domingo, 9 de outubro de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


 RESUMO DA SEMANA.


Domingo.

Eleições.

Inúmeras pessoas indo às urnas eletrônicas depositarem os seus votos, firmarem as suas ideias, confirmarem convicções e propósitos. Carros, motos, camisas verdade amarelo, crianças nas ruas, idosos nas calçadas observando, sorrisos nos rostos que passam e retornam. De certo modo, pareceu tranquilo o curso do dia, pelo menos até o momento em que rabisco essas poucas palavras, não me chegou ao conhecimento de ocorrências graves. Direito e esquerda se movimentam, políticos e famosos também se identificam com os seus candidatos, cada um à sua maneira. Coloquei uma bandeira discreta no alto da minha janela.

O que será contado desse dia tão histórico?

Segunda-feira.

O céu azul não reflete o azul, está mais para um nublado tempestuoso com nuvens carregadas, o dia parece sombrio, de trevas pesadas. Do dia de ontem o que se pode contar? Foi histórico sim, não da maneira que imaginávamos, pois, o mesmo mostrou-se tenebroso, àquilo que o presidente sempre falou aconteceu, a fraude eleitoral está cristalina como água de nascente nova. Vejam... não é possível tal coisa. O que se pode dizer é que um misto de tristeza abateu-se nós semblantes de todos nós, de direita, patriotas. Mas, a luta não está perdida, o jogo ainda está correndo.

Terça-feira.

Da sacada da minha casa observo o movimento frenético de carros, folga, fim de tarde, descanso, dia de sossego. Embora tudo parece na mais tranquila paz, a verdade é que não está... Eu não estou conseguindo ficar em harmonia comigo mesmo, ainda que a face mostre normalidade, por dentro, existe um homem completamente descontrolado em todos os aspectos. Até quando este monstro interno ficar preso eu não sei, espero em Deus que ele não saia, que permaneça reclusa. Trabalho e política são os maiores desafetos que me levam ao delírio quase que automaticamente.

Quarta-feira.

Manhã ensolarada, dia calmo em suas primeiras horas matinais, café aromático com sua fumaça bailarina, o cantar dos pássaros do lado de fora da casa. É um belíssimo começo de manhã, quisera eu poder arrastá -lo no decurso do dia, porém, sei bem que não posso fazê-lo, tenho que aceitar os acontecimentos como são e da maneira que surgem. Logo mais terei que trabalhar, período da tarde, mercado movimentado, poucos funcionários, a mesma agonia de sempre, era para eu estar acostumado, mas não estou. Quando as novidades no meio político, não todas previsíveis, alianças, apoios... Tudo ainda é incerto.

Quinta-feira.

Os dias estão passando rápido como nunca antes, o sol surge no horizonte, os ponteiros correm frenéticos, escalando horas sem que percebamos. Os afazeres em que nos ocupamos são tantos que não conseguimos dar conta de tudo. Família, filhos, escola, casa, trabalho, enfim, nestes pequenos universos existem outros ainda maiores, que os engolem como a sombra de uma nuvem passageira O cenário político caminha rumo ao segundo turno, candidatos buscando apoios, do contrário também acontece. Já é sabido de todos que houve fraudes, quem a arquitetou fez um péssimo trabalho, estamos na esperança que nosso exercício em breve tome as providências.

Sexta-feira.

Dia instável, momentos de sol, seguido de nuvens pesadas, frio, vento, talvez uma possível chuva mais tarde. É dia de feira na rua de casa, movimentação frenética de transeuntes buscando frutas, verduras e barracas de pastel. Muita movimentação e pouca conversa, comparado com outros momentos eu diria que a feira está tímida, pelo menos nessas primeiras horas. O cenário político continua o mesmo, desinformação, ataques daqueles que se dizem defensores da democracia, mas, na verdade, fazem justamente o contrário. Demonizam o bem, santificando o mal. Todos os cidadãos de bem, que conhecem que a luta é espiritual, estão despertando para lutarem espiritualmente contra as forças das trevas.

Sábado.

