( Fragmento do livro - o jardim)
"Só deixarei de amar a flor do cravo no dia em eu conseguir pintar o som de uma lágrima caindo", foi o que disse o jardineiro para o cisne quando o mesmo foi questionado a respeito do amor.
O jardineiro, também poeta, passou a ter sonhos recorrentes com a flor do cravo, de modo que ele passou a sonhar de olhos abertos todas as vezes que a vê passear pelo jardim nos finais de tarde.
A tinta na caneta do poeta se debruça nas palavras em uma falha tentativa de explicar os sentimentos
grandiosos que se movem no íntimo do jardineiro.
Inicia-se uma madrugada fria, silenciosa, o poeta, também jardineiro, não vê o momento de estar na presença da flor que conquistou o seu coração.
A tinta no papel não alcança toda dimensão do que se passa no íntimo do jardineiro, por mais que ele tente se expressar é impossível captar toda a grandiosidade do amor que sente pela flor. A noite foi inquietante, rolou de um lado para outro sem conseguir dormir, os pensamentos na flor do cravo, quase não a viu no jardim durante o dia anterior, tão atarefada que estava, ela não teve tempo de seus passeios diários. Já a flor de cerejeira, estava diferente, cabelos curtos, ficou mais elegante, certamente terá grande destaque e renovado lume.
O jardineiro é assolado pelos fantasmas da alma,
assombra-lhe terríveis quimeras do seu passado, não importa onde ele esteja ou o motivo de estar, imagens agonizantes pesam em seu pálido coração. Ele tentou ver-se livre desses grilhões invisíveis, buscou em si libertar-se 'dessas vis amarras', reuniu forças para aguentar em seu cativeiro, ele, jardineiro, tornou-se então 'o poeta das flores'. Esse, "suposto jardim", alivia o coração do jardineiro, já há tempos flagelado, neste, "universo paralelo" ele encontrou um novo refúgio para sua vida, uma ocupação para não enlouquecer rapidamente. No entanto, o jardim revelou-se para o jardineiro, tudo parecia tranquilo, controlado, até o momento em que a flor de cravo surgiu, 'o seu amor de perdição'.
Prisioneiro de si mesmo, de suas próprias loucuras, o jardineiro despertou inquieto, triste, angustiado, o coração batendo sofrível, descompassado dentro do peito, parece não haver mais lugar que lhe caiba. As imagens agonizantes provenientes dos longos sonhos,
imagens com a flor do cravo, sensações tão vívidas, às vezes, de intensas, as imagens pareciam reais e verdadeiras, deixando-o perturbado, em caos total.
É dia de retornar aos trabalhos no jardim "primavera", de retomar as atividades do cotidiano, pequenos afazeres universais, regar, cuidar das flores. Ver o cravo é uma tortura para o jardineiro, o lume que emana da flor cega-o com um amor abrasador, faltam-lhe as palavras, o ar, quisera ele tê-la em seus domínios.
A brisa gelada invadindo o quarto, cobertores embolados, o calor gostoso, a lembrança ainda machucando no peito, o jardineiro inquieto vira de um lado para o outro, se foi o sono. O frio teimoso incomoda, os pés ficam gelados, o jardineiro só tem um pensamento que teima no espectro de sua desconcertada memória, é ela, sempre será ela...
As horas revelam o momento de retornar ao jardim,
quando então poderá dar-se aos cuidados das flores, cuidar minuciosamente de todos os detalhes. O coração batendo acelerado, o pensamento está nela, na flor do cravo, em sua beleza magnífica, em seu perfume e formato único, seu amor de perdição.
O sol desponta no horizonte, lentamente, do lado de fora barulho intenso, carros, motos, buzinas, crianças indo para escola, todo silêncio é desfeito em questão de minutos. O jardim é uma lembrança, os afazeres diários se tornaram mais intensos e a cada dia novas responsabilidades pesam sobre os seus ombros. A flor de cravo, o seu amor de perdição, de todas, é a lembrança mais dolorosa, o desejo oculto do jardineiro.
Ele se levanta, troca-se, escova os dentes, vai direto para cozinha.
Ele desperta...
É momento do desjejum...
O café despejado na xícara, o líquido precioso, a fumaça bailarina esvaindo-se lentamente, o aroma gosto tão brasileiro, mesa simples, pães ovos, tudo feito com muito carinho, simplesmente magnífico. O mundo do lado de fora da porta não reconhece e tão pouco compreende o seu lado de dentro, a paz e tranquilidade exposta em faces sofridas pela vida.
