sexta-feira, 30 de julho de 2021

MINI CONTO 2.

 PONTO FINAL.



Mercedes acordou cedo, levantou trôpega devido ao efeito dos remédios que tomava para dormir, naquela madrugada estava mais fria do que a dos dias anteriores. Lavou o rosto às pressas na água gelada, vestiu o roupão e foi direto para a cozinha fazer o café do esposo, que levantou logo depois, tomou um banho rápido para despertar, trocou-se, colocou o uniforme da empresa na bolsa, pegou carteira, chaves, o crachá.


- Vem logo Everaldo, o café já está pronto. Gritou da cozinha.


- Estou indo mulher, espera.


Na mesa, alguns pães, mortadela, queijo. Everaldo colocou tudo no pão, encheu a xícara de café, comeu apressadamente, o horário estava apertado. Mercedes estava incomodada com a pressa com que o marido comia.


- Come devagar homem! Desse jeito nem sente o sabor das coisas direito.


-  Quer que eu perca o ônibus?


- Vai de carro ué.


- Não.


- Qual o problema?


- Já fui três vezes essa semana. E hoje é sexta-feira, você sabe como fica o trânsito, nem pensar que vou de carro.


Everaldo nem bem terminou e saiu apressado, a mulher que teve que fechar o portão. Um aceno discreto, logo sumiu na esquina. Foi ele chegar ao ponto e o ônibus encostou, entrou e foi direto à última poltrona, derramou o corpo no estofado do ônibus, nem bem o veículo saiu e já roncava encostado ao vidro. Aquele seria um dia importante, pois na próxima semana seria a última de trabalho, a aposentadoria chegou antes do esperado. Everaldo estava eufórico, ansioso. 

O ônibus chegou na firma às cinco e meia em ponto, encostou próximo ao restaurante, todos desceram, com exceção dele. Incomodado o motorista foi acordá-lo. 

Chamou uma, duas, três vezes e nada, balançou Everaldo duas vezes. Chamou novamente, duas, três, quatro vezes, nada… Everaldo não acordaria mais.







quinta-feira, 29 de julho de 2021

Mini Conto.

 SINAL VERMELHO.



É manhã, sol ameno, pouco vento, a Edward Fru-Fru está movimentada. Apenas algumas pessoas apressadas na calçada, veículos parados em um congestionamento enorme, é mais um dia eufórico na cidade de Sorocaba. Bernadete está quase a correr pela calçada, desesperada por chegar na escola de cursos profissionalizantes. Os seus pensamentos tumultuosos perambulam pela cabeça enquanto ela caminha a passos largos, desviando dos buracos no calçamento, vastas emoções e pensamentos imperfeitos.

Os dias são de trevas, de violência presente em todos os lugares e assaltos à luz do dia. De cara limpa e peito aberto os bandidos estão cada vez mais ousados, assaltam em ponto de ônibus, supermercados, em todos os lugares, machucam as pessoas, matam sem piedade. Por esse motivo Bernadete desceu no ponto mais próximo possível da escola, 'QualiMoura Cursos', na maioria das vezes que ela vai de ônibus não leva a carteira e nem o celular, um justificado excesso de prudência, tendo em vista que o seu destino fica há pouco mais de trinta metros do ponto de ônibus. Bernadete vai a passos largos, olhando de um lado para outro, desconfia de tudo e todos.

Não demora e chega ao seu destino.

A escola está vazia, são sete e meia da manhã, ela é uma das primeiras alunas a chegar. Está cursando gestão da qualidade total, um bom curso, uma junção de outros quatro; metrologia, qualidade, desenho mecânico, auditor ISO. Exigências da maioria das empresas da cidade.

Verdade seja dita, embora a escolha seja boa, Bernadete não simpatizou com o curso, mas… Desempregada (ou melhor), disponível no mercado, não está na posição de fazer escolhas, por isso ela busca as mais variadas opções possíveis, e é claro, atirar para tudo que é lado faz parte da sua estratégia.

Os demais alunos começam a chegar, passos curtos, preguiçosos, a maioria cabisbaixa, indiferentes. Aglomeram-se próximos a secretária, eles permanecem cabisbaixos, silenciosos. De repente, distraem-se com os seus celulares nas mãos e fones nos ouvidos. São poucos os que se dispõe a trocar algumas palavras com Bernadete, um e outro que perguntam qualquer coisa sem importância.

Bernadete é tímida, continua em seu canto, o mais próximo possível da sala de aula, apenas observando todo o movimento. Uma nova arremessa de alunos começa chegar - em cima do horário por sinal - a escola antes vazia agora está quase sem espaço. Aos poucos cada aluno procura a sua classe, um a um vão saindo, ainda cabisbaixos e com os seus celulares nas mãos, procurando por sua tribo e seus caciques. Quando o relógio marca oito horas em ponto, toca o sinal da escola, um barulho enjoado que machuca os ouvidos. Bernadete e demais alunos buscando cada um seu lugar de sempre. Bernadete, bem no canto da parede. 

