém a chave para entrar e sair quando bem se entende desse lugar maravilhoso, ou infernal a depender do que se acumulou.

      Ao se dizer: "tenho em mim todos os sonhos do mundo", significa que existe no interior de cada um o mesmo universo do exterior de todos nós. Cada mente faz o que quer e como bem entende na reconstrução do cosmo interno. Sei da minha parte, das insanidades que me cabem diariamente. O conceito científico de multiverso, universo paralelo, enfim, é real para este que vos escreve, a porta de entrada está no íntimo de cada ser humano da terra, tenha ele conhecimento ou não disso. Tudo está acontecendo nesse momento em que escrevo essa crônica.

     Ah! Caro leitor. Se você soubesse o que se passa nessa massa cinzenta, ficaria espantado. Aquele moço, a jovem que passou por mim, a conversa de amigos no bar da esquina, o senhor entregando refrigerante no supermercado, as pessoas que atendo diariamente, o brilho no olho de minha colega de trabalho, as palhaçadas do outro... Refaço o tempo todo o curso das coisas dentro de mim. No meu mundo particular amo quem eu quero sem medo ou preconceitos e nem normas impostas pela sociedade. No meu mundo eu sou a lei, eu sou tudo é tudo sou eu.

      Hoje pela manhã despertei com essa vontade de falar um pouco daquilo que se esconde dos meus olhos para dentro, onde habita alguém completamente desregulado, mas, dos olhos para fora, alguém centrado e conciso, quieto. A maluquice de dentro fica ao encargo da mente, em seus devaneios, nós personagens literários criados, em cada verso ou palavra escrita. Este que vos escreve, é apenas uma ponte dele para ele mesmo.

    


domingo, 29 de maio de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 



                A ILUSÃO DO MELHOR.

   

   Trabalho, casa, descanso. É sempre nessa ordem, durante seis dias, período da tarde, das treze horas às vinte e duas e trinta. Uma folga por semana, na terça, a cada dois domingos trabalhados um de folga. Balcão de açougue é isso, cortar, arrumar, preparar, limpar, atender, e por aí vai. Parece fácil, interessante, até gostoso de se fazer, mas não é. O salário não é ruim, a empresa ( parece ) ótima, oferece alguns benefícios, ( por enquanto ) mantém bom plano de saúde, porém, o gerenciamento de todo o conjunto que isso representa é falho, não deveria de ser pelo nome que a empresa carrega, pelo contrário, antes de trabalhar ali imaginei que seria o exemplo de gestão e benefícios, pelo menos foi o que falavam, mas... Enfim, teve a ilusão de ser melhor em comparação ao antigo balcão de açougue.

    A minha rotina é simples, eu acordo cedo, às seis da manhã, a minha esposa também. São os compromissos impondo o ritmo, como a nossa filha estuda no período da manhã, esse é o horário que temos que deixar o melhor do sono e preparar o café dela, passar o uniforme, levá-la a escola. Dividimos a tarefa, o café e o lanche dela fica por conta da esposa, eu, me encarrego de passar o uniforme e de acompanhá-la até o portão da escola, que fica a cinco minutos de casa. Depois que retorno, dormimos um pouco mais, eu, precisamente até às oito e trinta, às vezes nove, para então dar cabo da outra parcela da rotina. Depois de levantar da pequena extensão do sono, após tomar o meu café, sigo com a ajuda nos afazeres domésticos até o horário de sair para o trabalho, que é exatamente às doze e quarenta, tenho que entrar às três em ponto, portanto, o meu local de trabalho é perto. O tempo que tenho em casa disponível até o horário de sair é curto, pode parecer que não, pois digo que é como uma sombra que passa e nem percebo, se durante o café eu me distrair nas redes sociais, complica todo o resto.

   Já no local de trabalho, coloco o uniforme, pego minha luva de aço, touca branca na cabeça, e vou para o relógio de ponto registrar a entrada. No local de trabalho, cumprimento os colegas do turno da manhã, três ou quatro dependendo do dia. Eu e mais dois entramos, ou somente mais um comigo, também vai depender do dia, rendemos os amigos para o almoço. Temos exatamente duas horas até eles retornarem. Nessas apertadas duas horas, temos que dar conta de repor todo o balcão, que é enorme por sinal, controlar o fluxo de atendimento, fazer produção de bandejas, quando possível, limpar a bagunça deixada por eles, e alguns outros afazeres. Duas horas depois eles retornam e nós saímos para o intervalo também de duas horas. Quando voltamos, eles que entraram às seis e sete e meia, vão embora lá pelas dezessete e trinta da tarde e ou dezoito. Nós seguimos o curso do turno até o fechamento. E novamente toda a sistemática da rotina se repete. Repor o balcão, fluxo de atendimento, que é sempre maior da tarde para noite. Ou seja, é muito trabalho para poucos funcionários, seria necessário mais dois em cada turno para ficar em equilíbrio, no mínimo, mas, como eu disse no início. Problemas de gestão e falta de vontade dos mandatários maiores.

    Por isso as minhas rotinas não divergem muito, é a mesma coisa de todos os dias, com picos frequentes para pioras. Basicamente é isso amigo leitor. Nas próximas crônicas relatarei pormenores do dia a dia em si, os desafios que enfrento na minha interminável e exaustiva labuta diária.

   




O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...