domingo, 7 de agosto de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


      ONDE ESTARÁ SEU ALCEBÍADES?


   Do lado de fora do balcão figuravam as mesmas pessoas de todas as manhãs, a maioria de idosos que aproveitavam a caminhada para passar no açougue e comprar mistura do almoço. 

É a rotina massacrante de todos os dias. 

    Alcebíades, funcionário do mercado há cinco anos, estava no seu limite, desejava largar o emprego, arranjar coisa melhor, porém, a idade não lhe favorecia, e, em tempos de pandemia muitas empresas estavam paradas, outras, ameaçavam fechar as portas. Logo no primeiro atendimento, reclamação, não fazia cinco minutos que o cliente estava esperando e disparou a falar e bater no balcão, disse que estava ali quase meia hora e ninguém o atendia e que era um absurdo ficar tanto tempo na fila. Alcebíades respirou fundo, contou mentalmente até às dez, colocou o melhor sorriso no rosto e foi atender o senhor, que continuou com a reclamar. Estava sem máscaras, não respeitou a distância mínima nem o isolamento, e mesmo sendo do grupo de risco, foi ao açougue comprar meio quilo de carne moída. 

   É a massacrante rotina de todos os dias.

   Brigar era besteira, a freguesia mesmo errada, sempre tinha razão. Por muitas vezes Alcebíades tentou argumentar, foi em vão, saiu por mal. Desistiu de explicar aos clientes mais idosos a necessidade de isolamento, seu chefe lhe deu uma bronca por isso. Dia após dia, hora após hora, cliente após cliente. A mesma coisa do mesmo jeito o dia inteiro e o tempo todo. Uma multidão de pessoas no mercado. Corredores lotados, crianças, idosos, pais, mães, famílias inteiras. O coração estava em tempo de explodir dentro do peito tamanha era sua revolta, a sua alma parecia querer voar para bem longe do corpo. Já eram quase três horas da tarde e Alcebíades ainda não havia almoçado, movimento frenético. Um dos colegas de trabalho, percebendo que o pessoal que havia entrado às oito da manhã já tinham retornado do almoço, e Alcebíades ainda figurava no balcão, questionou-o. 

  — Ô seu Alcebíades - disse o colega - Mas já não era para o senhor ter ido almoçar meu camarada? 

  — Sim. 

  — Que horas o senhor entrou? 

  — Nove. 

   — Sério!

   — Meu horário é às dez, mas pediram para entrar antes por causa do movimento… 

    — Caramba! Nove horas seu Alcebíades! 

     — Isso mesmo. 

     — E o senhor deve de estar morrendo de fome né.  

     — E como. 

      Repentinamente, o movimento que estava frenético ficou fora de controle. Clientes apressados, exigentes, carrinhos lotados. Atendeu mais dois, três, quatro, perdeu a conta de tantos, nada de almoço. O colega se incomodou e reclamou ao chefe, que só então foi dar conta que havia esquecido ao funcionário. 

     — Seu Alcebíades - disse o chefe dando-lhe um tapinha nas costas - O senhor não foi almoçar ainda? 

     — Não. 

     — Caramba… Me esqueci. Você pediu para algum outro líder para descer e ir almoçar? 

      — Não. 

      — Tá certo… Faz um favor então. 

      — Sim. 

      — Vai lá almoçar. 

      — Não precisa falar duas vezes chefe.

       — Só mais uma coisa seu Alcebíades, qual é sua idade? O senhor está no grupo de riscos? 

       — Faltam cinco meses para eu entrar no grupo de risco. 

       — Cinco meses seu Alcebíades ! Fazer o que, vai lá almoçar.    

       Alcebíades terminou de atender o último cliente, olhou no relógio, quatro da tarde, a barriga roncava. Saiu da frente do balcão, não conversou com ninguém, foi até o lugar onde se lavavam as botas e as luvas de aço. Higienizou-as, secou-as, saiu do setor a passos lentos, higienizou as mãos com álcool mais uma vez, máscara no rosto. O mercado estava lotado, embrenhou-se na multidão, pessoas sem máscaras, sem respeitar a distância mínima.

