domingo, 2 de agosto de 2026

AMOR DE PERDIÇÃO.

   



 ( Fragmento do livro - o jardim)


   "Só deixarei de amar a flor do cravo no dia em eu conseguir pintar o som de uma lágrima caindo", foi o que disse o jardineiro para o cisne quando o mesmo foi questionado a respeito do amor. 

   O jardineiro, também poeta, passou a ter sonhos recorrentes com a flor do cravo, de modo que ele passou a sonhar de olhos abertos todas as vezes que a vê passear pelo jardim nos finais de tarde.

   A tinta na caneta do poeta se debruça nas palavras em uma falha tentativa de explicar os sentimentos

grandiosos que se movem no íntimo do jardineiro.

   Inicia-se uma madrugada fria, silenciosa, o poeta, também jardineiro, não vê o momento de estar na presença da flor que conquistou o seu coração.

   A tinta no papel não alcança toda dimensão do que se passa no íntimo do jardineiro, por mais que ele tente se expressar é impossível captar toda a grandiosidade do amor que sente pela flor. A noite foi inquietante, rolou de um lado para outro sem conseguir dormir, os pensamentos na flor do cravo, quase não a viu no jardim durante o dia anterior, tão atarefada que estava, ela não teve tempo de seus passeios diários. Já a flor de cerejeira, estava diferente, cabelos curtos, ficou mais elegante, certamente terá grande destaque e renovado lume.

   O jardineiro é assolado pelos fantasmas da alma,

assombra-lhe terríveis quimeras do seu passado, não importa onde ele esteja ou o motivo de estar, imagens agonizantes pesam em seu pálido coração. Ele tentou ver-se livre desses grilhões invisíveis, buscou em si libertar-se 'dessas vis amarras', reuniu forças para aguentar em seu cativeiro, ele, jardineiro, tornou-se então 'o poeta das flores'. Esse, "suposto jardim", alivia o coração do jardineiro, já há tempos flagelado, neste, "universo paralelo" ele encontrou um novo refúgio para sua vida, uma ocupação para não enlouquecer rapidamente. No entanto, o jardim revelou-se para o jardineiro, tudo parecia tranquilo, controlado, até o momento em que a flor de cravo surgiu, 'o seu amor de perdição'.

   Prisioneiro de si mesmo, de suas próprias loucuras, o jardineiro despertou inquieto, triste, angustiado, o coração batendo sofrível, descompassado dentro do peito, parece não haver mais lugar que lhe caiba. As imagens agonizantes provenientes dos longos sonhos,

imagens com a flor do cravo, sensações tão vívidas, às vezes, de intensas, as imagens pareciam reais e verdadeiras, deixando-o perturbado, em caos total.

   É dia de retornar aos trabalhos no jardim "primavera", de retomar as atividades do cotidiano, pequenos afazeres universais, regar, cuidar das flores. Ver o cravo é uma tortura para o jardineiro, o lume que emana da flor cega-o com um amor abrasador, faltam-lhe as palavras, o ar, quisera ele tê-la em seus domínios.

   A brisa gelada invadindo o quarto, cobertores embolados, o calor gostoso, a lembrança ainda machucando no peito, o jardineiro inquieto vira de um lado para o outro, se foi o sono. O frio teimoso incomoda, os pés ficam gelados, o jardineiro só tem um pensamento que teima no espectro de sua desconcertada memória, é ela, sempre será ela...

   As horas revelam o momento de retornar ao jardim,

quando então poderá dar-se aos cuidados das flores, cuidar minuciosamente de todos os detalhes. O coração batendo acelerado, o pensamento está nela, na flor do cravo, em sua beleza magnífica, em seu perfume e formato único, seu amor de perdição.

   O sol desponta no horizonte, lentamente, do lado de fora barulho intenso, carros, motos, buzinas, crianças indo para escola, todo silêncio é desfeito em questão de minutos. O jardim é uma lembrança, os afazeres diários se tornaram mais intensos e a cada dia novas responsabilidades pesam sobre os seus ombros. A flor de cravo, o seu amor de perdição, de todas, é a lembrança mais dolorosa, o desejo oculto do jardineiro.

   Ele se levanta, troca-se, escova os dentes, vai direto para cozinha.

   Ele desperta...

   É momento do desjejum...