Quisera o jardineiro penetrar na profundidade dos pensamentos da flor do cravo, desvendar-lhe os mistérios ocultos em olhos tão feiticeiros, sentir o pulsar do seu coração deslumbrante e iluminado. Quisera o jardineiro queimar-lhe a face em ardentes beijos, arrebentar os grilhões de seus desejos, ser para a flor assim como a flor é para ele, arrancar da lira do amor as notas mais profundas e marcantes. Quisera o jardineiro, também poeta, que tais sonhos fossem de fatos reais, dói-lhe na alma saber que tudo transcorreu no espectro de seus pensamentos. Quisera o jardineiro, quando então retornar ao jardim primavera, externar para o cravo todo o sentimento represado em seu pálido coração aedo.
O coração do poeta jardineiro bate descompassado,
fora do ritmo frenético, desajustado todas as vezes, basta que ele veja a flor de cravo pelo jardim, ouvir sua doce voz de anjo ledo, sentir seu perfume. Quando a flor de cravo está perto do jardineiro tudo ao seu redor desaparece, 'ela' é quem permanece no seu campo de visão, enquanto todas as vozes se calam, apenas "ela" com a sua força e presença de flor. São esses dias de lutas e incertezas, fora do jardim tudo parece caminhar para o caos absoluto, decisões de outros déspotas insanos podem sim afetar o jardim. É momento de silêncio e observação, cálculo e estudo, qualquer decisão errada pode não ter retorno, o jardineiro conhece bem essa verdade.
Navegantes de oceanos perigosos e conturbados,
assim são os pensamentos do jardineiro poeta, a vida que se apresentava tão calma e silenciosa,
repentinamente transformou-se em tempestades. Os dias no jardim são de incertezas, preocupações assolaram o coração do jardineiro poeta, as ervas daninhas ameaçam o seu belo trabalho, decisões difíceis devem ser de fato consideradas.
Algumas flores parecem indiferentes aos acontecimentos pertinentes ao dia a dia do jardim,
talvez essas flores se façam desentendidas.
Perder a flor de cravo é para o jardineiro algo impensável, ficar longe de seu grande e terrível amor de perdição é para o poeta algo inconcebível.
"O meu verso é um rabisco desconcertado, sem jeito,
sou o poeta do inconcebível, jardineiro por opção,
cuidando das mais belas flores no jardim primavera,
nas horas vagas eu rego de palavras a minha poesia. A flor de cerejeira é magnífica, de beleza oriental, a túlipa de mil sorrisos é a mais alegre de todas, existem tantas, é quase impossível falar de cada uma delas, é um grande privilégio tê-las bem perto. No entanto, eu não poderia deixar de mencionar a mais bonita de todas as flores, cujo perfume é inigualável, de um brilho intenso, ela é estonteante. A flor do cravo surgiu despretensiosa, como quem não deseja nada, no início foi difícil aceitar, com o tempo, alma e coração se renderam em êxtase total".
De volta do devaneio...
O sol rasgou a escuridão noturna com sua luz multicolorida, invadindo o dia, as cores se misturando no firmamento, pincelando as nuvens, tal beleza é magnífica, gigantesca e divina. Ele é apenas um observador, a tinta na caneta do poeta jardineiro, verso esquecido, rabiscado de intenso desejo, aquele que se esconde no jardim primavera. As flores se comportam de modo diferente quando está frio, nesse diferente jardim onde tudo é mágico, encantador, de singular diferença. O jardineiro está em êxtase total, buscando saber como vai descobrir uma forma de não enlouquecer rapidamente com tão grande amor à flor de cravo.
Xícara de café, ainda na mesa, momento de silêncio e observação, os pensamentos soltos, tumultuados, o coração batendo desconcertado, arrebentando tudo por dentro, a alma do poeta jardineiro está inquieta. Tudo converge para o caos absoluto no mundo externo, as nações estão à beira do abismo, enquanto no jardim primavera, as flores estão indiferentes aos acontecimentos diante dos olhos. Xícara de café na mesa, momento único, de momentânea paz, quisera o poeta fazê-lo eterno, no entanto, essa paz se rende, e o silêncio se esvai.
O jardineiro está com alma cansada, dilacerada pelas adversidades da vida, gritando dentro de si, desejando a tão sonhada liberdade e paz, o mundo é um lugar escuro e frio, já não existe alegria, todos são ilhas. Corações cansados, flagelados dentro do peito, arrebentando, sofrendo em silêncio as violências de um mundo impiedoso, não há nada que possa ser feito, o abismo está diante dos olhos, há um passo.