     Seu Alcebíades desapareceu na multidão.

     É a massacrante rotina de todos os dias.

     Duas horas depois e nada dele voltar, os colegas perguntavam. Só então o chefe percebeu que ele não havia voltado. Procurou Alcebíades em tudo enquanto foi de canto. Vestiário, banheiro, refeitório, outros setores, entornos da loja, dentro da loja, nada de encontrá-lo… Parou, pensou… Ligou no RH, perguntou para a secretária… Não fazia meia hora que ela viu Alcebíades passando por ali. Alguém disse que ele ia pedir demissão, mas o RH não estava atendendo ninguém por causa da pandemia. A secretária disse que não o viu mais, simplesmente desapareceu. Alcebíades nunca mais foi visto por nenhum dos colegas do mercado, nem os mais conhecidos, em nenhum outro lugar da cidade ou do bairro onde morava, do estado ou do país, do mundo, do planeta, da galáxia, aliás, simplesmente, desapareceu!

     Onde estará Alcebíades? 




domingo, 31 de julho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


         SOLIDÃO QUE ENLOUQUECE. 


   Arde em meu peito um descomunal amor 'à solidão', amor que jamais saberei descrever, todavia, esse amor não somente arde, por vezes, o vejo apunhalando o meu peito. É semelhante a brasas vivas tiradas do fogo e colocadas sobre a pele, ou como facas usadas em sacrifícios cravados na carne. 

   Esse amor à solidão é assim. 

   Não há muito o que dizer a respeito de tão misterioso sentimento, não há como defini-lo de outra maneira, embora os dizeres sejam imprecisos, são as únicas palavras que encontro neste momento. Toda a sua grandiosidade não pode ser mensurada e nem descrita.

   A solidão surgiu, de repente.

   O meu peito parece querer arrebentar a fibra que o enlaça à dor vivente tamanha é o pesar de amar a solidão, sim, é a mágoa de amá-la tanto, esse amor desmedido, desmesurado. Sou este ser sem qualidades, louco apaixonado, jogando palavras pela janela da alma. Meus versos ao vento… Nada podem me dizer. A solidão causa essa sensação em mim, esse desconforto, esse incômodo. Já não sei o que fazer; já não sei o que pensar. O meu peito apenas arde, é dolorido, é bom, é ruim, como pode ser tudo e tanto? Diga-me, como pode tamanha dor ser tão boa? 

   Quisera eu compreender os mistérios de nossos corações, quisera eu ter todas as respostas para as perguntas simples que o amor deixou em minha janela. Talvez por esse motivo tornei-me eremita, sim… Agora entendo, ou, pelo menos, penso entender a razão de ser quem sou, a solidão deixou-me assim. Os poemas, são os dizeres não entendidos de uma alma que não se pode decifrar.

Hoje é um dia qualquer de um mês sem importância, a solidão, esse anjo ledo de meus sonhos, é a razão da minha insanidade, é na verdade, a razão de toda minha decadência moral. Às vezes, quando ela surge no castelo de cristal do coração, na torre alta dos pensamentos, muito raramente quando tenho a oportunidade de estar com ela, sem que os súditos ( sentimentos ) do castelo venham perturbar — eu confesso — Meu desejo é de beija-lá… Ah!! Como eu desejo aqueles lábios tão divinamente formados, molhados de paixão, a cada movimento, a cada palavra dita, enfim, a solidão tem lábios que me enlouquecem como bem podes perceber. 

   Outro dia, permita-me contar-lhes rapidamente, quando a solidão ainda estava ausente, em um fim de tarde agradável, eu bem me lembro, leciona ainda sobre as divagações da alma, quando ela saiu em desespero à minha procura. A certa hora da tarde, temendo que a razão percebesse todo o meu intento, pois era visível a todos, toda minha vontade de agarrá-la ali mesmo, acabei por me esconder. Certamente que se me flagrasse, seria um escândalo em toda escala cósmica cerebral. Eu tive que intervir em meus próprios sentimentos, me despir do meu eu, desfazer o status, a vida, coloquei vestes do anonimato, e fugi.

   Ninguém nunca compreendeu. 

