domingo, 10 de abril de 2022

Crônica de domingo

 



DESISTIR JAMAIS.


    Trabalhar com o público é um grande desafio, um dos maiores eu diria. Não é nada fácil se despir de todos os seus problemas, dificuldades, dores, incertezas, angústias, colocar um sorriso largo no rosto e atender o seu cliente como se você fosse a pessoa mais feliz da face da terra oferecendo o melhor produto do mundo. Nem sempre, o que você está oferecendo é assim tão bom, no entanto, você tem que fazer parecer que é. As suas palavras, os seus gestos, todo o teu ser tem que passar para o cliente a confiança de que aquilo, ou aquele produto, é simplesmente sensacional.

    Durante muitos anos eu trabalhei em indústria, em uma metalúrgica para ser mais específico. Foram quinze anos em uma fábrica que produzia alumínio. O ritmo e a sistemática de uma fábrica é muito diferente de quem trabalha em comércio com público. No meu caso, eu trabalhava em turnos de seis por dois, ininterruptos.  Com uma equipe de doze pessoas que eram divididas nas tarefas relacionadas à demanda do dia. Não tínhamos que lidar com público, nem ter que oferecer nada para ninguém. Na maioria das vezes eu apenas eu em uma determinada máquina, o turno todo. 

    E claro que, o ambiente de uma fábrica não é dos melhores, em cada segmento tem os seus desafios e desgostos. Na época eu não tinha a compreensão nem a experiência de vida que tenho hoje. Se eu tivesse a mente de hoje naquele corpo jovem e saudável talvez eu teria ido muito mais longe. Mas, nem sempre as coisas são do jeito que queremos. Porém, hoje percebo quanto tempo eu desperdicei. Quantas não foram as oportunidades que deixei passar, se fosse possível voltar no tempo, mas, o tempo... O tempo é como um rio, não volta atrás.

    Depois que fui desligado da antiga empresa fiquei por dois anos parado, outra parcela de tempo perdido que não será possível recuperar. Devido a um processo trabalhista que abri contra a antiga empresa, fiquei com medo de ter um trabalho com carteira assinada e isso influenciar no ritmo do processo, tolo que fui, o processo simplesmente estagnou. Agora, está a passos de tartaruga, e sabe lá quando vou ter um resultado favorável dessa dura batalha. Foi então que depois de dois anos retornei ao mercado de trabalho. Meu antigo ofício, que aprendi quando adolescente, valeu para que eu conseguisse me recolocar profissionalmente.

    Três anos trabalhei em um supermercado, balcão de açougue. Saí recentemente, estou a seis meses em outro supermercado, novamente, balcão de açougue. Não é o tipo de profissão desejada, pelo contrário, ninguém quer, no entanto, não é uma profissão que se paga tão ruim assim. Trabalha-se muito, público exigente, labuta exaustiva e interminável. É sempre a mesma coisa todos os dias. O desafio maior talvez seja o de ligar com as pessoas, sorrir para elas quando na verdade a vontade é de chorar. Enfim, nada é tão fácil como, às vezes, se parece e nem tão difícil que não possa ser feito. Dedicação e amor é o segredo dessa profissão tão singular como é em qualquer outra. O segredo é não desistir jamais.

domingo, 3 de abril de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

         



            O SEU E O MEU DIREITO DE DIZER.


Dialogar ideias nunca foi tão perigoso como está sendo agora. Vivemos em uma época em que a simples manifestação de pensamentos tornou-se um risco iminente à integridade moral e por vezes até física. É necessário ter cautela em certas afirmações e posicionamentos, visto que, certas ideias não serão aceitas por outros, que impedirão o livre direito do outro de dizer ou até mesmo discordar da opinião contrária no que desrespeito aspectos sócio cultural. Veja que iniciei o texto com a palavra, "dialogar", e não, "discutir", ou seja, trocar, civilizadamente informações sobre acontecimentos ou assuntos sejam quais forem, notícias, política, arte, enfim, uma boa e velha conversa sem o medo de ser enxotado ou mesmo agredido. 

A coisa está a um nível tão crítico que, às vezes, tenho medo de simplesmente dizer ou apontar um direcionamento para alguém na rua, como por exemplo: 'Olha amigo, vá para a direita ou para esquerda'... A simples menção das palavras citadas, (direita) e (esquerda), em determinados momentos pode trazer transtornos terríveis. Piada a parte, parece absurdo o que estou falando, porém, não é nada fora da realidade considerando tudo o que já tá acontecendo. Vivemos em uma sociedade totalmente diferente nesses novos tempos, os valores que em outros momentos eram tão almejados,  agora, foram abandonados e considerados agressão à liberdade de escolha de alguns grupos.