   O café despejado na xícara, o líquido precioso, a fumaça bailarina esvaindo-se lentamente, o aroma gosto tão brasileiro, mesa simples, pães ovos, tudo feito com muito carinho, simplesmente magnífico. O mundo do lado de fora da porta não reconhece e tão pouco compreende o seu lado de dentro, a paz e tranquilidade exposta em faces sofridas pela vida.  

   Quisera o jardineiro penetrar na profundidade dos pensamentos da flor do cravo, desvendar-lhe os mistérios ocultos em olhos tão feiticeiros, sentir o pulsar do seu coração deslumbrante e iluminado. Quisera o jardineiro queimar-lhe a face em ardentes beijos, arrebentar os grilhões de seus desejos, ser para a flor assim como a flor é para ele, arrancar da lira do amor as notas mais profundas e marcantes. Quisera o jardineiro, também poeta, que tais sonhos fossem de fatos reais, dói-lhe na alma saber que tudo transcorreu no espectro de seus pensamentos. Quisera o jardineiro, quando então retornar ao jardim primavera, externar para o cravo todo o sentimento represado em seu pálido coração aedo.

   O coração do poeta jardineiro bate descompassado,

fora do ritmo frenético, desajustado todas as vezes, basta que ele veja a flor de cravo pelo jardim, ouvir sua doce voz de anjo ledo, sentir seu perfume. Quando a flor de cravo está perto do jardineiro tudo ao seu redor desaparece, 'ela' é quem permanece no seu campo de visão, enquanto todas as vozes se calam, apenas "ela" com a sua força e presença de flor. São esses dias de lutas e incertezas, fora do jardim tudo parece caminhar para o caos absoluto, decisões de outros déspotas insanos podem sim afetar o jardim. É momento de silêncio e observação, cálculo e estudo, qualquer decisão errada pode não ter retorno, o jardineiro conhece bem essa verdade.

   Navegantes de oceanos perigosos e conturbados,

assim são os pensamentos do jardineiro poeta, a vida que se apresentava tão calma e silenciosa,

repentinamente transformou-se em tempestades. Os dias no jardim são de incertezas, preocupações assolaram o coração do jardineiro poeta, as ervas daninhas ameaçam o seu belo trabalho, decisões difíceis devem ser de fato consideradas.

   Algumas flores parecem indiferentes aos acontecimentos pertinentes ao dia a dia do jardim,

talvez essas flores se façam desentendidas.

   Perder a flor de cravo é para o jardineiro algo impensável, ficar longe de seu grande e terrível amor de perdição é para o poeta algo inconcebível.


"O meu verso é um rabisco desconcertado, sem jeito,

sou o poeta do inconcebível, jardineiro por opção,

cuidando das mais belas flores no jardim primavera,

nas horas vagas eu rego de palavras a minha poesia. A flor de cerejeira é magnífica, de beleza oriental, a túlipa de mil sorrisos é a mais alegre de todas, existem tantas, é quase impossível falar de cada uma delas, é um grande privilégio tê-las bem perto. No entanto, eu não poderia deixar de mencionar a mais bonita de todas as flores, cujo perfume é inigualável, de um brilho intenso, ela é estonteante. A flor do cravo surgiu despretensiosa, como quem não deseja nada, no início foi difícil aceitar, com o tempo, alma e coração se renderam em êxtase total".


  De volta do devaneio...

   O sol rasgou a escuridão noturna com sua luz multicolorida, invadindo o dia, as cores se misturando no firmamento, pincelando as nuvens, tal beleza é magnífica, gigantesca e divina. Ele é apenas um observador, a tinta na caneta do poeta jardineiro, verso esquecido, rabiscado de intenso desejo, aquele que se esconde no jardim primavera. As flores se comportam de modo diferente quando está frio, nesse diferente jardim onde tudo é mágico, encantador, de singular diferença. O jardineiro está em êxtase total, buscando saber como vai descobrir uma forma de não enlouquecer rapidamente com tão grande amor à flor de cravo.

   Xícara de café, ainda na mesa, momento de silêncio e observação, os pensamentos soltos, tumultuados, o coração batendo desconcertado, arrebentando tudo por dentro, a alma do poeta jardineiro está inquieta. Tudo converge para o caos absoluto no mundo externo, as nações estão à beira do abismo, enquanto no jardim primavera, as flores estão indiferentes aos acontecimentos diante dos olhos. Xícara de café na mesa, momento único, de momentânea paz, quisera o poeta fazê-lo eterno, no entanto, essa paz se rende, e o silêncio se esvai. 

