segunda-feira, 30 de setembro de 2024

MOSAICO DE SENTIMENTOS NUS.

 




     MOSAICO DOS SENTIMENTOS NUS.


    As janelas do castelo estavam abertas, escancaradas, à espreita, de modo que era possível ver dentro do próprio reino, e naquele momento único, começava um diálogo incomum entre a memória e o coração no mais profundo do pensamento, no âmago quase inimaginável, inabitável na incompreensibilidade do complexo intelecto.

   — Sim! É ela, e isso é inacreditável! É o beija-flor! Sim, aquela mesma de outrora, ela veio ao castelo desfilando toda a sua beleza, com grande esplendor e formosura que lhe cabe, como das vezes anteriores, pousou na janela da alma sem a percebermos, devedoras é espantoso.

   — O que fizeste a respeito, nobre senhor? O que se diz em todo este reino é que ela não aparece já há muitas primaveras, e a propósito, se realmente o que dissestes seja verdade, qual o motivo que a trouxe novamente para os nossos domínios, e, principalmente! Como pode tal façanha sem que eu não a tenhamos notado? Uma vez que nada me escapa...

   — Caríssimo amigo, essa história não está muito bem contada, existem algumas variáveis não consideradas nessa complicada equação, nesse mosaico dos sentimentos nus ...

   — O que não está muito bem contado nesse, como você mesmo disse, mosaico de sentimentos nus? Escondes algo de mim nobre senhor? Justo eu. E que variáveis são essas dos sentimentos nus no seio das vontades e desejos humanos?

    — Perdoe-me amigo… Perdoe por não ter lhe contado tudo antes.

   — Como podes fazer tal! O que escondes de tão valioso deste que a tanto lhe serve?

   — É o beija-flor, não reconhece? Aquela mesma de outrora, lembra-te, frequentemente ela aparece no domínio dessa torre, aos olhares dos demais súditos do castelo, tão desavisados, e do próprio rei aliás - que é o meu pai - é apenas uma ave voando desavisada nos entornos do castelo, pousando aqui e acolá. Essa ave tão ligeira, é, e sempre será ave, não se engane quanto a isso. Difícil explicar eu sei, um dia você vai entender.

   — Escondestes de mim esse segredo muitíssimo bem, justamente eu, o seu súdito mais leal, como podes tal?

   — Ainda acreditas em mim?

   — Jamais duvidei de ti meu príncipe, jamais, sabes disso, desde tenra idade sempre acreditei em cada uma das tuas histórias e as guardei a sete chaves, agora que és príncipe, eu continuo a acreditar ainda mais, embora, eu seja o único nestes domínios.

   — Eu sei meu amigo… Eu sei... Mas tudo tem o tempo certo, em breve lhe explico tudo quanto aconteceu.

   — Por favor, meu jovem príncipe! Conte-me o que aconteceu, conte-me agora mesmo?

   — Tudo bem… Tudo bem, Lhe conto então.

   — Obrigado jovem príncipe, muitíssimo obrigado.

   — Era novembro, eu bem me lembro, o jardim banhado em ondas de luz rodopiantes, o luar prateado por sobre a mata densa, os seres da noite fazendo serenata. Eu bem me lembro daquele olhar reluzente e fugitivo, daqueles toques quentes despertando paixão, do som daqueles lábios na pronúncia de cada palavra. Eu bem me lembro daquele nosso último novembro, quando o rei então nos flagrou no primeiro beijo juvenil. Proibiu-me de vê-la enquanto vivesse e aprisionou-me na torre deste peito. Foi então, caro amigo memória, que as fadas do primeiro reino encantado, a meu pedido, movidas por compaixão ao ver meu sofrimento por esse meu amor tão impossível, com poderosa magia, em beija-flor a transformou. Vê, essa ave tão alegre, na verdade é ela, sempre foi o meu único e grande amor impossível.

   — Santo Deus! Então foi esse o verdadeiro ocorrido… Pensávamos que ela tivesse sido levada pelos ladrões do reino esquecimento ou coisa semelhante. Nunca mais a vimos, o reino do esquecimento é completamente inacessível para nós, pensávamos que ela estivesse por lá.

