segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Poesia.

 É o coração terra de desespero,

de dolorosas lembranças,

de promessas que causam feridas,

de mortais sorrisos

Após as lágrimas correndo na face.


É o coração terra de desencanto,

de medo e cicatrizes,

de desejos que levam a loucura,

de noites em claro contemplando o luar

e de sonhos quando ainda eram puros.


Quisera eu ter a coragem de teus beijos,

de se entregar sem receio,

mas, é o coração covarde e solitário,

de um poeta louco com versos tortos,

tudo é ilusão e

nada mais importa...



domingo, 29 de agosto de 2021

Crônica.

 VAMOS FALAR DE LITERATURA.



Na crônica deste domingo eu vou compartilhar com os senhores a resenha de um magnífico livro, leitura recente.

 "O Amante". ( Marguerite Duras ).

O livro é uma visita à memória, relata a descoberta da sexualidade. Com maestria, a autora nos conta a respeito do amante de Cholen, de sua iniciação sexual aos 15 anos. Aquela menina de cabelos trançados, batom vermelho, foi assim, na indochina francesa, em uma balsa que atravessava o rio Mekong, que chamou a atenção de um rico chinês, o amante de cholen. 

As memórias visitadas pela narradora nos conta como se dava os encontros, os acontecimentos, o amor que o rico chinês sentia por ela, e não era correspondido.  Embora pequeno, o livro é maravilhoso, leitura de um único dia, porém, não aconselho a lê-lo com tanta rapidez, acredito, e assim me comporto mas minhas leituras, lendo-o como quem desfruta de uma taça de vinho em pequenos goles. A autora não narra essa história de forma linear, ela mistura os tempos entre os parágrafos, ora contando detalhes sobre esses encontros com o chinês e a situação de sua família na época, ora adiantando ao leitor o futuro que cada um encontrou. É um livro espectacular, e recomendo a leitura do mesmo.

Vale falar também dessa brilhante autora. Marguerite Duras nasceu em Gia Định, atual distrito de Bình Thạnh em Saigon (atual Cidade de Ho Chi Minh), na colônia francesa da Cochinchina, sul do atual Vietnã. Sua família retornou à França, onde estudou Direito e também se tornou escritora. Decidiu mudar o sobrenome de Donnadieu para Duras, nome de uma vila do departamento francês de Lot-et-Garonne onde se situava a casa de seu pai.

É autora de diversas peças de teatro, novelas, filmes e narrativas curtas. Seu trabalho foi associado com o movimento chamado nouveau roman (novo romance) e com o existencialismo. Entre algumas de suas obras estão 'O Amante', 'A Dor', 'O Amante da China do Norte' e 'O Deslumbramento'. Também conhecida como a roteirista do filme "Hiroshima, meu amor", dirigido por Alain Resnais (premiado cineasta do movimento nouvelle vague), Duras também dirigiu filmes próprios, inclusive o conceituado "India Song" de 1976, muito embora sua carreira cinematográfica não atingisse o reconhecimento da literária nos meios intelectuais e acadêmicos. Outras obras suas foram adaptadas por outros diretores de cinema como O Amante de Jean-Jacques Annaud, no ano de 1992. Marguerite Duras faleceu aos 81 anos de idade em Paris, vítima de um câncer. Foi sepultada no cemitério de Montparnasse.

A literatura é magnífica, e nos oferece pérolas de inestimável valor, um portal mágico para outros universos. Falei hoje desse livro fabuloso, nas próximas crônicas prometo trazer resenhas de outras obras belíssimas. Fala-se tanto e de tantas coisas por aí, na maioria, odiosas e agressoras. Por esse motivo, reservo-me o direito de lhes trazer um pouco do que amo loucamente. Livros e escrita.



( T. P ) 

domingo, 22 de agosto de 2021

Crônica.

 SUSSURRO DO PECADO.