   Retornei à escola da alma depois, oculto, eu a instrui como deveria proceder perante minha nova identidade, eu era um fantasma, assim ela fez, e nada de ruim aconteceu-nos. Lembro-me, que naquele trajeto de retorno a casa verde, ainda abandonada, certamente foram os melhores de todos os momentos que tivemos. Eu a amo… Sim… Eu amo a solidão. Embora seja proibido a este aedo relacionar-se com um ( sentimento mesquinho ), sendo eu quem sou, ou, quem era — sei que um dia, em algum lugar, ou em um universo qualquer, encontrarei uma maneira para amar o que não pode ser amado, o abstrato da vida.




domingo, 24 de julho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


                   A SERVIDÃO DO RELÓGIO.

 

   Os dias parecem todos iguais, não há diferenças entre eles, o mesmo sofrimento diário na labuta que nunca termina, cansaço o tempo todo presente, lamúria de inúmeros lábios exibindo dentes e sorrisos raivosos. A semana é odiosa, o trabalho enfadonho como no antigo, porém, havia algo de interessante anteriormente, que me agradava eu sei, mas, deixei passar como tantas outras coisas. Não adianta arrependimento, tudo é dor. O começo é sempre calmo, não como eu gostaria que fosse de verdade, é uma calma traiçoeira, daquelas que sempre traz revelações ruins ao final. Eu que diversas vezes fechei os meus olhos para não ver a dor chegar. 

   O final de tarde é sempre pior, o cansaço já dominando os braços, fazendo o raciocínio fica lento, esquecido, enquanto a paciência também acena ao longe. A vontade é de jogar tudo para o ar, de fugir para longe.

   O começo de semana é calmo, a maioria dos transeuntes não comparecem, estão com as provisões completas, somente aqueles mais desatentos que retornam para repor o estoque, ainda tímidos, desconfiados. A dinâmica não muda - poderia ser diferente - porém, existe qualquer dificuldade no comando que impede de realizar o que para mim é óbvio. Somos excessivamente levados ao limite do limite corporal e mental. No antigo trabalho haviam prioridades diferentes, nesse de agora, não se preocupam tanto com o cliente na fila. O que importa para quem manda no que lidera é completar balcões de auto serviços, o resto é detalhe. Confesso que estou muito cansado, não é só o físico, a dor no corpo, a coluna latejando, é também o psicológico sendo cruelmente agredido dia a dia, com palavras e atitudes que ferem mais do que as facas afiadas com as quais trabalho.

   Me considero o menor entre eles, sempre superiores em tudo no que fazem na maioria das atividades exercidas. Dizendo que não têm ninguém igual a eles em seus afazeres. São maiorais, gigantes, não cometem erros, são intocáveis.

   Às vezes, realmente tento me igualar, não para apontar o dedo e me comparar, mas, para oferecer o melhor de meu serviço para o cliente. Ainda sim, escuto nas entrelinhas críticas ao meu jeito de fazer e falar. Gosto do que faço, não amo, por favor, não confundam gostar com amor, são coisas totalmente diferentes. O que eu amo verdadeiramente está muito distante da profissão que exerço atualmente, não é o ideal, contudo, paga as contas e sobrevivo. No meu atual trabalho, por vezes tranquilo, em outros momentos odioso, tenho companheiros legais, pessoas boas, colegas, maravilhosas demais. Aprendi a conviver com as diferenças de cada um, isso é o que importa de verdade.

   Talvez esse trabalho seja temporário, assim espero, de coração. Caso eu não consiga me desvencilhar dele para outro melhor, terei paciência, continuarei a fazer o que faço com o máximo de dedicação e profissionalismo, embora não seja a  (profissão) do meu coração, vou exercê-la enfrentando os desafios com toda força possível. Quem sabe um dia eu consiga o que tanto almejo, pode ser que demore, não importa quanto, estarei esperando com toda a paciência que cabe a esse coração. A vida é cheia de desafios, de altos e baixos. Houve tempo que eu estava na parte alta da roda gigante, hoje, estou por baixo, não reclamo por isso. São experiências importantes para o crescimento como ser humano, agradeço por tudo, ainda que doa agradecer.


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...