   — Para todos os efeitos, amigo memória, ela foi levada, contudo, peço-te, fiel companheiro, que guardes este meu segredo enquanto vivermos. Não o reveles a ninguém, principalmente a razão, sempre contraditória ao que tanto desejo, sempre fazendo oposição a tudo que entendo por agradável, nunca na história desse reino concordamos em alguma questão.

   — Eu prometo meu! Eu vou guardar esse segredo com a minha própria vida, o teu segredo estará salvo com a memória em seus recônditos mais ocultos, somente tu terás acesso.

   — Obrigado amigo, pode se retirar, desejo ficar à sós.

   — Sim nobre coração, como desejares, este teu amigo memória estará sempre à disposição para lhe ajudar no que for.

   — Os dias são ruins, caríssimo amigo coração, e como todos os outros, nada tenho a fazer do que observar em silêncio. Os pensamentos do coração são como o vento, como a brisa que sopra vindo do norte, ou uma sombra passageira. O beija-flor, o meu beija-flor, o meu único e grande amor, aquele mesmo de outrora, de todas as minhas primaveras, ainda não sabe de todos os motivos que me levou ao cárcere dentro de mim mesmo, pretendo, se possível for, jamais revelar tal segredo. Enquanto isso, a solidão me cabe perfeitamente na companhia deste peito. Podes sair agora amigo...

   — Como quiser.

   O castelo forte fechou as janelas da alma, passou as mãos sobre os cabelos, coçou a cabeça, não compreendo os mistérios que passavam dentro do reino oculto de seu próprio eu. Observou uma vez mais a visão daquela noite, saiu cabisbaixo sem dizer uma única palavra, porém, escondendo todas as impressões que teve da moça que há tanto conhecia e a muito amava, ela, fugitiva noite adentro, ele, fugitivo dos próprios sentimentos noite afora, dentro de si, fervilha o mosaico de sentimentos nus.


domingo, 29 de setembro de 2024

CRÔNICA DE DOMINGO.

 

  


     NEFARIOUS.


    O que se segue é apenas um resumo da introdução ao primeiro capítulo.

     Eu não pretendia fazer dessas anotações a crônica deste domingo, porém, por algum motivo que eu mesmo desconheço, resolvi disponibilizar para os meus leitores a minha primeira impressão. Quem sabe assim, encorajando-os a embarcar comigo na leitura desse livro, extraordinário.

    Passemos adiante...

    Na introdução do capítulo primeiro, de cara vemos que se trata de uma narrativa poderosa em primeira pessoa, cujo narrador é o próprio (diabo) por nome Nefarious. Segundo esse narrador, ele teve autorização de seu "Mestre", para fazê-lo.

     Vale lembrar que, sendo uma narrativa em primeira pessoa, de cunho fortemente confidencial, vale salientar que temos um único ponto de vista aqui, a do próprio diabo, e, considerando ser ele O PAI DA MENTIRA, devemos o tempo todo desconfiar do que ele está dizendo e expondo como sua suposta verdade.

         Contudo, ele começa o livro enaltecendo a si mesmo, desprezando o ser humano como a joia da criação. Nefarious se coloca e assim classifica a todos os demônios como muito orgulhosos e desejando adoração de nós (humanos). Porém, na visão dele, ( o diabo) tal atitude foi um calcanhar de Aquiles, uma vez que os humanos são tão mais orgulhosos e desejando adorar a si mesmos quanto o próprio diabo. Nefarious sugere então ao seu mestre que o melhor modo de nos manipular era usar o nosso orgulho e egocentrismo contra nós mesmos. Fazendo de “nós” a nossa própria pedra de tropeço.

           Outra visão que Nefarious deseja passar é de indignação.

