domingo, 1 de agosto de 2021

CRÔNICA DE DOMINGO.

 ILUSÕES PERDIDAS.


Olá, amiga!

Perdoe-me por incomodá-la, ainda que seja através das perecíveis palavras de uma crônica, página quase não lida nos jornais, desejo do olhar alheio de poucos.

Estou em um refúgio... O conheces bem... Lembra-te da nossa infância? Certamente recordará do lugar que descrevo.

De onde estou agora, bem a minha frente, cercada de grandes árvores, no deitar de uma harmoniosa tarde, quase toscana, em uma casa à beira de um riacho, eu escuto o som de uma música pra lá de brega.

Talvez seja um churrasco de despedida do Domingo que se desfaz em pedaços melancólicos. Talvez algum escravo do sistema, operário da servidão mundana, extremamente angustiado por saber que no outro dia se ocupará da laboriosa tarefa de fazeres universais tão odiosos, buscando na bebedeira a razão para não ter emoção. Assim como nós fizemos em muitas das vezes, 'lembra', quando ficávamos na expectativa do dia de amanhã, que nada mais seria a mesma coisa de todos os outros dias, sem nenhuma novidade que embale o coração. 

Embora... Para essa que vos escreve, vê-la, ouvi-la, torna-se uma satisfação completa. Quantas saudades tenho de ti.

Mas... Estamos presas em nossos mundos de fantasias literárias, ilusões perdidas.

Não somos o que gostaríamos de ser, na verdade, nos tornamos o que mais repudiavam, justamente o objeto de nosso ódio completo. A vida é assim, andando sempre na contramão dos nossos sonhos para sobreviver na expectativa de alcançar o inalcançável.

Sei que como eu, você também se detém nas amarras indestrutíveis do ofício à qual nos prende em ordenanças bestiais por diferenças desconexas à realidade que as cercam. Aqueles que conhecem o sistema geralmente são desprezados, destituídos e envergonhados, simplesmente para alimentar egos vazios dos que pensam saber. O mundo clama por gritos ferozes de liberdade minha pequena rainha, quando na verdade o que ele tem são peidos secos.

Sei que estou exagerando hoje minha amiga, isso não é novidade para você não é mesmo. Espero não estar sendo enfadonha contigo meu bem, às vezes, não consigo controlar os meus pensamentos e impulsos, minhas insanidades, a prosa que verte do meu pálido coração. Quando estou em crises internas, é você a única a me compreender e que me ama mesmo em face de meus erros. Amando a escrita como eu amo, compreende o que se passa nos recônditos mais ocultos de meu coração.

Mais uma vez estou fugindo da realidade, era para ser outra crônica qualquer, porém, emoções roubaram toda minha razão, entreguei-me a emoção de jogar o coração no papel. Estou tranquila quanto a isso, o Tiago me compreende bem, embora ele não a conheça ainda, sei que quando a conhecer, vai se impressionar com a candura e pureza que veste sua alma.

Estou ainda engatinhando no campo das crônicas, relatei muito com o Tiago em aceitar fazer parte de seu projeto, mas, ele me convenceu é aqui estou, é ótimo um poeta, conhece bem as palavras e as sabe usar bem. É um projeto para este ano unicamente, eu já participei de outros trabalhos em seus livros, ( poesias ), de crônica é o primeiro e único, eu acho.

Despeço-me sem mais delongas caríssima, espero vê-la logo, talvez trabalharmos juntas em algum projeto maluco.



( L. B )


sexta-feira, 30 de julho de 2021

MINI CONTO 2.

 PONTO FINAL.



Mercedes acordou cedo, levantou trôpega devido ao efeito dos remédios que tomava para dormir, naquela madrugada estava mais fria do que a dos dias anteriores. Lavou o rosto às pressas na água gelada, vestiu o roupão e foi direto para a cozinha fazer o café do esposo, que levantou logo depois, tomou um banho rápido para despertar, trocou-se, colocou o uniforme da empresa na bolsa, pegou carteira, chaves, o crachá.


- Vem logo Everaldo, o café já está pronto. Gritou da cozinha.


- Estou indo mulher, espera.


Na mesa, alguns pães, mortadela, queijo. Everaldo colocou tudo no pão, encheu a xícara de café, comeu apressadamente, o horário estava apertado. Mercedes estava incomodada com a pressa com que o marido comia.


- Come devagar homem! Desse jeito nem sente o sabor das coisas direito.


-  Quer que eu perca o ônibus?


- Vai de carro ué.


- Não.


- Qual o problema?


- Já fui três vezes essa semana. E hoje é sexta-feira, você sabe como fica o trânsito, nem pensar que vou de carro.


