domingo, 1 de maio de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO

 



                       FORTE BASTIANI.


Ainda sem um assunto definido para a crônica, comecei a pensar nos livros que eu tenho em casa, em cada título, em seus personagens e tramas. O momento que estou vivendo agora, por exemplo, em casa e no trabalho, me fez pensar em um título, que surgiu agora na memória, portanto, me sinto no próprio, "Deserto dos Tártaros", escrito por Dino Buzzati Traverso (San Pellegrino di Belluno, 16 de outubro, 1906 — Milão, 28 de janeiro, 1972). Quero falar um pouco desse belíssimo livro e do autor no espaço da crônica deste domingo.

Dino Buzzati foi um escritor italiano, bem como jornalista do Corriere della Sera. Sua fama mundial se deve principalmente ao seu romance - Deserto dei Tartari, de 1940, traduzido para português como O Deserto dos Tártaros. Dino Buzzati detém um estilo inconfundível,( que particularmente eu amo ) que não obedece a modas e etiquetas, explorando sempre uma visão fantástica e absurda do real. A sua obra está traduzida em inglês, francês, alemão e espanhol e difundida largamente em todo o mundo.

O escritor serviu ao exército e saiu como sargento. Essa experiência serviu para que escrevesse essa obra-prima antes da Segunda Guerra Mundial. Segundo o autor, o romance veio num jorro, numa madrugada quando voltava do jornal para casa. A ideia aconteceu na monotonia do turno da noite, quando trabalhava no Corriere della Sera, naqueles dias. A sensação da rotina que nunca acabava e consumia a vida do autor fez com que o romance acontecesse rapidamente. ( Quem nunca se viu engolido pela exaustiva rotina do trabalho... Eu que o diga ... )

A narrativa nos apresenta Giovanni Drogo, jovem tenente enviado ao forte Bastiani localizado em uma colina totalmente isolada do mundo, onde o Forte é erguido. Um grande deserto, absolutamente isolado de tudo e de todos. A princípio, Drogo nutre grandes expectativas quanto a nova função, pensando no esplendor da carreira, pronto a defender o forte. ( Todos nós temos o nosso forte Bastiani, onde nos isolamos das loucuras deste mundo ).

Quando Drogo chega no forte, admirado com suas muralhas e sentinelas, cheio de sonhos, o tenente Giovanni Drogo anseia pela glória militar no campo de batalha, e isso nunca aconteceu no Forte Bastiani. Apesar de alguns oficiais de idade tentaram animá-lo dizendo que os tártaros ainda estão lá se preparando para a guerra, e que a melhor atitude é esperar, esperar e esperar. Drogo encontra senão um lugar praticamente abandonado, parado. O tenente se vê frustrado, fadado ao esquecimento em um forte onde nada acontece. Entregue a solidão, a monotonia, em uma rotina que nunca termina, Drogo perde-se no tempo, sempre esperando que a qualquer momento o forte seja atacado, porém, o ataque nunca acontece.

Esse é um romance filosófico, que fala do tempo, de tudo que perdemos e deixamos de fazer quando somos acorrentados pela rotina contínua de afazeres que desbotam o viço da juventude. Se o romance perde em ação ganha em momentos de reflexão sobre a vida, o que parece familiar para quem já parou para pensar se nós estamos fazendo o melhor uso do tempo que temos na terra. Quem já não se sentiu como o próprio Drogo. Às vezes me vejo como ele, entregue ao meu forte Bastiani, fadado ao esquecimento, diante de almas mortas e olhos cegos. O autor tem uma narrativa fantástica. Esse é aquele livro que ao iniciar a leitura, não dá vontade de parar.

Acredito que todos nós, em algum momento de nossas vidas, temos experiências e sensações muito semelhantes a do personagem, todos somos Drogo em sua agonia existencial preso a rotina de um momento que aparentemente, parece não ter mais fim. Para aqueles que não leram, recomendo fortemente o livro.



segunda-feira, 25 de abril de 2022

POESIA.

 A xícara de café.