            Para "eles", Deus errou em dar a preferência aos humanos e amá-los mais do que a eles, que foram criados primeiro. Na visão dele, nós, tomamos a sua primogenitura. Ele tenta passar uma visão distorcida da rebelião inicial. Para Nefarious, Deus errou em delegar tantas coisas aos humanos, uma vez que eles, quando ainda eram anjos, ficariam de fora da obra divina. Para Nefarious, o seu mestre ( Lúcifer), não tinha em mente uma rebelião, mas, colocar o seu ponto de vista na tentativa de fazer Deus voltar atrás em seu plano com os homens. Isso já mostra quão distribuidora é a visão do narrador que se diz, "indignado".

         Segundo Nefarious, ele pode ao longo da história moldar alguns dos "homens", ao seu bel prazer transformando seres insignificantes em pessoas com destaque ( maligno) para variar.

         Margaret Sanger, por exemplo.(1879-1966), ativista e enfermeira norte americana que popularizou o "controle de natalidade" e fundou a organização Planned Parenthood, hoje uma das maiores e mais ricas indústrias do aborto. Ele cita entre as criações de seu mestre, a Coreia do Norte, da qual sente grande orgulho. Ele cita também Lizzie Borden, que tomou um machado e deu em sua mãe quarenta golpes. Quando viu o que tinha feito, deu quarenta e um em seu pai. Ele fala também do filho esquisitão de um fazendeiro bávaro e o transformou no Führer, ou Adolf Hitler. Assim como do camponês chinês que foi transformado em presidente. Todas essas personalidades, dentre outras, serviram ao propósito do mal, sendo a própria expressão do diabo, cheio de horrores e carnificina.

          Ao final da introdução ele cita a América do norte, no começo, dando um pouco de trabalho de se corromper, fazendo com que ele observasse melhor aquelas pessoas a fim de corrompê-las. Ele não cita exatamente como fez, porém, pretende fazê-lo nos capítulos seguintes.

          Lembrando que, trata-se apenas da introdução ao primeiro capítulo. Certamente que a maioria de vocês já devem ter assistido o filme. Uma adaptação cinematográfica desse livro, escrito pelo autor, Steve Deace. Eu ainda não assisti, pretendo depois de ler o livro.

           Steve é um escritor e apresentador de rádio americano. Reconhecido como uma influente voz no debate político cultural dos EUA, transmite diariamente seu programa the Steve Deace Show e escreve para o Washington Times, Today e Conservative Review. Além de Nefarious: o plano maligno, adaptado para o cinema em 2023, escreveu vários outros livros. Ele mora em Iowa com sua esposa, Amy, e seus três filhos, Anastasia, Zoe e Noah.



sábado, 28 de setembro de 2024

O DENTISTA.


        



           Novamente a dor intensa, e ainda mais dor de dente...

           Justamente hoje, segunda-feira.

           Passei a noite em claro, rolando de um lado e de outro na cama, é o dente do fundo novamente, maldito dente, bem que o Gilberto me avisou, tanto que ele falou e repetiu, eu, teimosa que sou sempre dando desculpas. Agora a conta da teimosia chegou, o pior é ter que aguentar a falação do Gilberto depois. "O que eu te falei Ana, você é teimosa", vai ser qualquer coisa começando por aí. Dessa vez vou ter que ficar quieta, ouvir calada, mesmo porque não estou com disposição para discutir.

           O relógio marca seis horas em ponto, Gilberto está roncando, como sempre.

            Não adianta eu ficar na cama sofrendo, o melhor a fazer é procurar um médico, ir no P.A tentar passar no dentista, emergência na verdade. Dentista no pronto atendimento é somente emergência, um procedimento por vez, o básico. Eu nem disse do dente quebrado no fundo da boca para o Gilberto, ele acha que é só um, do lado direito, mas do lado esquerdo também está com problema. Tempos atrás ele quebrou, agora está incomodando muitíssimo, se eu falar desse outro o Gilberto dispara a falar que não vai parar mais.

           O melhor a se fazer é sair antes dele acordar.

           Gilberto trabalha a tarde em um mercado, no setor do açougue, eu trabalho em outro mercado, na área dos caixa, também à tarde. Ambos não temos plano de saúde, bom seria se pelo menos um de nós tivéssemos, porém, para quem trabalha em comércio, sem chances.