Everaldo nem bem terminou e saiu apressado, a mulher que teve que fechar o portão. Um aceno discreto, logo sumiu na esquina. Foi ele chegar ao ponto e o ônibus encostou, entrou e foi direto à última poltrona, derramou o corpo no estofado do ônibus, nem bem o veículo saiu e já roncava encostado ao vidro. Aquele seria um dia importante, pois na próxima semana seria a última de trabalho, a aposentadoria chegou antes do esperado. Everaldo estava eufórico, ansioso. 

O ônibus chegou na firma às cinco e meia em ponto, encostou próximo ao restaurante, todos desceram, com exceção dele. Incomodado o motorista foi acordá-lo. 

Chamou uma, duas, três vezes e nada, balançou Everaldo duas vezes. Chamou novamente, duas, três, quatro vezes, nada… Everaldo não acordaria mais.







quinta-feira, 29 de julho de 2021

Mini Conto.

 SINAL VERMELHO.



É manhã, sol ameno, pouco vento, a Edward Fru-Fru está movimentada. Apenas algumas pessoas apressadas na calçada, veículos parados em um congestionamento enorme, é mais um dia eufórico na cidade de Sorocaba. Bernadete está quase a correr pela calçada, desesperada por chegar na escola de cursos profissionalizantes. Os seus pensamentos tumultuosos perambulam pela cabeça enquanto ela caminha a passos largos, desviando dos buracos no calçamento, vastas emoções e pensamentos imperfeitos.

Os dias são de trevas, de violência presente em todos os lugares e assaltos à luz do dia. De cara limpa e peito aberto os bandidos estão cada vez mais ousados, assaltam em ponto de ônibus, supermercados, em todos os lugares, machucam as pessoas, matam sem piedade. Por esse motivo Bernadete desceu no ponto mais próximo possível da escola, 'QualiMoura Cursos', na maioria das vezes que ela vai de ônibus não leva a carteira e nem o celular, um justificado excesso de prudência, tendo em vista que o seu destino fica há pouco mais de trinta metros do ponto de ônibus. Bernadete vai a passos largos, olhando de um lado para outro, desconfia de tudo e todos.

Não demora e chega ao seu destino.

A escola está vazia, são sete e meia da manhã, ela é uma das primeiras alunas a chegar. Está cursando gestão da qualidade total, um bom curso, uma junção de outros quatro; metrologia, qualidade, desenho mecânico, auditor ISO. Exigências da maioria das empresas da cidade.

Verdade seja dita, embora a escolha seja boa, Bernadete não simpatizou com o curso, mas… Desempregada (ou melhor), disponível no mercado, não está na posição de fazer escolhas, por isso ela busca as mais variadas opções possíveis, e é claro, atirar para tudo que é lado faz parte da sua estratégia.

Os demais alunos começam a chegar, passos curtos, preguiçosos, a maioria cabisbaixa, indiferentes. Aglomeram-se próximos a secretária, eles permanecem cabisbaixos, silenciosos. De repente, distraem-se com os seus celulares nas mãos e fones nos ouvidos. São poucos os que se dispõe a trocar algumas palavras com Bernadete, um e outro que perguntam qualquer coisa sem importância.

Bernadete é tímida, continua em seu canto, o mais próximo possível da sala de aula, apenas observando todo o movimento. Uma nova arremessa de alunos começa chegar - em cima do horário por sinal - a escola antes vazia agora está quase sem espaço. Aos poucos cada aluno procura a sua classe, um a um vão saindo, ainda cabisbaixos e com os seus celulares nas mãos, procurando por sua tribo e seus caciques. Quando o relógio marca oito horas em ponto, toca o sinal da escola, um barulho enjoado que machuca os ouvidos. Bernadete e demais alunos buscando cada um seu lugar de sempre. Bernadete, bem no canto da parede. 

A professora chega logo em seguida, é dia de prova, temida prova de desenho mecânico. Bernadete está confiante quanto ao seu desempenho…

Prova nas mãos, coração acelerado, depois de uma breve leitura e releitura das questões propostas, ela começa respondendo cada uma delas, com muita calma e usufruindo sabiamente de todo o tempo disponível, depois de responder tudo, 'ainda com tempo de sobra' faz uma última correção antes de entregar. Quando finalmente entregou a prova, a professora corrigiu na mesma hora, o coração em descompasso novamente. Veio a primeira notícia, 'boa notícia', tirou dez, depois veio a segunda boa notícia; a professora lhe disse, "Pode ir embora, está liberada Bernadete". 

Ela não perdeu tempo, foi apressadamente para o ponto de ônibus enfrentar mais uma parcela do suplício das esperas intermináveis, saiu novamente quase a correr, queria chegar logo em sua casa, na segurança de seu lar. 

De tanta pressa, e tão assustada que estava com alguns jovens que estavam fumando e bebendo na esquina próxima, ela atravessou a rua sem prestar atenção, o sinal estava vermelho, veio uma parati, não houve tempo de se esquivar, nem do carro frear… 

E o dia se foi, Bernadete... Também se foi...


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...