domingo, 18 de julho de 2021

Crônica de domingo.

 DESEJOS LITERÁRIOS.



Há dias em que eu chego do trabalho com todo o pique para ler e escrever, fazer isso é aquilo outro em meus textos e rascunhos. Geralmente traço vários planos literários no caminho para casa, ideias e mais ideias que surgem repentinamente... Mas... Basta adentrar nos domínios de meu lar, e todo o meu planejamento se desfaz como um castelo de areia que a onda derruba.

Há dias e dias. No entanto, ainda alimento a utópica ideia de que viverei exclusivamente da minha escrita, pura ilusão eu sei. Logo volto a realidade que me cerca e me condena dia após dia. Realidade esbofeteando minha face de que sou um simples operário do sistema, na sua laboriosa atividade universal de todos os dias. Por muitas vezes busco uma única linha de escrita, a metade de um parágrafo qualquer, um lampejo de inspiração que seja, porém, tudo é silêncio, quietude, e as palavras desaparecem no obscuro da minha mente.

Não é falta de inspiração, nada disso, tão pouco bloqueio literário, não é o caso. O que acontece de verdade é a falta de tempo mesmo, sim, falta de tempo. É a tirania do relógio se impondo em minha vida uma vez mais.

Tenho alguns trabalhos em andamento, romances parados, original de contos, outros projetos a passo de tartaruga. Uma poesia aqui é outra ali que vou ganhando entre uma escrita e outra. O que tenho de constante mesmo na escrita são as crônicas semanais, como nessa em que estou trabalhando no presente momento. Crônicas que busco toda semana, com ou sem inspiração, conhecida entre os cronistas como literatura sob pressão.

Nesse ínterim tem as minhas leituras, essas sim são religiosamente todos os dias.

Leio bastante, tenho devorado muitos livros, neste ano, temas específicos. Um de meus defeitos que passou a ser também qualidade é de que não consigo ler um único livro por vez, sempre tenho que ter dois ou mais na alça de mira. Eu sempre procurei achar tempo onde ele não está, afinal, não consigo ficar sem escrever ou ler, é impossível, ainda que seja uma linha ou ler uma página que seja.

Também há aqueles dias em que os meus personagens estão por demais rebeldes, briguentos, questionadores de tudo... É uma loucura aqui na minha cabeça. Eu digo para um deles; 'Faça isso', ele não obedece, e digo para o outro; 'Morra', ele simplesmente não quer morrer. É bem complicado de entender essa questão de ter outras personalidades literárias e personagens habitando em si, dividindo espaço em nosso universo ficcional. Pode parecer assustador essa coisa de ter tantas pessoas dentro da gente; parece doidera, mas não é, poder habitar neste mundo de fantasia, irreal, e um terrível privilégio. 

Não posso deixar de dizer que todo escritor é um bom observador da vida alheia. Escrever é a arte dos covardes, dizemos depois o que deveríamos ter dito na hora. Gostamos de espiar, escutar, fazer parte da nossa rotina criativa e absorver do nosso meio situações que posteriormente serão devolvidas em histórias. 

O meu desejo mesmo é de ser escravo da literatura. O cansaço sempre atrapalha meus projetos, roubando o vigor da vontade literária. Porém... Tudo o que é bom também pode ser ruim. Afinal, o veneno está justamente na quantidade.


sábado, 10 de julho de 2021

Crônica de Domingo

 A MORTE DO RATO.



Lá estava eu, a caminho da redação. Emprego temporário, uma discreta revista no centro da cidade onde eu moro. Cidade essa que não sinto de mencionar.  Perdoe-me... 

Essa modesta moça, jovem jornalista, caminhava tranquilamente pelas ruas próximas ao centro do nosso rascunho de metrópole, e, entre uma e outra rua, eis que, de repente, surge um peculiar e asqueroso personagem, percorrendo livremente pelo canto de um velho muro. 

E lá estava ele, pequeno e ligeiro camundongo, em seu caminhar desatento pelo muro, entre um saco de lixo revirado e outro. Repentinamente, eis que surge um certo homem, sabe Deus de onde, desconhecido de mim, avistando o rato no canto do muro, logo apressou-se e correu atrás do bichinho até quase apanha-lo, estava o tal homem com um pedaço de pau em uma das mãos, sei lá onde aquele sujeito o conseguiu aquilo. Não havia mais ninguém na rua além de mim é o rato, no outro instante apareceu essa figura. Parei para observá-lo, pois via-se que suas intenções com o pequeno roedor não eram boas. Foi quando o homem acertou-o ao atirar o pedaço de pau, mirando certeira, golpeando-o na cabeça, esmagando-o no canto da parede ao ponto de ficar marcas de sangue. 

Fiquei horrorizada, pois mesmo depois de morto golpeou-o com a violência, por várias vezes, fiquei horrorizada com a violência empregada pelo moço. Não me contive e fui questioná-lo.

