domingo, 14 de fevereiro de 2021

Crônica.

 




CONFERÊNCIA DOS ANIMAIS.


   Foi convocada em caráter de urgência, uma grande conferência, como nunca antes vista, reunindo incontáveis animais, de inúmeras raças, tamanhos e tipos e países. Todos esses animais se agruparam organizada e civilizadamente, em um local ultra secreto. O acordo de paz assinado por todos os animais assegurou que nenhuma espécie atacaria a outra ou se valeria de sua superioridade física durante o evento. De comum acordo, todos respeitaram a todos, de modo que onças, leões, tigres, cachorros, leopardos, gatos, ratos, coelhos,  esquilos e demais animais estivessem todos juntos sem brigar,  atentos ao pronunciamento que logo mais começaria.

   Quem presidia a prestigiada conferência era o Conde Pluto, um Border Collie de quinze anos. O seu antigo dono era o presidente da maior rede de pet shop do mundo. 

O tema anunciado por Pluto era: " O FIM EMINENTE DE TODOS OS ANIMAIS". Todas as espécies aguardavam com grande ansiedade o início do pronunciamento de Pluto. A maioria dos animais presentes compartilham de algo incomum, eram vítimas da impiedosa 'castração', ação essa, causada insensatamente por seus respectivos donos e criadores. Consternados com a barbárie sofrida e cada vez mais crescente, eles não podiam mais ter descendência, vida oriunda de suas próprias vidas. Se nada fosse feito, em pouquíssimos anos não haveria mais animais na face da terra.

"O homem não é digno de nós", dizia Pluto em determinado momento do discurso, eufóricos, os animais faziam os mais diversos tipos de sons e uivos.

" Dizem que somos irracionais, que agimos por instinto. Agora vejam eles, tão sabedores de tudo, eles matam seus semelhantes por nada, roubam, abusam de menores, criadores de armas capazes de aniquilar a própria espécie… Eles, egoístas, egocêntricos, demoníacos… Ainda dizem que nós é que somos irracionais." Os animais iam loucura a cada palavra de Pluto.

O sábio Border Collie conhecia pela sua vasta experiência de vida, que mesmo perante todos os seus esforços, discursos, palestras e de todos os outros compatriotas pelo mundo. Todo esforço para mudar a situação estava sendo em vão. Poderiam sim, mediante muito trabalho, dificultar a mão de ferro do homem, no entanto, não poderiam impedir o inevitável...  Em questão de poucos anos não haveria mais animais vivos, apenas exemplares empalhados em museus. E não satisfeitos com toda essa tragédia anunciada, o homem tentaria pôr fim à sua própria existência, pois a cada dia, os homens percebem não ser capazes de viverem consigo mesmos. 

Pluto então terminava o seu discurso dizendo: "Diante de tudo o que foi dito, diante da inevitabilidade, que tenhamos todos… Um bom fim".

Cada animal presente se retirou em silêncio, cabisbaixos, orelhas caídas é rabo entre as pernas, seguiu cada um sem dono é sem rumo pelos ermos dessa vida… Orelhas caídas, rabo entre as pernas, vai o cão arrependido… No olhar o reflexo de uma certeza, a de que o homem é a única raça incapaz de suportar a si mesma.


(L. B)




terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

MINI CONTO.

 



Desandou a chorar feito criança, os olhos inundados em água, molhando todo o rosto, pingando o chão da sala. Não havia quem a consolasse. Maria sentou-se no piso frio, agachou-se e colocou a cabeça enfiada entre as pernas, na desesperada tentativa de abraçar a si mesma ao ponto de desfazer-se naquele abraço de angústia. Aos seus pés formava uma pequena poça de lágrimas.

Maria não queria ser consolada por ninguém. Nem pelo tio, nem pelo seu irmão, pai, ou mãe, nem mesmo por Margarida, sua colega de infância e vizinha. Ela não queria ouvir conselhos, nem sermão, nem nada do tipo motivacional, dizendo que tudo ia dar certo e coisa e tal... O seu único desejo era chorar, porque melhor eram as suas lágrimas do que uma multidão de palavras inúteis que em nada mudaria sua tristeza.

A escuridão da noite ganhou a janela da sala enquanto o último filete de raio de sol desapareceu. Não havia mais ninguém fazendo companhia a Maria, deixaram ela sozinha. O pai e a mãe ficaram na cozinha com o irmão, vez é outra espiavam no canto da porta, Maria continuava no mesmo lugar, chorava menos, mas não se levantou. 