   O jardineiro está com alma cansada, dilacerada pelas adversidades da vida, gritando dentro de si, desejando a tão sonhada liberdade e paz, o mundo é um lugar escuro e frio, já não existe alegria, todos são ilhas. Corações cansados, flagelados dentro do peito, arrebentando, sofrendo em silêncio as violências de um mundo impiedoso, não há nada que possa ser feito, o abismo está diante dos olhos, há um passo. 

   O jardineiro poeta vive apenas para sua labuta diária, ocupando-se em seus pequenos afazeres universais, cuidando do jardim primavera com dedicação e amor, nada lhe escapava do olhar. As flores tão bem cuidadas nesse outono frio, a flor de cerejeira exibindo uma beleza magnífica, a túlipa de mil sorrisos é também extraordinária, cada flor tem sua peculiaridade, atraindo olhares. No entanto, a flor de cravo, o amor oculto do jardineiro, parece estar ausente dos olhares do poeta, o motivo é um completo mistério para ele. Quisera o jardineiro poeta saber o que está exatamente acontecendo, o que se passa em seus pensamentos, não vê-la pelo jardim é doloroso.

   Manhã agradável de outono, prenúncio do inverno que se aproxima. Meus pensamentos estão para o jardim.

    A flor de cerejeira é entre 'todas' realmente muito diferenciada, assim como a túlipa de mil sorrisos, cada uma com aspectos diferentes e maravilhosos. Quanto à flor do cravo, é qualquer coisa sem nenhuma explicação, sempre estará bela. Não é pelo fato do jardineiro poeta amar perdidamente, ao ponto de não enxergar nada além dela, ela é inexplicável, uma Afrodite entre mortais.

   Manhã de silêncio, ele a caminho do trabalho.

   No momento, pouca movimentação, uns e outros transeuntes, encapuzados, trabalhadores, escravos modernos, na labuta diária de pequenos afazeres universais.

   Ele contempla as mesmas faces derramando-se em sono, apenas um e outro grudado na tela virtual, correndo os dedos incansáveis em busca de qualquer tipo de distração vazia. 

   No terminal Santo Antônio, tudo parece caminhar dentro de uma normalidade nada costumeira, não é sempre que o lugar está... Entregue ao assombro.

   Para e observa...

   Os cabelos longos, lisos, castanhos claros, o rosto pequeno, pele alva com pequenas e delicadas pinceladas de sardas nos sulcos das bochechas, os olhos verdes intensos, lábios carnudos e cheios. O olhar grudado na tela virtual, correndo os dedos freneticamente para cima e para baixo, roupas de frio, verde escuro, mochila nas costas, perfume de açucena, ele não sabe o nome daquela belíssima flor. Ela estava próxima, era um pouco menor do que o jardineiro, passou a observá-la, as roupas quentes certamente que escondem um belo e formoso corpo. Os olhos dele e da moça quase não se cruzavam, ela estava tão compenetrada no que fazia ao celular.

   Ele está inquieto...

   Sensação estranha lhe corroendo por dentro,

não sabendo exatamente como explicar tal sentimento, uma mistura de angústia e descontentamento, não sabendo o que fazer com todo o tormento. Os pensamentos estão tumultuados, revoltados, ao mesmo tempo que sente intenso prazer e alegria, aparece essa dor inexplicável, intensa dor, agonia, os olhos do poeta moribundo estão molhados. Realmente ele não sabe a causa do que está sentindo, se é devido aos acontecimentos no ambiente externo, ou se é qualquer anomalia no interno. Talvez o jardim seja a resposta que tanto ignora, talvez sejam os pequenos afazeres universais, talvez, o motivo, seja o amor pela flor do cravo.

   Saiu o sol, temperatura amena no momento, clima agradável, a impressão de ser primavera novamente, no entanto, é apenas momentâneo, logo tudo mudará repentinamente.

   Sábado.