O jardineiro poeta vive apenas para sua labuta diária, ocupando-se em seus pequenos afazeres universais, cuidando do jardim primavera com dedicação e amor, nada lhe escapava do olhar. As flores tão bem cuidadas nesse outono frio, a flor de cerejeira exibindo uma beleza magnífica, a túlipa de mil sorrisos é também extraordinária, cada flor tem sua peculiaridade, atraindo olhares. No entanto, a flor de cravo, o amor oculto do jardineiro, parece estar ausente dos olhares do poeta, o motivo é um completo mistério para ele. Quisera o jardineiro poeta saber o que está exatamente acontecendo, o que se passa em seus pensamentos, não vê-la pelo jardim é doloroso.
Manhã agradável de outono, prenúncio do inverno que se aproxima. Meus pensamentos estão para o jardim.
A flor de cerejeira é entre 'todas' realmente muito diferenciada, assim como a túlipa de mil sorrisos, cada uma com aspectos diferentes e maravilhosos. Quanto à flor do cravo, é qualquer coisa sem nenhuma explicação, sempre estará bela. Não é pelo fato do jardineiro poeta amar perdidamente, ao ponto de não enxergar nada além dela, ela é inexplicável, uma Afrodite entre mortais.
Manhã de silêncio, ele a caminho do trabalho.
No momento, pouca movimentação, uns e outros transeuntes, encapuzados, trabalhadores, escravos modernos, na labuta diária de pequenos afazeres universais.
Ele contempla as mesmas faces derramando-se em sono, apenas um e outro grudado na tela virtual, correndo os dedos incansáveis em busca de qualquer tipo de distração vazia.
No terminal Santo Antônio, tudo parece caminhar dentro de uma normalidade nada costumeira, não é sempre que o lugar está... Entregue ao assombro.
Para e observa...
Os cabelos longos, lisos, castanhos claros, o rosto pequeno, pele alva com pequenas e delicadas pinceladas de sardas nos sulcos das bochechas, os olhos verdes intensos, lábios carnudos e cheios. O olhar grudado na tela virtual, correndo os dedos freneticamente para cima e para baixo, roupas de frio, verde escuro, mochila nas costas, perfume de açucena, ele não sabe o nome daquela belíssima flor. Ela estava próxima, era um pouco menor do que o jardineiro, passou a observá-la, as roupas quentes certamente que escondem um belo e formoso corpo. Os olhos dele e da moça quase não se cruzavam, ela estava tão compenetrada no que fazia ao celular.
Ele está inquieto...
Sensação estranha lhe corroendo por dentro,
não sabendo exatamente como explicar tal sentimento, uma mistura de angústia e descontentamento, não sabendo o que fazer com todo o tormento. Os pensamentos estão tumultuados, revoltados, ao mesmo tempo que sente intenso prazer e alegria, aparece essa dor inexplicável, intensa dor, agonia, os olhos do poeta moribundo estão molhados. Realmente ele não sabe a causa do que está sentindo, se é devido aos acontecimentos no ambiente externo, ou se é qualquer anomalia no interno. Talvez o jardim seja a resposta que tanto ignora, talvez sejam os pequenos afazeres universais, talvez, o motivo, seja o amor pela flor do cravo.
Saiu o sol, temperatura amena no momento, clima agradável, a impressão de ser primavera novamente, no entanto, é apenas momentâneo, logo tudo mudará repentinamente.
Sábado.
Dia de descanso para muitos trabalhadores, para este jardineiro que vos escreve, é apenas véspera de folga, aguardado domingo, o jardineiro está ansioso com a expectativa do dia, há planos interessantes. No jardim, segundo o que disse uma flor, as coisas não parecem bem, rumores nefastos rondam o espectro de todos. O jardineiro está sofrendo com os seus complexos sentimentos em relação à flor de cravo, vê-la pelo jardim dói no mais profundo da alma e no coração.
A imagem do cravo é forte... Os olhos castanhos escuros, os cílios tão delicados, lábios de deusa grega, carnudos, a face levemente ondulada, nariz delicado, pele reluzente, cabelos longos, lisos, derramados nos ombros. Assim é, disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, como ele vê a flor do cravo transformada, é um mistério completo e sem nenhuma explicação, uma bela flor que deixa de ser flor repentinamente. Quisera a tinta na caneta do poeta saber o verdadeiro nome da flor de cravo no reino dos homens, no entanto, tal mistério nunca foi revelado. O jardineiro está sofrendo em completo silêncio, esse amor, disse ele, é um oceano enquanto ele se sente como um pequeno barco navegando à deriva.