" É outra crise mãe, só fica de olho aberto com ela, preocupa não que vou arranjar tratamento pra ela". Dizia o irmão. " Dessa vez foi mais forte Márcio, se não tá vendo, foi mais forte, Santo Deus, quando isso vai acabar…" 

Passavam das dez da noite quando fez completo silêncio. Maria não chorava mais, dormiu encostada na parede, toda desajeitada, as pernas esticadas e braços caídos. Com jeito, o irmão a pegou nos braços, magra como estava, não teve dificuldades. Colocou-a na cama da mãe. Dormia pesado a coitada, como nunca antes, ela foi finalmente vencida pelo efeito do remédio diluído no copo de água que o irmão havia preparado minutos atrás. Maria sorria enquanto dormia, de vez em quando pronunciava algumas palavras indecifráveis, nem parecia aquela moça afogando-se em lágrimas de minutos atrás. O sorriso de sono brilhava no rosto pequeno… " Deve de estar sonhando com coisas boas", disse a mãe. " Poderia ficar assim para sempre, é nunca mais na vida acordar", completou. A mãe ficou ao lado da filha, observando os seus sorrisos, cada vez que Maria sorria finas gotas de lágrimas desciam dos olhos de dona Marisa, agora era a mãe que chorava copiosamente a cada sorriso da filha, assim ficou por longas horas, até ser vencida pelo sono deitando-se ao lado dela


domingo, 7 de fevereiro de 2021

CRÔNICA.

 



UMA VISITA NADA COMUM.


   Um pensamento nada comum rodeou meus perturbados neurônios durante a semana inteira. Dada a insistência, passei a refletir no que eles ofereciam, assim permaneci por longas horas e em vários aspectos que esta insana ideia me propôs.

   Tudo começou bem por acaso, durante um dia qualquer, em que fazia muito calor. Aproveitei para passar o dia na piscina com amigos. Ambiente tranquilo, espaçoso, sem aglomerações, perfeito para um final de semana daqueles. Sentei à beira da piscina, curtindo o Sol, vendo meus amigos, casais com seus filhos brincarem na água. Repentinamente um pensamento me assaltou… Acontece que, o local onde eu estava, foi o palco da lua de mel a dezesseis anos atrás de meu amigo, portanto, era uma revisita dele, não era o mesmo homem que vislumbrava ali, era outro cara completamente desconhecido.

   Imagine se fosse possível voltar no tempo. Permita-me explicar… Imaginem que, de repente, depois dele retornar do banheiro, no exato momento de sair, ele é envolvido por um lapso de tempo, saindo não em Janeiro de 2021, mas, exatamente em Novembro de 2005. Imaginem o seu choque… O local em si permaneceria o mesmo, com a diferença de estar tudo mais novo. As pessoas são completamente diferentes. Desesperado ele nos procuraria por todo lado, até que, em determinado momento, percebendo que está no passado, sem a menor ideia de como aquilo foi possível.

   O sujeito acaba por descobrir a chocante realidade ao vê-lo mais a frente, sua versão jovem, magérrimo, ao lado da esposa, jovem e bela. Dois casais apaixonados em lua de mel… Por alguns minutos ele se senta e observa.

   O seu desejo depois de certa reflexão era contar para todos ali que ele era do futuro, mas não, o seu plano seria outro. Esperar até que o seu eu mais novo fosse ao banheiro, e o seguir,  quando lá dentro, sozinho, o surpreenderia. Primeiro seria o espanto nos olhos de seu eu mais novo, o desejo de correr, 'como ele se  conhecia bem', a curiosidade venceria o espanto. " Não tenho muito tempo",  disse o homem, " Tenho coisas importantes para lhe dizer, coisas concernentes ao teu futuro". O seu eu de olhos arregalados, quase sem piscar ficaria apenas ouvindo o que o senhor do futuro ia dizendo sobre o brilhante futuro…

   Caríssimo leitor de todos os domingos. 

   Eu lhes proponho um pequeno exercício, façam isso mentalmente, dessa forma não serei o único louco aqui. Imaginem toda essa cena, troquem os personagem e coloque os senhores e as senhoras, suas famílias, enfim, neste caso, o que vocês diriam para vocês mesmos?

   Eu sei que isso tudo é loucura deste jornalista maluco, perdoe-me por favor. No entanto, com tantas coisas loucas acontecendo por aí, esse não é um pensamento descabido, por isso amigo leitor, fique a vontade para falar com o seu eu mais novo… Afinal, o que você diria se houvesse essa insana e desmiolada possibilidade?


( A.L)


O ESPELHO.

                  Do lado de dentro o vento está rugindo furioso, saindo para o lado de fora pelas frestas da janela.            Do lado de ...