   Dia de descanso para muitos trabalhadores, para este jardineiro que vos escreve, é apenas véspera de folga, aguardado domingo, o jardineiro está ansioso com a expectativa do dia, há planos interessantes. No jardim, segundo o que disse uma flor, as coisas não parecem bem, rumores nefastos rondam o espectro de todos. O jardineiro está sofrendo com os seus complexos sentimentos em relação à flor de cravo, vê-la pelo jardim dói no mais profundo da alma e no coração.

   A imagem do cravo é forte... Os olhos castanhos escuros, os cílios tão delicados, lábios de deusa grega, carnudos, a face levemente ondulada, nariz delicado, pele reluzente, cabelos longos, lisos, derramados nos ombros. Assim é, disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, como ele vê a flor do cravo transformada, é um mistério completo e sem nenhuma explicação, uma bela flor que deixa de ser flor repentinamente. Quisera a tinta na caneta do poeta saber o verdadeiro nome da flor de cravo no reino dos homens, no entanto, tal mistério nunca foi revelado. O jardineiro está sofrendo em completo silêncio, esse amor, disse ele, é um oceano enquanto ele se sente como um pequeno barco navegando à deriva.

   Vivemos dias intensos, não só no jardim, vivemos momentos que precedem o caos, o mundo caminha à beira de um grande abismo, líderes à passos largos, vacilantes e precipitados, enquanto isso, os habitantes da terra dormem. Vivemos exatamente a parábola das dez viagens, estamos entre loucas e prudentes, talvez com ou sem reservas, contudo, todas indistintamente estão em profundo sono, despertar depende da trombeta. O mundo tornou-se um lugar estranho e escuro, seres viventes que olham apenas para o umbigo, desejam apenas a satisfação da carne corrompida. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, ele também está inserido neste terrível contexto, reconhece em si o duelo de luz e trevas.

   Bolas de fogo caindo do céu, mísseis que parecem estrelas, cortando as nuvens em grande velocidade,

cidades são atingidas, cogumelos ardentes são formados, logo após, o rastro de morte e destruição. Contra ataques... Aqueles que eram pacíficos e tinham discursos de paz movimentavam os seus blindados,

homens e mulheres com seus fuzis e metralhadoras,

roupas camufladas, o mundo está envolto em trevas. O jardineiro está em lágrimas, os jardins e suas belas flores mundo afora estão sendo massacrados impiedosamente, não se ouve canções de alegria. Os nossos jardins não conhecem o peso e o preço de uma guerra, não existem vencedores nessas batalhas, diz o jardineiro, apenas corpos e mortes.

   O terminal começa a lotar, homens e mulheres apressados para o trabalho, filas intermináveis em cada ponto, em alguns, duas ou três para o mesmo destino, é apenas mais um dia de batalha árdua e travada. 

   É dia de retornar ao jardim, ver as belíssimas flores, ainda mais encantadoras nesse frio teimoso, cada pétala se veste de majestade. É encantador ver a flor de cravo, rainha de todas as flores, soberana, dominadora, impondo respeito, dona do coração do jardineiro, que também é poeta.

   Lembro-me do momento em que os olhos desse jardineiro poeta pousaram nos olhos dela, em uma tarde quente, ela recém contratada no jardim, no mesmo instante ele se enamorou, ali estava a enigmática flor de cravo. Naquele instante o jardineiro descobriu o que é a dor de um coração apaixonado, o sofrer dos poetas de outrora, foi no início de tempo com tardes silenciosas, de despedidas repentinas no jardim. O amor se desabrochou para o jardineiro poeta, desabrochou de uma forma inesperada, nunca que ele pensou na convulsão dos seus sentimentos. Quando os lábios da flor de cravo se aproximaram de sua face, em outras tardes, negando-lhe imaginários beijos, descobriu a dor de nunca esquecer tal flor.

   O coração batendo descompassado, em desajuste dentro do peito, o olhar por vezes perdido no horizonte, a alma inquieta, angustiada, silêncio, os pensamentos tumultuados, revoltados, distantes. 

   A noite anterior foi inquietante, de sonhos intensos com a flor do cravo, sua beleza magnífica desnuda diante dos olhos moribundos do jardineiro poeta, o calor intenso do amor envolvendo a flor e o jardineiro.

   É dia de retornar ao jardim, ver todas as flores, sentir os perfumes, se encantar com todas as cores, regar cada uma e cuidar dos mínimos detalhes. É dia de ver a flor de cravo novamente, de sentir o coração balançar dentro do peito, o amor queimado por dentro, o sonho que teve, lembranças ardentes.