O líquido escuro na xícara vermelha, a fumaça subindo e

tremulando, ele a observa até que ela lentamente

   desaparece no ar, mil pensamentos rastejando em seus

   desavisados neurônios, terríveis desejos descontrolados.


   Outro pequeno gole da bebida escura exageradamente

    doce, ele completa a xícara uma vez mais, está confuso

    e inserto no que deveria de fazer, são possibilidades que

    lhe parece inviável, mas o desejo, é mais forte que ele.


   Sem que perceba, a xícara está vazia, e pela terceira vez

   derrama a fumacenta bebida, assopra, toma outro gole

   que lhe queima os lábios, no susto, derrama sobre a mesa.


    Enquanto a fumaça teimosa sobe dançarina se esvaindo

    no ar, os seus pensamentos estão nela, ele a ama, mas não

    pode se declarar a um amor cheio de impossibilidades.

domingo, 24 de abril de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO

           



                         FINAL DE TARDE.


   Desavisadas nuvens dispersas pelo azul celeste, tarde movimentada na rua da minha casa. Carros apressados que passam, buzinando, freadas bruscas em frente a lombada. Alguns motoristas são mais atentos e prudentes, mãos firmes no volante, passando na velocidade correta da via, outros, descuidados, dividem a direção com o celular ou uma lata de cerveja, quase batendo, quase atropelando. É a rotina do trânsito de todos os dias.

   Uma brisa suave começa a soprar, o sol lentamente vai descendo no horizonte, trazendo tons de vermelho e laranja incríveis, uma obra prima do criador. Todos os finais de tarde são pinturas em pleno céu, é de encantar o olhar de qualquer artista.

   De frente a minha casa tem uma creche, da sacada é possível ver quase todo o interior dela, espaços muito bem aproveitados, de uma arquitetura admirável. O barulho das crianças é intenso, correndo e gritando o tempo todo, deixando as funcionárias malucas. Gravei o nome de algumas crianças, que por terem os nomes tantas vezes repetidos considero os mais arteiros. O intervalo dos pequenos termina rapidamente, alguns carros começam a estacionar do outro lado da rua, acredito ser os pais de alguns deles chegando para buscá-los. Não é somente a creche que tem em frente a minha casa, outras duas escolas foram construídas abaixo da creche. Uma delas, "Osmar de Almeida", outra, "Hélio del Cistia", a segunda é a escola da minha filha. Então, os senhores leitores podem imaginar quão movimentada é a rua da minha casa. 

   Faces e sorrisos, mães que passam com os filhos sendo puxados, outros, sendo segurados para não atravessarem a rua. O movimento de carro se intensifica, à medida que os alunos da Escola Osmar de Almeida estão saindo. É um verdadeiro desfile de carros das mais variadas marcas e cores. Novamente a rua trava, buzinas, manobras, e no meio de tudo isso motos e mobiletes barulhentas. É impossível assistir alguma coisa nesse horário na sala de casa.

   O dia vai dando adeus, cedendo lugar ao começo de noite. A brisa antes suave começa a ficar fria, ardendo na pele. Os últimos raios de sol desaparecem, lentamente a noite estica os seus longos e escuros braços, trás consigo as primeiras estrelas, o frio é mais intenso.  A rua continua com movimento forte de carros, provavelmente motoristas que estão vindo do trabalho, apressados seguem caminho para suas casas.

   A noite chega, com ela o quase silêncio, a rua antes cheia de vida e de barulho agora cochila, exibe ainda alguns transeuntes oriundos da própria noite. A infinidade de estrelas cobrem o céu de um lado a outro. O que seria dessa tela escura sem a beleza reluzente de cada uma delas? A dama da noite não poderia ser outra. Luar majestoso que surge com toda pompa, em todo o seu resplendor. Não sei dizer qual tela é mais bela, a do fim de tarde ou da noite. Sei apenas que as obras do criador são perfeitas. As horas que passei na sacada de casa para escrever essa crônica foram maravilhosas... Ver, ouvir, sentir a vida pulsando em cada canto, em cada detalhe, terminarei dizendo que... O senhor é bom o tempo todo e o tempo todo o senhor é bom.





O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...