  - Ei... Moço... Oi...

  Parando o massacre olhou-me um pouco assustado, eu, mais ainda, pois somente naquele momento raciocinei no que eu estava fazendo. Eu, jovem donzela em uma rua pra lá de estranha, puxando assunto com um estranho muito do suspeito, mas, era tarde para voltar atrás. Continuei...

  - Ei moço... O que você está fazendo?

  O moço respondeu seco e direto.

  - Matando esse rato nojento.

  - E por qual motivo? 

  - Agora... E precisa de motivos... É um rato, simples assim, faz sujeiras, tem doenças, incomoda, é nojento, tem que morrer. Simples assim.

  Parei... Pensei...

  - Sério... Sério mesmo... Veja bem. Não que eu esteja defendendo o rato, que concordo que seja nojento, mas... O homem faz sujeiras por toda a natureza também, a séculos. Tem e transmite doenças mortais, quando não é a incubadora da própria doença para outros - a Covid- 19 fala por si - Incomoda o tempo todo. E mais... Criou armas, bomba atômica. Fez inúmeras guerras e está querendo outras mais... Será mesmo que o rato é o problema?

Logo imaginei alguma repreensão ou coisa pior. Estava já preparada para correr se fosse o caso. Para o meu espanto. Aquele homem não fez nada, não falou uma única sílaba. Apenas me olhou profundamente e depois saiu caminhando na direção contrária.

Eu continuei o meu caminho para o trabalho. 

Mesmo fazendo aquele trajeto outras vezes, nunca mais aquele moço apareceu. Eu não consigo me esquecer da cena e da morte do rato.

Não tenho a mínima ideia do que me fez lembrar da história. Nem do porquê escrevo-lá, talvez a falta de assunto, ou, assuntos paralelos correndo em minha memória. Sei lá...

Cronista que sou, não posso perder a oportunidade de relatar essa peculiaridade do meu dia a dia, nem mesmo quando ela surge tão desavisadamente.



( L. B )

domingo, 4 de julho de 2021

Crônica de Domingo.

 O JOÃO DE BARRO.



Vozes que gritam pelas ruas e avenidas, braços que se levantam, gesticulando freneticamente enquanto as bocas escancaradas falam e falam com voz de trovão. 

Cada dia que passa, é um dia a mais de ódio com um a mais para odiar e ser odiado. Estes mesmos, junto a outros correligionários, organizam as suas passeatas. São vozes que gritam palavras de desordem aos desordeiros pelas ruas e avenidas. "Ele 'é', sim, ele 'é' sim..." mas você sabe o significado dessa palavra aí? Perguntou o moço. 'Não faço ideia', respondeu o manifestante continuando a gritar sem saber o significado da palavra gritada. Enfurecia-se cada vez mais, parecia fora de si, ao pronunciar o nome dele logo em seguida de dizer que ele 'é'. 

Estes mesmos que, em outras ocasiões, quebraram, desrespeitando o que para outros é considerado sagrado. De fato não compreendo tais atitudes. De nenhum dos lados, aliás, nem dos que dizem que ele 'é', tampouco daquele que solta palavras e mais palavras sem pensar. Xingamentos, contra acusações, acusadores sem fundamentos. Enfim, esse país está mesmo uma baderna generalizada. Difícil é compreender onde começa um erro e termina o outro, de ver com quem de fato está com a verdade, uma vez que, ambos os lados dizem serem possuidores da dita, 'verdade'. Mas, eu pergunto... O que é a verdade?

A política é mesmo um negócio complicado de se entender. Defender esse ou aquele, não importa, você estará certo para uns e errado para outros, independente do lado que você estiver, foi assim, é assim é sempre será. Acho mesmo que a essência da política se perdeu pelo caminho. " Se é que ela um dia esteve no caminho da sua própria essência", no entanto, vou pensar que sim, que a verdadeira política ainda exista, sabe lá Deus onde. Enquanto isso, o circo está solto, homens e mulheres, massas de manipulação soltas por aí. Fazendo por fazer, defendendo sem saber, tendo sem merecer.

Agora eu... Estou mesmo preocupado com o João de Barro... Veja que o espertinho fez sua casa na árvore de frente de casa. Faz tanto tempo que não vejo um João de Barro. De repente, em meio a gritos e falas exaltadas, ameaças e xingamentos, mãos levantadas que gesticulam, bandeiras de cores quentes, multicoloridas, encontro ele, essa preciosidade da natureza, em plena selva de concreto. Enquanto homens estão preocupados com esse 'é' aquele cara lá, o João de Barro apenas observava a muvuca preocupando-se unicamente com sua casinha. Vou seguir o exemplo do João de Barro, é ficar na minha, quietinho da janela da minha casa de Barro, apenas observando o circo passar. 



( A.L )


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...