A professora chega logo em seguida, é dia de prova, temida prova de desenho mecânico. Bernadete está confiante quanto ao seu desempenho…

Prova nas mãos, coração acelerado, depois de uma breve leitura e releitura das questões propostas, ela começa respondendo cada uma delas, com muita calma e usufruindo sabiamente de todo o tempo disponível, depois de responder tudo, 'ainda com tempo de sobra' faz uma última correção antes de entregar. Quando finalmente entregou a prova, a professora corrigiu na mesma hora, o coração em descompasso novamente. Veio a primeira notícia, 'boa notícia', tirou dez, depois veio a segunda boa notícia; a professora lhe disse, "Pode ir embora, está liberada Bernadete". 

Ela não perdeu tempo, foi apressadamente para o ponto de ônibus enfrentar mais uma parcela do suplício das esperas intermináveis, saiu novamente quase a correr, queria chegar logo em sua casa, na segurança de seu lar. 

De tanta pressa, e tão assustada que estava com alguns jovens que estavam fumando e bebendo na esquina próxima, ela atravessou a rua sem prestar atenção, o sinal estava vermelho, veio uma parati, não houve tempo de se esquivar, nem do carro frear… 

E o dia se foi, Bernadete... Também se foi...


domingo, 25 de julho de 2021

Crônica.

 LUGAR NENHUM.


Caminhos que não levam a lugar nenhum. Políticas que não resolvem a vida de ninguém.  O homem e suas manias de grandeza, de querer ser e ter além do que pode compreender e dominar, foi assim no começo e sempre será - Embora pensem dominar a opinião alheia, porém, enganam-se quanto a isso. 

O desejo oculto no coração político é desde o princípio exageradamente equivocado e egocêntrico, sempre sujeito a nefasta opinião de outros é outros, sempre corrompendo e sendo corrompido até quando não pode mais. 

Caminhos tortuosos, cansativos por vezes, pedras que durante a jornada machucam os pés - não os deles, e sim o do povo. 

Vivemos em calabouço de ossos, nossas almas desesperadas buscam a própria sobrevivência entre as migalhas que caem de suas mesas, mas, neste plano terreno, tão inferior, não existe redenção e nem redimidos. Somos o que somos, fantoches nas mãos dos mandatários.

Os meus pensamentos e sentimentos, todo o meu ser, enfim, minha existência completa se faz minúscula nesse mundo de políticos caducos e arrogantes. O tempo, nosso tempo,  revelou-se com indesejáveis correntes presas em nossos pés, estamos presos por impostos inexplicáveis criados por vampiros. No presente, preso ao passado, desejando o futuro que nunca acontecerá. 

Não somos nada, somos tudo em todos de nós. Passado, presente, futuro, a mesma coisa no mesmo lugar acontecendo simultâneamente sempre do mesmo jeito. Estou cansado de políticas mentirosas e sem sentido.

Vejo e sou um entre pessoas apressadas todos os dias. É sempre assim, certas coisas parecem não mudar nunca. Corremos atrás do vento, buscamos o que não sabemos ainda. A humanidade está em pleno declínio, silencioso abismo que se abre diante de nossos pés, engolindo suas muitas vítimas nas profundezas do esquecimento eterno. 

Sei… Nada parece fazer sentido em nosso parlamento de marionetes, concordo em partes, realmente olhando de uma única perspectiva, nada parece fazer sentido. Os últimos anos tem sido assim, acontecendo sem sentido, correndo aleatório nos trilhos dos dias. Um após o outro, ponteiros que nunca param… Tic, tac, a hora é agora. 

Amanhã será um novo dia, novas oportunidades, novos momentos?

Quem sabe?

Embora, para muitos, é apenas a continuidade do suplício do dia anterior. Quantas vezes ensaio a desistência, mas a sorte… Bom, ela sempre se esquiva de mim. Sou apenas um no meio dessa multidão de controlados. Um dia qualquer, uma tarde qualquer, sol se pondo, na esquina não sou ninguém; mais um na multidão de anônimos de nossa redação.

Às vezes fico confuso, indigesto. Escrevo palavras que raramente são lidas, palavras nas páginas do jornal, esquecidas nas bancas, deixado de lado. Não lido nos blogs.

Voltando a política... 

Não há muito o que dizer... CPI que parece mais uma piada, um circo. Se vai ter resultado não sei, no entanto, é até engraçado assisti-los, debatendo temas com convidados pra lá de irritantes. Acusadores que também são acusados, caluniadores que também são caluniados. Como dito no início da crônica: "Caminhos que não levam a lugar nenhum". 

( A. L )


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...