domingo, 21 de fevereiro de 2021

Crônica.

 




NEM TUDO É BELEZA.


   Ainda está escuro, abro o portão com cuidado, olho de um lado e outro… Nenhum movimento na rua, absoluto silêncio. Os primeiros passos são seguidos de uma oração, que é iniciada agradecendo a Deus pelo privilégio de ter mais um dia de vida, pelo ar que respiro, pela oportunidade do emprego - embora que não seja o trabalho dos meus sonhos - mas é através dele que o todo poderoso tem abençoado minha vida, sou imensamente agradecido por tudo que tenho.

   O céu ainda escuro exibe estrelas bailarinas e cintilantes, parecem acenar para os terráqueos que, desatentos, se quer as percebem na imensidão celeste. Sou entre os poucos transeuntes da madrugada, o único aficionado olhando mais para o alto do que para frente. Vez e outra algum buraco na calçada me surpreende em tropeções desagradáveis, nada mais justo para quem olha mais para o céu do que para o chão onde pisa. Nem sempre a lua se faz presente, e quando se faz, a dama da noite aparece roubando toda atenção é dando um espetáculo de beleza.

   Passos a mais por calçadas desniveladas, uma rua aqui e outra acolá, me encontro na 'Atanásio', vou tranquilo rumo ao trabalho, rua essa que termina na Avenida Itavuvu, com um pouco mais de caminhada e chegaria ao destino final, mas… Ainda na Atanásio, olho para o céu, ao leste, a luz do dia começa a despontar no horizonte, tons de vermelho e laranja salpicam nas despesas nuvens afogueadas e com estonteantes tonalidades. É de um espetáculo belíssimo, criação das mãos de um Deus perfeito, cujas obras são excelentes.

   Nem tudo é beleza, infelizmente, em algumas dessas ruas, me deparo com jovens extremamente alcoolizados saindo de festas que varam de madrugada. Carros com sons altos, moços e moças com copos e suas bebidas destiladas. Eles gritam e dançam no meio da rua, entram na frente de carros, perturbam o silêncio dos outros. Passo por eles sempre de cabeça baixa, não os condeno, lamento pelo fato de direcionarem suas alegrias de modo tão errante. Essa é a nova tendência para esses novos tempos. 

   O homem descarrilou-se dos trilhos da sabedoria divina, trocou a sua identidade original por outra forjada nos domínios infernais. Buscam o prazer a todo custo, pagam alto preço por momentos de perdição. Para alguns desses jovens tais atitudes revelam apenas suas vontades triviais e reprimidas, extravagantes e inocentes aos seus olhos, porém, são esses caminhos de perdição. Quando vejo jovens tão belos e inteligentes, desperdiçando as suas vidas em coisas que não tem sentido, lágrimas correm dos olhos. No que se tornou o homem?

   A passos lentos vou caminhando, olhos e coração no céu. Transeuntes apressados em suas bicicletas, desejosos para chegar ao trabalho, não é a vontade de chegar em um lugar maravilhoso e encantado que os motiva, é pelo medo de se atrasar e levar uma advertência. O sol ganha força, escala o azul celeste, um novo dia começa, uma nova oportunidade para aqueles que desejam fazer diferente em um mundo tão sem cor e igual.

Finalmente chego ao trabalho, pronto para mais um dia de batalha.


( T.P )

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

MINI CONTO.




 AGONIA E ÊXTASE.


Carlos estava exausto, dia cansativo, as coisas não aconteceram como ele gostaria que fosse, aliás, nos últimos meses, mudanças importantes na gerência do setor onde trabalhava deixou todos com os nervos à flor da pele. Quando pensavam que as novas diretrizes trariam ares diferentes, veio a  frustração, os mesmos erros, as mesmas falhas cometidas na gestão anterior. O ciclo vicioso do erro continuava.

   No ponto de ônibus, Carlos refletia nos últimos acontecimentos, não era somente as turbulências no trabalho, havia também as tempestades na vida pessoal.  Amizade de anos com Joana, colega de trabalho, que sem uma explicação lógica, afinal - não existe lógica no amor - aquela amizade transformou-se no mais sublime e perigoso dos sentimentos. As conversas diárias no refeitório da empresa durante o intervalo do almoço, palavras que tomavam rumos diferentes, não era para ser daquele jeito, a sua razão dizia que não, porém, o coração fez tudo convergir para o caos que é amar. Ele, casado, ela também, nos olhos dele, o mesmo sentimento de desejo, pecado, agonia, êxtase, medo e euforia que também refletia nos dela.

   Mais uma tarde, mais um dia de trabalho, faltava as palavras certas nas trocas de olhares… Carlos queria os lábios de Joana, o cheiro dela, o toque ardente, a pele em chamas, 'talvez um sim', 'talvez um não', 'o que seria se o convite fosse feito', pensava ele. Ao mesmo tempo que o desejo queimava no coração, a sua covardia incinerava a sua alma. Dias e noites, pensamentos intensos, sonhos, a mensagem apagada no celular. O desespero de não fazer nada quando se quer tudo, a agonia de disfarçar para inocente esposa os seus gritos de amor alheio. Havia momentos em sua solidão em que ele se colocava todo decidido, faria isso, falaria aquilo, custasse o que custasse. Mas, bastava o perfume de Joana, a presença, o olhar feiticeiro para roubar-lhe toda audácia, e novamente Carlos, como em todos os outros dias, era apenas sorrisos, desejos e medos. O amor estava ali, do lado de fora, como uma paisagem que se vislumbra da janela do veículo sem nunca poder tocar.

