domingo, 10 de julho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


                   NA MESMA SINTONIA.


   A noite se aproxima de mansinho no horizonte, vem subindo a colina verdejante, esticando os seus longos dedos de escuridão. Enquanto isso, o fim de tarde, melancólico, vai descendo o mesmo horizonte, escondendo-se da noite que está logo adiante.

   Sinto a brisa fria do inverno beijando a minha face, os olhos já cansados, perdidos na contemplação do fim de mais uma jornada. Noite e dia param por um instante no alto da colina, os vejo trocarem as últimas palavras em faiscantes raios de luz, que logo se transformam em multicores espalhadas pelas nuvens. Pássaros se amontoam no fio de energia, transeuntes desavisados pelas ruas da cidade, o aroma suave de quietude que se espalha.

   Sou apenas um observador, me embriagando com o espetáculo que é o pôr do sol, o lampejo das primeiras estrelas no cair da noite.  

   Há tempos que eu não paro para contemplar tal maravilha que é do ocaso. Vivemos vidas tão apressadas, cheias de um nada sem sentido, correndo o tempo todo e nunca estando contente com nada. O algoz 'crono' rouba os nossos anos e sonhos sem o percebermos. As conquistas das nossas mãos, os esforços de nosso trabalho não tem sentido prático. Criamos regras e colocamos objetivos que em um momento passa como uma sombra, como dizia o sábio Salomão, no fim, tudo é vaidade das vaidades.

   Ainda pouco acabei de chegar do Shopping, levei a minha esposa e filha para um passeio, apenas para distrair a mente, tentar relaxar da correria no meu dia de folga. Eu tinha apenas o dinheiro do estacionamento e de um sorvete para mim e elas, nem um centavo a mais e nem menos. Passeamos bastante, entramos em várias lojas, corremos os olhos em diversas coisas, utilidades domésticas, lojas de artigos japoneses, roupas, calçados, enfim, coisas maravilhosas demais das quais podíamos apenas admirar. Houve um tempo em que eu tinha condições para alguma coisa, no presente momento, não mais. Tudo passou a ser objeto de um desejo inalcançável - pelo menos por enquanto.

   O que mais me impressiona, de verdade, são as aves que contemplo neste momento em que escrevo essa crônica. Quisera eu ser como qualquer uma delas, quisera eu ter a liberdade que corre por entre as suas asas. Quisera eu ver o pôr do sol lá do alto, rente às nuvens. Cada uma dessas aves que neste momento estão empoleiradas no fio de energia é mais rica que qualquer um de nós, toda liberdade que as fazem voar é parte de uma riqueza que dinheiro nenhum no mundo é capaz de comprar. Invejo-lhes o suave canto, a beleza que veste suas coloridas penas, o vento assobiando entre suas asas. 

   Ainda não é noite, e nem dia, estavamos naquele estado intermediário entre um e outro, o exato momento da qual lhes falei que noite e dia param no horizonte do firmamento para se curvar diante do criador, render-lhe adoração, depois trocarem meias palavras e alguns acenos, e cada um seguir o seu curso até o próximo encontro no romper da aurora. Continuarei por aqui por mais uns minutos, pensativo, silencioso. Eu quero ver a noite chegar, ver o brilho das primeiras estrelas, e saber que não há no universo coisa mais linda que as obras da criação. O meu último desejo é que os teus olhos, "caríssimo leitor", por um instante, sejam os meus, e que o teu coração bata na mesma sintonia em que o meu está agora. 

domingo, 3 de julho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


    APENAS DOIS DÍGITOS.


   É indispensável termos garantias ao livre direito de pensamento, de uma escolha única é pessoal, não forçada por outros. Existem situações acontecendo no Brasil em que esse direito está sendo usurpado e querem nos forçar a conceder opiniões e pensamentos de terceiros como se essas fossem de fato nossas. Eu, você, enfim, cada um tem o direito de escolher com base na sua capacidade própria de análise, do livre arbítrio. Não me refiro a se basear no que fulano disse ou no que Beltrano falou... Cada um tem direito de tomar sua decisão livre de qualquer amarra ideológica. O problema é que não está acontecendo assim. O que ocorre é decisões com base na imposição, dizendo que você deve fazer 'assim' ou 'assado' sem lhe dar espaço de questionamento, querem nos empurrar goela abaixo do que se servem friamente, isso é completamente insano, imoral.

   O que nós estamos vendo nesses últimos e conturbados meses é uma disputa acirrada entre a verdade e mentira, porém, a confusão e distorção de notícias têm sido terríveis, tão absurdas ao ponto de se levantar questionamentos sobre onde de fato está a verdade apresentada, de qual lado e afinal qual é a cor que ela veste. O que para uns é o certo, para outros é absurdamente abusivo, contraditório; o que para uma ala fere bons costumes, para outra é preconceito e caretice. Fica a pergunta na cabeça de muitas pessoas: Quem está mentindo e quais lábios resguarda a verdade? Podemos dizer que a mídia, "não toda ela", alimenta intencionalmente os dois lados da moeda. Para uns, meias verdades, para o outros, mentiras completas com trajes de verdade. O resultado não poderia ser outro... Confusão e conflito.

