quinta-feira, 29 de julho de 2021

Mini Conto.

 SINAL VERMELHO.



É manhã, sol ameno, pouco vento, a Edward Fru-Fru está movimentada. Apenas algumas pessoas apressadas na calçada, veículos parados em um congestionamento enorme, é mais um dia eufórico na cidade de Sorocaba. Bernadete está quase a correr pela calçada, desesperada por chegar na escola de cursos profissionalizantes. Os seus pensamentos tumultuosos perambulam pela cabeça enquanto ela caminha a passos largos, desviando dos buracos no calçamento, vastas emoções e pensamentos imperfeitos.

Os dias são de trevas, de violência presente em todos os lugares e assaltos à luz do dia. De cara limpa e peito aberto os bandidos estão cada vez mais ousados, assaltam em ponto de ônibus, supermercados, em todos os lugares, machucam as pessoas, matam sem piedade. Por esse motivo Bernadete desceu no ponto mais próximo possível da escola, 'QualiMoura Cursos', na maioria das vezes que ela vai de ônibus não leva a carteira e nem o celular, um justificado excesso de prudência, tendo em vista que o seu destino fica há pouco mais de trinta metros do ponto de ônibus. Bernadete vai a passos largos, olhando de um lado para outro, desconfia de tudo e todos.

Não demora e chega ao seu destino.

A escola está vazia, são sete e meia da manhã, ela é uma das primeiras alunas a chegar. Está cursando gestão da qualidade total, um bom curso, uma junção de outros quatro; metrologia, qualidade, desenho mecânico, auditor ISO. Exigências da maioria das empresas da cidade.

Verdade seja dita, embora a escolha seja boa, Bernadete não simpatizou com o curso, mas… Desempregada (ou melhor), disponível no mercado, não está na posição de fazer escolhas, por isso ela busca as mais variadas opções possíveis, e é claro, atirar para tudo que é lado faz parte da sua estratégia.

Os demais alunos começam a chegar, passos curtos, preguiçosos, a maioria cabisbaixa, indiferentes. Aglomeram-se próximos a secretária, eles permanecem cabisbaixos, silenciosos. De repente, distraem-se com os seus celulares nas mãos e fones nos ouvidos. São poucos os que se dispõe a trocar algumas palavras com Bernadete, um e outro que perguntam qualquer coisa sem importância.

Bernadete é tímida, continua em seu canto, o mais próximo possível da sala de aula, apenas observando todo o movimento. Uma nova arremessa de alunos começa chegar - em cima do horário por sinal - a escola antes vazia agora está quase sem espaço. Aos poucos cada aluno procura a sua classe, um a um vão saindo, ainda cabisbaixos e com os seus celulares nas mãos, procurando por sua tribo e seus caciques. Quando o relógio marca oito horas em ponto, toca o sinal da escola, um barulho enjoado que machuca os ouvidos. Bernadete e demais alunos buscando cada um seu lugar de sempre. Bernadete, bem no canto da parede. 

A professora chega logo em seguida, é dia de prova, temida prova de desenho mecânico. Bernadete está confiante quanto ao seu desempenho…

Prova nas mãos, coração acelerado, depois de uma breve leitura e releitura das questões propostas, ela começa respondendo cada uma delas, com muita calma e usufruindo sabiamente de todo o tempo disponível, depois de responder tudo, 'ainda com tempo de sobra' faz uma última correção antes de entregar. Quando finalmente entregou a prova, a professora corrigiu na mesma hora, o coração em descompasso novamente. Veio a primeira notícia, 'boa notícia', tirou dez, depois veio a segunda boa notícia; a professora lhe disse, "Pode ir embora, está liberada Bernadete". 

Ela não perdeu tempo, foi apressadamente para o ponto de ônibus enfrentar mais uma parcela do suplício das esperas intermináveis, saiu novamente quase a correr, queria chegar logo em sua casa, na segurança de seu lar. 

De tanta pressa, e tão assustada que estava com alguns jovens que estavam fumando e bebendo na esquina próxima, ela atravessou a rua sem prestar atenção, o sinal estava vermelho, veio uma parati, não houve tempo de se esquivar, nem do carro frear… 

E o dia se foi, Bernadete... Também se foi...


domingo, 25 de julho de 2021

Crônica.

 LUGAR NENHUM.


Caminhos que não levam a lugar nenhum. Políticas que não resolvem a vida de ninguém.  O homem e suas manias de grandeza, de querer ser e ter além do que pode compreender e dominar, foi assim no começo e sempre será - Embora pensem dominar a opinião alheia, porém, enganam-se quanto a isso. 

O desejo oculto no coração político é desde o princípio exageradamente equivocado e egocêntrico, sempre sujeito a nefasta opinião de outros é outros, sempre corrompendo e sendo corrompido até quando não pode mais. 

Caminhos tortuosos, cansativos por vezes, pedras que durante a jornada machucam os pés - não os deles, e sim o do povo. 