  No entanto...

   Sombras nefastas e fantasmagóricas cercam a tinta na caneta do poeta, atormentando com muita insistência, medo e angústia corrói sua pobre alma, não importa o que faça, sempre será assombrado. Dia de nuvens escuras e pesadas cobrindo o céu, frio, ventanias e chuvas pesadas, trovões e fortes relâmpagos riscando de um lado para outro, os olhos assustados assistindo o espetáculo tenebroso. A tinta na caneta do poeta não consegue cultivar esperança em cada linha de tempestade, quisera ser como o jardineiro poeta, sempre alegre, calmo. 

    Segue o ônibus seu percurso triste até o jardim.

   "Deslumbrante"...

   Essa é a palavra que o jardineiro conseguiu encontrar para descrever a flor de cravo, assim que a viu, nessa agradável manhã sabatina, neste final de junho, o jardim está enfeitado para festa típica, músicas e doces deliciosos. A flor de cravo desfilando sua beleza magnífica e estonteante, o coração do jardineiro batendo descompassado no peito, o amor a queimar-lhe o seio, tal visão o deixou desconcertado, arrebatado.

   Quisera ele beijar-lhe os lábios carnudos vermelhos intensos, sentir em seus braços os abraços a ferver o sangue, certamente que é o amor o enlouquecendo. A flor de cravo parece provocar, desfilando diante de moribundos olhos toda sua majestade de uma verdadeira deusa do Olimpo, tal como Afrodite.

terça-feira, 16 de junho de 2026

FRAGMENTOS DO LIVRO. RABISCOS POÉTICOS.

    



JANEIRO.


   Entramos no ano de dois mil e vinte e cinco, figuram as primeiras horas deste novo tempo, pessoas comemoram, cantam, bebem, dançam, enquanto eu... Eu sou apenas uma sombra parada na janela. Às horas passam rapidamente, madrugada longa, inútilmente eu tento me compreender, é impossível. O sono não chegou, horas acordado, pensamentos, a milhão, a dor que surge lá dentro do meu "eu" profundo.

   O dia ganha vida diante de meus olhos.

    A vida sorriu para muitos nesse novo ciclo, eu procuro por esse sorriso... Onde estará? 

     Algumas pessoas chegaram em casa, uma visita nada desejada, novamente o afrontamento da parte deles, a sensação de derrota, novamente eu sou apenas um prisioneiro do meu próprio silêncio.

   Justamente hoje que acordei indisposto. 


   Terrível segundo dia.

   A madrugada foi tumultuada, agoniante, pensamentos perambulando pela cabeça, a tristeza cerca o meu flagelado coração. Estou vivendo os dias mais difíceis da minha vida, às vezes, nem mesmo eu me compreendo, então me questiono de onde surgiu essa inconstância tão incomoda? Amargo fel que me conduz ao obscurantismo.

   A quinta segue o seu curso de tristeza, observo o nada de caminho para outra cidade, paisagens vazias, lugares tortuosos, esquecidos, ermos. 

   Cheguei ao destino meia hora depois, abraços, um sorriso falso, no retorno houve uma ligeira mudança nos planos, voltei para casa cheio de expectativa no peito.

   Abraçou-nos o manto da noite.

   O silêncio cobrindo meros mortais.

   Noites e madrugadas traiçoeiras, nada de novo, eu estou dormindo pouquíssimo, pensando muitíssimo, duas extremidades que estão me enlouquecendo, de repente, nada parece dar certo. 

   Tomei o meu café apressadamente, ninguém se importa com o que eu falo ou penso, nada de novo, me sinto como uma sombra sempre à espreita, escondendo-se, mostrando-se, sempre indeciso.

   Na parte da manhã eu fui para uma entrevista de emprego, estava trêmulo, um pouco de espera, boa recepção, diálogos, espera, ficou uma ótima impressão de ambas as partes, quanto ao teste, muito simples. Retornei para casa muitíssimo eufórico, porém, logo o medo surgiu para tomar conta da minha alma, na parte da tarde eu tive outra entrevista não muito agradável, é a vida que segue o seu curso, como um rio caudaloso.


   Fez-se um novo dia com todos os seus desafios e com todas as suas mazelas. 

