domingo, 4 de agosto de 2024

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


      

      RABISCOS NO PAPEL.


   O silêncio profundo na manhã de domingo...

   O silêncio profundo... Nada parece se importar, enquanto todos se tornam ausentes, distantes, apenas o frio soprando por debaixo das portas, nas frestas das janelas, em cada canto.  Eu também sou inconstante, e de repente, me vejo sem lugar... Talvez seja o abismo existencial me corroendo por dentro, o tempo todo, todo o tempo.

    O Silêncio profundo continua em seu mergulho no oceano de palavras que nunca foram ditas. O beijo quente que nunca aconteceu, o perfume suave, o toque mágico, quente, ardente, que me enlouquece todas as vezes.  A vida tomou o palco das nossas mentes fantasiosas, mentes insanas, e a fantasia por sua vez, fez da vida um teatro de sombras.

        É domingo.

        Silêncio.

        Nada podemos dizer, entretanto, no palco da imaginação tudo podemos fazer. O café está servido. Derramo um pouco em minha xícara, o vapor da fumaça subindo, tremulando, dançando, rodopiando diante de meus moribundos olhos. Bolachas, pães, pizzas do dia anterior, degustar o café quente, saboroso. Talvez seja esse o destino, mas, afinal, existe mesmo o destino? Seria ele o responsável por criar tudo a seu bel prazer? Às vezes penso que, nós somos os sabotadores do tempo e da vida, tanto das lutas quanto das derrotas acumuladas. Não quero ficar pensando em meus desgraçamentos, na minha vivência maluca e sem sentido. Poeta da solidão que eu me tornei nestes anos. Tendo apenas o sorriso de uma admiradora, os olhinhos ligeiramente puxados debaixo de um gracioso óculos, filha de Júpiter, jovial, sempre atenta com o que escrevo.

      O silêncio profundo na manhã de domingo, os pássaros cantam do lado de fora, a natureza festeja, os homens choram, somos o que desejamos ser, mas, aquilo que desejamos ser não corresponde com o quê de fato deveríamos nos tornar.

    Somos sucessivos aos erros e tentativas, até que haja um ponto certo na imensidão das nossas falhas. Livra-nos ó Deus, livra-nos de nossos eus, de "meus eus", é domingo, finalmente, silêncio momentâneo.

Me sirvo de café pela segunda vez enquanto escrevo essa crônica, à fumaça bailarina sobe rodopiano, o cheiro gostoso do café invade as narinas. Sentado em uma cadeira, estico as pernas para alcançar a outra, 'é minha posição preferida', sigo na incessante busca de qualquer coisa que alegre o coração, e que também diminua a dor da alma.

       É dia de folga,

       Portanto, angústia seguida de descanso e consequentemente, angústia após o descanso, uma vez que, 'minha ansiedade', o meu sofrer 'antecipadamente', me faz triste, menor a cada dia. Não desejo me alongar, o muito falar causa enfado, ainda está silêncio… Ah, que pequeno paraíso terrestre, pena que, daqui a pouco, será maculado com o som de uma cidade que acorda enfurecida.

           Com pressa… 

           Vamos, andem…

           Estou atrasado…

           Buzinas para todos os lados...

           Sai da frente…

           É a cidade despertando, os vizinhos brigando, assim continua o movimento de cada dia. Quisera eu as glórias passadas, os meus dias de infância na fazenda Lindóia, em cima do pé de jambo, o tempo áureo aprisionado na memória… O tempo não volta mais, nunca mais caríssimos, nunca mais....

        Contudo, o meu tempo nunca mais será logo ali na próxima esquina, ou em qualquer outra ,aliás, quem sabe, se dessa vez o destino não me valer, meu silêncio se tornará profundo e eterno, e as minhas palavras serão apenas rabiscos no papel.



sábado, 3 de dezembro de 2022

Crônica de domingo.

 



INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO.


   PARTE  FINAL.


   A primeira impressão que eu tive do seminário foi arrebatadora, todo o conjunto arquitetônico era de uma beleza sem igual, em cada detalhe, cada tijolo,  tudo era magnífico. No seminário de Arujá fiquei em um alojamento pequeno, por nome, cela. Um pequeno quarto, uma cama, banheiro, e um guarda roupas igualmente pequeno, tudo compacto e simples. A casa maior, ou, seminário maior, era um prédio extenso, de quatro andares. Onde também havia salas de aulas e todos os alojamentos.

 No dia seguinte, fomos despertados às seis da manhã, era regra, igualmente no exército, tínhamos que fazer a barba todos os dias, deixar a cama arrumada e lençóis dobrados. Feito isso, íamos para a capela, fazíamos as orações iniciais, logo em seguida era a missa, toda em latim, para somente depois desfrutarmos do café da manhã. Tudo era feito com ordem e decência. Era como se fossemos pequenos soldados.

   Inicialmente, a formação obedecia o seguinte rito. Começava com o candidatado, com duração de três meses. Depois o noviciado; foram dois anos de formação em humanidades, em Arujá ou Curitiba. Concluído esse período, o seminarista teria que viajar para fora do país, provavelmente Espanha, em Salamanca, onde se formaria em Filosofia. Passada essa fase, o seminarista era direcionado para Roma, na Itália, ali teria a fase final, cinco anos de estudos e formação teológica. Basicamente, esse é o cronograma para formação sacerdotal do legionário. 