O dia se inicia calmo, pouco movimento de carros, algumas pessoas nas ruas, no entanto, é apenas momentâneo, logo mais o monstro que é a cidade despertará com os seus longos braços e pernas, engolindo e destruindo tudo. Terei que trabalhar daqui a pouco, ontem tive folga referente ao feriado, o que não significa nada, não muda coisa nenhuma, o cansaço e insatisfação são os mesmos. O cenário político do país é uma caixa de surpresas, não dá para conjecturar nenhum cenário, todos são possíveis e impossíveis de acontecer. Termino a crônica da semana dizendo que, esperar, crer, acreditar, é isso o que devemos fazer.

   

domingo, 25 de setembro de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


    MITO DE SÍSIFO.


    Por esses dias, ou meses, pensei muito no mito de Sísifo, acho até que me tornei no próprio. Se você nunca ouviu falar de Sísifo, permita-me apresentá-lo de maneira resumida.

    Sendo assim.

    Um dia, Sísifo viu a bela Egina ser sequestrada por uma águia a mando de Zeus. ( Vamos combinar, esse Zeus é o tipo de divindade que não podia ver um rabo de saia, mas... Voltemos à história ). Egina era filha de Asopo, deus dos rios, que estava muito abalado com o sumiço da filha. Vendo o desespero de Asopo, Sísifo pensou que poderia tirar vantagem da informação que tinha e contou-lhe que Zeus havia sequestrado a moça. Mas, em troca, pediu que Asopo criasse uma nascente em seu reino, pedido que foi prontamente atendido. ( Nada bobo esse Sísifo, essa história de tirar vantagens de certas situações ou informações é mais antiga do que se pensa).

    Zeus, ao saber que Sísifo havia lhe denunciado, ficou furioso e enviou Tânatos, o deus da morte, para levá-lo para o mundo subterrâneo. Mas, como Sísifo era muito esperto, conseguiu enganar Tânatos ao dizer que gostaria de presenteá-lo com um colar. Na verdade, o colar era uma corrente que o manteve preso e permitiu que Sísifo escapasse. ( Espertinho esse Sísifo ). Com o deus da morte aprisionado, houve um tempo em que mais nenhum mortal morria. Assim, Ares, o deus da guerra, também se enfureceu, pois a guerra necessitava de mortos. Ele então vai até Corinto e libertou Tânatos para que conclua sua missão e leve Sísifo para o submundo. ( Olha a merda ). Sísifo, desconfiando que isso pudesse ocorrer, instrui sua esposa Mérope a não lhe prestar as homenagens fúnebres, caso ele morra. Assim foi feito.

   Ao chegar ao mundo subterrâneo, Sísifo se depara com Hades, o deus dos mortos, e lhe conta que sua esposa não havia lhe enterrado da maneira adequada. Então ele pede a Hades que volte ao mundo dos vivos apenas para repreender a esposa. Depois de muito insistir, Hades permite essa visita rápida. Entretanto, ao chegar no mundo dos vivos, Sísifo não retorna e, mais uma vez, engana os deuses. ( Esse Sísifo... Olha! digo nada viu ).Sísifo fugiu com sua esposa e teve uma vida longa, chegando à velhice. Mas, como era mortal, um dia foi preciso retornar ao mundo dos mortos. ( A conta chega meu rapaz).

    Lá chegando, se deparou com os deuses que havia ludibriado e então recebeu uma punição pior do que a própria morte. Ele foi condenado a realizar um trabalho exaustivo e sem propósito. Teria que rolar uma enorme pedra montanha acima. Esse é o mito, e como sabemos, uma vez a pedra no topo da montanha ela era rolada novamente para baixo, e Sísifo foi condenado a refazer a mesma tarefa, eternamente.

       Mitologias apartes. 

      Às vezes, eu, você, nos sentimos exatamente assim como Sísifo, condenado a realizar trabalhos exaustivos, e, a princípio, sem propósito nenhum, rolar pedra acima para vê-la desabafar. De repente, o meu e o seu trabalho traga essa sensação de não existencialismo, confesso que por muitas vezes me senti assim, um tipo de Sísifo. Trouxe essa história na crônica deste domingo para dividir com os leitores esse momento, essa sensação de esquecimento. Contudo, como dizia um amigo, Padre Francisco: "Tudo passa Tiago, nada dura para sempre". Os gregos, por costume e cultura, espelham suas angústias e mazelas da vida em histórias ficcionistas de, "supostos" deuses, tão humanos e problemáticos quanto eu e você. 

Espero, com toda esperança e fé que realmente passe essa sensação Sisifiana, se é que posso chamar assim, afinal, ( Tudo passa, só o amor de Deus com "D" maiúsculo permanece.

