quinta-feira, 28 de outubro de 2021

CONTO.

 BREVE HISTÓRIA.


   Amanheceu. 


   Segunda-feira, pouco vento, a Edward Fru-Fru está movimentada. Algumas pessoas passam apressadamente pela calçada, outras, figuram estatísticas, veículos parados em um congestionamento enorme, é mais um dia eufórico na cidade de Sorocaba. Bernadete está quase a correr para não perder o ônibus, sigo logo atrás dela, Os meus pensamentos vagam tumultuosos, perambulando pela minha cabeça de um lado a outro, desvio dos buracos no calçamento, também tenho pressa, vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Entramos no ônibus, sentei-me atrás dela, seguimos rumo ao nosso destino.


  Trânsito travado como de sempre, meia hora depois Bernadete desceu no ponto mais próximo possível da escola, 'QualiMoura Cursos', espero para descer mais a frente. Bernadete vai a passos largos, olhando de um lado para outro, desconfia de tudo e todos.


  Não demora e chegamos quase juntos na escola, que está vazia por sinal, sete e meia da manhã, somos uns dos primeiros alunos a chegar. Estamos cursando gestão da qualidade total, um bom curso, uma junção de outros quatro; metrologia, qualidade, desenho mecânico, auditor ISO. Exigências da maioria das empresas da cidade.


  Verdade seja dita, embora a escolha seja boa, Bernadete não simpatizou com o curso, 'segundo suas próprias palavras', mas… Desempregada (ou melhor), disponível no mercado, não estava na posição de fazer muitas escolhas, por isso ela buscava a opção mais favorável para se conseguir emprego.


   Os demais alunos começam a chegar a passos de tartaruga, preguiçosos, cabisbaixos. Aglomeram-se próximos a secretária, permanecendo indiferentes um ao outro. Distraem-se com os seus celulares nas mãos e fones nos ouvidos. São poucos os que se dispõem a trocar algumas palavras com Bernadete ou comigo, um e outro que perguntam qualquer coisa sem relevância.


  Bernadete é tímida, eu ainda mais, ela continua em seu canto, o mais próximo possível da sala de aula, apenas observando todo o movimento. Uma nova arremessa de alunos começa chegar - em cima do horário por sinal - a escola antes vazia agora está quase sem espaço. Aos poucos cada aluno procura a sua classe, um a um vão saindo, ainda cabisbaixos e com os seus celulares nas mãos. Quando o relógio marca oito horas em ponto, toca o sinal da escola, um barulho enjoado que machuca os ouvidos. Os demais buscam cada um o seu lugar de sempre. Eu e Bernadete entramos na classe, ela ficou do lado oposto, bem no canto da parede. 


  A professora chega logo em seguida, é dia de prova, temida prova de desenho mecânico. Bernadete está confiante quanto ao seu desempenho… Eu nem tanto.


  Prova nas mãos, depois de uma breve leitura e releitura das questões propostas, ela começa respondendo cada uma delas, com muita calma e usufruindo sabiamente de todo o tempo disponível - mulher esperta - depois de responder tudo, 'ainda com tempo de sobra' faz uma última correção. Quando finalmente ela entregou a prova, entreguei a minha em seguida, a professora corrigiu na mesma hora, o meu coração estava em descompasso novamente. Veio a primeira notícia, 'boa', Bernadete tirou dez, eu errei uma, depois veio a segunda boa notícia; a professora lhe disse, "Pode ir embora, está liberada Bernadete é Alberto". 


  Ela não perdeu tempo, foi apressadamente para o ponto de ônibus enfrentar mais uma parcela do suplício das esperas intermináveis, saiu novamente quase a correr, certamente que queria chegar logo em sua casa, na segurança de seu lar. Eu saí no seu encalço.


  De tão apressada e assustada que estava com alguns jovens que estavam fumando e bebendo na esquina próxima, ela atravessou a rua sem prestar atenção, o sinal estava aberto, gritei, não houve mais tempo para mais nada,  Bernadete foi atropelada… chamei o resgate, era tarde demais.


  E o dia se foi, levou Bernadete, sua breve história termina aqui... 


domingo, 24 de outubro de 2021

Resenha.

 

Quase memória, de Carlos Heitor Cony, é sem dúvida um belíssimo livro, dessas leituras que te prende, arrebata, levando-o a viajar pela imaginação de um mundo e um tempo que não existe mais. Essa foi a minha primeira experiência de leitura com o autor. Posso dizer sem medo que foi uma das melhores do ano. Mergulhar nessas páginas foi maravilhoso.