Vivemos em calabouço de ossos, nossas almas desesperadas buscam a própria sobrevivência entre as migalhas que caem de suas mesas, mas, neste plano terreno, tão inferior, não existe redenção e nem redimidos. Somos o que somos, fantoches nas mãos dos mandatários.

Os meus pensamentos e sentimentos, todo o meu ser, enfim, minha existência completa se faz minúscula nesse mundo de políticos caducos e arrogantes. O tempo, nosso tempo,  revelou-se com indesejáveis correntes presas em nossos pés, estamos presos por impostos inexplicáveis criados por vampiros. No presente, preso ao passado, desejando o futuro que nunca acontecerá. 

Não somos nada, somos tudo em todos de nós. Passado, presente, futuro, a mesma coisa no mesmo lugar acontecendo simultâneamente sempre do mesmo jeito. Estou cansado de políticas mentirosas e sem sentido.

Vejo e sou um entre pessoas apressadas todos os dias. É sempre assim, certas coisas parecem não mudar nunca. Corremos atrás do vento, buscamos o que não sabemos ainda. A humanidade está em pleno declínio, silencioso abismo que se abre diante de nossos pés, engolindo suas muitas vítimas nas profundezas do esquecimento eterno. 

Sei… Nada parece fazer sentido em nosso parlamento de marionetes, concordo em partes, realmente olhando de uma única perspectiva, nada parece fazer sentido. Os últimos anos tem sido assim, acontecendo sem sentido, correndo aleatório nos trilhos dos dias. Um após o outro, ponteiros que nunca param… Tic, tac, a hora é agora. 

Amanhã será um novo dia, novas oportunidades, novos momentos?

Quem sabe?

Embora, para muitos, é apenas a continuidade do suplício do dia anterior. Quantas vezes ensaio a desistência, mas a sorte… Bom, ela sempre se esquiva de mim. Sou apenas um no meio dessa multidão de controlados. Um dia qualquer, uma tarde qualquer, sol se pondo, na esquina não sou ninguém; mais um na multidão de anônimos de nossa redação.

Às vezes fico confuso, indigesto. Escrevo palavras que raramente são lidas, palavras nas páginas do jornal, esquecidas nas bancas, deixado de lado. Não lido nos blogs.

Voltando a política... 

Não há muito o que dizer... CPI que parece mais uma piada, um circo. Se vai ter resultado não sei, no entanto, é até engraçado assisti-los, debatendo temas com convidados pra lá de irritantes. Acusadores que também são acusados, caluniadores que também são caluniados. Como dito no início da crônica: "Caminhos que não levam a lugar nenhum". 

( A. L )


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Cap. 2. Os desejos do coração.

 Capítulo 2°


Lembranças que passeiam pelos pensamentos da jovem esposa. Gomer teve uma história de dor em seu passado, e só mesmo ela com a verdade de seus muitos pensamentos para saber, lutava sem muito sucesso contra a força de um passado marcado pelo pecado.

Enquanto Oséias, tanto mais amor, dia e noite lhe dedicava, o exemplar esposo na tentativa de ser diferente, dedicado cristão, político incansável. Uma pequena estrela que aos poucos se despontava. No entanto, Gomer não conseguiu corresponder.

Diante desse vivo amor escancarado pelo marido, Gomer aos poucos o negava em seu íntimo sem perceber que cedia aos desejos do coração. Os anos de servidão ao pecado tornou o seu entendimento incapaz de reconhecer e aceitar o amor sincero. Pensamentos, sonhos, desejos fermentados no mais profundo da sua alma, no âmago do coração. Eram esses desejos tão mais forte do que ela, insuportável, incontrolável a danação pela vontade alheia, resquício do passado, insuportável vontade contrária a sua nova natureza cristã, natureza essa, não bem aceita por ela de livre escolha, porém, de certo modo, imposta pelas circunstâncias do momento, pelo marido e familiares.

Ainda assim, Oséias incansavelmente tanto mais no amor se esforçava em seu dia a dia, buscando agrada-lá em tudo e todo momento, na ânsia de suprir todas as suas vontades e caprichos e provar aos familiares que os mesmos estavam errados quanto a ela.

Era crescente os desejos contrários no coração de Gomer, uma maligna sombra encobrindo o seu intelecto, dia a dia amadurecidos nas sombras, prontos a pôr em prática na calada da noite.

E de fato foi no apagar das luzes, tenebrosa imagem a consumia em vis desejos, mensagens carinhosas de feroz lobo trajado de cordeiro. Oséias que em sua inocência despercebida, tranquilo, não notou o abismo que se estendia debaixo de seus próprios pés pelo próprio amigo.

Gomer e sua incontrolável vontade, no oculto o pecado era lentamente planejado, degustado, mensagens de carinho, que aos poucos, foram para o amor, proibido amor...


Mensagens trocadas entre Carlos "Amigo de Oséias" e Gomer.



( " Amigo" )


" Olá, boa noite lindona, tudo bem? Estou com saudades, você não respondeu às minhas mensagens".