     Quem é melhor? 

     Opção "A", ou seria a "B".  

     No entanto, vale analisar que, independente de qualquer que seja a sua opção, não será exatamente ( um ), e sim o ( quê ) o todo por trás desse um representa. Fica claro que o verdadeiro poder está no parlamento, a pessoa empossada na cadeira maior, mesmo que tenha todas as boas intenções do mundo, se o parlamento não estiver afinado e em sintonia com essa cadeira maior, nada do que propor levará a lugar nenhum. Teremos confusões, trocas de acusações, uma tremenda perda de tempo em questões sem relevância e sem sentido. A desconstrução de valores se dará como certa, e tudo estará de cabeça para baixo. É exatamente o que estamos vivendo hoje. Não adianta eu colocar nomes e nem fatos desse ou daquele, não importa... Fazer isso é pôr mais lenha na fogueira.

      O mundo e seus habitantes, sonhos desfeitos, por outros refeitos, desejos reprimidos, enfim, cada um tem a sua história e individualidade de pensamento. Ter um governante que agrade a todos é impossível. Agora, ter um governante honesto para todos, isso é possível, ainda que as partes não concordem com essa honestidade, ela deve ser inviolável. O tempo será responsável por mostrar se foi "essa" a melhor escolha ou se deveria ser, "aquele". Embora o que é óbvio demais para uns não é para outros.

     Que Deus nos ajude a superar as dificuldades presentes. O destino de uma nação em apenas dois dígitos...

domingo, 26 de junho de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 


        TUDO VALE A PENA QUANDO A ALMA NÃO É PEQUENA.


    A minha infância foi maravilhosa, eu tenho lembranças encantadoras de momentos que foram inesquecíveis em minha tenra infância. Até os doze anos eu morei em uma fazenda no interior de Minas Gerais,( fazenda Lindoya ), era o meu reino encantado com certeza. Quem já morou ou viveu em uma fazenda sabe bem o que estou dizendo. Natureza, diversidade na flora e fauna, rios de águas transparentes, pássaros de inúmeras espécies, o nascer e o pôr do sol. As imagens que guardo dentro de mim são as mais belas pinturas da natureza, quisera eu ter as habilidades de um Da Vinci para eternizá-las em telas, mas, muito timidamente vou tentando riscar com palavras as belezas que tenho nas molduras da memória. 

    Vamos começar falando da natureza, que, aos olhos daquela tímida criança, era como se fosse um pedaço do Éden. A fazenda Lindoya tinha mais de novecentos alqueires de terra, uma grande criação de vacas leiteiras e bois de corte. Havia também uma usina que fabricava aguardente, em tempos passados, na época de adolescência de meus pais fabricava-se açúcar, depois é que passou a fazer a famosa cachaça. Eram três os donos, dois irmãos e uma irmã, que a propósito, 'se odiavam', vivendo sempre em questões sobre como ficaria a divisão da fazenda após a morte da mãe, na época "ainda viva". 

    Cercada por montanhas, devidamente preservada, com inúmeras espécies de árvores de lei, mata atlântica preservada, uma fauna invejável. Caçar ou retirar madeira era extremamente proibido, resguardado pelos próprios moradores. Havia também um pequeno riacho, da qual chamávamos de 'ribeirão'. Foram muitas as pescarias nas águas tranquilas e límpidas do riacho. Vara de bambu, tardes de silêncio à beira da água ouvindo o harmonioso som das correntezas, o canto dos grilos e sapos. Tarrafas era proibido também, igualmente resguardado por todos os moradores. Foi um período que jamais esquecerei, não tínhamos modernidades, nem o luxo de ter tudo no mercado da esquina, porém, a natureza se encarrega de nos dar exatamente o necessário, nem mais nem menos. Do jeito que deveria ser, e éramos felizes em um equilíbrio perfeito de homem e natureza. 

   Houve um tempo que o próprio ( tempo ) pareceu parar, no entanto, o mundo moderno invadiu as nossas casas conforme as televisões ganharam espaços nas salas. O reino encantado começou a perder espaço para a ilusão de um novo mundo, as grandes cidades cativaram o imaginário daquele povo simples da roça. Aos poucos, famílias após famílias deixaram a fazenda para migrar para a cidade em busca de prazeres e ilusões perdidas. 

    Esse que vos escreve com saudosismo e dor no coração, foi um dos tais que veio para os grandes centros. Descobriu que o preço da suposta felicidade é por demais alto, embora possível. No entanto, ficou no âmago da alma a sensação de liberdade que foi perdida, de ser expulso do próprio Éden pelo pecado de desejar o fruto proibido na ilusória árvore dos grandes centros. Muitas coisas eu conquistei, outras tantas eu perdi. 

    Hoje eu trabalho incansavelmente para ter possibilidades de comprar novamente a liberdade que eu tinha. Enfim, sempre há um aprendizado em tudo, nas lutas, vitórias e derrotas em casa fase, ganhando ou perdendo nós sempre aprendemos. Eu sei que daqui um tempo poderei ter novamente um pedacinho do meu reino encantado, custará o preço de uma vida inteira eu sei, mas valerá a pena. Afinal, "tudo vale a pena quando a alma não é pequena".


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...