             Houve um tempo em que o Gilberto trabalhou em uma empresa metalúrgica em uma cidade vizinha. Uma importante indústria que produz alumínio, se não me falha a memória a cidade tem esse nome também. Naquela época era bom, salário alto, plano de saúde da Unimed. Eu sei que tem muitas pessoas que criticam, falam, xingam e tal... Até confesso que algumas vezes eu fiz isso, reclamava da fila, do atendimento. Olha só onde estou agora... Se arrependimento matasse eu seria a primeira a morrer, com certeza seria. Agora tenho que enfrentar o SUS. Filas intermináveis, marcar uma consulta e conseguir uma vaga leva quase uma eternidade. Pode se dizer que é um milagre quando você consegue passar rápido no médico. Eu me arrependo de não ter aproveitado mais, depois que perdemos damos valor, é sempre assim, somos seres incorrigíveis.

            Antes de qualquer coisa tenho que mandar mensagem para minha líder. Silvana. Ela não vai gostar nada de eu ter que faltar justamente na segunda-feira.

            Pego o celular, escrevo uma mensagem básica dizendo o que estava acontecendo. Ela respondeu rápido, disse apenas "tudo bem", nem falou mais nada. Eu sei que esse, "tudo bem", não é bem isso, por dentro ela deve tá se remoendo. Silvana odeia que as meninas do caixa faltem. O Gilberto disse que conseguia pra mim lá onde ele trabalha. Faz tempo que ele fala isso, que lá é melhor, mas, a teimosa aqui fica inventando desculpas. Sinceramente, está na hora de começar a escutar mais e reclamar menos.

         Vou direto para  cozinha fazer o café.

         Há dias em que minha vontade é de desaparecer no mapa, ir para um lugar bem longe, distante de tudo, um sítio afastado da civilização estaria de bom tamanho. Por mim eu faria isso, venderia essa casa e desapareceria, mas, o Gilberto grudou o umbigo nesta cidade de um jeito que só mesmo Deus para arrancar. Quando falo com ele do sítio ele diz que somos muito novos para nos escondermos, ele diz que sítio é para pessoas mais velhas, eu discordo dele, não entendo essa recusa.

          Os primeiros raios do sol invadem o quintal, aos poucos, a escuridão da noite recua.

         É um novo dia... Que de novo não tem nada.

         Na pia da cozinha ainda restam algumas louças da noite anterior, eu bem que poderia ter lavado, mas, essa dor incômoda de dente está me tirando a paz. Antes de passar o café lavo e seco tudo. Pia limpa, enquanto a água do café está fervendo vou colocar comida e água para nosso cachorro. Eu poderia colocar as roupas para bater enquanto isso, porém, se eu for fazer isso, daqui a pouco estou limpando a casa inteira e adeus dentista. Eu preciso muito ir lá, arrancar esse dente dolorido. Se eu não tivesse protelando tanto não estaria passando todo esse perrengue. Voltando a cozinha, termino o café, tomo um golinho a pulso, hoje está difícil até para tomar um simples café. Se eu pudesse, arrancava eu mesma esse dente maldito. Deixo a mesa arrumada para o Gilberto, ele geralmente acorda somente depois das dez, graças a Deus que ele sabe se virar com o almoço, se não, eu teria que deixar tudo pronto. Volto ao quarto na pontinha dos pés, não quero acordá-lo antes do horário.

           Separo minhas roupas, toalhas e vou para o banho.

          Enquanto me preparo para o banho, me despindo lentamente, me vem à mente as reclamações do Gilberto quanto a nossas intimidades. Já faz um tempinho que não fazemos amor. Eu sei que ele está, como vou dizer, necessitado, acontece que, de uns tempos para cá, eu fiquei sem vontade para o sexo, completamente sem vontade nenhuma. Às vezes eu até tenho e quando aparece geralmente o Gilberto está no trabalho, daí me viro sozinha no banheiro, não é o ideal, mas funciona. O problema é que depois a vontade passa completamente e acabo por transar com o Gilberto meio que só para não decepcioná-lo, zero tesão. Uma das minhas amigas disse que isso acontece por causa dos remédios que tomo para dormir. Um dos efeitos colaterais dos ansiolíticos é diminuir a libido, no meu caso, a devastou completamente. Não sei mais o que fazer quanto a isso.

