segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Mini conto 4

 CONSIDERAÇÕES. 


É algo estranho, difícil de explicar, no exato instante em que estamos juntos, a impressão é de estarmos distantes um do outro; quanto mais nos conhecemos, menos conhecidos somos. É explicar o inexplicável, é entender o não entendido. O amor é tudo, um pouco mais do que tudo, e ainda não alcança uma gota do que realmente é. Por tal motivo não aconselho aos corações juvenis a paixão nem o amor, talvez amar seja correr riscos desnecessários, talvez esse sentimento seja cruel e impiedoso, esmagador de todo e qualquer coração que a ele se dedique. É algo estranho, insano, insensato, a loucura do prazer absoluto. A vida calma e tranquila que pensamos ter, inverso de uma existência agitada, termina quando começamos a amar, quando finalmente nos deparamos com o amor. Esse amor cujos olhos encontram-se eternamente vendados, deverá, mesmo sem a sua visão, encontrar rumos para os seus desejos? Talvez o amor seja uma fumaça que se eleva com o vapor dos suspiros, ou seja, um oceano nutrido de lágrimas dos amores proibidos. O que mais é o amor? Diga-me você. O que é o amor? Talvez a mais discreta das loucuras, um fel que sufoca, ou doçura que preserva. Sei apenas que este sentimento é coisa estranha, da qual ninguém compreende, mesmo pensando compreender tudo não o alcança. Somos alvos fáceis das flechas envenenadas do amor, guardadas por um cupido mórbido, sombrio e sem razão. As grandes emoções oriundas da alegria ou dor, exerce tal peso sobre nós ao ponto de nos esmagar no primeiro momento, paralisando todas as nossas forças no mesmo instante. 

São apenas considerações deste poeta sem nome. 

Este décimo sexto dia foi calmo, o beija-flor, no entanto, aquele mesmo de outrora, retornou no primeiro luzir da aurora, junto a mim, está. Escrevo o que a alma dita no silêncio da noite, e nos enigmas de cada dia, vou me revelando em cada linha ocultamente indiscreta. Não tenho muito a dizer, são apenas considerações. Lá está ela, vestida de preto, vestes curtas, seios fartos com o decote delineado a curva interna que se encontra e se espremem. As suas é de uma beleza indescritível, é jovem, bela, um beija-flor. Anita desfila sua beleza, os amigos de repartição a devoram com os olhos, é sempre assim, sempre a mesma coisa. Depois vêm a traição, a vítima escolhida, sexo, bebidas, esquecimento. No dia seguinte nada mais importa. Lembro-me de um tempo em que Anita era apenas minha, hoje, ela é de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Lá está ela, a viúva negra, seduz suas vítimas, e após saboreá-las, e de devorá-las, as envenenam e a deixa morrer. De alguns nada restou, quanto a mim, sou apenas parte de seu passado, sou palavra jogada ao vento, considerações.


domingo, 1 de agosto de 2021

Mini conto 3

 A CIDADE DORME.


A segunda-feira se faz calorosa, corrida, cheia de compromissos aqui e acolá, de um lado a outro, quase sem tempo para nada. O coração inquieto, pedindo sossego, descanso, calmaria, alento, mas, o que tenho senão inquietação de uma alma atordoada, ferida, manchada e sem desejo nenhum.

A segunda-feira, como eu já imaginava, surgiu cheia de contratempos, e logo nas primeiras horas após o café enfrentei o trânsito, xingamentos dos motoristas, filas, estacionamentos lotados, enfim, um pouco de tudo em apenas um único dia.

É a segunda-feira pulsante, Itavuvu congestionada, obras a passos de tartaruga, a cidade pede socorro, grita, urge… Somos todos cegos.


— No mercado Já cedo seu Benedito.

Disse o guarda.


— Vida de aposentado é dureza meu filho, pensa que é fácil, não ter nada para fazer… É dureza meu camarada.


Lá foi seu Benedito fazer a feira do dia.

Os dias têm sido assim, um amontoado de acontecimentos, aventuras e desventuras que nos deixam malucos. São tantas coisas a serem feitas em tão escasso tempo que fica essa sensação ruim, esse sentimento de impotência. Entre um compromisso e outro, no quase escasso tempo, rascunho a minha porção diária na mente, logo a esqueço.

