domingo, 24 de julho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


                   A SERVIDÃO DO RELÓGIO.

 

   Os dias parecem todos iguais, não há diferenças entre eles, o mesmo sofrimento diário na labuta que nunca termina, cansaço o tempo todo presente, lamúria de inúmeros lábios exibindo dentes e sorrisos raivosos. A semana é odiosa, o trabalho enfadonho como no antigo, porém, havia algo de interessante anteriormente, que me agradava eu sei, mas, deixei passar como tantas outras coisas. Não adianta arrependimento, tudo é dor. O começo é sempre calmo, não como eu gostaria que fosse de verdade, é uma calma traiçoeira, daquelas que sempre traz revelações ruins ao final. Eu que diversas vezes fechei os meus olhos para não ver a dor chegar. 

   O final de tarde é sempre pior, o cansaço já dominando os braços, fazendo o raciocínio fica lento, esquecido, enquanto a paciência também acena ao longe. A vontade é de jogar tudo para o ar, de fugir para longe.

   O começo de semana é calmo, a maioria dos transeuntes não comparecem, estão com as provisões completas, somente aqueles mais desatentos que retornam para repor o estoque, ainda tímidos, desconfiados. A dinâmica não muda - poderia ser diferente - porém, existe qualquer dificuldade no comando que impede de realizar o que para mim é óbvio. Somos excessivamente levados ao limite do limite corporal e mental. No antigo trabalho haviam prioridades diferentes, nesse de agora, não se preocupam tanto com o cliente na fila. O que importa para quem manda no que lidera é completar balcões de auto serviços, o resto é detalhe. Confesso que estou muito cansado, não é só o físico, a dor no corpo, a coluna latejando, é também o psicológico sendo cruelmente agredido dia a dia, com palavras e atitudes que ferem mais do que as facas afiadas com as quais trabalho.

   Me considero o menor entre eles, sempre superiores em tudo no que fazem na maioria das atividades exercidas. Dizendo que não têm ninguém igual a eles em seus afazeres. São maiorais, gigantes, não cometem erros, são intocáveis.

   Às vezes, realmente tento me igualar, não para apontar o dedo e me comparar, mas, para oferecer o melhor de meu serviço para o cliente. Ainda sim, escuto nas entrelinhas críticas ao meu jeito de fazer e falar. Gosto do que faço, não amo, por favor, não confundam gostar com amor, são coisas totalmente diferentes. O que eu amo verdadeiramente está muito distante da profissão que exerço atualmente, não é o ideal, contudo, paga as contas e sobrevivo. No meu atual trabalho, por vezes tranquilo, em outros momentos odioso, tenho companheiros legais, pessoas boas, colegas, maravilhosas demais. Aprendi a conviver com as diferenças de cada um, isso é o que importa de verdade.

   Talvez esse trabalho seja temporário, assim espero, de coração. Caso eu não consiga me desvencilhar dele para outro melhor, terei paciência, continuarei a fazer o que faço com o máximo de dedicação e profissionalismo, embora não seja a  (profissão) do meu coração, vou exercê-la enfrentando os desafios com toda força possível. Quem sabe um dia eu consiga o que tanto almejo, pode ser que demore, não importa quanto, estarei esperando com toda a paciência que cabe a esse coração. A vida é cheia de desafios, de altos e baixos. Houve tempo que eu estava na parte alta da roda gigante, hoje, estou por baixo, não reclamo por isso. São experiências importantes para o crescimento como ser humano, agradeço por tudo, ainda que doa agradecer.


domingo, 10 de julho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


                   NA MESMA SINTONIA.


   A noite se aproxima de mansinho no horizonte, vem subindo a colina verdejante, esticando os seus longos dedos de escuridão. Enquanto isso, o fim de tarde, melancólico, vai descendo o mesmo horizonte, escondendo-se da noite que está logo adiante.

   Sinto a brisa fria do inverno beijando a minha face, os olhos já cansados, perdidos na contemplação do fim de mais uma jornada. Noite e dia param por um instante no alto da colina, os vejo trocarem as últimas palavras em faiscantes raios de luz, que logo se transformam em multicores espalhadas pelas nuvens. Pássaros se amontoam no fio de energia, transeuntes desavisados pelas ruas da cidade, o aroma suave de quietude que se espalha.

   Sou apenas um observador, me embriagando com o espetáculo que é o pôr do sol, o lampejo das primeiras estrelas no cair da noite.  

   Há tempos que eu não paro para contemplar tal maravilha que é do ocaso. Vivemos vidas tão apressadas, cheias de um nada sem sentido, correndo o tempo todo e nunca estando contente com nada. O algoz 'crono' rouba os nossos anos e sonhos sem o percebermos. As conquistas das nossas mãos, os esforços de nosso trabalho não tem sentido prático. Criamos regras e colocamos objetivos que em um momento passa como uma sombra, como dizia o sábio Salomão, no fim, tudo é vaidade das vaidades.

   Ainda pouco acabei de chegar do Shopping, levei a minha esposa e filha para um passeio, apenas para distrair a mente, tentar relaxar da correria no meu dia de folga. Eu tinha apenas o dinheiro do estacionamento e de um sorvete para mim e elas, nem um centavo a mais e nem menos. Passeamos bastante, entramos em várias lojas, corremos os olhos em diversas coisas, utilidades domésticas, lojas de artigos japoneses, roupas, calçados, enfim, coisas maravilhosas demais das quais podíamos apenas admirar. Houve um tempo em que eu tinha condições para alguma coisa, no presente momento, não mais. Tudo passou a ser objeto de um desejo inalcançável - pelo menos por enquanto.

   O que mais me impressiona, de verdade, são as aves que contemplo neste momento em que escrevo essa crônica. Quisera eu ser como qualquer uma delas, quisera eu ter a liberdade que corre por entre as suas asas. Quisera eu ver o pôr do sol lá do alto, rente às nuvens. Cada uma dessas aves que neste momento estão empoleiradas no fio de energia é mais rica que qualquer um de nós, toda liberdade que as fazem voar é parte de uma riqueza que dinheiro nenhum no mundo é capaz de comprar. Invejo-lhes o suave canto, a beleza que veste suas coloridas penas, o vento assobiando entre suas asas. 

   Ainda não é noite, e nem dia, estavamos naquele estado intermediário entre um e outro, o exato momento da qual lhes falei que noite e dia param no horizonte do firmamento para se curvar diante do criador, render-lhe adoração, depois trocarem meias palavras e alguns acenos, e cada um seguir o seu curso até o próximo encontro no romper da aurora. Continuarei por aqui por mais uns minutos, pensativo, silencioso. Eu quero ver a noite chegar, ver o brilho das primeiras estrelas, e saber que não há no universo coisa mais linda que as obras da criação. O meu último desejo é que os teus olhos, "caríssimo leitor", por um instante, sejam os meus, e que o teu coração bata na mesma sintonia em que o meu está agora. 

VÃS IMAGINAÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS.

          Conto...    Cansada e sentindo o peso da exaustão, Mirela sentou-se na velha cadeira de balanço deixada na garagem, encostou a vas...