            Deixo a água quente percorrer o meu corpo, talvez os pensamentos ruins desapareçam junto com a espuma no ralo.

            O banho é rápido. Na maioria das vezes demora, hoje não.

             Pego a toalha e enxugo o corpo lentamente, me olhando no espelho percebo que, apesar dos quarenta, ainda conservo um corpo bonito. Os seios, a bunda, tudo em cima. Deve ser por isso que o Gilberto fica tão angustiado, tendo uma mulher "gostosa" como ele costuma dizer e não poder aproveitar como queria.

              Termino de me enxugar, me troco apressadamente, quero ir logo para o P.A enquanto tenho coragem. A dúvida é se vou de carro ou de ônibus.

       Resolvo ir de carro mesmo.

       Fiquei pensando, arrancar o dente vai doer muitíssimo, ainda mais que está meio inflamado, acho que nem anestesia direito vai pegar, meu Deus, só em pensar na dor dá vontade de desistir. Eu bem que poderia acordar o Gilberto e pedir pra ele me levar, mas não vou fazer isso. Chato do jeito que ele é, vai ficar falando e falando, colocando um milhão de empecilhos, daí sou eu quem vai ficar estressada, melhor não. 

        Pego a bolsa, as chaves do carro, dou uma última olhada no Gilberto, está roncando, nem vai me ver sair.

        Ligo o carro, abro o portão da garagem, a rua está com pouco movimento, graças a Deus por isso, eu não gosto de barulheira. Nos últimos tempos essa rua tem ficado horrível, é impossível não se estressar, mais impossível ainda é conseguir assistir alguma coisa na TV, principalmente à tarde. Um pouco mais a frente de casa, na rua que desce, o prefeito construiu uma creche, perto de duas escolas. Nos horários de entrada e saída de alunos a coisa fica horrível, até mesmo para atravessar a rua é difícil. Minha vontade era de vender essa casa e desaparecer.

           Aproveito o movimento fraco, tiro o carro da garagem.

            Tenho que ser rápida, uma das vizinhas, não exatamente vizinha, dona Cleusa que mora quatro casas a frente da nossa, está no portão. O problema é ela parar para conversar, quando começa, meu Deus, não para mais. Vou fingir que não estou vendo. Se ela vier aqui conversar, pronto, adeus dentista. 

            De canto de olho percebo que ela está olhando pra mim, abaixo a cabeça fingindo não vê-la, fecho o portão da garagem apressadamente, entro no carro e sem olhar vou pelo outro lado da rua. O certo é sair na direção dela, mas, vai que essa doida acena e me para. Não quero arriscar, então, vou pelo caminho mais longo. Fazer o quê, faz parte.

            Eu tenho duas opções de Pronto Atendimento, o da Zona Norte e o da Zona Oeste. 

            Apesar do da Zona Norte ser pertinho, prefiro o da Oeste. O P.A da zona Norte é mesmo um açougue a céu aberto, sem dizer nos barracos que acontecem  por lá diariamente. Meu Deus, não, não, melhor ir um pouco mais longe e não correr o risco. Já é ruim ficar esperando um século pra ser atendida, daí vou ser cobaia não mão de médicos que mais parecem adolescentes.

              Saindo do bairro ganho a avenida Edgard, o trânsito está tranquilo. Essa avenida vai direto na Itavuvu. Não demoro nada e entro por trás da Coop, um acesso mais fácil para Itavuvu, que infelizmente está movimentada nesse horário . Carros, ônibus, caminhões, buzinas, todo mundo estressado, desse jeito vou demorar um século para chegar. A cada semáforo, uma eternidade, fila interminável, às vezes é preciso parar pelo menos três vezes até passar pelo semáforo e chegar no próximo. Sorocaba de uns tempos para cá ficou horrível de se viver, essa é a verdade.