Cony recebe um embrulho misterioso, tudo naquele pacote, cada detalhe, o faz relembrar de seu pai, morto já há anos. 

Como seria possível tal coisa? Era como se o próprio pai estivesse enviado, todo o conjunto do envelope, a forma que foi amarrado, papéis, tudo tinha a assinatura dele. Nesse ponto, nós leitores já corroídos pela curiosidade queremos saber o que está ali dentro. O que mais me surpreendeu - é vai te surpreender também - é de saber que o presente recebido, cheio de mistérios, não trazia exatamente coisas materiais, mas, um conjunto de recordações, uma verdadeira viagem ao passado de pai e filho. A cada página vivenciamos fatos importantes da vida de cada um deles.

O importante não é o que está dentro do embrulho, mas, tudo aquilo que ele representa na vida do escritor.

Recomendo fortemente a leitura desse livro.

Crônica

 NA ÚLTIMA CURVA DA ESTRADA ESTAVA VOCÊ.



Almas que caminham para o vale da indecisão, não sabem exatamente que rumo tomar, apenas seguem o fluxo sem ao menos prestar atenção no caminho. Algumas desnudas, moribundas, melancólicas, ainda sim seguem, parecem não querer chegar e nem sair ao mesmo tempo, são passos incertos, indecisos na escuridão da noite. 

Quem são elas?

Quais os seus nomes e suas histórias?

Quem saberá os mistérios que as cercam?

As vezes sou entre elas mais uma alma sem um norte, nem ritmo, sem nome... O mundo está cada vez mais cheio de pessoas assim, 'almas ambulantes' esqueletos vestidos de carne caminhando pela rua. Vão aos bares, contam suas mentiras, perturbam por onde passam com e suas meias verdades distorcidas. Cada um conta vantagem no que fez, no que é e foi... São um bando de almas dançarinas, desejando uma valsa a mais com o caos. Você as vê todos os dias pelas ruas, se esbarram o tempo todo nelas, as cumprimentam, as olham nos olhos, mas, você não as enxerga, e nem elas a você. É um mistério que se segue sem explicação.

'Almas mortas', como diz Gogol, sim, sem vida e sentido no que fazem, buscam coisas sem razão, nada lhes satisfazem, não percebem que na verdade, são todas, 'almas mortas'. A cidade está ficando cheia de pessoas que não tem o mínimo de objetivo, nada querem, tudo lhes aborrece, são egocêntricas, gananciosas. Não sabem o que fazer.

Será que existe algo para ser feito? 

Afinal, ainda existe esperança?

Quem poderá trazer todas essas respostas?

Eu caminho em um mundo de palavras mudas, e cada uma delas fazem parte de mim, do meu eu, do meu ser, meu decadente e desconsiderado ser.

Sensações, múltiplos sentimentos que me roubam a razão, que me conduz a insensatez momentânea de achar que o nada vale tudo. Sou mais uma entre essa turba de alucinados, insanos compulsivos, sou a pior entre inúmeros. No entanto, os motivos que me levam à beira do abismo da própria loucura são complexos demais. Às vezes penso que sou um caso de internação em hospital psiquiátrico. 

Quem, afinal, nesta vida é completamente são? 

Quem nunca sucumbiu à loucura?

Somos ovelhas perdidas nas tenebrosas terras desta vida, amamos loucamente, vivemos da mesmíssima maneira, e nem percebemos que somos almas ambulantes à beira do caos. O meu coração está sendo tomado, sem muito esforço, 'ela', sim, aqueles olhos, pernas, bocas e lábios, 'ela', minha loucura voltou... Agora pensem...

Eu mesma não acreditei quando, de repente, ela desprendeu-se da multidão. Surgiu do nada mudando tudo. Eu era apenas aquela que a exemplo de todos os demais caminhava rumo ao Vale da indecisão, contudo, bastou a simplicidade da insensatez para mudar o minha direção. Eu que pensei que seria o fim, a última jornada desta desajustada. A vida tem dessas coisas, dizem tanto que de fato acreditamos que podemos ser quase tudo...

Almas que caminham até não serem mais vistas na última curva da estrada, no entanto, era você quem figurava além da curva.



( L. B )


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...