domingo, 6 de junho de 2021

Crônica.

 


O CICLO DA VIDA.



O tempo está passando cada vez mais rápido, já estamos perto do meio do ano. E tudo continua a mesma coisa, nada mudou e não parece querer mudar. Muitas pessoas importantes se foram, vitimadas pela COVID-19. Carrasco vírus impiedoso. Todos nós temos uma história para contar, de um alguém querido que perdeu a guerra nesta batalha tão desigual. Entre os milhões que foram contaminados, também faço parte. Pela misericórdia divina ainda estou por aqui. 

Não vivemos em um mar de rosas, o mundo não está sendo melhor com ninguém. Que as gerações futuras, ao lerem essa crônica, saibam que estamos atravessando um momento único em nossa história. Depois de duas guerras, diferenças religiosas e culturais, guerras civis, enfim, de tanto que foi feito, ninguém conseguiu silenciar com tanta brutalidade a voz do mundo. Os nossos carros ficaram em silêncio, assim como as nossas ruas, empresas, bares, igrejas, lojas... A terra parou, de repente, ajoelhando-se diante de um invisível e minúsculo vírus. Esse pequeno e aplicado inimigo tirou-nos a única coisa que riqueza nenhuma no mundo pode comprar. 

Sabem o que eu desejaria de verdade... Por um único momento. Nada de pandemia... Não...

Eu desejaria muito ter um dia tranquilo, sem nenhuma responsabilidade, com nada, com ninguém, apenas isso, um dia tranquilo e nada mais. Poder sentar e coçar o dia todo, comer o que me der na telha, assistir programas chatos na televisão sem ser interrompido, e novamente comer uma infinidade de besteiras até a barriga doer. Apenas isso… É claro que este pensamento, este insano desejo, não passa de um sonho qualquer, desses que sonhamos de 'barriga cheia', - bem cheia por sinal - como se diz por aí. 

Eu desejaria muito ter, e ser, mas, ao contrário disso, apenas faço nada ter, e cumpro sem questionar, pois não faz diferença o meu 'ser'. Essa é minha vida, este sou eu… Cumpridor da agenda estabelecida, seguindo as regras.

Talvez um dia que sabe, tudo passe, e sei que vai passar. Lá na frente, no futuro, toda essa dor vai ser lembrança em uma tela de computador.

Os governantes de nossa nação não se entendem, digladiam-se exaustivamente até que o mais fraco sucumba. E os pobres assistem sem nada poderem questionar.  

O tempo passa, sopra suave como a brisa das manhãs em nossas nucas. Sentimos apenas um leve arrepio, é isso e nada mais. Que o relógio corra velozmente em busca de mais tempo, e que o tempo corra ainda mais veloz para não ser roubado novamente. Eu e você sabemos que tudo nesta terra, de certo modo,  é inútil. Nascemos, vivemos , morremos. É o ciclo da vida impondo suas regras. E neste momento de filosofia e reflexão, me entrego ao sofá, nada posso contra os seus braços fortes, e como tiro de misericórdia, sou vencido pelo sono.



( T. P )

sábado, 1 de maio de 2021

Mini Conto.

 


NOITE DE NÚPCIAS.


Abre a janela, está escuro lá fora, andarilhas estrelas que ainda vagueiam no ermo escuro. A lua, com sua tímida luz quase a tombar no horizonte, ao Norte, os ventos mornos do verão que sopram suaves e constantes.

Do lado de dentro, a trêmula e fraca luz de um velho lampião dança de um lado para outro, um pequeno rastro de fumaça que sobe e se dissipa na escuridão. Sombras indistintas refletidas na parede do quarto. A cabeceira da cama, um quadro antigo, o jarro de água no criado mudo. O grilo grita lá distante, o sapo responde do outro lado do riacho, o som tranquilo da água que corre ligeiramente. 

É madrugada de sábado.

Madrugada de núpcias.

A janela continua aberta.

A camisola fina revela a pele macia e jovem, o toque da mão, o arrepio na nuca, o olhar de canto de olho, o eriçar dos mamilos marcando a veste. O olhar se perde no horizonte escuro quando ela sente o roçar pulsante entre as nádegas. O olhar se fecha, o suspiro forte ao sentir os lábios beijar-lhe o pescoço subindo até sussurrar levemente nos ouvidos. O corpo inteiro estremece e se arrepia. Sombras refletidas na parede revelam corpos desnudos, sombras perdidas e nuas, vacilantes a luz do lampião.

A janela continua aberta.

A camisola desliza pelo corpo jovem até cair completamente, dedos que tocam levemente a intimidade úmida, ligeiramente inclinada na janela de madeira, sente o roçar pulsante esfregando-se, ela tem medo, em um movimento de subir e descer ele sente desejos como nunca antes. A perna é aberta um pouco mais, bambeia, olhar de desejo na lua fugitiva, dentes que mordem a boca enquanto é introduzida sem muita delicadeza, dor, prazer... A lubrificação ajuda na penetração, quase inaudíveis gemidos, as duas mãos sobre os seus ombros pequenos, movimentos rápidos, o seu corpo totalmente inclinado, ela desaparece na janela, é apenas ele em seu balançar, olhos fechados, o mastro pulsante fazendo-a gemer mais alto, no vai e vem frenético, no roçar da sua intimidade apertada. 