Confesso, ela estava provocante, estávamos de caminho a cidade vizinha, a van ficou lotada, ele, antes de sairmos, observando que no veículo já não cabia ninguém, tentou desistir, mas, ela insistia com ele dizendo que se apertasse um pouco mais caberia ele. 

E assim 'fizemos'. Apertando daqui e dali, ele entrou no carro, sentou-se do lado dela, tendo-a quase em seu colo, pele a pele. Como havia certa distância até o destino final, ele percebeu o quão sofrível seria o caminho. Ter o corpo dela esfregando-se o tempo todo no dele, o doce perfume de seu hálito fresco próximo a sua boca, o calor das pernas dela em si. Quase sentada em seu colo, viu-se em desespero. Ele, junto a janela do veículo, eu, ao lado oposto dela.

Novamente provocação...

Primeiro foi o olhar rápido dela, sem que ele percebesse a intenção pecaminosa. Olhar que não diz nada, porém, que tem em si todas as más intenções do mundo. Entre um sorriso e outro, uma brincadeira aqui e outra acolá, conversas, olhava-o muito rapidamente, quase ninguém que estava no veículo percebeu suas milícias, tão bem disfarçadas - eu sim - percebi tudo. Ele, muito atento, desconfiou, deu-se conta de tudo pelo fato dela ter sentado ao seu lado na parte de trás. Nossa van não estava tão apertada assim, acontece que ela ficou provocando, resvalando as pernas grossas vez ou outra nele. Nas curvas mais acentuadas ela praticamente jogava-se por cima do pobre moço. Era uma provocação seguida da outra. Eu me diverti vendo aquilo...

O que fazer diante da provocação?

Ele não sabia o que fazer, como reagir. Estava em completo apuros, lutando contra sua própria natureza caída. Não havia como correr, preso entre ela e a janela. A sua matéria pecadora também a desejava, ah! Eu sei que desejava, estava querendo a mesma coisa, no entanto, dentro dele, a voz da razão falava-lhe quase inaudível dizendo-lhe para resistir à tentação, mas, o coração caído, pecaminoso, ardia em desejo de tocá-la. Eu sei que foi assim... Externamente ele brincava, falava e sorria para todos no veículo. Internamente, estava em uma guerra travada contra si mesmo. Era o homem carnal contra o espiritual.

Desejos descontrolados da parte dele. O seu coração experimentava desejos impróprios, ao ponto de um quase descontrole. Os olhos o traíam constantemente, a alma era flagelada pelo coração, dominando-a e a confinando sem que a mesma tivesse poder de reação. O seu olhar a imaginava de mil maneiras, tentando evitar o que era inevitável, eu sei que imaginava, eu vi isso nos olhos dele. Pobre padre Augusto. Uma quase lágrima de desespero saiu de seus olhos, um quase balbucio clamando pelo perdão em face de seus pecados que o corroía de dentro para fora. Vermes ferozes da danação que o devoravam o tempo todo. O calor da pele dela na perna dele, a maciez da sua carne, o perfume dos cabelos em cachos. Tentação das tentações...

Sentimentos em total caos. Sim, foi um caos total, sentimentos fervilhando em seu confuso coração, ele, semi desesperado, começou a ceder as suas vontades carnais. A medida em que era pressionado contra a porta do veículo, carne contra carne, desejo contra desejo, mudou de tática. Ao invés de evitá-la, permitiu-se ser tocado, virando-se para ela de modo a senti-la também. Era o fim de sua luta contra a sua natureza caída, que, naquele momento, vencia a batalha. Fechou os olhos, se posicionando lentamente um pouco mais para ela, de modo que ela também sentisse a firmeza de sua carne. Ele foi ao delírio com aquele inusitado ato de seu próprio pecado.

"Eu, à própria tentação, venci a batalha". Era o sussurrar do pecado para padre Augusto. Atenta, guardei na memória a cena, transcrevendo aqui para meus leitores.



( L.B )


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...