Vivemos dias intensos, não só no jardim, vivemos momentos que precedem o caos, o mundo caminha à beira de um grande abismo, líderes à passos largos, vacilantes e precipitados, enquanto isso, os habitantes da terra dormem. Vivemos exatamente a parábola das dez viagens, estamos entre loucas e prudentes, talvez com ou sem reservas, contudo, todas indistintamente estão em profundo sono, despertar depende da trombeta. O mundo tornou-se um lugar estranho e escuro, seres viventes que olham apenas para o umbigo, desejam apenas a satisfação da carne corrompida. Foi o que disse o jardineiro para a tinta na caneta do poeta, ele também está inserido neste terrível contexto, reconhece em si o duelo de luz e trevas.
Bolas de fogo caindo do céu, mísseis que parecem estrelas, cortando as nuvens em grande velocidade,
cidades são atingidas, cogumelos ardentes são formados, logo após, o rastro de morte e destruição. Contra ataques... Aqueles que eram pacíficos e tinham discursos de paz movimentavam os seus blindados,
homens e mulheres com seus fuzis e metralhadoras,
roupas camufladas, o mundo está envolto em trevas. O jardineiro está em lágrimas, os jardins e suas belas flores mundo afora estão sendo massacrados impiedosamente, não se ouve canções de alegria. Os nossos jardins não conhecem o peso e o preço de uma guerra, não existem vencedores nessas batalhas, diz o jardineiro, apenas corpos e mortes.
O terminal começa a lotar, homens e mulheres apressados para o trabalho, filas intermináveis em cada ponto, em alguns, duas ou três para o mesmo destino, é apenas mais um dia de batalha árdua e travada.
É dia de retornar ao jardim, ver as belíssimas flores, ainda mais encantadoras nesse frio teimoso, cada pétala se veste de majestade. É encantador ver a flor de cravo, rainha de todas as flores, soberana, dominadora, impondo respeito, dona do coração do jardineiro, que também é poeta.
Lembro-me do momento em que os olhos desse jardineiro poeta pousaram nos olhos dela, em uma tarde quente, ela recém contratada no jardim, no mesmo instante ele se enamorou, ali estava a enigmática flor de cravo. Naquele instante o jardineiro descobriu o que é a dor de um coração apaixonado, o sofrer dos poetas de outrora, foi no início de tempo com tardes silenciosas, de despedidas repentinas no jardim. O amor se desabrochou para o jardineiro poeta, desabrochou de uma forma inesperada, nunca que ele pensou na convulsão dos seus sentimentos. Quando os lábios da flor de cravo se aproximaram de sua face, em outras tardes, negando-lhe imaginários beijos, descobriu a dor de nunca esquecer tal flor.
O coração batendo descompassado, em desajuste dentro do peito, o olhar por vezes perdido no horizonte, a alma inquieta, angustiada, silêncio, os pensamentos tumultuados, revoltados, distantes.
A noite anterior foi inquietante, de sonhos intensos com a flor do cravo, sua beleza magnífica desnuda diante dos olhos moribundos do jardineiro poeta, o calor intenso do amor envolvendo a flor e o jardineiro.
É dia de retornar ao jardim, ver todas as flores, sentir os perfumes, se encantar com todas as cores, regar cada uma e cuidar dos mínimos detalhes. É dia de ver a flor de cravo novamente, de sentir o coração balançar dentro do peito, o amor queimado por dentro, o sonho que teve, lembranças ardentes.
No entanto...
Sombras nefastas e fantasmagóricas cercam a tinta na caneta do poeta, atormentando com muita insistência, medo e angústia corrói sua pobre alma, não importa o que faça, sempre será assombrado. Dia de nuvens escuras e pesadas cobrindo o céu, frio, ventanias e chuvas pesadas, trovões e fortes relâmpagos riscando de um lado para outro, os olhos assustados assistindo o espetáculo tenebroso. A tinta na caneta do poeta não consegue cultivar esperança em cada linha de tempestade, quisera ser como o jardineiro poeta, sempre alegre, calmo.
Segue o ônibus seu percurso triste até o jardim.
"Deslumbrante"...
Essa é a palavra que o jardineiro conseguiu encontrar para descrever a flor de cravo, assim que a viu, nessa agradável manhã sabatina, neste final de junho, o jardim está enfeitado para festa típica, músicas e doces deliciosos. A flor de cravo desfilando sua beleza magnífica e estonteante, o coração do jardineiro batendo descompassado no peito, o amor a queimar-lhe o seio, tal visão o deixou desconcertado, arrebatado.
Quisera ele beijar-lhe os lábios carnudos vermelhos intensos, sentir em seus braços os abraços a ferver o sangue, certamente que é o amor o enlouquecendo. A flor de cravo parece provocar, desfilando diante de moribundos olhos toda sua majestade de uma verdadeira deusa do Olimpo, tal como Afrodite.