Eu quero acreditar que existe uma luz no final desse túnel escuro, quero muito acreditar nisso, mas... Ao que parece a extensão do túnel é interminável, não há nenhuma possibilidade nem que seja a mais remota de um resquícios de luz. Vivemos na mais completa escuridão, em todos os sentidos e segmentos. Quantas não são as atrocidades praticadas diariamente sem que ninguém tome uma atitude para frear os absurdos. A natureza humana destas últimas décadas tornou-se mais leviana e caída do que a destruída em Sodoma e Gomorra. O homem está embriagado com o vinho de sua insana rebeldia, andando por aí, cambaleando, atentando contra a moral e os bons costumes enquanto a grande maioria dos demais terráqueos estão apenas assistindo o caos sem poder e  querer fazer alguma coisa. Basta apenas você ver em qual lado se encaixa. Ou é dos que não pode, por inúmeros motivos que não vou mencionar aqui, ou dos que não quer, também por outros tantos motivos obviamente claros.

Alguns homens me dão medo, por exemplo: quando me perguntam sobre política, em qual opção é a melhor para o Brasil, fico, por uns segundos, em modo analítico, suspenso, sem saber o que dizer, tentando entender quem me questiona para então responder sem o perigo de ser "esculhambado", sim... Digo exatamente pelo fato de já ter passado por essa situação desagradável, exatamente quando tentei 'dialogar' quando a outra pessoa queria, na verdade, apenas uma discussão ríspida e até agressiva.

... Posso até não concordar com o que me dizem, mas... Defenderei até a morte o seu direito de dizer... Levo esse princípio filosófico comigo. O sentido mais profundo e amplo desse pensamento é o diálogo, civilizado e amigável, independente da posição ou do assunto abordado.





domingo, 27 de março de 2022

CRÔNICA DE DOMINGO.

 



                      TUDO É MOMENTO.


   Acordei às seis horas da manhã, é parte da minha rotina nesse novo ano. A escola da minha filha fica a cem metros de casa, o que me permite levá-la sem carro. Minha esposa também ajuda, na verdade, ela é quem levanta primeiro e prepara o café. Um pequeno lanche e  achocolatado para acompanhar, é nossa rotina de todos os dias. Terminado de fazer o lanche, minha esposa volta a dormir, é nesse ponto que eu entro em cena, minha parte é levar minha princesa até a porta da escola. No retorno eu tomo caminho da padaria, que é perto, relativamente à mesma distância da escola, só que no caminho contrário. Vou a passos lentos.

   Compro sempre três pães, não mais do que isso, é sempre a mesma quantidade todos os dias. Essa passou a ser outra rotina. Nesses pequenos trajetos gosto de ficar observando as pessoas, seus rostos, fisionomias distintas, cada um a seu jeito. Sorrisos e gentilezas de uns, rostos fechados de outros, cada um à sua maneira. A padaria é o ponto de encontro de muitas pessoas, algumas prontas para o trabalho, passam, trocam meia dúzia de palavras e saem, outras estão retornando, essas, desejam apenas um café e irem logo para suas casas descansarem.

   Retorno para casa a passos lentos, a cabeça martela muitos pensamentos aleatórios, lembranças de tempos passados, vivências que eu desejaria muito que voltasse. Porém, o tempo não para, não volta atrás, é sempre contínuo e constante. Houve uma época em que eu trabalhei em uma metalúrgica, há alguns anos atrás, nessa época, quando eu saía do turno da noite, fazia a mesma rotina que muitos fazem hoje na padaria mencionada. Observando-os, vejo quanta falta faz àquilo que na época me parecia tedioso. É natural de nós seres humanos, falhas criaturas, desprezamos o momento presente, para no futuro, em outras situações, percebermos o quanto perdemos.

   Quem me vê caminhar, a passos contados, nota que não estou bem. Não é exatamente um problema de saúde, dor ou coisa do tipo - embora, verdade seja dita, estou sim doente e com dores, mas não quero falar sobre isso agora - Acontece que meus problemas são de ordem psicológica, interna, está lá no mais profundo, no âmago da alma. É uma dor diferente de todas que já senti, é uma sensação estranha. Às vezes, eu olho para as pessoas, as coisas, é como se nada disso estivesse ali... Eu sei que é maluquice, mas é assim que eu me sinto.

   Chego em casa e deixo os pães na mesa da cozinha e volto para a cama na intenção de aproveitar um pouco do que restou do sono. Logo mais terei que me levantar, e outra tediosa rotina acontece. Todos os dias sempre a quase insuportável repetição. No entanto, não posso reclamar, ainda que a vida em si, a minha, pareça estar à beira do abismo em todos os aspectos que vocês puderem imaginar, tenho que viver como se tudo estivesse perfeitamente bem. Essa falsa alegria, o falso sorriso, minha falsa maneira de viver alegre está prestes a mudar, eu sei que sim. Mesmo porque, tudo é momento, nada dura para sempre.



O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...