Quisera eu ser como seu Benedito. Aposentado, tranquilo, mas, os dias são outros, as leis também.

O sol está forte agora, calor intenso, hoje vai ser mais um dia daqueles em que no final da tarde o mundo desaba em água…


A noite surge ligeira, uma brisa suave e quase fria sopra do norte, o céu está repleto de estrelas cintilantes, dançarinas do escuro véu. O meu coração bate apertado, está dolorido, e a causa principal dessa dor… Sim, é o beija-flor; aquele mesmo de outrora. Lembro-me com o coração aos pedaços, desfeito em saudades. Talvez o beija-flor volte, talvez não, espero que retorne logo, embora a razão venha a me contradizer.

O restante da noite seguirá o seu curso, correria e correria dos seres noturnos, nada, além disso, ao final, tudo se acalma novamente, e finalmente reinará momentâneo silêncio.

A cidade dorme agora para este poeta sem nome.


CRÔNICA DE DOMINGO.

 ILUSÕES PERDIDAS.


Olá, amiga!

Perdoe-me por incomodá-la, ainda que seja através das perecíveis palavras de uma crônica, página quase não lida nos jornais, desejo do olhar alheio de poucos.

Estou em um refúgio... O conheces bem... Lembra-te da nossa infância? Certamente recordará do lugar que descrevo.

De onde estou agora, bem a minha frente, cercada de grandes árvores, no deitar de uma harmoniosa tarde, quase toscana, em uma casa à beira de um riacho, eu escuto o som de uma música pra lá de brega.

Talvez seja um churrasco de despedida do Domingo que se desfaz em pedaços melancólicos. Talvez algum escravo do sistema, operário da servidão mundana, extremamente angustiado por saber que no outro dia se ocupará da laboriosa tarefa de fazeres universais tão odiosos, buscando na bebedeira a razão para não ter emoção. Assim como nós fizemos em muitas das vezes, 'lembra', quando ficávamos na expectativa do dia de amanhã, que nada mais seria a mesma coisa de todos os outros dias, sem nenhuma novidade que embale o coração. 

Embora... Para essa que vos escreve, vê-la, ouvi-la, torna-se uma satisfação completa. Quantas saudades tenho de ti.

Mas... Estamos presas em nossos mundos de fantasias literárias, ilusões perdidas.

Não somos o que gostaríamos de ser, na verdade, nos tornamos o que mais repudiavam, justamente o objeto de nosso ódio completo. A vida é assim, andando sempre na contramão dos nossos sonhos para sobreviver na expectativa de alcançar o inalcançável.

Sei que como eu, você também se detém nas amarras indestrutíveis do ofício à qual nos prende em ordenanças bestiais por diferenças desconexas à realidade que as cercam. Aqueles que conhecem o sistema geralmente são desprezados, destituídos e envergonhados, simplesmente para alimentar egos vazios dos que pensam saber. O mundo clama por gritos ferozes de liberdade minha pequena rainha, quando na verdade o que ele tem são peidos secos.

Sei que estou exagerando hoje minha amiga, isso não é novidade para você não é mesmo. Espero não estar sendo enfadonha contigo meu bem, às vezes, não consigo controlar os meus pensamentos e impulsos, minhas insanidades, a prosa que verte do meu pálido coração. Quando estou em crises internas, é você a única a me compreender e que me ama mesmo em face de meus erros. Amando a escrita como eu amo, compreende o que se passa nos recônditos mais ocultos de meu coração.

Mais uma vez estou fugindo da realidade, era para ser outra crônica qualquer, porém, emoções roubaram toda minha razão, entreguei-me a emoção de jogar o coração no papel. Estou tranquila quanto a isso, o Tiago me compreende bem, embora ele não a conheça ainda, sei que quando a conhecer, vai se impressionar com a candura e pureza que veste sua alma.

Estou ainda engatinhando no campo das crônicas, relatei muito com o Tiago em aceitar fazer parte de seu projeto, mas, ele me convenceu é aqui estou, é ótimo um poeta, conhece bem as palavras e as sabe usar bem. É um projeto para este ano unicamente, eu já participei de outros trabalhos em seus livros, ( poesias ), de crônica é o primeiro e único, eu acho.

Despeço-me sem mais delongas caríssima, espero vê-la logo, talvez trabalharmos juntas em algum projeto maluco.



( L. B )


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...