   O mundo continua sendo o mesmo mundo, não há nada de novo, a existência dos tempos modernos é a exata cópia do que ocorreu outrora. A minha cabeça continua em extremo conflito consigo mesma, os meus sentimentos e pensamentos estão turbulentos, hora está construtiva, em outros momentos, negativo, é uma guerra sem trégua.

   O dia segue o seu curso entristecido e monótono.

   Uma breve caminhada para distrair os pensamentos, observar em silêncio é o que mais tenho feito nestes últimos tempos. 

   O final de tarde avança rapidamente, a expectativa de uma noite diferente se configura diante de meus olhos, é quando então decidimos estar na casa do pai, a sua presença é reconfortante para a alma atormentanda e um coração tão ansioso.

   Tudo correu maravilhosamente no final da noite.


   Um novo dia, nova expectativa.

   Esse foi, sem nenhuma dúvida, um dia diferente, os raios primeiros do sol brilhando com toda sua força e beleza, estendendo-se como uma cortina na janela do quarto, foi dessa maneira que despertei. Embora seja esse o primeiro dia em outras culturas, portanto, dia de trabalho, em nossa cultura ocidental o costume é de descanso, sendo assim, uma vez com a oportunidade, nada melhor que ir na casa do pai novamente.

   O meu coração transbordou de alegria quando cheguei na presença dele em sua casa, juntamente com os meus irmãos, nos regozijamos e sorrimos, cantamos, nos alegramos. Confesso, o dia teve lá os seus contratempos, nada novo debaixo do sol, o sorriso permaneceu nos lábios, retornamos a casa do pai pela noite, ele alegrou-se conosco. 


   Segunda-feira, 

    Para muitos um dia terrível, odioso, lembro-me de tantas segundas indesejáveis, sim, foram muitas ocasiões, entretanto, houve momentos em que o inverso e o impossível também aconteceu. O dia começa como todos os demais, sem muita novidade, preguiçoso, silencioso ao extremo, isso não me agrada. caminho de um lado para o outro dentro de casa, inquietações corroendo o coração, corroendo a alma.

   Aquela entrevista, a tal que fiz, a oportunidade que surgiu... Então, eu esperando uma mensagem, na ânsia de saber uma resposta, enviei a mensagem antecipada. Que bom, deu certo, finalmente o retorno positivo que tanto esperava. Um possível recomeço na quarta-feira, um passo de cada vez, eu penso, no peito, velhas inquietações batendo com muita força na porta do meu coração.

   Eu que pensei em um sétimo dia tranquilo, sem nenhuma tribulação, sou mesmo tolo e ingênuo, embora o dia logo nas primeiras horas parecesse promissor, outra situação tornou-o impactante. Talvez eu tenha exagerado um pouco com o 'impactante', porém, de certo modo não estou mentindo, tivemos visitas das quais não queríamos nesse momento ímpar da nossa vida, nada contra a vista, também, nada favorável.

   Às horas passaram arrastadas, dolorosas, ao final da noite, já sem os convivas, uma mensagem me foi enviada, nela, outra proposta de uma determinada empresa. Embora a proposta seja inferior à da primeira, ela deixou-me pensativo, tais pensamentos trouxeram-me angústia na anatomia do meu eu enlouquecido.

   Eu estou até agora me perguntando, que dia foi esse?   

   São questionamentos intermináveis, às vezes penso estar ficando completamente louco, são tantos pormenores e por maiores, já nem sei. O dia foi de certa maneira, empolgante, radiante, cheio de expectativas, trabalho novo por iniciar, sensações diferentes no meu coração, embora a alma estivesse receosa, para dizer a verdade, medrosa mesmo. No primeiro dia não era para eu agir dessa forma, eu não consigo entender o que aconteceu comigo, o que tem de errado com esse rabisco de gente. O que eu não imaginava ocorreu nesse novo trabalho, acidentei-me, corte no punho esquerdo, corte contuso, dor, incerteza, por fim, as coisas terminaram dentro do esperado.

   O problema é que, às vezes, nos acostumamos ao ritmo de uma rotina, às vezes, esse mesmo ritmo torna-se opressor, porém, somos de fato seres em desequilíbrio no universo, querendo as duas coisas sem nenhuma necessidade. O meu eu enlouquecido vive intensamente essa dualidade da alma. Eu deveria me regozijar com o descanso de um dia de rotina intensa, no entanto, a angústia da ociosidade me fez buscá-la freneticamente até conseguir encontrá-la.