  


   

domingo, 18 de setembro de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 



    ESSA CRÔNICA É SOBRE EU E VOCÊ.


  Nuvens carregadas roubam o azul celeste, o tom pesado se arrasta de uma extremidade a outra deixando a impressão de estar anoitecendo em pleno vigor do dia. O silêncio se faz presente, folga do trabalho, recolho-me na insignificância do meu ser. Minha mente fica em profundas divagações, então começo a refletir: Quando estou em dias, "normais", de trabalho e correria, me invadem sensações estranhas e profundas de distanciamento, recolhimento da alma e anulação do ser que se nega ao outro. Por fora, sorrisos, vozes, olhares, apertos de mãos; por dentro, no entanto, existe um quarto escuro com uma criança quieta e assustada. Essa terrível contradição me devora inteiro, machuca, pois estando exatamente de folga, "no silêncio", esse afastamento do núcleo social me expõe para uma multidão de quimeras habitando no calabouço dessa mente. Por isso a necessidade de me trancar, como já mencionei. Nesse quarto escuro sou essa criança acuada, os meus fantasmas estão do lado de fora batendo na porta.

     No quase absoluto silêncio de casa, reflito ainda sobre a minha vida, e de outros tantos como eu, que trabalham diretamente com o público, penso nas muitas situações que nos fazem sentir, assim, tão pequenos.

      Aliás, você, sim... Você me vê do outro lado do balcão, percebe o cansaço na minha fisionomia. Poucos balconistas para uma multidão de fregueses. Chega a sua vez de ser atendido, eu, com toda a gentileza e cortesia te atendo, te sirvo, escuto atento a cada palavra. Entre uma reclamação e outra da sua parte, desprende-se da minha face um tímido sorriso e um muito obrigado, enquanto você, na maioria das vezes sai sem nem agradecer.

      Aliás, você, sim... Você me vê estender a bandeja de trufas diante do vidro do carro, me vê com um sorriso no rosto. Você, de cara amarrada e olhar de fuzilamento, abre vidro pela metade. Eu, com toda a ternura te ofereço deliciosas trufas de vários sabores, o sinal continua fechado. O meu olhar te implorando para comprar apenas uma. A sua negativa me ofende, pois eu bem percebo que estás a mentir. " Não tenho nada agora". Você diz uma mentira com o olhar de uma verdade. A tua consciência, pesada, mostra na tela do pensamento todas as cédulas escondidas em sua carteira, mas você não cede." Deus abençoe moço". Eu respondo educadamente, olhando você bater em retirada na abertura do sinal. 

   O contrário também acontece.

   Você me vê do outro lado do balcão, sim, eu mesmo, lembra-se de todas as vezes que eu te atendi, das suas implicâncias. A minha fisionomia muda, o sorriso vai embora. Você se aproxima de mim, tentando ser educado, não quer repetir o que fez da última vez. O seu bom dia não é correspondido por mim, nenhuma expectativa é correspondida, aliás. Então você retorna chateado, com raiva, convencido de que o contrário seria melhor, promete para si mesmo que fará diferente da próxima vez, que dará o devido troco. Eu, ao vê-lo partir tão furioso, arrependo-me do trato áspero, prometo a mim mesmo que da próxima vez serei mais educado.

   Você me vê dentro do carro, sim, eu mesmo, lembro-me da última vez que você me ofereceu trufas e das minhas palavras mentirosas, da minha falta de educação, da minha negativa no olhar de mentira, da demora em abrir o vidro desconfiando. Então decidi comprar trufas, mas você finge que não me viu, mesmo ao sinal de meu aceno, você passa direto, atende o carro atrás, fingindo não me escutar. Eu prometo entre palavrões que da próxima vez serei ainda mais bruto quanto é possível ser, saindo cantando pneu ao abrir o sinal. Você, já na calçada, observando minha presa, a raiva, fica arrependido por não ter me atendido, você promete a si mesmo que da próxima vez será mais educado, e como pedido de desculpas, pensa até em me dar uma trufa a mais.

     E o dia segue o curso, entre céu cinza pesado e resquícios de azul desbotado. No quase absoluto silêncio de casa reflito: Essa crônica é sobre eu e você, no quanto poderíamos ser melhores quando somos piores.

      É sempre assim, quando nós iremos aprender?



O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...