A novidade prazerosa e cheia de dor. O líquido quente jorrando dentro de si.

A janela continua aberta.

É noite de núpcias.

E de repente, lábios e língua percorrem a extensão das suas coxas, subindo lentamente, ao atingir os grandes lábios, úmidos do prazer intenso, não resistindo, ela geme mais alto, a madrugada avança até o cantar do galo. E tudo se repete e se intensifica. Por fim amanhece, dois corpos nus estirados na cama sem lençol.


segunda-feira, 26 de abril de 2021

CONTO.

 



A CAVERNA.

Havia qualquer coisa de diferente no rosto de Alice,ela estava assustada, para não dizer transtornada. Madame Lili bem que avisou sobre a caverna e todas as histórias assustadoras que os antigos moradores da aldeia contavam. 

Diziam os antigos, que a caverna da rocha era a porta de entrada para o mundo intraterreno,  habitado por criaturas monstruosas.

Alice ignorou todas as advertências de madame Lili, mesmo sabendo do risco que corria, entrou na caverna assim mesmo, curiosa em descobrir se aquelas histórias eram verdadeiras ou se eram meros contos populares.


Aquela criatura pequena, de nariz pontiagudo, roupas estranhas, esfarrapadas e de orelhas pontudas diante de Alice era a prova definitiva de que a caverna e tudo quanto diziam eram reais, e que uma das tais criaturas de que tanto se falava estava ali, diante de seus assustados olhos. 

A estranha criatura permaneceu imóvel por alguns segundos, depois moveu a cabeça levemente para esquerda e depois para a direita, parecendo estar estudando a reação de Alice, que, diante do inusitado encontro, permaneceu petrificada. Todas as suas palavras sumiram, silêncio absoluto, tamanho era o seu espanto.

O que pareceu-lhe ser um duende, dessas das histórias de contos de fadas, começou a acenar para ela com as mãos, dedos magros, unhas grandes, acenava chamando-a para acompanhá-lo. Alice estava incerta quanto a oferta, deu um passo para trás, pensou em sair correndo o quanto antes da caverna, porém, a sua curiosidade foi ficando cada vez maior do que o seu medo, vencendo-o pouco a pouco. 

O duende acenava com as mãos, era um convite muito estranho, ali tudo era estranho. Por fim, a criatura vendo que Alice permanecia no mesmo lugar, a chamou pelo nome, proferindo sua rouca voz que ecoou no interior da caverna.


- Não tenho medo Alice. Venha comigo menina, não tenha medo, minha criança...


Alice admirou-se da criatura estar falando com ela, aquilo tudo era surreal, o espanto foi dando lugar para admiração e curiosidade. Receosa, no primeiro momento, nada respondeu, ameaçou em dar mais um passo para trás, quando novamente ouviu a voz da pequena criatura.


- Por favor! Não vou lhe machucar... Venha conhecer um mundo cheio de seres fantásticos e mágicos, não é esse o seu desejo?


Vencendo o seu medo, Alice arriscou dialogar com o duende.


- Você é real? Como sabe o meu nome? E meus desejos? É a primeira vez que venho a esta caverna...


- Nós sabemos de todas as coisas que se passam lá em cima, minha pequena, mas, vocês, seres da superfície, nada conhecem de nosso mundo e nem a nosso respeito. Não tenha medo, você foi escolhida, será a primeira a conhecer nossos segredos.


- Não... Não... Isso não é real... Não pode ser... Não mesmo...


- Estou aqui, não estou! Olhe, estou bem na sua frente, veja, sou real, não tenha medo, venha...


Alice deu o primeiro passo em direção ao duende, nos lábios dele despontou um discreto sorriso, sarcástico por sinal, Alice estava admirada demais para perceber os riscos que corria ao acompanhar o misterioso duende. Deu o segundo passo, o terceiro, ainda incerta, lentamente seguiu-o, que continuava acenando. Passo a passo ela foi se distanciando, a pequena criatura sempre a frente, o caminho foi ficando cada vez mais estreito e escuro. Havia medo no olhar de Alice.


- Não enxergo nada, eu vou voltar. Disse ela reclamando.


No mesmo instante, em um estalar de dedos, surgiu nas mãos do duende uma tocha, a sua chama iluminou o rosto da criatura, o mesmo sorriso sarcástico.


- Venha... Temos muito a caminhar, venha. Há luz mais a frente.


Alice seguiu-o embrenhando-se pela caverna.



Era a tarde de uma sexta-feira, começo de verão, dia quente, foi quando a jovem Alice sumiu do povoado do Lajedo. Todos a procuraram por meses, e em todos os locais possíveis, até mesmo em algumas partes da caverna e da floresta em seu entorno, mas, Alice nunca mais foi vista, o seu paradeiro era desconhecido da aldeia. Por fim, depois de meses e meses de procura sem sucesso, sem encontrar uma única pista, desistiram de procurá-la.

Os pais de Alice ficaram arrasados, era a filha caçula dos Andrades.

Passou-se vinte anos desse episódio, a história do desaparecimento de Alice era acrescida às já contadas da caverna e seus fantasmas. Até que certo dia, em uma sexta-feira, começo de verão, moradores relataram ter encontrado uma menina, vagando sozinha pela floresta à procura de seus pais.






O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...