   Quanto ao dia...

   O dia nasceu belíssimo, intenso e cheio de novidades, a minha nova rotina de vida se desenha com traços leves, pelo menos nesse momento. Parece loucura o que estou a dizer, de certo modo é, este rabisco no papel estava sentindo falta do cansaço e de um dia corrido de trabalho duro, vai entender.

   Os dias seguem o curso de uma normalidade já há muito tempo conhecida, com uma tendência às mesmices e as repetições cotidianas. fazemos por fazer, seguimos por seguir o rio das nossas vidas. O que vou dizer do meu trabalho... Não sei exatamente o que lhes confidenciar, uma coisa é muito certa, estou retornando as raízes, voltando a reviver emoções primeiras da época da minha confusa juventude.

   Eu sigo o fluxo do rio, se é que posso usar tal expressão, considerando que o fluxo desse rio é um tanto quanto diferente de todos os meus outros rios. O dia se foi, quanto a noite... A noite segue o próprio curso, atendimento, afazeres que são concluídos um a um. Uma caminhada noturna até o ponto, ônibus, casa rotina. Cansaço muitíssimo necessário. 

   Sensações, emoções, quem estará livre?

   Eu as sinto ao extremo, sempre caminhando à beira do abismo, nunca foi diferente. Desde que eu me entendo por gente, sou esse tipo de aberração. Talvez você... Sim, você mesmo, caríssimo e desavisado leitor que pousou os olhos nesses rabiscos poéticos, talvez você considere certo exagero minha depreciação, pois digo que não é.


   O meu dia foi corrido, horários diferentes,

a vida em si está rumando para outros caminhos, nem sempre acontece como gostaríamos que fosse. As horas percorrem o curso do relógio sem novidades, porém, com muitos afazeres, o trabalho também segue o seu curso, tudo o que é novo assusta no primeiro momento.


   Finalmente o domingo, dia separado ao descaso,

em outros momentos eu o odiei, hoje, o amo, difícil de explicar a minha relação com esse dia tão especial, o primeiro no curso de uma longa jornada. Parece exagero da minha parte, porém, aos que se entregam na labuta dos pequenos afazeres universais sabe bem do que estou dizendo. A folga na semana não é igual aos descanso de um caloroso e abençoado domingo.

   Como de costume, pelo menos para esse que vos escreve, tenho por objetivo dedicar partes do dia ao senhor Jesus, dando-lhe louvor, honras e glórias. O dia termina com aquela sensação de angústia, sim, afinal, horas nos separam da tediosa e indesejada segunda-feira, contudo, sou grato pelos novos desafios da vida.

   Afinal...

   Os dias nos ensinam coisas que os anos nunca souberam, eu escutei essa frase em algum lugar, acho que foi em um filme, não me lembro bem, sei apenas que se trata de uma grande verdade. Às vezes eu sinto como se não aprendesse nada com os dias, parece que a vida deseja me castigar o tempo todo, a todo o momento sou surpreendido com desafios que fogem da compreensão humana.

   Um ciclo novo se inicia no meu novo trabalho, não sei mensurar os meus sentimentos quanto a essa nova etapa da minha vida tão complexa. Não sou o tipo de pessoa que se adapta facilmente, engano bem, que vê não percebe o meu abismo, estou sempre caminhando com o perigo iminente.

   Nada como um dia depois do outro, a vida em seu curso frenético por estradas sinuosas, correndo como se nunca fosse chegar. A vida é mesmo assim, a minha, a sua e de todos os seres humanos na face da terra. Nessa loucura que é viver, às vezes, não prestamos atenção às pequenas coisas, aos detalhes, eles passam diante de nossos olhos despercebidos, quantas vezes eu fui esse ser desatento, desleixado.


      Hoje o dia foi extremamente cansativo, frenético, para muitos, exagerado, ao ponto de me classificar de um homem caminhando sempre ao abismo. Não se assuste, caríssimo leitor dos rabiscos meus, com o tempo agente se acostuma, você, por exemplo, não é diferente, no fim somos todos iguais.


DIÁLOGOS.

          "A flor de cravo se vestiu de puríssima majestade, as suas belas pétalas em cores refletindo a luz, a face em tom rubro delir...