   Carlos estava exausto, entrou no ônibus, procurou inutilmente lugar para sentar-se. De pé, equilibrava todo o seu cansaço. O ônibus saiu devagar, trânsito carregado, do lado de fora, na calçada, Joana acenava para ele, que, sem jeito, retribuiu o aceno. Era a face do amor dando adeus ao desespero. Só mais um dia, mais uma palavra e tudo estaria consumado. Enquanto o coração gritava pela danação do pecado, sua alma revelava-se covarde demais para fazê-lo. 


domingo, 14 de fevereiro de 2021

RESENHA.

 



O TESTAMENTO DE ABRAÃO.


   Existem aqueles livros que nos arrebata logo nas primeiras páginas, esse em específico é um deles. Diferente de muitos que já li, as primeiras palavras deste livro prendem o nosso olhar. É de uma simplicidade e beleza poética estonteante, o que por si só, valeria os trinta capítulos que compõem essa obra. O livro aborda o final da vida de Abraão, apresentando o patriarca com o um homem extremamente bondoso - com todos, aliás, ricos e pobres - tal amorosidade como nunca se viu, abrangendo todos os seres humanos, Abraão como todos os mortais, estava destinado a morte, e como esse dia se aproximava, Deus envia o seu Arcanjo Miguel para lhe anunciar que o fim dez seus dias chegava, que era para ele se preparar.

   O anjo que Deus enviou a Abraão o acompanha até a sua casa, o seu filho Isaac, vendo-o, percebe se tratar de um ser celestial.  Miguel, o anjo enviado, confirma para Isaac a promessa feita por Deus a seu pai. Abraão pede ao filho Isaac que prepare uma mesa para ele é o anjo, ambos comem, o anjo sai dali para o céu num piscar de olhos. O anjo se admira diante da bondade e amorosidade de Abraão, não teve coragem de lhe dizer sobre sua morte. O arcanjo retorna a Deus no fim de tarde, para o adorar, pois é costume de todos os anjos assim o fazerem. Miguel fala ao senhor da dificuldade de dizer a Abraão sobre a sua morte, Deus, no entanto, dá a Isaac um sonho referente à morte do pai, para que Miguel lhe dê a interpretação do mesmo. E assim acontece, Isaac adormece e tem o sonho, acorda angustiado e chorando, revela ao pai que sonhou. Sara ao ver a cena, percebe que o visitante em sua casa se trata de um anjo, revelando a seu esposo sobre o fato. Todos percebem que tal visita se trata de alguma revelação do anjo, boa ou ruim.

   O anjo Miguel revela a Abraão do sonho, que ele, Abraão, deve arrumar sua casa, abençoar seu filho, pois sua morte se aproxima. A princípio o velho patriarca fica temeroso, mas o anjo lhe conforta a respeito da inevitabilidade da morte. Abraão pede ao anjo que fale ao senhor, pedindo-lhe permissão, antes da morte, que ele visse os reinos do mundo e tudo quanto há na terra e no céu. Miquel intercede diante de Deus, que por sua vez permite ao seu servo ver os reinos da terra e coisas no céu.

   Abraão é levado por Miguel em uma nuvem, ele então começa a ver os reinos do mundo, toda sua impiedade, sendo justo, questionava o anjo das imoralidades que via. Deus havia dito a Miguel que fizesse tudo quanto Abraão dissesse, e, uma vez, o velho patriarca contemplando tais atrocidade, pedia ao anjo que destruísse aquelas almas atrozes, assim era feito, de sorte que Deus deu ordens a Miguel que mostrasse o reino e mistérios celestiais. No céu lhe foi revelado o mistério da porta estreita e da larga, e do homem no trono, que sorri e chora conforme as almas, após julgadas, entram pelas portas. O homem no trono chora ao ver muitas almas entrando na porta larga, que leva a perdição, mas sorri com as poucas que entram pela porta estreita, que leva a salvação. Abraão é levado por Miguel a outro lugar, e vê o julgamento das almas que ali se apresenta. As que são achadas com máculas e pecados são levadas para os atormentadores( inferno ). Cada alma tem sua vida relatada em livros, onde estão descritos todos os seus atos, bons e ruins, o justo Juiz se vale desses relatos para apresentar para as almas desencarnadas as suas justas sentenças conforme seus atos em vida.

   Terminado de mostrar todas as coisas, o poder de Deus, o julgamento das almas e o seu destino, Abraão é levado de retorno a sua casa, Miguel lhe fala que está na hora de partir dessa vida, que sua hora havia chegado, uma vez mais Abraão se recusa a ir. Miguel retorna ao céu, notifica a Deus do ocorrido, Deus então e via-lhe o anjo da morte para que o traga, porém, o horrendo anjo da morte, com ordens divinas, vestiu-se de beleza e formosura e foi ao encontro de Abraão. A morte se revela ao velho e amado patriarca, revela que foi enviada por causa dele, em determinado momento, a pedido de Abraão mostra-lhe sua verdadeira e horrenda face, revelando ainda os tipos de mortes e a forma que ela, a morte, se apresenta para cada alma. Abraão se recusa a ir, diz que está cansado, a morte pede para que ele toque em suas mãos para ter a suas forças reparadas, era engano da morte, pois ao tocá-lo, sua alma imediatamente se retirou do corpo. Abraão estava morto. Miguel e muitos anjos aparecem para receber a alma de Abraão, que é levada imediatamente ao paraíso de Deus, que, pela vontade do altíssimo, permanecerá lá, para receber naquele lugar de descanso ( agora conhecido como seio de Abraão ) as almas justas daqueles que partiram justificados.

   Belíssimo livro em que descreve o patriarca e amigo de Deus de um modo totalmente diferente.


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...