             Aos poucos, lentamente, semáforo a semáforo, eu chego finalmente no P.A da zona oeste, que por sinal está lotado, saudades do tempo em que eu tinha plano de saúde... Coloco o carro no estacionamento de sempre, na rua lateral ao P.A. O local é simples, pequeno, porém, o pessoal é de confiança. Por sorte, ainda encontrei lugar para estacionar. Saio do carro, pego o papelzinho do estacionamento, guardo-o no bolso, desejo sorte para mim mesma. Na verdade estou tentando disfarçar o horror que tenho de dentistas, as pernas estão tremendo até dor de barriga deu.

               Na recepção do P.A, uma fila enorme para variar, eu estranharia se não houvesse.

               Espero um, dois, dez minutos só para chegar minha vez na recepção. Faço a fixa e procuro um lugar para me encostar. 

                Sentar é impossível. 

                Antes de ser propriamente atendida pelo dentista de plantão tenho que passar pela triagem, certamente, será outra luta contra o relógio, pelo andar da carruagem, não vou sair tão cedo daqui. Os nomes das pessoas que são chamadas para triagem aparecem, são duas salas de atendimento, apesar de estar indo rápido, pela quantidade de gente, a minha vez não chega, enquanto isso, dor, espera interminável deixando ainda mais intensa  a dor, as pernas trêmulas, as mãos suando frio, aquela dor de barriga devido ao nervosismo. A vontade e de sair correndo pela porta e não voltar nunca mais nesse lugar, porém, eu não tenho dinheiro para um dentista particular, ainda que me esforçasse, eu teria que manobrar algumas contas, o Gilberto falaria uma eternidade por causa disso, portanto, desfaço essa ideia do pensamento. O jeito é aguentar, esperar, pedir a Deus forças para aguentar a dor. Com toda certeza esse dente deve de estar inflamado, uma vez nessas condições, adeus anestesia, só em pensar meu desespero se transforma.

           Passa dez, vinte, meia hora, nada, nem mesmo a triagem.

           Já irritadíssima, procuro a recepção para perguntar o que está acontecendo que não me chamam.

            Não demorou nada após a reclamação e já deram um jeito, se eu não falasse nada ficaria aqui o dia todo. Finalmente o meu nome é chamado. A pressão arterial estava um pouquinho alterada, não é para menos, não bastasse a demora havia um caminhão de nervosismo envolvido no processo. Volto ao lugar esperançosa de não ter que esperar muito, porém, ao mesmo tempo, não querendo que me chamem logo, vai entender.

           Finalmente o meu nome é anunciado.

           Entro no consultório de pernas bambas.

           Quando finalmente me sentei na cadeira do dentista, outro susto, só que dos bons. O dentista é mesmo um deus grego de olhos verdes. Se porventura existir deuses no Olimpo, eis que um deles é dentista, momentaneamente esqueço a dor, esqueço tudo, por mim, que demore o quanto for necessário. Que esse deus em forma de homem invada minha boca sem rodeios. É claro que doeu sim, e não foi pouco, porém, o cavalheirismo desse homem é qualquer coisa sem igual. Agora compreendo a fila gigante de mulheres para passar no dentista. Sinceramente, acho que vou ter que vir mais vezes.

              Sentada, de olhos grudados nos olhos verdes desse gato, deixo ele fazer o que bem entende, enquanto me perco em mil devaneios.

        Cheguei em casa um pouco antes do Gilberto sair, a primeira coisa que ele fez foi perguntar ...

         — Como foi lá amor?

         — Uma merda... Pensa numa irritação.

          Os pontos na boca incomodando na fala, ainda amortecida pela anestesia.

           — E o dentista, como foi?

           — Era uma mulher na verdade, troglodita infeliz, por mim nunca mais voltaria lá.

              Ele não diz mais nada, sai apressado para não perder o horário. É claro que não vou dizer para ele que na verdade o dentista era um poço de pecado que fez compensar toda espera e dor, não sou louca, prefiro ficar no silêncio e continuar sonhando acordada, afinal, sonhar ainda é de graça.

O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...