   Eu não passei da primeira fase, no qual abrangia os três meses iniciais. Embora eu os tenha concluído, não tive autorização para continuar. Os padres me disseram que eu deveria voltar para minha casa e repensar e voltar depois de um ano, caso ainda tivesse certeza da vocação, um ano depois poderia retornar. Na época eu morava com a minha avó, ainda não havia concluído o terceiro colegial. Eu tinha convicção da minha vocação, não compreendia a negativa deles.

   Aceitei, triste é claro, mas não havia o que fazer. Retornei para casa da minha avó, dela, recebi o abraço e o olhar acolhedor de quem sabia que por detrás daquele rostinho cabisbaixo tinha um coração machucado. Os amigos fizeram mil piadas, tive que aguentar tudo. A vida voltou ao seu normal no início daquele ano, escola, trabalho, aos poucos eu fui compreendendo que realmente eu deveria me reavaliar. É claro que foi uma ótima experiência de vida, os ensinamentos que tive, as aulas, as amizades, está tudo no cofre do peito. Agradeço a cada um dos que fizeram parte da minha vida naquele período tão maravilhoso.

   A minha vida seguiu por trilhos bem diferentes depois do seminário. Um ano após ter voltado, eu mudei de religião, o retorno ao seminário jamais aconteceria, mas, os ensinamentos que tive levo-os para a vida toda, ainda nos tempos de hoje lembro-me da oração do pai nosso em latim. A nova religião não me afastou de ninguém, nem me mudou, pelo contrário, continuei com os mesmos amigos nos círculos católicos. A minha mãe é ministra na igreja católica, assídua frequentadora, minha avó também. A vida seguiu o seu curso, tenho apenas que agradecer por tudo. Que o altíssimo abençoe grandemente cada padre, amigos, seminaristas que nunca mais vi. Tenho-os em meu coração, e uma saudade que não cabe no peito. Eu poderia estender essa crônica por muitas outras semanas, contando detalhes das vivências, das descobertas, dos micos e coisas engraçadas que ocorreram, porém, vejo por bem terminar por aqui, quem sabe em outra oportunidade eu volte a falar dessas, aventuras e desventuras desse que vos escreve.

    ( Ut benedicat tibi Deus omnia. )


domingo, 27 de novembro de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 



INSPIRAÇÕES DO CLAUSTRO.


   PARTE 2.


   A van estacionou em frente a casa da minha avó, era o fim de tarde do domingo, o relógio escalava as horas enquanto o sol declinava no horizonte, ficando os últimos lampejos. Minha tia foi quem me chamou, dizendo que os padres haviam chegado, eram dois rapazes bonitos e altos, disse ela. Eu terminei de revisar minha mala, estava muito ansioso. Os dois padres desceram as escadas que davam acesso a casa da minha avó, que ficava ao fundo. Eles estavam descontraídos, risonhos e alegres, como da primeira vez em que vieram me visitar. O meu coração batia em descompasso, lá no fundo da minha alma despontava uma fagulha de medo e incerteza, de repente, eu poderia estar me precipitando, porém, tratei de sufocar aquelas ideias insanas no calabouço da mente.

   "Pronto para uma nova jornada em sua vida?Essas foram as primeiras palavras do padre Juan, "Sim, claro", respondi, repetidamente, entre sorrisos tímidos. Na casa da minha avó estavam presentes minha mãe, prima, tia, tio, enfim, uma galera. Depois de alguns minutos de conversas, peguei a mala, me despedi de todos, lágrimas e abraços. Ganhei a rua, para minha surpresa, todos os vizinhos saíram na calçada para um último aceno ao jovem que pretendia dedicar sua vida ao sacerdócio e serviço a Deus. Meio que sem querer, escutei de algumas colegas, que ali figuravam entre os vizinhos, os dizeres do tipo: " tão novo e vai ser padre", e, "nossa, que desperdício". Não dei atenção para aquelas palavras, porém, nunca as esqueci.

   Seguimos viagem rumo a cidade de Arujá, eu estava ansioso para chegar, imaginei que era logo ali, como fui ingênuo, era um trajeto cansativo, tornou-se mais por não conhecê -lo. Lembro-me apenas da rodovia presidente Dutra, o relógio escalou lentamente as horas, aos poucos o nervosismo foi passando, a mente trabalhando enquanto refletia na minha decisão. Em determinado momento, a luz do sol declinou no horizonte, a escuridão estendeu os seus longos braços, as estrelas cintilavam no céu, eu não sabia exatamente onde estávamos. De repente, saímos da rodovia e entramos em uma rua de terra, estreita, caminho tortuoso, com subidas e descidas, ladeado por matas densas de ambos os lados.

   Confesso que fiquei com medo, pensando onde estaria me levando, foi quando então a luz do veículo se deparou com um grande portão de ferro fixado em duas colunas de tijolos vermelhos. A parte de dentro era toda em pedra, semelhante a ruas de algumas cidades históricas, lajotas de pedras em formato hexagonal. O caminho tinha uma leve subida com uma curva acentuada à direita. Um dos padres abriu o portão, entramos, o meu coração voltou a bater descompassado, quando o veículo terminou a subida virando a direita, descortinou-se diante dos meus olhos o seminário Legionários de Cristo. Embora a noite, as luzes, a capela principal, o restaurante, os aposentos dos novatos, recém chegados, como eu, havia outro complexo maior onde ficavam os seminaristas. Fiquei maravilhado com o que se desenhava diante dos meus olhos. Entramos no refeitório, eu e os dois padres fomos servidos com uma pequena refeição servida por outro padre, afinal, não havíamos jantado. O passo seguinte foi me levar até os meus aposentos. Eu finalmente seria um padre, pensei.


   

O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...