( Gomer )


" Oi… Boa noite. Mil perdões Carlos, dias difíceis sabe… "


( "Amigo" )

" O que houve com a minha flor? Como assim?"


( Gomer )


" Eu estou com um certo distanciamento do Oséias, coisa chata mesmo, ele tão preso às coisas da política. Estamos dormindo na mesma cama, mas parecemos separados".


( "Amigo" )


" Se quiser falar sobre isso, de repente, desabafar. Sou todos ouvidos".


( Gomer )


" Obrigado Carlos, você é um amor, sempre atento comigo".


( "Amigo" )


" Imagina gata, você que é maravilhosa, merece toda atenção".


( Gomer )


" Exagero seu… Sou não… Estou me sentindo um trapo".



( "Amigo" )


" A Ana tentou voltar comigo, mas não dei chances, cortei logo de cara, ela não me deu valor, perdeu".


( Gomer )


" Ah… Eu penso nisso todos os dias sabe, queria ter essa coragem, jogar tudo para ar e vê no que dá, mas, tão pouco tempo de casada, o que vão pensar?".


( "Amigo" )


" E vai ficar sofrendo mulher, sendo esquecida aos poucos, logo mais o Oséias te esquece, te trocar pela política. Separa logo, Oséias é político, daí a pouco te esquece".


( Gomer )


" Sei não… Depois tem a igreja, nossas famílias, e todo o falatório que isso vai dar. Sem dizer que eu é que vou sair por mal, tem o meu passado também... Sei não".


( "Amigo" )


" Você é tão linda Gomer, tão especial, 'se me permite a ousadia' a mulher dos meus sonhos".


( Gomer )


" Nossa! Não é pra tanto vai, exagero seu, nem sou tudo isso, me deixou ruborizada agora".



( Amigo )


" É isso e muito mais".


.......


As mensagens continuaram mais quentes, dia após dia, partindo para pequenas fotos, que foram ficando sensuais, ousadas, inapropriadas. 

Pecado planejado, pecado feito.          

Não demorou para o jovem e inexperiente político Oséias perceber o repentino distanciamento da esposa. Não era ela aquela mesma mulher com quem casará, e nem tão vivido era o seu amor, Oséias lembrou-se e temeu de que os parentes tivessem razão.

Veio-lhe na memória todas as acusações ditas na ocasião do casamento.

Pensava triste enquanto observava Gomer em seu mundo perdido virtual, era um abismo que crescia seguindo a outros mais, mensagens ocultas a luz do luar, Gomer estava tão cega que não percebia os rastros de perdição pelo caminho. 

Ao vê-los todos, Oséias horrorizou-se com cada erro, cada picante mensagem no celular, Oséias chorou copiosamente, endureceu-se, era o passado de Gomer se fazendo presente.

Descobriu tudo o que jamais desejaria um dia ver, e da pior forma possível, mensagens, o amante, o pecado, as fotos, perdição, a virtual maldição no alcance de um toque.

Noites em claro, a dor que dilacerava de dentro para fora, tanto amor dedicado, e agora Oséias fora traído, estava arrasado e com seu coração partido, confrontou duramente Gomer, que não negou o horrendo ato. Não havia mais o que fazer a não ser separar-se, a dor era tão maior, difícil de explicar, aliás, palavra alguma explica o inexplicável. Cabisbaixa, Gomer nada dizia, seus lábios eram apenas silêncio.


- Desaparece da minha vida. disse Oséias entre gritos, vai embora para não voltar, desapareça para sempre. Ah! Se eu tivesse dado ouvidos meus tios...


Finas lágrimas escorriam dos olhos pintados de Gomer, que nada respondeu. Perdia tudo, em um instante, o tudo se fez em nada. Último olhar, discreto aceno, sem resposta, adeus no caminho extremo, Oséias fechou a porta, sentou-se no chão frio da cozinha, chorou no desespero de sua dor.

Noites e dias que se completam, a dor não que cessa, que nunca para de doer em seu flagelado coração. Quisera Oséias apagar da mente tudo quanto viveu naquele trágico primeiro ano de casado, toda mancha de pecado, toda angústia, toda lágrima, quisera ele reescrever tudo novamente. Mas, as lembranças... Os lábios, a doce voz, o toque de suas mãos, era tudo tão complexo.

O coração ardendo ainda mais, sangrando sem nunca parar, Oséias caminhava sempre solitário por entre a multidão, sem voz, sem brilho, sem vida.

A casa, de repente, ficou tão pequena que as flores do Jardim murcharam e perderam a cor. Noites e dias se completam em meio a sua confusão na alma. Na mesa da cozinha, o copo de café vazio, uma rosa desbotada, fotografias jogadas ao chão. 

Noites e dias se completam, amor, dor, muita dor, desejo, angústia, resquícios de arrependimento fugitivo.

'Talvez haja arrependimento naquele desolado coração', pensava ele, era a dor de amar se fazendo maior que a dor de se perder.




O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...